Artigo de Nelson Pretto: “Eleições: tempo de (voltar a) falar em educação”

Eleições: tempo de (voltar a) falar em educação

Tempo de eleição no país. Período conturbado, é bem verdade. Até o bastião da economia liberal, a revista The Economist, prenuncia tempos sombrios para a democracia na América Latina a partir do crescimento nas pesquisas do candidato que se propõe a resolver tudo à bala. Se na hora do voto não estivermos atentos aos programas e históricos dos candidatos e de seus partidos mais riscos teremos. Sim, falo de partidos e de política.

A política é a arte da negociação e do diálogo. Essa eleição tem sido marcada pela violência verbal e de propostas de alguns candidatos, algumas muito rasas, diga-se de passagem, centradas em mais armamentos e menos tolerância com a diversidade.

A educação tem um papel fundamental na formação das juventudes para o exercício do diálogo, portanto, e em última instância, para a política. No entanto, mesmo a educação estando sempre na boca dos candidatos, estamos longe de uma revolução na área. E ela se faz necessária, e não será num curto prazo, mas precisa ser iniciada urgentemente.

Nossos jovens se desencantaram pela escola.

São muitos os possíveis caminhos, que não passam por planos mirabolantes, que impõem de cima projetos para serem aplicados nas escolas, aliados, hoje, com a forte pressão e influência das chamadas soluções de mercado. Educação não é mercadoria e não pode ser tratada como linha de produção, centrada em perfomances, produtividades, qualidades totais e outros que tais.

Precisamos de propostas que considerem os professores como fazedores do seu próprio tempo, fortalecedores dos movimentos que já acontecem no chão da escola, e não meros executores em uma linha de montagem.

O foco no professor inclui formação, condições de trabalho e, óbvio, melhor remuneração para que, com isso, possa a profissão ser atrativa. Metade dos Estados brasileiros nem mesmo respeita a lei que define o piso salarial de míseros R$2.455,35 para 40h/semana.

Focar as políticas na dimensão pública do sistema é condição básica para termos uma escola fortalecida, com professores poderosos, com a necessária liberdade acadêmica que lhe possibilitem contribuir para a formação política e científica de nossa juventude.

Uma educação que amplie o espectro formativo, a partir dos desejos e mobilizações das juventudes, e não centrada em pacotes instrucionais com foco nos testes em grande escala, em objetivos comportamentais, que buscam, em última instância, apenas comparar rendimentos, de alunos, escolas, municípios, estados e países.

Precisamos de planos de governo que fortaleçam a dimensão política da educação e não que busquem esvaziá-la de sua fundamental função que é o fortalecimento do diálogo com o diferente, com as diferenças.

Estão os candidatos preparados para fortalecer ideias como essas?

 

Nelson Pretto, professor da Faculdade de Educação da UFBA. Conselheiro da Sociedade Brasileira ara o Progresso da Ciência (SBPC). nelson@pretto.pro.br

 

Publicado em A Tarde de 03/10/2018, pag. 03

 

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Artigo de Nelson Pretto no Correio*: Em defesa da Educação e Ciência brasileira

Em defesa da Educação e Ciência brasileira

Nelson Pretto, professor da Faculdade de Educação da UFBA e Conselheiro da SBPC. nelson@pretto.pro.br

O censo recentemente divulgado pelo INEP demonstrou o crescimento do ensino superior no país e, mais do que tudo, que essa expansão ocorreu, essencialmente, pelo aumento, entre 2006 a 2016, das universidades públicas: passamos de 92 para 108. Acrescente-se a isso, o crescimento do Institutos Federais de Educação Superior, que eram 33 em 2006 e passaram para 40 em 2016, todos com campi espalhados pelo interior dos seus Estados.
Um olhar amiúde para outros dados nos permitem ver o crescimento das universidades federais: em 2002 eram 45, com seus 148 campi, e hoje, são 63, com 321 campi. Na Bahia, como tenho insistido, temos hoje 12 instituições de ensino superior públicas, e não custa nominá-las: UFBA, UFRB, UNIVASF, UFOB, UFSBA e UNILA (Campus dos Malês/São Fco do Conde), as Federais; UNEB, UESB, UESC e UEFS, Estaduais, e mais o IFBA e o IFBaiano, com um sem número de campi tomando praticamente todo o território baiano.
Fica claro, com esses dados, que a democratização do ensino superior está acontecendo por conta de corretas políticas públicas que propiciaram a expansão do sistema público de ensino superior.
Essas instituições têm formado profissionais em todas as áreas e realizado pesquisas de ponta, juntamente com os centros de pesquisas instalados aqui na Bahia, a exemplo da Fiocruz.
No entanto, estamos vendo cotidianamente na grande mídia e nas palavras dos candidatos, um verdadeiro ataque às universidades públicas, intensificado após o triste acontecimento do incêndio do Museu Nacional, administrado pela UFRJ.
Antes disso, um relatório do Banco Mundial foi amplamente divulgado (“Um Ajuste Justo – Análise da Eficiência e Equidade do Gasto Público no Brasil”) e buscou desqualificar o nossos sistema público de educação superior, o que foi analisado em detalhes e duramente criticado pelos colegas professores da UFBA Luiz Filgueiras, Uallace Moreira e Graça Druck.
A tônica dos ataques é sempre a ineficiência das instituições e a necessidade de cobrança de mensalidades dos alunos.
Esse não é um movimento novo. Desde que na UFBA entrei como professor, em 1978, temos lutado em defesa na educação pública em todos os níveis, e a nossa SBPC vem, desde a sua criação em 1946, manifestando-se de forma contundente em defesa de mais investimentos em educação, ciência e tecnologia em nosso país.
Recentemente produzimos uma Carta de Compromissos em Defesa da C,T e I convidando os candidatos que tenham maior sensibilidade e visão sobre o significado estratégico para o país do desenvolvimento educacional e científico a assinarem a referida carta. O mesmo foi feito com os candidatos à Presidência da República, independente de partidos.
Tudo porque, para nós, um país só será livre e com justiça social se, de fato, tiver um consolidado e amplo sistema de educação, ciência e tecnologia.

Publicado no Correio* de 02/10/2018, pag. 02

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Materiais Didáticos em tempos de Cultura Digital

As demandas da educação estão em contínua transformação. Não apenas desde a época em que você frequentou a escola, mas especialmente neste período em que nossas crianças e adolescentes tem vivenciado a escolarização.

O fenômeno que observamos nos cotidianos escolares não é específico destes espaços. O quadro negro, os livros didáticos, apostilas, já não chamam mais a atenção. A hiperconexão, a ubiqüidade e as práticas colaborativas oportunizaram novos horizontes para as iniciativas de fomento à aprendizagem e para a atividade docente.

Falando em aprendizagem, podemos constatar que, tanto na escola quanto em casa, os guias de ensino sempre foram os recursos preferenciais para compor a mediação deste processo junto aos estudantes. A expectativa posta sobre os chamados livros didáticos sempre esteve relacionada à orientação dos conteúdos curriculares que se espera oferecer aos alunos. Para os professores, em muitos casos, eles serviram como referência para o seu próprio planejamento didático – ajustavam o que se queria/precisava ensinar ao que estava disponível previamente no livro, definido pelos autores, editoras e pelas instituições de controle e normatização da educação.

No entanto, sempre houve professores que não se sentiam contemplados pelo que era oferecido pelos livros didáticos. A emergência da cibercultura, enquanto movimento de exploração e incremento dos potenciais da internet e das redes de pessoas desenvolvidas no seu entorno, fomenta entre estes professores possibilidades outras de organização da experiência pedagógica para além do uso de livros que sistematizam os conteúdos curriculares através de incursões textuais e exercícios. É preciso introduzir novos atrativos na sala de aula para os alunos.

Se antes a grande maioria dos materiais didáticos – sendo o livro didático seu representante mais peculiar, eram produzidos em espaços longínquos, distantes da sala de aula, idealizando um modelo de aluno e condições pedagógicas que não se confirmavam na prática, atualmente professores e estudantes podem utilizar-se das potencialidades da cibercultura para construir coletiva e colaborativamente seus próprios objetos discretos de aprendizagem ou recursos educacionais.

O movimento global pela promoção dos Recursos Educacionais Abertos (REA) é um exemplo de que este modelo de produção em que a autonomia, as práticas recombinantes e o compartilhamento de conteúdo a partir de licenças criativas abertas, tem força para se constituir numa alternativa aos mercados que se estabeleceram face a demanda por materiais que subsidiassem experiências de aprendizagem no âmbito escolar.

No Brasil, precisamos de mais incentivos para que estas práticas de abertura possam ser disseminadas e consolidadas. Várias iniciativas estão em curso fomentadas pelas universidades e organizações da sociedade civil, ainda assim carecem de maior apoio governamental. Tal demanda é urgente, e precisa ser tratada com agilidade para não perdermos as janelas de aprendizagem das nossas curiosas e criativas crianças em idade escolar.

 

Anderson Rios | anderson_gandhy@hotmail.com

Doutorando em Educação/UFBA

Professor/ Analista Cultural

 

Daniel Pinheiro | danielsp@ufba.br

Doutorando em Educação/ UFBA

Professor

 

Jornal A Tarde, 13/08/2018, pag. A2

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