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O Belo, o Admirável, suas Estéticas e um Impeachment

Alexandre Rocha da Silva 1

Que lugar ocupam fatos, manifestações, experiências, os sentidos da vida, suas potências, cujas sensações e até mesmo características assemelham-se às sensações e às características próprias da fruição artística? O que há de comum entre o surrealismo de Dali ou Buñuel, o teatro de Beckett, um filme de Grennway, a palavra de Clarice, a voz de Elis, um culto de transubstanciação, um ritual de candomblé, a superação da AIDS, o movimento pacifista, os cara-pintadas e o impeachment de Collor?

Em conjunto, tais manifestações apontam para o que Charles Sanders Peirce denominou admirável, ou seja, para o que não pode ser negado, para a qualidade enquanto tal, em sua pureza, primeiridade capaz de orientar a ação da ética e as determinações lógicas. Caberia à estética o estudo desse admirável na busca da razoabilidade concreta, segundo o filósofo norte-americano que sempre desconfiou do vínculo estrito e exclusivo entre a estética como disciplina e o belo como objeto de estudo. Para ele, este exclusivismo, que, como todos os exclusivismos, gera fanatismos e distorções irracionais, obliterou a possibilidade de compreensão da estética como uma ciência puramente teórica na qual “o fenômeno é examinado à luz de nossa habilidade de interagir com ele”2.

Isso não significa que Peirce não reconhecesse um lugar privilegiado para as obras de arte. Essas, muitas vezes, constituem o admirável em essência, como um fora que, por sua condição de pura qualidade, redireciona ações éticas e ordena a própria lógica. A obra de arte como acontecimento escapa dos exclusivismos e nega os exageros: ela é o tipo de signo que mais harmoniosamente mistura as três categorias fenomenológicas peirceanas. Peirce dizia que se trata “da impressão total inanalisável de uma razoabilidade que se expressou numa criação. É um puro Sentimento, mas é um sentimento que é a impressão de uma Razoabilidade que Cria. É uma Primeiridade que realmente pertence à Terceiridade na sua realização da Secundidade (MS 310: 9).” 3

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postado por [ana pi] 17-10-08