Cuide bem de sua memória

Futuco coisas daqui e dali para tentar localizar documentos e imagens que me ajudem a [re]construir e analisar um pouco do passado recente porque ando trabalhando na finalização de um novo livro. Com um título que deve ser Uma dobra no tempo, o livro é fruto do memorial que apresentei em dezembro passado para minha progressão a professor titular da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Tenho uma verdadeira obsessão por memória e estou resgatando interessantes materiais para essa nova produção.

Pois, justo semana passada, leio na BBC um alerta feito por Vint Cerf, conhecido como o pai da internet, sobre a possibilidade de um futuro sombrio para a chamada era digital, por conta da impossibilidade de muitos equipamentos lerem os arquivos de imagens, sons, vídeos e textos hoje produzidos.

Em 21 de junho de 2006, já escrevia no jornal A Tarde, de Salvador, o artigo Memória Perdida, onde alertava sobre o crescente uso das máquinas digitais para as fotografias pessoais e as dificuldades que poderíamos ter no armazenamento dessas fotos, o que poderia se “configurar um grande vazio imagético para o nosso início de milênio.”

Não estava sendo profético, estava só alertando para o mesmo que Vicent Cerf, hoje uma autoridade na empresa Google, traz à tona. Tudo porque, se não estivermos atentos, poderemos ter, num futuro até breve, imagens e documentos que não serão mais lidos pelos equipamentos disponíveis na época. Já vivemos isso com muitos dos nossos materiais e, justo por isso, nossa verdadeira batalha em defesa dos softwares e hardwares livres e dos formatos abertos. Precisamos fortalecer a formação da nossa juventude com esse espírito de liberdade que está associado a todos esses movimentos e essa é uma tarefa urgente da escola.

A educação, em todos os níveis, deveria ter a adoção dos formatos abertos e da preservação de sua memória como um princípio básico visando garantir para o futuro a possibilidade de se conhecer e analisar nosso rico percurso histórico.

Precisamos atuar de forma mais intensa nessa perspectiva em oposição à formação para o consumo, centrada na obsolescência e na não preservação, seja dos objetos/equipamentos, seja da nossa história e, com isso, volto ao tema das minhas próprias memórias.

Tento resgatar um importante evento do qual participei na década de 80 do século passado que foi o I Encontro Brasileiro de Educação e Televisão, promovido pelo Inep em conjunto com a Fundação Brasileira de TV Educativa, a Funtevê da época, hoje a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC). O Encontro, realizado no Hotel Nacional, em Brasília, em junho de 1987, foi todo gravado pela TVE (Funtevê).

Lembro como se fosse hoje que a programação foi sensacional e tivemos depoimentos absolutamente geniais sobre a história da televisão brasileira e a sua relação com a educação. Há mais de dois anos que provoco pessoas conhecidas na EBC para a localização dessas importantes fitas. Até hoje esse material não foi encontrado e pouca esperança tenho de que o venha. Nestes últimos dias recebo do gerente de Documentação e Pesquisa da EBC um e-mail com informações estarrecedoras sobre a situação desse rico acervo, que tem imagens do Brasil e dos brasileiros de, pelo menos, os últimos 50 anos. Segundo afirma Bruno Rasga, são cerca de 150 mil fitas no antigo formato betacam; portanto, com uma enorme dificuldade de serem preservadas, pois são poucos os equipamentos disponíveis que ainda leem esse antigo formato. Já existe um projeto para digitalização desse material e, segundo ele, foi incluído no planejamento estratégico da empresa para 2015 mas, em períodos de vacas magras, ficamos todos apreensivos se, de fato, alguma coisa será feita para essa preservação.

A situação me parece dramática, pois, com o passar do tempo e a proposital obsolescência tecnológica andando a passos largos, corremos o risco de não termos as importantes imagens de nosso passado recente preservadas e, com isso, perdemos todos, pois não se constrói uma pátria educadora se nossa memória vira lixo.

Nelson Pretto é Professor titular da Faculdade de Educação da UFBA e Secretário regional da SBPC-Bahia.

Artigo publicado no portal A Rede, em 17 de março de 2015: http://www.arede.inf.br/cuide-bem-de-sua-memoria

Replicado no Jornal da Ciência: aqui.

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