Uma comunidade global envolvendo mais de 30 países clama pelo acesso livre ao hardware científico

Postagem no blog do interessante projeto do professor Rafael Pezzi (UFRGS/Instituto de Física) Centro de Tecnologia Acadêmica (CTA) apresenta um belo material sobre o movimento em torno do hardware científico aberto. Temos insistido aqui em nosso grupo de pesquisa sobre a importância do debate e de pesquisas em torno de todas as questões ligados ao aberto e ao livre. Essa, certamente, é mais uma importante frente.

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Veja como começa a publicação deles:

“Mais de 100 cientistas, engenheiros, educadores, empreendedores e agentes comunitários de 30 países publicaram um relatório que descreve os passos necessários para facilitar o acesso ao hardware utilizado para fins científicos até 2025 com base em design aberto, desenvolvimento colaborativo e novas técnicas de fabricação.

O grupo, que se reuniu no CERN, em Genebra, e na Pontifícia Universidade Católica do Chile, em Santiago em 2017, argumenta que muito poucas pessoas tem acesso às ferramentas necessárias para a prática científica, particularmente os pesquisadores em países em desenvolvimento e grupos comunitários que necessitam coletar e analisar dados sobre o seu ambiente. De microscópios à microfluidos e estações de monitoramento de água, eles fazem parte de um movimento crescente de compartilhamento online de projetos abertos os quais qualquer pessoa pode livremente utilizar, modificar e até mesmo comercializar. O grupo responsável por este documento sugere que este enfoque pode reduzir drasticamente os custos de pesquisa ao permitir maior colaboração e formas de aprender de novas maneiras. “Nosso projeto,” afirma um dos autores Dr Luis Felipe R. Murillo do Instituto Ciência, Inovação e Sociedade da França, “é sustentado pelo objetivo compartilhado de criar conhecimento comum através da participação pública direta em ciência e tecnologia. Não se trata de uma crítica apartada, mas de uma forma de engajamento prático”.”

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Artigo de Nelson Pretto sobre neutralidade da rede

Internet não é TV por assinatura

Em recente medida já esperada por conta das mudanças políticas levadas à frente pelo governo de Donald Trump na direção de radicais transformações nos direitos da sociedade americana, a Federal Communication Commission (FCC), dirigida por Ajit Pai, decretou o fim da neutralidade da internet nos Estados Unidos. Essa é uma decisão que revoga uma anterior, de 2015, do governo Barack Obama.

Medida legislada para lá poderá ter efeito desastroso em todo o mundo, inclusive aqui no Brasil.

A neutralidade da rede é um dos pilares básicos da internet, desde o seu nascimento. Com ela, não importa o que está passando pela conexão contratada pelo usuário, tudo deve ser tratado com isonomia.

Se em uma casa contrata-se uma conexão de velocidade 10 Mbps por um valor X, com essa conexão a essa velocidade, qualquer usuário que tenha um contrato semelhante, mas com a operadora Y, deverá poder ver filmes, ouvir música, baixar ou publicar vídeos, música ou textos com igual conforto. Isso porque, nem a operadora X, nem a operadora Y, “filtram” o que você está trafegando. Podemos dizer, tecnicamente, que todos os bits são tratados de forma igualitária. É isso que se denomina de neutralidade da rede.

Pois o que se acabou de decretar nos Estados Unidos é a possibilidade dessa filtragem. Assim, lá serão possíveis acordos comerciais entre distribuidores de conteúdo e provedores de internet. Com isso, por exemplo, um acordo da operadora X com um fornecedor de filmes fará com que os clientes dessa operadora assistam filmes com maior fluidez do que aqueles que são clientes de outra operadora que não fez acordo comercial com a tal distribuidora de filmes. Teríamos, assim, algo muito semelhante ao modelo da televisão por assinatura, no qual o consumidor tem que pagar, cada vez mais, em função da ampliação daquilo que ele quer assistir. Obviamente o prejuízo para os pequenos provedores e para os consumidores de menor poder aquisitivo será enorme.

Ou seja, aquilo que sempre foi a marca da internet, o seu potencial democrático de possibilitar uma comunicação todos-todos mais ampla, passa a ser reduzido à capacidade de pagamento do cidadão e aos interesses das grandes operadoras em função dos seus acordos comerciais com outras empresas de redes sociais ou de conteúdo, como Netflix, YouTube, Facebook, Whatsapp e outros. Ou seja, com o fim da neutralidade, as Telecoms “cobrarão” por conteúdo sem serem produtoras desse conteúdo.

Complementarmente, elas passam a se constituir em verdadeiros “pedágios” para a inovação uma vez que qualquer recém-nascida startup precisará pagar para chegar aos usuários da mesma forma que chegará, por exemplo, gigantes como Facebook ou YouTube. Ou então, precisará esperar que os usuários paguem a mais à operadora para acessar o seu serviço. A concorrência entre serviços similares não se dará mais no navegador do usuário, mas acontecerá em contratos entre provedores de conteúdo e Telecoms.

As operadoras de telecomunicações aqui no Brasil (que são praticamente as mesmas no mundo todo) ao longo dos anos vêm fazendo enorme pressão, desde a verdadeira batalha que foi a tramitação do Marco Civil da Internet, para que fosse permitida a quebra da neutralidade da rede sob o argumento que tecnicamente seria possível, com bom senso, não prejudicar o consumidor de menor poder aquisitivo. Óbvio que não podemos acreditar nisso, mesmo porque não se pode construir um país com crenças e sim com marcos legais que fortaleçam a cidadania e a democracia.

O lobby das operadoras foi grande no Congresso Nacional naquele período, inclusive bloqueando a pauta da Câmara dos Deputados por quase seis meses, quando, finalmente, em abril de 2014, foi aprovado e sancionado Marco Civil da Internet, com impedimento claro à quebra de neutralidade da rede.

Esse lobby continua atuando fortemente, tendo ganhado força após o golpe parlamentar que levou ao Planalto o presidente Temer, agora com as tentativas de mudança na composição e funcionamento do Comitê Gestor da Internet (CGI) e intensa atuação das operadoras para a célere tramitação do PL 79/2016 que trata da reforma da Lei Geral das Telecomunicações (LGT).

Sem dúvida, mais batalhas pela frente. A SBPC junto com as suas mais de 140 sociedades científicas filiadas precisam estar atentas e atuantes para não permitir mais uma golpe nos direitos dos cidadãos.

Publicado originalmente no Jornal da Ciência da SBPC.

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Xô obscurantismo! – artigo de Nelson Pretto

Xô obscurantismo
 
Estive recentemente em Curitiba, capital do Paraná e da Lava Jato. Visitei o belíssimo MON – Museu Oscar Niemeyer. Estava interessado na mostra das obras apreendidas pela Operação, as quais deveriam estar lá, mas a sala estava fechada para manutenção, diziam os monitores.
Toda vez que visito esses espaços, fico a me perguntar por que não conseguimos atrair museus de grande porte para Salvador, que tem na cultura sua amálgama mais forte. Temos somente o MAM e Palacete das Artes, e nada mais de grandioso.
Em Belo Horizonte, encontramos o Museu de Arte da Pampulha; no Rio, os Centros Culturais BB e CEF; em São Paulo, o MASP, Tomie Ohtake e outros; em Porto Alegre, o belo Iberê Camargo, do arquiteto português Álvaro Siza Vieira, o MARGS e Santander Cultural. Neste último, nos deparamos recentemente com a covarde atitude do banco espanhol, que suspendeu a exposição “Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira”, em cartaz há quase um mês. Isso por conta de provocações lideradas pelo conservador Movimento Brasil Livre (MBL), que destilou seu ódio e intolerância nas redes sociais, alegando atentado à família, estímulo à pedofilia e zoofilia, entre outros argumentos. A exposição buscava mostrar como, através da arte, podemos ver e viver a diversidade da complexa sexualidade humana, nada mais necessário para o momento contemporâneo.
Ora, arte comportada, nem pensar! A função da arte é incomodar, isso sim! É provocar, e fazer-nos pensar sobre os nossos valores mais profundos. Há muito digo isso sobre a nobre função da educação: ela tem que incomodar e não acomodar!
Vivemos tempos obscurantistas. Não podemos baixar a guarda.
É obvio que nem todos precisam admirar obras de arte. Mas, se não gostam, que não vão à exposição. Simples assim. Agora, impedir que se aprecie essas obras chega a ser ridículo. Infelizmente, é isso que vivemos no país, trilhando caminhos perigosos da intolerância e censura.
Não podemos deixar de bradar, cotidianamente e em todos os espaços, por liberdade para a arte, para a educação, para o Brasil.
Artigo em A tarde de 19/09/2017
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