Ciência em Comum

Ciência em comum
Nelson Pretto, professor da Faculdade de Educação da UFBA. nelson@pretto.pro.br

O título acima é o do novo livro de Antonio Lafuente, lançado neste 12 de junho em uma das mais impressionantes feiras que já conheci: a Feira do Livro de Madri. Realizada no belíssimo Parque do Retiro, no centro da capital espanhola, a feira reúne 366 estandes distribuídos pelas alamedas do parque. Pesquisador emérito do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC/Madrid), Lafuente destaca, nessa obra, a importância de saberes que não se limitam aos científicos e enaltece o papel de amadores, ativistas, militantes e hackers na construção de experiências fundamentais para compreender o funcionamento do mundo.
O livro faz um percurso histórico para mostrar que, apesar da importância da ciência e de seus métodos, esses ativistas do conhecimento tiveram — e continuam tendo — papel decisivo no próprio avanço científico. Isso ocorre mesmo diante de certa arrogância dos expertos, os cientistas, em relação aos conhecimentos produzidos pela experiência vivida de diferentes povos e coletivos.
Lafuente propõe pensar uma ciência feita “entre todos”. Em suas palavras, a “ciência pode ser pública por decreto”; para fazê-la “em comum”, contudo, é preciso ir além. “Se o público se caracteriza por ser para todos, o comum é entre todos. E, precisamente por ser entre todos, pode modificar-se com a chegada de novos atores que incorporem distintas perspectivas e queiram participar da construção do objeto.” O comum, insiste ele, “é um conhecimento enraizado em um território, em um corpo ou em uma circunstância, e implica converter a especificidade do momento, do lugar ou do observador em parte da solução”.
A obra constitui, assim, uma verdadeira ode aos trabalhos de muitos que, frequentemente desdenhados pelos cientistas — e também pela sociedade —, construíram ao longo dos séculos um conhecimento tácito fundamental para o desenvolvimento da ciência. São pessoas e coletivos que atuam em defesa do bem comum, movidos por solidariedade, insubmissão, cuidado e compromisso com a vida.
Sem esses públicos, sempre necessários e talvez hoje mais do que nunca, “acabaremos naturalizando o imaginário de que a ciência é apenas para os iniciados, para os ricos e para os poderosos”. E mais: acabaremos associando ciência à financeirização dos recursos, às guerras de patentes, ao domínio tecnológico e à expansão neoliberal.
Que alguma editora brasileira se interesse pela tradução desse importante livro, que apresenta experiências de cidadãos e cidadãs implicados com seus problemas coletivos. Experiências que convocam cientistas a trabalhar a serviço do bem comum, e não de uma ciência capturada pelo neoliberalismo e por lógicas produtivistas, tantas vezes distantes dos reais problemas da sociedade.

Artigo de Nelson Pretto, em A Tarde de 09/06/2026, pagina 03.

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Leia o Índice e a Introdução do livro, disponibilizado pelo autor. Clique aqui.

NelsonPretto

Professor (e ativista) da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

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