O saber não nos pertence.
Nossos projetos de ensino, pesquisa e de extensão na UFBA quase sempre nos trazem alegrias que são até difíceis de narrar para quem está fora do nosso cotidiano universitário. Algumas dessas atividades são mais fáceis de comunicar, até porque não permitimos que fiquem restritas a nós. Colocamo-las logo na roda, saímos por aí espalhando as atividades e as vozes daqueles e daquelas que estiveram conosco em diferentes momentos do percurso.
Um desses projetos que coordeno — e que me proporciona uma alegria enorme — é o que realizamos junto a alunas do curso de Pedagogia, em busca do resgate da Memória da Educação na Bahia. A partir de atividades em sala de aula, desenvolvidas desde 2010, estudamos professoras e professores que tiveram trajetórias marcantes em nossa cidade e fora dela. Com base nesses estudos, gravamos depoimentos longos, que ficam disponibilizados no site do projeto: http://memoriaeducacaobahia.ufba.br.
São depoimentos vivos e marcantes para nós, pois nos permitem acompanhar em detalhes a vida desses personagens, sempre rica em experiências que fizeram a diferença na educação em seus tempos.
Em 2012, entrevistamos uma professora, líder espiritual e mãe de santo que nos impactou para sempre: Makota Valdina.
Entre tantas preciosidades de sua fala, ela nos descreveu como se dava a educação da população preta nesta cidade quando quase não havia acesso a nada. Escreviam onde podiam, trabalhavam com as músicas dos blocos, pois eram os materiais que tinham e que mais aproximavam essa população dos processos formativos. Mas o depoimento de Makota Valdina sempre foi muito além disso. Ela nos ensina sobre a vida, sobre o significado da existência e sobre a necessidade da solidariedade para que nossas ações alcancem seus objetivos. Em um de seus momentos mais belos, ela nos fala sobre o conhecimento e, principalmente, sobre o saber: “O saber não nos pertence. O que a gente passa a saber e a conhecer, a gente tem que se esvaziar para se encher e tornar a se esvaziar. Porque se a gente ficar cheio, não cabe mais nada. Então, a gente tem que passar adiante para se encher de novo. Eu penso assim, e esse ditado: o saber morre com o seu dono… Saber que morre com o dono não é saber! O saber a gente tem que deixar aqui em cima para alguém pegar esse saber, aumentar esse saber e levar mais adiante. Porque quando a gente vem [ao mundo, a gente] não sabe nada. Alguém passa para a gente, porque é que vai morrer na gente, se esgotar na gente?”
Sabedoria ancestral, uma verdadeira aula de vida. Uma reflexão sempre necessária e, em especial, nesses momentos de final de ano, quando fazemos tantos planos de mudanças em nossos comportamentos e, não raro, pouco realizamos assim que o novo ano se inicia.
por Nelson Pretto, professor da Faculdade de Educação da UFBA, nelson@pretto.pro.br
Assista o clip do projeto com essa fala de Makota Valdina AQUI.