Antonio Adami lança livro sobre a história das rádios de São Paulo

O Rádio com Sotaque Paulista

 

Na última quinta-feira (9), o professor Dr. Antonio Adami promoveu noite de autógrafos para o lançamento do livro “O Rádio com Sotaque Paulista: Pauliceia Radiofônica” na livraria FNAC Pinheiros em São Paulo. O evento contou com a participação do radialista Mario Fanucchi que relembrou divertidas passagens da sua trajetória no meio.

A obra compila o resultado de 11 anos de pesquisa sobre a história das emissoras de rádio na capital e interior do estado de São Paulo dos anos 1920 aos anos 1950, apresentando datas precisas com relatos de fundação das emissoras, seus principais personagens, histórias que marcaram época e programas icônicos.

Com uma metodologia precisa, Adami apresenta um material vasto de entrevistas, fotografias, recuperação de documentos, e ressalta a importância do rádio como grande mediador da cultura brasileira.

Confira as fotos do evento:

 

Sobre a obra:

Título: O Rádio com Sotaque Paulista: Pauliceia Radiofônica
Autor: Antonio Adami
Editora: Mérito
Preço: R$ 45,00
Páginas: 160 páginas
ISBN: 978-85-61758-52-3
Site: www.meritoeditora.com.br

 

Texto e fotos por Bruno Micheletti, colaborador.

Eduardo Vicente conta a história da indústria fonográfica “Da vitrola ao iPod”

A indústria fonográfica exerceu – e continua exercendo – grande influência no desenvolvimento do rádio. Conhecer seu desenvolvimento é imprescindível para estudantes, profissionais e professores que buscam compreender o atual cenário da programação musical das emissoras brasileiras. Sem perder a fluidez de um narrador Eduardo Vicente serve-se do rigor acadêmico para contar esta história na obra “Da vitrola ao iPod – uma história da indústria fonográfica no Brasil”.

Da vitrola ao iPod

Confira a entrevista feita pela equipe do Portal do Rádio com o professor Eduardo Vicente sobre sua trajetória profissional, o lançamento do livro e os desafios da indústria fonográfica.

Portal do Rádio – O livro é fruto da pesquisa realizada em sua tese de doutoramento, o senhor buscou atualizar e ampliar a obra, como foi este processo?

Eduardo Vicente – Eu pensei muito nessa questão da atualização dos dados, mas optei por não fazê-la.  Escrevi minha tese entre 1998 e 2001, procurando oferecer um panorama da história da indústria entre as décadas de 1960 e 1990. Comecei a pesquisa num momento que ainda era extremamente favorável para as gravadoras, mas quando concluí o trabalho a crise já se instalara e estava claro que suas consequências seriam bastante sérias. Por isso, decidi manter a minha impressão daquele momento sobre esse início da crise. Além disso, o cenário posterior já foi discutido por mim em outros textos e também por outros autores do Brasil e do exterior. Enfim, decidi manter a proposta original do trabalho. Por outro lado, eu fiz uma ampla revisão do trabalho, corrigi alguns dados e, principalmente, dediquei-me a adequar a tese ao formato livro, eliminando notas de rodapé, anexos, e alguns outros excessos típicos de trabalhos acadêmicos. Enfim, busquei deixar o texto mais fluído e agradável. Espero ter conseguido.

PR – Qual a principal mudança no cenário desta última década? Ao que o senhor atribui esta mudança?

EV – Minha tese é que a mais importante mudança da indústria na década de 1990 foi a terceirização, com as grandes gravadoras abrindo mão da produção musical e passando a explorar o repertório produzido por gravadoras e artistas independentes. A indústria se valia, por um lado, das tecnologias digitais que baratearam a produção e tornaram possível uma descentralização da produção musical (que antes se concentrava fortemente no eixo Rio-São Paulo). Por outro, ela confiava no seu controle sobre os meios de distribuição dos CDs e de divulgação dessa música no rádio e na TV. Ou seja, ela confiava que os artistas independentes iriam depender da indústria para o seu contato com o público. A mudança que ocorre na década seguinte é, claro, a da quebra desse controle através da distribuição digital da música (MP3) e das possibilidades de divulgação abertas pela internet e pelas redes sociais. Acredito que, na década atual, o grande desafio seja construir novos modelos de negócio que envolvam essas novas formas de consumo musical, tanto por parte dos artistas e selos independentes quanto por parte das grandes gravadoras, que evidentemente não deixaram de existir ou de manter ainda um controle importante sobre os meios de divulgação tradicionais.

PR – O senhor graduou-se primeiro em Administração e depois em Música Popular, o que suscitou esta mudança? Como surgiu o interesse pela música?

EV – Eu sempre tive interesse pela música, o que não existia na época de minha primeira graduação (1980-1984) era um curso de música popular! rs. Naquele momento, a escolha da Administração aconteceu mais pela falta de outras opções do que por meu interesse pela área. Mas acho que essa era uma situação relativamente comum nos anos 1980, especialmente para quem, como eu, precisava estudar à noite. De qualquer modo, essas decisões tornam-se parte da sua história de vida e, quando vc olha para trás, percebe que, de alguma maneira, elas acabaram fazendo sentido.

PR – Como sua experiência na indústria fonográfica o ajudou no desenvolvimento de suas pesquisas?

EV – Um grande amigo me convidou, em 1992, para trabalhar com ele no estúdio musical que acabara de criar em Jundiaí, SP, cidade onde resido. Eu colaborei com o estúdio, com maior ou menor intensidade, entre 1992 e 2000. Atuei como técnico, músico e, algumas vezes, como produtor. Essa experiência foi fundamental na definição do tema e na pesquisa de meu mestrado (em Sociologia), “A Música Popular e as Novas Tecnologias de Produção Musical”, que realizei na Unicamp entre 1994 e 1996. Para o doutorado ela foi menos decisiva, já que minha intenção então foi justamente sair do estúdio e da parte técnica da produção para tentar entender a indústria de um modo mais amplo.

PR – Como o senhor vê a relação entre o desenvolvimento da indústria fonográfica e do rádio no Brasil?

EV – Como extremamente importante e quase completamente ignorada dentro da academia. O rádio e a indústria fonográfica foram, sem dúvida, os dois ramos mais desenvolvidos de nossa indústria de comunicação na primeira metade do século XX. Sua história comum ainda precisa ser escrita e seu impacto sobre a cultura brasileira melhor avaliado. Seu impacto sobre o cinema sonoro, que se valia basicamente de números musicais e dos grandes astros e estrelas do rádio. O papel da Rádio Nacional na valorização da música brasileira, o que provavelmente ajudou a fazer do Brasil atual um dos países com maior índice de consumo de repertório musical doméstico do mundo… Ao mesmo tempo, seria fundamental entender melhor e estabelecer um olhar crítico sobre a concentração econômica que tem tornado o rádio um meio extremamente controlado de divulgação musical, com as principais emissoras do país veiculando um repertório de 30 ou 40 músicas vinculadas a uns poucos gêneros e artistas. Esse é um fator extremamente musical à diversidade musical e à música independente do país.

PR – Para o senhor, quais os desafios da indústria fonográfica na era digital?

EV – As grandes gravadoras não voltarão à grandeza do passado. Elas agora dividem o controle sobre o mundo da música com sites de vendas de MP3, com o Youtube, com serviços de conteúdo musical via celular, etc. Seu grande capital é o repertório que acumularam por décadas e seu grande poder o controle sobre os meios de divulgação tradicionais (rádios, tvs, cinema…), que lhes permitem lançar fenômenos de alcance mundial como Adele, Lady Gaga, Beyoncé, etc. De qualquer modo, fica claro que ainda existe concentração econômica e que ainda existe controle. Não vivemos num admirável mundo novo digital da democracia, da liberdade e da independência. Para os artistas e gravadoras independentes, que são minha principal preocupação, a minha opinião é de que o grande desafio é buscar reconstruir um mercado musical independente. Sei que isso soa polêmico, mas para mim é preocupante que grande parte da nossa música independente dependa atualmente de editais públicos, leis de incentivo e de espaços de exibição como o SESC. Essa perda de autonomia do mercado musical, na minha opinião, coloca o artista numa dependência excessiva do Estado e dificulta a constituição de carreiras de maior duração. No Reino Unido, onde realizei meu pós-doutorado, a situação me parece bem diferente, com os artistas conseguindo mais espaços de divulgação no rádio, na imprensa e na tv, além de obter melhores condições de sustentação de sua atividade através da venda de shows, CDs, DVDs e downloads de música.

Sobre Eduardo Vicente: Eduardo Vicente possui graduação em Música Popular e mestrado em Sociologia pela Unicamp, doutorado em Ciências da Comunicação pela ECA/USP e pós-doutorado pelo Centre for Media and Cultural Research da Birmingham City University (UK). É professor do Departamento de Cinema, Rádio e TV da ECA/USP e do Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais da mesma instituição. Edita a revista Novos Olhares e coordena o MidiaSon: Grupo de Estudos e Produção em Mídia Sonora. É bolsista de Produtividade em Pesquisa PQ 2 (CNPq).

Sobre a obra:

Título: Da vitrola ao iPod – Uma história da indústria fonográfica no Brasil
Autor: Eduardo Vicente
Editora: Alameda
Preço: R$ 42,00
Páginas: 268 páginas – 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-7939-205-4
Atendimento ao consumidor: (11) 3012-2400
Site: www.alamedaeditorial.com.br

por Juliana Gobbi, com informações Alameda Editorial

Luiz Artur Ferraretto lança obra sobre teoria e prática da produção radiofônica

As técnicas e tecnologias evoluíram, mas a era do rádio continua sendo a de cada minuto em que ocorre a transmissão, afirma o autor em seu novo livro Rádio – Teoria e Prática.

Rádio

 

Aliar a teoria e a prática da produção radiofônica em um ambiente de constantes transformações tecnológicas é um dos desafios cotidianos dos profissionais, estudantes e professores que atuam na área. Dos princípios básicos do rádio e sua linguagem às especificidades dos diferentes gêneros e formatos, a obra de Luiz Artur Ferraretto discute e apresenta de forma clara e didática os conceitos e as técnicas das produções jornalísticas, esportivas, de entretenimento e publicitárias. Ainda, o autor evidencia a importância do rádio “no cotidiano e no imaginário de milhões de ouvintes, que têm nele um insubstituível companheiro”.

A equipe do Portal do Rádio conversou com o Ferraretto sobre a obra, o rádio, o ensino e sua trajetória. Confira a entrevista.

Na Introdução da obra o senhor afirma que esta é a terceira versão de uma mesma ideia. Ideia que começou a ser desenvolvida em parceria com a jornalista Elisa Kopplin no livro Técnicas de Redação Radiofônica (1990) e foi ampliada em Rádio – o veículo, a história e a técnica (2000, 2001, 2007). Quando o senhor concluiu que era o momento de fazer esta nova versão?

Sempre tive a ideia de que nenhuma obra é totalmente perene: o autor evolui em suas convicções e a realidade transforma-se. Em meados da década passada, a leitura do livro La radio en la convergencia multimedia, de Mariano Cebrián-Herreros, consolidou algo que, na prática, já começava a constatar. O rádio, como o professor espanhol afirmava, havia se tornado plural e, gradativamente, ia se desprendendo de sua conceituação de base mais tecnológica. Em 2008, pela primeira vez, ouvi uma manifestação neste sentido partindo de representantes de emissoras de rádio. Foi quando a Rádio Gaúcha, aqui de Porto Alegre, passou a replicar seu sinal de AM em FM. No mesmo ano, deparo-me com nova manifestação no mesmo sentido em uma sessão do então Núcleo de Pesquisa Rádio e Mídia Sonora da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, durante o congresso da entidade realizado em Natal, no Rio Grande do Norte. O professor Eduardo Meditsch, que, anos antes, afirmara ser rádio apenas modalidades sonoras com emissão e recepção simultâneas, posiciona-se por um conceito associado à ideia de linguagem. Inspirados por esta fala do Eduardo, o professor Marcelo Kischinhevsky e eu escrevemos um verbete para a Enciclopédia Intercom de Comunicação, definindo rádio como uma linguagem comunicacional baseada na combinação particular de elementos como a voz na forma da fala, a música, os efeitos sonoros e o silêncio. Faltava, no entanto, entender o que fazia ser esta combinação “particular”. A resposta veio de um texto do Eduardo em que ele descreve o rádio como uma instituição social construída culturalmente. Esta evolução conceitual é o que vai determinar a necessidade de rever produções bibliográficas anteriores, redundando nesse Rádio – Teoria e prática.

Para o senhor, qual o papel do rádio na comunicação contemporânea? E os principais desafios?

O papel do rádio é de ser uma articulador constante entre diversos tipos de informação e o público. Trata-se de um articulador que vence a limitação humana de realizar duas atividades ao mesmo tempo. O ouvinte pode dirigir e escutar rádio, pode trabalhar e escutar rádio, pode, inclusive, conversar com outra pessoa e escutar rádio. A recepção da mensagem radiofônica não exige uma atenção 100% concentrada. De fato, os níveis de atenção exigidos pela emissora variam ao longo da transmissão.

Sem dúvida, o principal desafio é cativar o ouvinte jovem. Antes, este era atraído pela música, mas o desgaste de formatos como o Top 40 e a prática de download do conteúdo musical afastaram este tipo de público do rádio. Creio que outro foco de atração anterior – as narrações esportivas associadas ao futebol – também diminuiu de importância devido à disseminação de outros esportes. No entanto, novos espaços surgiram com os debates inspirados no programa Pânico, da Jovem Pan FM, de São Paulo. O sucesso destas iniciativas comprova a necessidade crescente de se apostar na conversa junto à faixa de público jovem. Diria mais: rádio é, cada vez mais, a associação criativa de conteúdo adequado ao público associado à conversa criativamente construída, gerando companhia virtual.

Como a obra contribui para o ensino de rádio considerando as novas curriculares, aprovadas ou em discussão, dos cursos de Jornalismo, Relações Públicas, Publicidade e Propaganda e Rádio, TV e Internet? Neste sentido, o senhor acredita que esta relação teoria e prática é fundamental tanto para o ensino quanto para a práxis da produção radiofônica?

O livro foi pensado como uma contribuição ao aprendizado das práticas profissionais a partir da produção teórica no campo dos estudos de rádio. Neste sentido, vai ao encontro de um parâmetro que tem sido comum nas discussões sobre as diretrizes curriculares: a necessidade de considerar realmente os cursos de Jornalismo, Relações Públicas, Publicidade e Propaganda e Rádio, TV e Internet como formações dentro das Ciências Sociais Aplicadas. Neste sentido, vejo o conjunto de conhecimentos de cada um destes cursos como algo que se projeta em direção à sociedade e deve, portanto, contribuir para seu aprimoramento. Aprimoramento, obrigatoriamente, significa saber fazer e fazer melhor. É nesta direção que o livro foi produzido. Daí, em termos concretos, terem sido incluídas dezenas de exemplos para demonstrar e explicitar práticas. Coerente com o que tem norteado o debate e a aprovação das diversas diretrizes, isto, por óbvio, não significa uma separação entre o conhecimento consolidado – a “teoria” do título – e o conhecimento aplicado – a “prática”. Conhecimento é conhecimento. Separá-los seria como advogar em prol de uma sociedade dividida entre quem detém a reflexão – uma elite dominante –, e quem faz o trabalho braçal – todos os demais, os subordinados a essa elite.

Rádio, teoria e prática é fruto do conhecimento acadêmico e da experiência profissional acumulados pelo senhor nos últimos quase 30 anos. Que orientação poderia dar ao que estão iniciando no mercado radiofônico? 

Acredito que, para fazer rádio – meio essencialmente barato e, portanto, acessível e popular – é necessário conhecimento como em qualquer atividade humana. Ter conhecimento apenas, no entanto, não leva a nada. É necessário possuir também um senso de humildade e comprometimento. Humildade para compreender que rádio é trabalho de equipe e que existem diversos conhecimentos envolvidos neste processo. Esta perspectiva fica fácil de ser compreendida em uma constatação que carrego desde meus primeiros momentos como profissional da área: aprendi muito sobre rádio com operadores de áudio, locutores, sonoplastas… Quando era repórter, muitas vezes, quem me indicava possibilidades e dava ideias era o meu colega, o motorista, sentado ao meu lado na unidade móvel da emissora. Não acredito em comunicação feita dentro de gabinetes isolados da realidade. Olhando da janela de uma sala com ar-condicionado e sentado em frente a um moderno computador ou com um dispositivo móvel de alta tecnologia na mão, a perspectiva do mundo torna-se distorcida, irreal. Profissional que trabalha em rádio anda em meio às pessoas, nas ruas, no transporte urbano, nas aglomerações… E ouve e sente as angústias e necessidades dos ouvintes, independentemente de classes sociais, faixas etárias, acesso ao ensino etc. Conhecimento, humildade e comprometimento também não são nada sem uma atitude ética firme e constante. Todos estes fatores facilitam quando o profissional de rádio vai se colocar no lugar do ouvinte para entendê-lo, nossa função principal.

Em um de seus perfis (Caros Ouvintes) o senhor afirma que “Nasceu e cresceu ouvindo rádio e as histórias do rádio. Aos poucos foi descobrindo que não queria ser só ouvinte”. Foi o rádio que o levou ao curso de jornalismo?

Eu ouço rádio desde sempre, mas, efetivamente, não foi isto que me levou ao jornalismo. Cresci em meio ao cerceamento das liberdades imposto pela ditadura militar. No final dos anos 1970, época de uma tímida abertura política, minha porta de acesso ao mundo era o jornal Folha da Manhã, da então Companhia Jornalística Caldas Júnior, de Porto Alegre. Na minha cidade de origem, Rio Grande, no litoral sul gaúcho, cresci ouvindo rádio por empréstimo da escuta feita por meus pais e pelo meu irmão. Fazia parte, portanto, da minha vida ouvir Riograndina e Minuano, ambas de Rio Grande, e Difusora (atual Bandeirantes), Gaúcha e Guaíba, todas de Porto Alegre. Talvez um dos meus primeiros encantamentos com o rádio tenha sido em uma noite, durante um apagão que se prolongou por dias. Sem a televisão dependente da energia elétrica ausente ou seriamente racionada naquele momento, comecei a passar de uma emissora a outra, acabando por achar a Super Rádio Tupi, do Rio de Janeiro, que transmitia a Turma da Maré Mansa naquele horário. Comecei a me dar conta, então, de que o rádio trazia o distante para perto. Gradativamente, foi me tornando ouvinte assíduo.

O que me levou ao jornalismo, entretanto, foi uma vontade de lidar com a notícia, de mostrar o que acontecia então. Fui me dando conta disto ao ler livros publicados por ex-exilados políticos, alguns deles jornalistas. Na época, cursava Eletrotécnica no Colégio Técnico Industrial (CTI) da Fundação Universidade do Rio Grande. Aos poucos, abandonei a ideia de ser engenheiro. Por curioso que pareça, minha experiência no curso técnico iria nortear até a minha maneira de dar aula. Meu professor de Matemática, Hugo Passos, tinha por padrão esquematizar a aula no quadro-negro, simplificando conceitos de geometria analítica. Quando comecei como professor, aqueles esquemas desenhados com rigor iriam inspirar os resumos de conteúdo que eu usava como referência visual para os alunos, base, em alguns livros meus, das figuras e exemplos incluídos neles.

Do velho CTI, trago também a certeza de que o estudante deve ser tratado como profissional em formação, uma espécie de trainee. Lembro de quando entrei no colégio, com 14 anos na época, ouvir do diretor: “Vocês aqui têm mais liberdade do que em outras escolas, mas muito mais responsabilidades também. Vão ser tratados, portanto, como adultos e não como crianças.”. Na época, significava que, ao contrário de qualquer outra instituição da minha cidade, não usávamos uniforme, podíamos sair da aula quando quiséssemos, enfim que a sistemática era similar à de uma universidade. Em função do ensino extremamente exigente, baseado em muito conteúdo e em uma noção de responsabilidade, havia pouca evasão, repetições reduzidas e muito, muito estudo mesmo. Ao encontro daquela realidade, de certo modo, um dia me deparei com a frase de Edgard Roquette-Pinto, o maior incentivador do rádio em sua fase inicial: “Ensinar os que sabem, o que sabem aos que não sabem”. Tento diariamente aproximar esta espécie de slogan do que via em aula no ensino técnico, acrescendo a tentativa de tratar o estudante, do ponto de vista humano, de igual a igual.

E depois de ter passado por diferentes emissoras, o que o fez retornar ao ambiente acadêmico?

Quando comecei a trabalhar na Rádio Gaúcha, um colega apareceu com o então recém-lançado Manual de radiojornalismo Jovem Pan, da Maria Elisa Porchat, obra fundamental na minha formação. Claro que o descrito ali correspondia a práticas específicas de uma emissora. De certo modo, o livro me provocou. Talvez, tenha dado sequência a outras provocações oriundas dos tempos de universitário. Li, dentro do possível para quem tinha recursos limitados e, portanto, com o auxílio da biblioteca da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, os livros de Fraser Bond, Luiz Amaral, Luiz Beltrão e Mario Erbolato. São obras que, a luz do seu tempo, discutem e ensinam a fazer. Quando surgiu a oportunidade de me transformar em professor, foi com esta perspectiva que me dediquei à função. Sou totalmente favorável a que se faça a crítica do mercado dentro da universidade. Nestes poucos mais de 20 anos como professor, no entanto, vejo que, não raro, ficamos nisto e esquecemos de ensinar como se faz jornalismo, publicidade, radialismo, relações públicas… As novas diretrizes destes cursos – as já definidas e as em fase de definição – tentam equilibrar estas duas perspectivas. A busca deste equilíbrio me fez e faz ser professor.

Sobre Luiz Artur Ferraretto: mestre e doutor pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre, onde também atua como docente da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação. É autor de diversas obras entre as quais: “Rádio – O veículo, a história e a técnica” (3ª edição em 2007), “Rádio no Rio Grande do Sul (anos 20, 30 e 40): dos pioneiros às emissoras comerciais” (2002) e “Rádio e capitalismo no Rio Grande do Sul: as emissoras comerciais e suas estratégias de programação na segunda metade do século 20″ (2007). Com a jornalista Elisa Kopplin escreveu “Técnica de redação radiofônica” (1991). Como jornalista, foi repórter da Rádio Gaúcha AM (1986-1991) e gerente de Radiojornalismo da Rede Bandeirantes/RS (1994-1995).

 Sobre a obra:

Título: Rádio – Teoria e prática
Autor: Luiz Artur Ferraretto
Editora: Summus Editorial
Preço: R$ 78,10 (Ebook: R$ 49,70)
Páginas: 272 páginas – 17 x 24 cm
ISBN: 978-85-323-0946-4
Atendimento ao consumidor: (11) 3865-9890
Site: www.summus.com.br

Conheça o sumário e as primeiras páginas.

 

por Juliana Gobbi Betti, com informações Grupo Summus