{"id":176,"date":"2020-10-06T18:06:20","date_gmt":"2020-10-06T18:06:20","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.ufba.br\/memoriaeducacaobahia\/?page_id=176"},"modified":"2025-02-12T13:59:08","modified_gmt":"2025-02-12T16:59:08","slug":"makota-valdina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/makota-valdina\/","title":{"rendered":"Makota Valdina"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Valdina Pinto de Oliveira nasceu em 15 de outubro de 1943 no bairro do Engenho Velho da Federa\u00e7\u00e3o, na cidade de Salvador, Bahia. Sempre morou neste bairro que \u00e9, ainda hoje, um local onde a maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 negra, e onde a presen\u00e7a de comunidades de terreiro de Candombl\u00e9 \u00e9 marcante.<\/p>\n<p>Desde a juventude, Valdina Pinto esteve envolvida com a\u00e7\u00f5es sociais na sua comunidade, acompanhando seu pai, Paulo de Oliveira Pinto \u2013 Mestre Paulo \u2013 ou sua m\u00e3e, Eneclides de Oliveira Pinto, mais conhecida como D. Neca, que foi l\u00edder comunit\u00e1ria e primeira refer\u00eancia pol\u00edtica da filha.<\/p>\n<p>Da adolesc\u00eancia \u00e0 fase adulta, junto com a sua fam\u00edlia, com a Associa\u00e7\u00e3o de Moradores e com a Igreja Cat\u00f3lica do Bairro, Valdina Pinto desenvolve diversas atividades assistenciais \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, logo se concentrando na alfabetiza\u00e7\u00e3o de adultos como principal \u00e1rea de trabalho. Quando vem a se formar pelo antigo Instituto Educacional Isa\u00edas Alves (IEIA), atual ICEIA, em 1962, j\u00e1 era uma educadora atuante e conhecida na pr\u00f3pria comunidade. Ensinou na sede da Associa\u00e7\u00e3o de Moradores, ensinou em barrac\u00e3o de terreiro de candombl\u00e9, ensinou em escolas, e at\u00e9 na pr\u00f3pria casa. Por seu trabalho educacional na comunidade, \u00e9 convidada pelo Corpo da Paz para lecionar Portugu\u00eas nas Ilhas Virgens a um grupo de estrangeiros que viria ao Brasil \u2013 e aqui come\u00e7a a desenvolver a no\u00e7\u00e3o do valor que suas refer\u00eancias \u00e9tnico-culturais t\u00eam para fora da comunidade em que vive. Como professora do ensino fundamental do munic\u00edpio de Salvador, Valdina Oliveira Pinto se aposenta no final da d\u00e9cada de 80, A sina de ser quem d\u00e1 a li\u00e7\u00e3o continuar\u00e1 acompanhando a sua trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 70, Valdina abandona o catolicismo, e em 1975, \u00e9 iniciada na religi\u00e3o do Candombl\u00e9. No Terreiro Tanuri Junsara, liderado pela Sra. Elizabeth Santos da Hora, ela \u00e9 confirmada para o cargo de Makota \u2013 assessora da Nengwa Nkisi (M\u00e3e-de-Santo). Com a inicia\u00e7\u00e3o, recebe seu nome de origem africana, tornando-se a Makota ZIMEWAANGA.<\/p>\n<p>A inicia\u00e7\u00e3o numa religi\u00e3o de matriz africana imp\u00f5e a Valdina Pinto uma re-vis\u00e3o da sua hist\u00f3ria e da cultura na qual havia sido criada. Todo um conjunto de pr\u00e1ticas cotidianas vivenciadas por ela desde a inf\u00e2ncia no gueto negro do Engenho Velho da Federa\u00e7\u00e3o passa a adquirir novos significados, import\u00e2ncia e sentidos a partir das li\u00e7\u00f5es aprendidas no terreiro de candombl\u00e9.<\/p>\n<p>Entre 1977 e 1978, Valdina Pinto integra a primeira turma do Curso de Inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 L\u00edngua Kikongo, ministrado pelo congol\u00eas Nlaando Lando Ntotila no Centro de Estudos Afro-Oriental (CEAO), marcando uma nova etapa no aprofundamento dos seus estudos sobre as culturas de origem bantu no Brasil \u2013 sobretudo nos aspectos religiosos. A valoriza\u00e7\u00e3o das especificidades da na\u00e7\u00e3o de candombl\u00e9 angola-congo, de matriz bantu, tem sido uma das marcas da trajet\u00f3ria de Valdina Pinto que, por isso, passa a ser conhecida como Makota Valdina.<\/p>\n<p>Outro pensamento da Makota Valdina \u00e9 de que a comunidade de terreiro n\u00e3o deve fechar-se em si mesma, buscando, ao contr\u00e1rio, relacionar-se com os organismos pol\u00edticos e sociais externos que sejam necess\u00e1rios \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es vivenciadas no terreiro \u2013 tradi\u00e7\u00f5es que, por outro lado, ela defende que sejam, estas sim, resguardadas exclusivamente ao contexto religioso de quem as pratica. Vale ressaltar que, ainda em tempos de ditadura pol\u00edtica no Brasil, a Makota Valdina tornou-se a primeira mulher a presidir a Associa\u00e7\u00e3o de Moradores do seu Bairro, enfrentando preconceitos pol\u00edticos e de g\u00eanero, dada a suas inclina\u00e7\u00f5es oposicionistas e ao fato mesmo de estar numa fun\u00e7\u00e3o at\u00e9 ent\u00e3o ocupada por homens.<\/p>\n<p>Estas compreens\u00f5es &#8211; que est\u00e3o na base da sua forma\u00e7\u00e3o \u2013 levaram-na a compor, durante alguns anos, a diretoria da Federa\u00e7\u00e3o Baiana de Culto Afro Brasileiro (FEBACAB), atual FENACAB. Nesse per\u00edodo, seu respeito e preocupa\u00e7\u00e3o com as tradi\u00e7\u00f5es do Candombl\u00e9, independente da na\u00e7\u00e3o, tornaram-na mais conhecida e considerada junto aos praticantes do<\/p>\n<p>candombl\u00e9. Antes de terminar sua gest\u00e3o, filia-se \u00e0s lutas em defesa do Parque S\u00e3o Bartolomeu, um antigo santu\u00e1rio natural do povo-de-santo de Salvador. O Parque, uma extensa reserva urbana da Mata Atl\u00e2ntica, definhava ante a depreda\u00e7\u00e3o por parte das pessoas e o sil\u00eancio dos poderes p\u00fablicos. Com outras educadoras, a Makota Valdina desenvolve programas de educa\u00e7\u00e3o ambiental, destacando a perspectiva religiosa acerca da natureza \u2013 \u201cA natureza \u00e9 a ess\u00eancia do candombl\u00e9\u201d, ensinava. Desta luta surgiu o Centro de Educa\u00e7\u00e3o Ambiental S\u00e3o Bartolomeu (CEASB), onde foi educadora e conselheira. Um outro trabalho importante do qual esteve \u00e0 frente foi a cataloga\u00e7\u00e3o e plantio de ervas medicinais em \u00e1reas do entorno do Parque S\u00e3o Bartolomeu, no sub\u00farbio de Salvador.<\/p>\n<p>Perifraseando-a, podemos dizer que \u201co candombl\u00e9 \u00e9 a ess\u00eancia da Makota Valdina\u201d. Fincada nestas tradi\u00e7\u00f5es religiosas, ela tornou-se um instrumento de express\u00e3o da sabedoria popular baiana, brasileira, de base africana. Como \u00e9 pr\u00f3prio de uma vis\u00e3o de mundo dessa origem, os conhecimentos e habilidades da Makota Valdina &#8211; o seu savoir-faire &#8211; se articulam e interagem constantemente, e n\u00e3o se estancam, ou se resumem a uma determinada dimens\u00e3o do saber. Nela, reflex\u00f5es filos\u00f3ficas acerca da cosmogonia do Candombl\u00e9, mais especificamente os de origem bantu, coabitam com um apurado senso est\u00e9tico na execu\u00e7\u00e3o de dan\u00e7as, ou confec\u00e7\u00e3o de artesanatos rituais; ao dom\u00ednio da culin\u00e1ria, ou do uso de ervas, une-se um repert\u00f3rio de cantigas sagradas de rara extens\u00e3o.<\/p>\n<p>Em Fevereiro 2003, a Makota Valdina foi a porta-voz das religi\u00f5es de matriz africana de Salvador num encontro com o ent\u00e3o rec\u00e9m empossado Ministro da Cultura, Gilberto Passos Gil Moreira, como tamb\u00e9m foi uma das representantes do Movimento Contra a Intoler\u00e2ncia Religiosa em Bras\u00edlia, em mar\u00e7o do mesmo ano, sentando-se \u00e0 mesa da C\u00e2mara dos Deputados, na hist\u00f3rica sess\u00e3o presidida pelo Deputado Federal Luiz Alberto.<\/p>\n<p>Com a sua palavra calma e firme, que ilumina, com a sua indigna\u00e7\u00e3o veemente que entusiasma, a Makota Valdina tem impressionado in\u00fameras plat\u00e9ias nas confer\u00eancias e palestras que realiza no Brasil ou no exterior. Mas, como faz quest\u00e3o de frisar, no cotidiano das suas rela\u00e7\u00f5es num terreiro de candombl\u00e9, est\u00e1 o seu local predileto de ensino e aprendizagem.<\/p>\n<p>Diversas s\u00e3o as institui\u00e7\u00f5es que a tem como conselheira, ou \u2018madrinha\u2019, como \u00e9 o caso da Associa\u00e7\u00e3o de Preserva\u00e7\u00e3o e Defesa do Patrim\u00f4nio Bantu (ACBANTU). Noutros casos, \u00e9 o pr\u00f3prio nome que empresta \u00e0 causa da luta contra o racismo, como ao Grupo de Estudantes Universit\u00e1rios Makota Valdina.<\/p>\n<p>Valdina Pinto j\u00e1 recebeu diversas condecora\u00e7\u00f5es por seu papel na preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio cultural afro-brasileiro, como o Trof\u00e9u Clementina de Jesus, da Uni\u00e3o de Negros Pela Igualdade (UNEGRO). Trof\u00e9u Ujaama, do Grupo Cultural Olodum, em Agosto\/2004, recebeu a Medalha Maria Quit\u00e9ria, a maior honraria da C\u00e2mara Municipal de Salvador, em dezembro de 2005 recebeu da Funda\u00e7\u00e3o Greg\u00f3rio de Mattos o Trof\u00e9u de Mestra Popular do Saber.<\/p>\n<p>Valdina Oliveira Pinto, a Makota Zimewaanga, a Makota Valdina \u00e9, atualmente, a conselheira \u2018mor\u2019 da Cidade de Salvador, convidada a avaliar e avalizar plataformas de governo, campanhas eleitorais e mandatos parlamentares, ou ONG\u2019s e eventos em defesa das tradi\u00e7\u00f5es de origem africana e do Meio Ambiente. \u00c9 tamb\u00e9m Chamada a orientar grupos do Movimento Negro e a sistematizar propostas educacionais que d\u00eaem conta da diversidade cultural da cidade. Enfim, tornou-se presen\u00e7a quase obrigat\u00f3ria nos principais debates sobre os rumos da sociedade e, sobretudo, nos espa\u00e7os reservados do sagrado, onde s\u00f3 t\u00eam acesso livre aquelas que se tornaram uma mais velha e trazem no corpo, no conhecimento e nos pr\u00f3prios sentimentos marcas ancestrais.<\/p>\n<hr>\n<p><center><\/p>\n<h3>Assista o v\u00eddeo depoimento<\/h3>\n<div class=\"iframe\">\n<p><iframe class=\"responsive-iframe\" src=\"https:\/\/eduplay.rnp.br\/portal\/video\/embed\/78997\" scrolling=\"no\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" width=\"671\" height=\"377\" frameborder=\"0\"><\/iframe><\/p>\n<\/div>\n<h3><a href=\"\/webmemoriaeducacaobahia\/makota-valdina-transcricao\">Transcri\u00e7\u00e3o do depoimento <\/a><strong>(EM BREVE)<\/strong><\/h3>\n<p><\/center><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depoimento da Professora Makota Valdina ao projeto Mem\u00f3ria em V\u00eddeo da Educa\u00e7\u00e3o na Bahia, gravado em 22\/05\/2012, na Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal da Bahia.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":646,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"single.php","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[18],"class_list":["post-176","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistados","tag-18"],"featured_image_src":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-content\/uploads\/sites\/6\/2023\/10\/008.png","featured_image_src_square":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-content\/uploads\/sites\/6\/2023\/10\/008.png","author_info":{"display_name":"bsglinux2","author_link":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/author\/bsglinux2\/"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/176"}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=176"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/176\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1379,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/176\/revisions\/1379"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/646"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=176"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=176"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=176"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}