29/03 CARYBÉ

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Carybé – Dados biográficos

(Texto editado a partir do verbete “Carybé” do Dicionário Manuel Querino de Arte na Bahia, escrito por Dilson Midlej)

Carybé (Hector Julio Páride Bernabó) nasceu em Lanús, província de Buenos Aires, Argentina, em 7 de fevereiro de 1911, filho do italiano Enea Bernabó e da gaúcha Constantina cuja família provinha tanto da cidade brasileira de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, quanto de Posadas, às margens do Rio Paraná, fronteira da Argentina com o Brasil. Casaram-se em Posadas e tiveram cinco filhos: Arnaldo, nascido no Brasil (e que chegou a ter um atelier de cerâmica, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro), Zora e Delia, nascidas no Paraguai, Roberto e Hector, nascidos na Argentina.
Naquele mesmo ano de 1911 a família muda-se para Gênova, na Itália, e três anos depois para Roma. Em 1919, preocupada com a recessão pós Primeira Guerra Mundial de 1914, a família retorna à América do Sul e se estabelece no Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro, aos oito anos de idade e escoteiro do Clube de Regatas do Flamengo, Hector integrava uma tropa cujos membros eram identificados por apelidos de nomes de peixes e Hector, então, escolhe ser chamado de Carybé, um pequeno peixe amazônico. Aquele apelido passaria a ser sua assinatura artística.
Em 1928, aos 17 anos, ingressa na Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro. O irmão Roberto consegue contratos para realizar as decorações carnavalescas dos hotéis Gloria e Copacabana Palace. Os três irmãos trabalham naqueles projetos e o dinheiro ganho favorece a decisão do pai em retornar para a Argentina e lá, em 1938, os irmãos Bernabó são contratados pelo jornal El pregón. Dado a esse vínculo profissional, Carybé viaja a outros países e de cada cidade visitada mandava desenhos e uma breve reportagem sobre suas impressões dos locais, o que possibilitou a ida a Montevidéu, Paranaguá, Santos, Rio de Janeiro, às cidades históricas de Minas Gerais, Vitória e, por fim, Salvador. Excetuando os dois anos em que cursou a Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, o restante da formação artística de Carybé se deve, desde cedo, ao convívio e à prática de desenho, pintura e queima de cerâmica orientada pelos irmãos. O artista, mais tarde, atribui a seu irmão Roberto quase tudo o que sabia. Quando retorna com a família para Buenos Aires, a Escola de Belas Artes de lá não aceita a transferência do seu curso do Brasil e ele, então, se matricula em um curso de arte noturno, o qual abandona pouco tempo depois.
A estadia em Salvador como emissário de El pregón se conclui com a notícia recebida que o jornal tinha falido. Carybé passou seis meses na Bahia desenvolvendo trabalhos diversos e retorna a Buenos Aires, onde realiza sua primeira exposição em 1939, no Museu Municipal de Belas Artes, juntamente com o desenhista suíço radicado em Buenos Aires, Clement Moreau.
Retorna à Bahia pela segunda vez em 1941, em viagem de caminhão de Juazeiro para Salvador, e segue com o amigo Mauricio Costa para o Nordeste e Norte do país. Em 1944 realiza sua terceira viagem à Bahia, ocasião na qual aprende capoeira com mestre Bimba, frequenta candomblés (notadamente o de Joãozinho da Goméia), desenha e pinta e se deixa enfeitiçar pelos encantos da pitoresca cidade. No ano seguinte realiza sua quarta exposição individual e a primeira no Brasil, no Instituto de Arquitetos do Brasil, no Rio de Janeiro. Em 1946 casa-se com Nancy, na Argentina, e passam a lua-de-mel no Rio de Janeiro. E, por fim, é em dezembro de 1949, após o natal, que Carybé e a esposa deixam a Argentina e vêm morar no Brasil. “Quando Carybé veio para Salvador, já tinha atingido a estatura de um grande artista”, escreveu José Valladares em 1958, no catálogo da exposição do artista na Bodley Gallery, em Nova York. Carybé aporta em Salvador em primeiro de janeiro de 1950, dia festivo em que ocorre a procissão marítima do Senhor Bom Jesus dos Navegantes.
É deste mesmo ano de 1950 a primeira individual do artista na Bahia, no Bar Anjo Azul, famoso espaço inaugurado no ano anterior pelo antiquário José de Souza Pedreira e decorado com afrescos de Carlos Bastos.
Carybé pertence à primeira geração modernista da Bahia, representada em um primeiro momento por Mario Cravo Júnior, Genaro de Carvalho e Carlos Bastos, e à qual se juntaram em seguida Carybé, Rubem Valentim, Lygia Sampaio e Jenner Augusto, dentre outros.
Carybé foi um artista que exercitou magistralmente diversas técnicas, assomou seu talento e seu desenho ágil aos esforços renovadores da primeira geração moderna da Bahia, incluindo a realização de inúmeros murais e ilustrações para livros.
Carybé teve dois filhos: Ramiro Bernabó, nascido em Buenos Aires em 1947 e que mais tarde tornar-se-ia escultor, e Solange, nascida em 1953, mesmo ano em que executa os murais em esgrafito sobre reboco fresco no antigo Cine Guarani (hoje Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha). Neste mural retrata índios guaranis estilizados caçando e guerreando e, com esta obra, inicia uma profícua e constante produção de grandes dimensões físicas e em técnicas variadas, em espaços públicos e privados ao longo da década de 1960, dentre as quais podem ser citadas: o mural em concreto da fachada lateral do Edifício Desembargador Bráulio Xavier, na Praça Castro Alves, em Salvador; o mural em concreto para a fábrica da Willys, em Recife, Pernambuco; o mural em óleo sobre madeira para o Banerj, no Rio de Janeiro; o mural em concreto para o Bradesco, na rua Chile, em Salvador; e as 27 fabulosas pranchas em madeira para o Banco da Bahia, intituladas Os orixás, remanejadas para o Museu Afro-Brasileiro da Ufba, no Terreiro de Jesus, em Salvador, após a extinção do banco.
Carybé afirmou em 1973 ao jornal paulistano Última Hora que gostava de ouvir a opinião dos outros, acatava as sugestões de carpinteiros, ferreiros ou pedreiros com os quais trabalhava e sabia quando um mural estava indo bem quando o servente de pedreiro lhe fazia alguma pergunta sobre a obra. Segundo Jenner Augusto, Carybé “sonhava com um movimento muralista semelhante ao do México” e o próprio artista declarou ainda em 1973 ao jornal Última Hora: “Sou mais muralista que pintor, preferindo fazer as coisas que sejam para todo mundo, que um quadro que fique numa sala compondo ambiente” e caracterizava-se “Sou um operário do pincel e trabalho uma média de quatorze horas por dia”.
Em 1955 ganha o Primeiro Prêmio Nacional de Desenho na 3ª Bienal de São Paulo. A Bienal o homenagearia com Sala Especial na sua sexta edição, em 1961.
Naturaliza-se brasileiro aos 46 anos, em 1957 e, neste mesmo ano, é confirmado Obá de Xangó do Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá.
Os elementos principais na obra de Carybé são o movimento e o ritmo. Variava pintando no cavalete durante um ano, revezando depois com a xilogravura, daí passando para o mosaico e assim deu continuidade à sua produção, conforme noticiado em O Globo, em 16 de junho de 1971. Sua pintura se ocupava do povo, “povo” entendido não como miserável, mas como dono tanto do espaço nos quadros como do chão onde pisam, arte à qual o crítico baiano Wilson Rocha destaca que “[...] o povo se encontra e se reconhece nela”.
A obra literária de Jorge Amado (1912-2001) incentivou muitos dos seus leitores a visitar a Bahia e, dentre estes, estava Carybé. Quando Carybé veio a primeira vez à Bahia, em 1938, já havia lido Jubiabá “e não acreditava que a cidade fosse assim. Acontece que, para minha surpresa, era como Jorge Amado descrevia”. Segundo a viúva do artista, Nancy Bernabó, foi neste mesmo ano que ele conheceu o escritor com quem manteria estreito vínculo de amizade e, adicional a isso, ilustrou vários livros de Jorge Amado ou edições especiais com tiragens limitadas, a exemplo do álbum Das visitações na Bahia, de 1974, para o qual Carybé criou sete xilogravuras.
Os 70 anos de idade do artista foram comemorados no dia oito de maio de 1981 por cerca de 15 mil pessoas que comparecem ao Largo do Pelourinho.
Carybé falece em Salvador, em primeiro de outubro de 1997, deixando um significativo acervo de obras que ilustram os valores artísticos modernistas e as culturas popular e religiosa baianas.

Fonte: http://www.dicionario.belasartes.ufba.br/wp/verbete/carybe/

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SALVADOR 467 ANOS

CARYBÉ – Panorâmica de Salvador, 1950. Têmpera sobre parede, 2 x 6 m. Escola Classe II, bairro de Pero Vaz, Salvador

Fonte: Dicionário Manuel Querino de Arte na Bahia (http://www.dicionario.belasartes.ufba.br/wp/?verbete=carybe&letra&key=carybé&onde=tudo

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Em 2014, jornal Correio publicou coleção As Sete Portas da Bahia.

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Ancelmo Gois e Vera Barroso apresentam o programa De Lá Pra Cá, da TV Brasil, que homenageou Carybé em abril de 2011, ano de seu centenário. Com entrevistas de Emanoel Araújo, Anna Paola Baptista, Sylvia Athayde, Lan e imagens de arquivo do próprio Carybé. Confira uma matéria do CORREIO sobre a relação entre Mario Cravo e Carybé: http://www.correio24horas.com.br/detalhe/noticia/carybe-e-mario-cravo-dividiram-amor-pela-arte-e-cultura-baiana/?cHash=b9df56493cc32641254cf2800bb46a42
Quadro Traçando Arte, da TV Rá Tim Bum (TV Cultura-SP) apresenta Carybé para as crianças:https://www.facebook.com/InstitutoCarybe/videos/2770607238281/
Programa De Lá Pra Cá, da TV Brasil, homenageou Carybé em abril de 2011, ano de seu centenário:
https://www.facebook.com/InstitutoCarybe/videos/312546082149668/

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Foto: Gerard L. Fortin.  Fonte: Carybé, 1989.
Disponível em: Dicionário Manuel Querino de Arte da Bahia.
Imagem de fundo: Panorâmica de Salvador (1950).
Fonte: Dicionário Manuel Querino de Arte da Bahia.

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Na foto, Mãe Senhora e Carybé, no Ilê Axé Opô Afonjá.

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Fonte: Dicionário Manuel Querino de Arte da Bahia.

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Fonte: www.carybe.com.br

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Carybé na poesia de Vinícius de Moraes!

“É argentino, é brasileiro
É quichua, é asteca, é
Inca, é carioca por bossa
Mas é baiano por fé.

É amigo do mundo inteiro
Menos de quem não dá pé.
Canta cantigas de Cuzco
Da Havana e do Tremembé.

É um sambista milongueiro
Bate um violão de terreiro
E é santo de candomblé.
É um compadre capoeiro
Legal!-berimbau de mestre!

É pintor que pinta porta
Pinta parede, janela
Pinta mar e pinta peixe

Pinta a pesca do xaréu!
(Pintor que pinta Maria
E pinta até Isabel)

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Fonte: www.carybe.com.br

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Painel em concreto de Carybe, para a Willys Nordeste, em Jaboatão (PE).
1ª montadora de automóveis da região nordeste do Brasil (1966)
Foto: Acervo ©Instituto Carybé
Disponivel em: http://www.elfikurten.com.br/2011/02/arte-de-carybe-sua-paixao-pela-bahia.html

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Fonte: www.carybe.com.br

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Carybé trabalhando.
Fotos: Acervo ©Instituto Carybé
Disponíveis em: http://www.elfikurten.com.br/2011/02/arte-de-carybe-sua-paixao-pela-bahia.html

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Carybé trabalhando.
Fotos: Acervo ©Instituto Carybé
Disponíveis em: http://www.elfikurten.com.br/2011/02/arte-de-carybe-sua-paixao-pela-bahia.html

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Carybé trabalhando.
Fotos: Acervo ©Instituto Carybé
Disponíveis em: http://www.elfikurten.com.br/2011/02/arte-de-carybe-sua-paixao-pela-bahia.html

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Carybé trabalhando.
Fotos: Acervo ©Instituto Carybé
Disponíveis em: http://www.elfikurten.com.br/2011/02/arte-de-carybe-sua-paixao-pela-bahia.html

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Jorge Amado, Carybé e Caymmi: todos três Doutores (Honoris Causa) pela UFBA.

Foto: Acervo ©Instituto Carybé
Disponivel em: http://www.elfikurten.com.br/2011/02/arte-de-carybe-sua-paixao-pela-bahia.html 

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