{"id":160,"date":"2020-10-06T16:54:51","date_gmt":"2020-10-06T16:54:51","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.ufba.br\/memoriaeducacaobahia\/?page_id=160"},"modified":"2025-02-11T22:30:35","modified_gmt":"2025-02-12T01:30:35","slug":"roberto-santos-transcricao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/roberto-santos-transcricao\/","title":{"rendered":"Roberto Santos &#8211; transcri\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Gravado nos est\u00fadios do \u00c9duCANAL \u2013 Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFBA, em 11\/10\/2011.<\/span><\/p>\n<p><strong>Roberto Santos (RS)<\/strong><span style=\"font-weight: 400\">: Meu nome \u00e9 Roberto Figueira Santos. Eu nasci em Salvador a 15 de Setembro, de 1926. Estou, portanto, com 85 anos completos. Felizmente, com sa\u00fade quase boa, com pequenas dificuldades aqui e ali, s\u00e3o pr\u00f3prios da idade, mas estou trabalhando e isso \u00e9 que \u00e9 importante. Estou podendo atender os convites dos amigos, continuo me movimentando em todos os programas da educa\u00e7\u00e3o, sobretudo, de educa\u00e7\u00e3o superior aqui na Bahia. Meus pais eram ambos nascidos em Salvador, e dos quatro av\u00f3s, tr\u00eas eram nascidos em Salvador e o quarto veio de Portugal aos 11 anos de idade e ficou tamb\u00e9m aqui em Salvador. Ent\u00e3o, eu sou produto aqui dessa terra. Nasci aqui, eu tamb\u00e9m estudei. Fiz todo o meu curso at\u00e9 a gradua\u00e7\u00e3o em n\u00edvel superior aqui em Salvador. Naquele tempo, ainda havia possibilidade de fazer, em aulas particulares, o programa at\u00e9 o temido Exame de Admiss\u00e3o, pelo qual os brasileiros em torno dos 11 anos eram selecionados para entrar ou n\u00e3o no gin\u00e1sio. Essas aulas infelizmente desapareceram h\u00e1 muitos anos. E, as reformas se sucederam. Quando eu passei do prim\u00e1rio para o que era secund\u00e1rio na \u00e9poca, entrei no gin\u00e1sio, perto dos 11 anos, e fiquei 5 anos at\u00e9 completar\u00a0 esse gin\u00e1sio.<\/span><\/p>\n<p><strong>Nelson Pretto (NP)<\/strong><span style=\"font-weight: 400\">:\u00a0 O \u201cAdmiss\u00e3o\u201d tinha a mesma tens\u00e3o do vestibular de hoje, ou maior?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Era mais ou menos na mesma linha. Porque isso definia muito o destino das crian\u00e7as, naquele tempo eram crian\u00e7as, n\u00e9? Eu tinha feito o curso prim\u00e1rio em casa com a professora, e quando entrei para o gin\u00e1sio, fiquei a\u00ed esses 5 anos, e s\u00f3 depois disso \u00e9 que eu fui, para o que se chamava naquele tempo o curso \u201cPRE\u201d, o curso complementar ao gin\u00e1sio &#8211; era uma das in\u00fameras reformas na educa\u00e7\u00e3o que tinha havido, em que voc\u00ea fazia o curso secund\u00e1rio dessa forma: cinco anos de gin\u00e1sio e dois anos complementares. O curso complementar come\u00e7ava uma certa especializa\u00e7\u00e3o \u2013 havia um pr\u00e9-m\u00e9dico, um pr\u00e9-judr\u00eddico, e um pr\u00e9-t\u00e9cnico de engenharia. Eu fiz o pr\u00e9-m\u00e9dico. Com isso, ao fim dos 7 anos do secund\u00e1rio, eu fiz o exame vestibular para medicina.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: J\u00e1 se chamava vestibular?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: J\u00e1 chamava vestibular. Depois mudou o nome para o concurso da habilita\u00e7\u00e3o. Porque eram, n\u00e3o era bem um exame, era concurso classificat\u00f3rio. As faculdades tinham o n\u00famero de alunos limitados. Era o famoso n\u00fameros clausos, pelo qual o Brasil sempre se orgulhou, comparado com outros pa\u00edses, e inclusive com os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, em que as faculdades recebiam um n\u00famero muito grande de alunos no primeiro ano e muito pouco desses passaram para o\u00a0 segundo e terceiro. O brasil selecionou, desde que eu me entendo, na entrada, no acesso ao n\u00edvel superior, colocando um limite no n\u00famero de alunos a depender das condi\u00e7\u00f5es de funcionamentos da escola. Eu fui ent\u00e3o para \u201cMedicina\u201d e comecei o curso m\u00e9dico em 1.943, portanto durante a guerra. Havia uma s\u00e9rie de influ\u00eancias a que os estudantes ficavam ligados, diante daquele clima que o brasil atravessava \u2013 se devia entrar na guerra ou devia n\u00e3o entrar na guerra. Isso, j\u00e1 naquele tempo, gerou muitas faltas nas aulas, porque haviam os movimentos em um sentido e em outro sentido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Era forte o movimento estudantil? Nessa discuss\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Era forte o movimento estudantil. Era a ditadura Vargas, n\u00e9? E, G\u00e9tulio Vargas tinha ministros para um lado e ministros para outro lado, sendo que, para o lado dos aliados pendia o Osvaldo Aranha , que era das rela\u00e7\u00e3o aos exteriores, para o lado do nazismo pendia Eurico Dutra, que era o general do ministro da guerra. E n\u00e3o s\u00f3 os estudantes, mas os m\u00e9dicos por exemplo. A Faculdade de Medicina, do &#8220;Terreiro&#8221;, tem um sal\u00e3o nobre, que durante muito tempo, muitas d\u00e9cadas, foi uma esp\u00e9cie de, sala de visitas para a realiza\u00e7\u00e3o de grandes eventos, n\u00e3o havia outros sal\u00f5es daquele tamanho aqui em Salvador. E os m\u00e9dicos estiveram muito presentes nessa discuss\u00e3o, e houve muitos discursos, muitas sess\u00f5es, pendendo, sobretudo para o lado dos aliados. Os m\u00e9dicos se tornaram famosos pelos oradores que defendiam, sobretudo ao lado dos aliados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: O senhor lembra de alguns nomes deles?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Sim. Havia lideran\u00e7as, n\u00e9?! Havia por exemplo, o professor Eduardo de Morais \u2013 que era professor de otorrinolaringologia, mas era um homem culto, um homem que tinha uma viv\u00eancia social muito intensa, e ele era um dos oradores l\u00edderes dos m\u00e9dicos. Mais ou menos em competi\u00e7\u00e3o com ele havia um professor Pinto de Carvalho, que foi professor de neurologia e que foi membro e creio que\u00a0 presidente da Academia de Letras da Bahia. Pinto de Carvalho tamb\u00e9m, todos muito entusi\u00e1stas da Fran\u00e7a \u2013 a influ\u00eancia francesa do ponto de vista cultural foi imensa no Brasil at\u00e9 a segunda guerra mundial, at\u00e9 os meus dias, a\u00ed que come\u00e7ou a se modificar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: E fora da medicina tinha?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Tamb\u00e9m, tamb\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: O senhor lembra de nomes que eram importantes&#8230; oradores, lideran\u00e7as nesse per\u00edodo?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Sim, naquela \u00e9poca, ainda bem mais do que \u00e9 hoje, a Faculdade de medicina tinha uma influ\u00eancia, sobre toda a comunidade baiana, muito grande. As outras faculdades tinham nomes destacados mas n\u00e3o tinham a mesma influ\u00eancia sobre o ambiente social que tinha a Faculdade de Medicina \u2013 que tinha sido a mais antiga, tinha instala\u00e7\u00f5es muito melhores do que as outras e era uma faculdade federal \u2013 eu n\u00e3o sei desde quando mantida com recursos federais e havia naquela \u00e9poca tamb\u00e9m uma outra diferencia\u00e7\u00e3o que hoje n\u00e3o se v\u00ea mais: O funcion\u00e1rio p\u00fablico federal tinha condi\u00e7\u00f5es melhores de sal\u00e1rio, de aposentadoria, assim por adiante, o estadual ficava no meio e o municipal tinha condi\u00e7\u00f5es piores. E no caso do ensino superior a Faculdade de Medicina j\u00e1 era federal h\u00e1 muito tempo e isso tamb\u00e9m \u00e9 destac\u00e1vel. Quando chegou a cria\u00e7\u00e3o da universidade, que foi em 1.946 n\u00e9, a \u00fanica federal era \u201cMedicina\u201d, \u201ca Polit\u00e9cnica\u201d\u00a0 j\u00e1 tinha sido e tinha deixado de ser, outro hora foi a estadual, deixou de ser, mas na verdade era mais uma escola particular lutando com dificuldades financeiras de novo. A Faculdade de Direito n\u00e3o tinha tantas dificuldades financeiras, mas era uma escola, que tem um ensino que \u00e9 muito menos honeroso do ponto de vista das finan\u00e7as. E, a escola de&#8230; A Faculdade de Economia, tinha sido organizada originalmente pelos comerciantes da Bahia, que criaram uma funda\u00e7\u00e3o Visconde de cairu. Uma funda\u00e7\u00e3o privada que mantinha um curso de&#8230; do que se chamava na \u00e9poca de Guarda livros, desde 1.906 e depois foi caminhado para fazer concurso superior e depois entrou para a universidade. E a essa altura tamb\u00e9m foi federalizada. A Escola de Belas Artes foi come\u00e7ada, que o curso de belas artes na Bahia, foi come\u00e7ado por um pintor espanhol em meados do s\u00e9culo XIX, professor Ca\u00f1izares, que come\u00e7ou um curso de belas artes. Depois isso foi crescendo, apareceram algumas figuras, que depois se tornaram conhecidas, e quando foi a organiza\u00e7\u00e3o da universidade em 1.946, havia realmente movimentos destacados na \u00e1rea das Belas Artes, e a escola entrou. A escola tinha conseguido ocupar um palacete que existia aqui na Bahia, que tinha sido propriedade de um professor de medicina, que ficava na Ladeira do Tijolo, que eu n\u00e3o sei se voc\u00eas t\u00eam ideia, na rua 28 de Setembro. Esse palacete tinha sido desse professor de medicina, que era originariamente escoc\u00eas, mas veio pra c\u00e1\u00a0 muito jovem, e aqui cresceu. Ele, al\u00e9m de ter chegado ao ponto de possuir esse palacete, ele tinham uma cole\u00e7\u00e3o de artes pl\u00e1sticas, que ainda sobrevive, parte dela no Museu de Arte da Bahia, aquele museu que fica ali no Corredor da Vict\u00f3ria. Enfim, essas v\u00e1rias escolas ficaram em condi\u00e7\u00f5es que, eram bem diferentes umas das outras, mas puderam ser aglutinadas para formar a universidade da Bahia, que ainda n\u00e3o tinha designa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal da Bahia como vieram todas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Uma coisa interessante que o senhor estava colocando a\u00ed, recuperando,\u00a0 \u00e9 que exceto &#8220;Belas Artes&#8221;, todas elas nascem como uma funda\u00e7\u00e3o privada, as outras n\u00e9,\u00a0 porque a polit\u00e9cnica era <\/span><span style=\"font-weight: 400\">uma Funda\u00e7\u00e3o [a Funda\u00e7\u00e3o Polit\u00e9cnica]<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Era a funda\u00e7\u00e3o privada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: \u201cDireito\u201d tamb\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: O instituto polit\u00e9cnico, &#8220;Direito&#8221; tamb\u00e9m,\u00a0 \u00e9 interessante porque nas origens do ensino superior no Brasil, que foram origens muito tardias, porque Portugal n\u00e3o permitiu que os cursos que at\u00e9 teria um n\u00edvel superior, seriam\u00a0 incompar\u00e1veis a cursos de Coimbra no seu conte\u00fado, mas n\u00e3o tinham autoriza\u00e7\u00e3o para que essas cursos fossem reconhecidos como cursos universit\u00e1rios, at\u00e9 a ter chegado Don Jo\u00e3o VI aqui, em 1.808. Houve numerosas peti\u00e7\u00f5es, um professor de hist\u00f3ria, aqui da Bahia, falecido, professor Alberto Silva, n\u00e3o sei se conheceu, ele escreveu um livro chamado \u201cAs Ra\u00edzes da Universidade da Bahia\u201d, \u00e9 um livro muito interessante, foi editado em 1.956 ou 1.958, eu acho at\u00e9 que a EDUFBA devia fazer uma reedi\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 um livro muito interessante em que voc\u00ea encontra um trabalho de pesquisa, ele era professor de hist\u00f3ria na Faculdade de Filosofia e do Gin\u00e1sio da Bahia e ele pesquisou numerosos documentos, ao longo, desde 1.570, 1.580, ouve peti\u00e7\u00f5es oriundas de entidades daqui de Salvador, a Coimbra, depois tamb\u00e9m a Lisboa, depois tamb\u00e9m a Roma, pedindo que os cursos que se faziam no col\u00e9gio de jesu\u00edtas aqui na Bahia fossem reconhecidos como cursos de n\u00edvel superior e os Portugueses o negaram ou simplesmente\u00a0 engavetaram, porque existia isso tamb\u00e9m, n\u00e3o deram resposta. O resultado \u00e9 que, enquanto nas col\u00f4nias espanholas as universidades come\u00e7aram muito cedo, desde o s\u00e9culo XVI, aqui o ensino superior s\u00f3 foi come\u00e7ar no s\u00e9culo, no come\u00e7o do s\u00e9culo XIX, quando Don Jo\u00e3o VI veio para c\u00e1, a fam\u00edlia real toda veio pra c\u00e1, na \u00e9poca ele at\u00e9 n\u00e3o era ainda Jo\u00e3o VI, era o pr\u00edncipe regente Don Jo\u00e3o. A rainha quem era a m\u00e3e dele, tinha problemas mentais e ele ent\u00e3o teve de assumir a reg\u00eancia. Bem, voltando ent\u00e3o, naquela \u00e9poca ainda no tempo em que a fam\u00edlia real estava aqui, nasceram duas faculdades da \u00e1rea da sa\u00fade, a faculdade de escola de cirurgia do Real Hospital Militar de salvador aqui na Bahia, que ainda era, &#8230; at\u00e9 pouco tempo antes, tinha sido a sede do governo central. Salvador foi a sede do governo central da col\u00f4nia at\u00e9 1.763. Naquela \u00e9poca, a economia da col\u00f4nia era, sobretudo, a economia a\u00e7ucareira aqui em torno da Bahia, em Pernambuco, aqui no Nordeste. Nesse per\u00edodo do tempo, ao longo dos anos 1.800, as minas, do que hoje \u00e9 Minas Gerais, come\u00e7aram a ser exploradas com grande vantagem para Portugal. A economia da col\u00f4nia ent\u00e3o, se deslocou para o sul e chegou um momento em que Salvador j\u00e1 estava, do ponto de vista da gest\u00e3o da col\u00f4nia, um pouco deslocada, ent\u00e3o em 1.763 mudaram a capital para o Rio. Salvador ficou como capital at\u00e9 um pouquinho mais de tempo que o pr\u00f3prio Rio de Janeiro, porque depois veio Bras\u00edlia. Pois bem, est\u00e1vamos ent\u00e3o,\u00a0 j\u00e1 com a capital transferida para o Rio de Janeiro quando Napole\u00e3o invadiu a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, amea\u00e7ou a Portugal, e chegou at\u00e9 as portas de Lisboa, dessa hora a fam\u00edlia real\u00a0achou era melhor vir para o Brasil, que era a principal col\u00f4nia, e veio. Acontece que eram uma frota enorme, que conduzia a fam\u00edlia, a nobreza, um n\u00famero enorme de funcion\u00e1rios, que serviam a fam\u00edlia real,\u00a0e outras pessoas. Houve uma tempestade e uma parte das Naus que vinham juntos nessa esquadra, veio parar na Bahia, inclusive a nau em que estava o pr\u00edncipe regente Don Jo\u00e3o. O restante e a maior parte\u00a0da frota seguiu viagem para o Rio de Janeiro, porque esse realmente era o destino deles. Essa pequena parcela da frota que veio para Bahia, trazia o pr\u00edncipe regente, o que mudou muito a fei\u00e7\u00e3o da col\u00f4nia toda. Nessa hora, Don Jo\u00e3o, ou o pr\u00edncipe Don Jo\u00e3o, o pr\u00edncipe regente criou a Escola de Cirurgia do Real Hospital Militar de Salvador. E cirurgi\u00e3o naquele tempo, era coisa diferente de m\u00e9dico, que em muitos pa\u00edses da Europa, tamb\u00e9m na maior parte da Europa inclusive em Portugal, o cirurgi\u00e3o cuidava do que se tem chamado ferimentos externos, eram ferimentos por traumatismos, Ferimentos \u00e0 bala e o cirurgi\u00e3o entre outras coisas tamb\u00e9m era barbeiro. O m\u00e9dico ao contr\u00e1rio, tinha uma forma\u00e7\u00e3o um pouco mais densa do ponto de vista do conhecimento da anatomia e fisiologia e podiam receitar medica\u00e7\u00f5es de uso interno, podiam prescrever rem\u00e9dios \u2013 o que o cirurgi\u00e3o n\u00e3o fazia. Aqui se criou ent\u00e3o a escola de cirurgia que poucos anos depois foi transformada em uma faculdade de medicina. No Rio de Janeiro, ele come\u00e7ou&#8230; a escola daqui foi criada em 18 de fevereiro em 1.908. Ele ficou pouco tempo aqui, por poucas semanas e da\u00ed se deslocou pro Rio onde estava a maior parte da corte. E l\u00e1 no rio no m\u00eas de novembro do mesmo ano, ele autorizou a cria\u00e7\u00e3o de uma faculdade de uma escola de medicina.\u00a0 Isso, portanto, com intervalo de poucos meses. Com mais uns tr\u00eas anos, ele autorizou a cria\u00e7\u00e3o de duas faculdades de direito &#8211; uma em S\u00e3o Paulo e a outra em Recife &#8211; e esse foi o come\u00e7o do ensino superior no Brasil. Um pouco mais para a frente criaram o que era chamada uma escola central, que era uma escola de natureza militar, onde ensinavam muita coisa de engenharia ficou sendo assim uma esp\u00e9cie de raiz de base, das escolas polit\u00e9cnicas. Pois bem ent\u00e3o, voltando a quest\u00e3o desse livro que se chama Ra\u00edzes da Universidade da Bahia, professor Alberto Silva, reuniu as atas, as peti\u00e7\u00f5es, que durante todo per\u00edodo da col\u00f4nia, desde 1.560 e tantos foram dirigidos ao Portugal, na inten\u00e7\u00e3o de que os cursos que eram realizados aqui no col\u00e9gio dos jesu\u00edtas tivessem reconhecimento como curso superiores, mas n\u00e3o tiveram. Al\u00e9m desses cursos que eram realizados aqui em Salvador, ali daquele mesmo lugar onde depois se construiu a Faculdade de Medicina, ali ao lado da catedral, eu n\u00e3o sei se algum de voc\u00eas ou alguns de voc\u00eas j\u00e1 Visitaram o museu de arqueologia, que fica nas funda\u00e7\u00f5es do antigo Col\u00e9gio. Est\u00e3o l\u00e1, o museu hoje que \u00e9 visitado e \u00e9 muito interessante para voc\u00ea ver o tipo de constru\u00e7\u00e3o daquela \u00e9poca do Col\u00e9gio dos Jesu\u00edtas. E al\u00e9m desse Col\u00e9gio, os Jesu\u00edtas tamb\u00e9m montaram um semin\u00e1rio em Bel\u00e9m de Cachoeira, que tamb\u00e9m ainda est\u00e1 l\u00e1, n\u00e3o sei se algum de voc\u00eas nasceu l\u00e1 ou conhece Cachoeira, mas, perto de Cachoeira tem um distrito que se chama Bel\u00e9m de Cachoeira ,onde houve esse semin\u00e1rio, que foi dirigido por um Padre que se chamava Alexandre Gusm\u00e3o. Alexandre&#8230; tem um outro Gusm\u00e3o e o irm\u00e3o dele Bartolomeu de Gusm\u00e3o fez uma tentativa de fazer voar um instrumento mais pesado que o ar, uma \u201cpassarola\u201d como era chamado, e depois ele levou isso para Lisboa&#8230; grande sucesso e tal, e isso foi uma esp\u00e9cie de raiz mi\u00fada da futura avia\u00e7\u00e3o e da ci\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: E da ci\u00eancia tamb\u00e9m, n\u00e9?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: E da ci\u00eancia, e da ci\u00eancia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Era Padre tamb\u00e9m ele?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: N\u00e3o. Eu tenho a impress\u00e3o que ele n\u00e3o chegou a ser Padre. Chamava-se Bartolomeu, um Alexandre, esse da \u201cpassarola\u201d era Bartolomeu, eu tenho a impress\u00e3o que ele estudou pra padre, mas isso eu n\u00e3o quero afirmar, mas tenho a impress\u00e3o que n\u00e3o chegou a se ordenar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: De qualquer forma toda essa&#8230; a ordem Jesu\u00edta, era muito preocupada com a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, pesquisa cient\u00edfica, eu me lembro que o pr\u00f3prio \u201cVieira\u201d tinha aqui grandes laborat\u00f3rios de mineralogia, o Sr. Chegou a acompanhar alguma coisa desses movimentos?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Eu acompanhei do meu tempo, eu fui aluno do Col\u00e9gio Vieira, que voc\u00eas todos conhecem, fez 100 anos agora e eu tenho at\u00e9 isso escrito, voc\u00eas alguma hora v\u00e3o encontrar, o meu melhor professor de curso secund\u00e1rio foi um Jesu\u00edta franc\u00eas que se chamava Padre Torram. O Padre Torram era um naturalista do estilo do s\u00e9culo XIX e ele viveu d\u00e9cadas aqui na Bahia, nem assim aprendeu a falar direito o portugu\u00eas, mas era realmente um s\u00e1bio nessa forma\u00e7\u00e3o de naturalista do s\u00e9culo XIX e o Padre Torram percorreu todo o territ\u00f3rio da Bahia onde ele recolheu muitas amostras de min\u00e9rios, amostras de rochas, classificou tudo isso descreveu algumas esp\u00e9cies de animais e vegetais e ent\u00e3o fazia o ensino pr\u00e1tico enquanto a maioria dos professores daquele tempo com certeza e agora acho que ainda h\u00e1 alguns que conversam muito, havia esse professor que fazia o ensino eminentemente pr\u00e1tico, porque ele fazia excurs\u00f5es pelo interior da Bahia recolhia esse material todo e dava aulas em torno desse material de modo que eu tenho escrito que ele foi pra mim o melhor professor de segundo grau que eu conheci.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Foi ele o inspirador da sua vontade pela divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e pela ci\u00eancia?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Bom, realmente deve ter influenciado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Um bom professor sempre influencia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Sempre influencia. E ele teve uma obra social importante aqui, \u00e9 que voc\u00eas s\u00e3o todos de gera\u00e7\u00f5es mais novas, mas ele fez, antes de existir a resid\u00eancia dos estudantes, ele criou um pensionato Padre Torram, depois deram esse nome Pensionato Padre Torram. Que era um casar\u00e3o no Corredor da Vit\u00f3ria, era um casar\u00e3o bem antigo, onde ele juntou meios para hospedar e dar alimenta\u00e7\u00e3o aos estudantes que chegavam aqui vindos do interior e n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es para se manter, ent\u00e3o o Pensionato Padre Torram foi uma obra social tamb\u00e9m importante ao lado desse trabalho como professor.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: J\u00e1 que o Sr. voltou um pouquinho para o \u201cVieira\u201d, vamos voltar um pouquinho, o sr. com 85 anos anda r\u00e1pido, quase dos tempos de hoje, l\u00e1 no comecinho como foi sua inf\u00e2ncia em fam\u00edlia, as primeiras o Sr. falou que estudou o prim\u00e1rio em casa era muito comum isso, n\u00e9?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Era comum isso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aluna: Foi anterior aos sete anos?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Eu comecei entre seis e sete anos e tinha uma professora que, ali\u00e1s, faleceu relativamente h\u00e1 pouco tempo, professora Hilda Cardoso de Albuquerque e ela vinha em casa, havia os livros da cole\u00e7\u00e3o FTD que ainda existe e outros tamb\u00e9m e mapas, enfim, livros de literatura. Meu pai era professor de cirurgia, minha m\u00e3e era uma pessoa que tinha tamb\u00e9m uma instru\u00e7\u00e3o bastante atualizada digamos, ent\u00e3o tinha muitos livros em casa e muitas revistas. Naquele tempo, havia essa influ\u00eancia francesa a que eu me referir, ent\u00e3o havia tamb\u00e9m muitas revistas em franc\u00eas, o ingl\u00eas veio depois e at\u00e9 houve um per\u00edodo que havia um pouco de alem\u00e3o, mas o conhecimento de franc\u00eas era praticamente obrigat\u00f3rio, n\u00e3o era prescrito como obrigat\u00f3rio, mas estudante de medicina ainda no meu tempo e antes disso com certeza ou lia bem franc\u00eas ou n\u00e3o sobrevivia porque os livros eram em franc\u00eas. A famosa anatomia de Testut, eram cinco volumes em franc\u00eas e, ou se sabia aquilo na ponta da l\u00edngua, ou ent\u00e3o n\u00e3o ia pra frente e outros livros tanto dessas disciplinas b\u00e1sicas quanto nas cl\u00ednicas tamb\u00e9m e as revistas eram todos de origem francesa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Com a Guerra, com a segunda Guerra que foi de 1.939 a 1.945, a Fran\u00e7a perdeu a guerra, os EUA e a Inglaterra ganharam a Guerra e ai come\u00e7ou uma mudan\u00e7a, dessa influ\u00eancia. Durante alguns anos o Brasil ficou fora dessas influ\u00eancias estrangeiras, porque havia bloqueios, a navega\u00e7\u00e3o mar\u00edtima era muito dificultada, a navega\u00e7\u00e3o a\u00e9rea estava apenas come\u00e7ando, ent\u00e3o o Brasil ficou muito desligado da influ\u00eancia desses pa\u00edses mais desenvolvidos, s\u00f3 depois da guerra \u00e9 que isso reapareceu, mas reapareceu com a influ\u00eancia inglesa, enquanto a influ\u00eancia francesa foi se reduzindo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mas ent\u00e3o, voc\u00ea me perguntou aqui, realmente eu naquele tempo se fazia j\u00e1 algum esporte, foi quando come\u00e7ou o Iate Clube, as origens do Iate Clube, ent\u00e3o eu fiz muita nata\u00e7\u00e3o, depois joguei t\u00eanis, e tinha a vida de outros meninos dessa idade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Era muito moleque?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Era bastante. Agora&#8230; sempre gostei muito de estudar. As minhas classifica\u00e7\u00f5es dos cursos felizmente foram sempre favor\u00e1veis, mas isso nunca me impressionou muito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aluna: O Sr. tem alguma forma\u00e7\u00e3o em arte?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Eu fiz curso de piano, comecei aos nove anos e aos 17 anos eu me diplomei em piano, mas isso coincidiu com a minha entrada para a faculdade de medicina e o tempo passou a ser muito absorvido por esse curso superior e da\u00ed ent\u00e3o eu fui relaxando, mas continuei muito dedicado a ouvir, quer dizer o fato de ter aprendido e tocado me d\u00e1 certa facilidade para ouvir apreciando o que esta acontecendo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Ainda toca?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: N\u00e3o, mas eu gostava muito e ainda hoje tenho cole\u00e7\u00e3o de discos, foi ali\u00e1s um dos motivos, essa quest\u00e3o das grava\u00e7\u00f5es de discos foi evoluindo. Come\u00e7amos com os discos de vinil, e com as vitrolas que era o que chamava era vitrola, meio prec\u00e1rias, n\u00e3o davam t\u00e3o boa reprodu\u00e7\u00e3o, da\u00ed os discos passaram, foram evoluindo, at\u00e9 que hoje s\u00e3o grava\u00e7\u00f5es excelentes e os aparelhos tamb\u00e9m foram melhorando e com isso como eu n\u00e3o conseguia reproduzir o que estava nos discos, por isso tamb\u00e9m foi outro motivo de come\u00e7ar a relaxar. Mas o importante \u00e9 que agente pode ouvir melhor.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aluna: Nesse per\u00edodo onde o Sr. morou? e como era Salvador nessa \u00e9poca? j\u00e1 que o Sr. morou aqui.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: \u00c9 verdade, Salvador era muito diferente.\u00a0 Salvador naquele per\u00edodo de inf\u00e2ncia mesmo eu nem sei, mas quando eu estava come\u00e7ando a faculdade de medicina, Salvador tinha duzentos e oitenta mil habitantes, essa liga\u00e7\u00e3o com a regi\u00e3o metropolitana, n\u00e3o existia. Eu morei perto do Farol da Barra toda minha inf\u00e2ncia e vivia ali em frente \u00e0 praia, ao mar, isso tamb\u00e9m influenciou, fez parte da minha inf\u00e2ncia. E as coisas eram todas completamente diferentes, por exemplo, eram muito poucos os autom\u00f3veis em Salvador, agente conhecia quem eram as pessoas que passavam pela rua.\u00a0 H\u00e1 pouco tempo me pediram pra escrever, um amigo nosso que est\u00e1 escrevendo sobre a Rua Chile &#8211; que j\u00e1 foi a grife de Salvador &#8211; pediram para eu escrever as minhas mem\u00f3rias de Salvador e eu fiz isso est\u00e1 escrito, ainda n\u00e3o foi publicado mas est\u00e1 escrito. Voc\u00ea ia \u00e0 Rua Chile por um n\u00famero enorme de motivos, porque as coisas importantes estavam na Rua Chile. Por exemplo, quando se desconfiou que eu estava com a miopia o m\u00e9dico que fazia a prescri\u00e7\u00e3o estava na Rua Chile. A \u00f3tica onde eu comprava os \u00f3culos tava na Rua Chile. Quando eu era pequeno, menino mesmo que eu acompanhava minha m\u00e3e pra fazer compras eram na Rua Chile. A loja Duas Am\u00e9ricas era uma loja importante, havia casas de ch\u00e1, umas se chamavam casas de ch\u00e1, outras se chamavam sorveteria. A sorveteria cubana que ainda existe, est\u00e1 numa ponta da Rua Chile, voc\u00eas devem conhecer, ao lado do Elevador Lacerda e no outro extremo da Rua Chile no que se chamava largo do teatro que \u00e9 a Pra\u00e7a Castro Alves, tinha uma casa de ch\u00e1 que era assim mais sofisticada que se chamava a baiana, ent\u00e3o as pessoas faziam compras e depois iam pra sorveteria ou pra casa de ch\u00e1. Os consult\u00f3rios, o consult\u00f3rio de meu pai era num edif\u00edcio que j\u00e1 n\u00e3o existe, se chamava Palacete Catarino e ficava onde hoje tem um ponto de \u00f4nibus. Voc\u00eas est\u00e3o lembrados de um ponto de \u00f4nibus ali na Rua Chile? Ali ficava o Palacete Catarino, onde meu pai tinha consult\u00f3rio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Havia uma coisa que hoje tamb\u00e9m est\u00e1 diminuindo: a prociss\u00e3o de sexta-feira santa, a prociss\u00e3o do Senhor Morto, era um acontecimento na cidade, os homens iam de palet\u00f3 e gravata, vestidos de luto. O governador do estado, o prefeito da capital, todas as autoridades iam e ficava atr\u00e1s da est\u00e1tua do Senhor Morto, n\u00e3o sei se voc\u00eas conhecem, \u00e9 uma est\u00e1tua do Jesus Cristo deitado depois que saiu da cruz e por tr\u00e1s disso havia o palio que \u00e9 sinal de autoridade e os que est\u00e3o embaixo do palio s\u00e3o os que tinham autoridade, ficavam o cardeal, depois o arcebispo, ou melhor o arcebispo, depois o cardeal, ficava o governador, o prefeito e outras autoridades.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E n\u00f3s \u00edamos ent\u00e3o para o consult\u00f3rio do meu pai, que ficava sobre a Rua Chile, tudo era a Rua Chile, e assist\u00edamos passar a prociss\u00e3o e metade da Bahia ia l\u00e1 para isso. Bom enfim s\u00e3o varias lembran\u00e7as.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Metade da Bahia ia l\u00e1 e cabia, n\u00e9?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: E cabia isso que \u00e9&#8230; E vestido de luto, as esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio, televis\u00e3o nem se sonhava, durante aquele dia tocavam o que se chamava m\u00fasica cl\u00e1ssica, a ideia naturalmente era que fossem m\u00fasicas f\u00fanebres, mas na verdade eram m\u00fasicas cl\u00e1ssicas, ent\u00e3o voc\u00ea ouvia \u00f3pera, coisas assim, como se fosse pra sexta-feira santa, mas n\u00e3o tinha nada de f\u00fanebre.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Era ali na Rua Chile que tinha que ficaram famosas aquelas bancas de jornais, como \u00e9 que era a informa\u00e7\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Antes disso, s\u00f3 pra lembrar, ainda na Rua Chile estava o pal\u00e1cio do governo, o pal\u00e1cio de despacho do governo e curiosamente esse pal\u00e1cio de despacho do governo que \u00e9 o pal\u00e1cio rio branco, que hoje, dizem at\u00e9 que o governador Wagner quer restaurar isso, mas durante muitos anos deixou de ser a sede do governo, mas ali \u00e9 que Tom\u00e9 de Sousa instalou a primeira sede do governo, era realmente um local muito bonito, de manh\u00e3 \u00e9 um deslumbramento, de tarde pega um sol de \u201cporrete\u201d danado, mas era uma localiza\u00e7\u00e3o privilegiada e ainda \u00e9. \u00c9 tamb\u00e9m privilegiada do ponto de vista da defesa, porque fica no alto os navios invasores que quisessem entrar pela baia encontravam ali uma posi\u00e7\u00e3o de defesa com canh\u00f5es que ficavam assentados. Ent\u00e3o aquele local foi sede do governo da Bahia durante mais de quatrocentos anos. Pois bem ent\u00e3o essa era uma das coisas da Rua Chile. A outra coisa \u00e9 que, eu ia tamb\u00e9m quando voc\u00ea&#8230;\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: As bancas de revista e os jornais.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: As bancas de revistas e os jornais, A Tarde tamb\u00e9m ficava ali e haviam outras coisas assim do dia a dia das pessoas, eram os bondes, o meio de transporte coletivo era o bonde e os trilhos dos bondes passavam para um lado e para outro, os bondes iam at\u00e9 ali na Pra\u00e7a da S\u00e9. Existia a Igreja da S\u00e9, que foi uma das primeiras igrejas a serem constru\u00eddas aqui e que na d\u00e9cada de 20 e &#8220;tanto&#8221; pra 30 houve uma pol\u00eamica terr\u00edvel, porque havia os que quiseram demolir a \u201cS\u00e9\u201d e outros que n\u00e3o aceitavam isso e acusaram o Arcebispo de ter sido favor\u00e1vel a uma das decis\u00f5es. Quem tem um livro sobre isso, \u00e9 um livro, isso coube&#8230; Fernando Peres, voc\u00ea conhece? Fernando Peres estudou muito foi at\u00e9 Portugal estudar isso, tem um livro que \u00e9 sobre o caso da demoli\u00e7\u00e3o da S\u00e9 e dentro desse pr\u00e9dio da S\u00e9, era um pr\u00e9dio de constru\u00e7\u00e3o muito antiga e que tinham ra\u00edzes que iam at\u00e9 a Cidade Baixa, parte dos alicerces iam at\u00e9 a Cidade Baixa e tinha pe\u00e7as de artes sacras muito importantes algumas delas foram deslocadas, foram guardadas, vamos dizer, no Museu de Arte Sacra, que voc\u00eas conhecem e entre essas o altar principal do Museu de Arte Sacra, o altar de prata que est\u00e1 l\u00e1, porque o altar que era pr\u00f3prio da capela, era um altar sem valor art\u00edstico nem hist\u00f3rico, ent\u00e3o o altar da S\u00e9 que \u00e9 um altar todo de prata foi colocado l\u00e1, voc\u00eas podem ver isso a qualquer momento chegando l\u00e1. Sim, mas voc\u00ea ia perguntar pela quest\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Vamos aproveitar as pol\u00eamicas dessa \u00e9poca, tem uma contempor\u00e2nea nessa \u00e1rea. O que o senhor achou da Prefeitura com aquele pr\u00e9dio moderno l\u00e1 naquela pra\u00e7a?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: \u00c9, realmente foi muito estranho, aquela pra\u00e7a que \u00e9 a Pra\u00e7a Municipal. Era cercada de edif\u00edcios bonitos, alguns outros n\u00e3o eram s\u00f3 pela beleza, mas eram pelo valor hist\u00f3rico do local, um era Rio Branco, que ainda est\u00e1 l\u00e1, o pr\u00e9dio \u00e9 do fim do s\u00e9culo XIX, \u00e9 um pr\u00e9dio bonito, rico de certo modo, tem o Elevador Lacerda, que todos conhecem que foi uma marca da cidade de Salvador, tinha a biblioteca do Estado, que ficava eu creio que \u00e9 onde \u00e9 hoje o pr\u00f3prio pr\u00e9dio, eram dois pr\u00e9dios ali, um era a biblioteca e o outro eu at\u00e9&#8230;\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: N\u00e3o era onde \u00e9 o Bradesco hoje n\u00e3o, na esquina da ladeira da pra\u00e7a n\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Esse \u00e9 defronte, do outro lado, esse pr\u00e9dio novo, n\u00e3o chama novo n\u00e3o, chama o novo n\u00e3o, tem uma express\u00e3ozinha meio pejorativa que vem de novo para dizer que \u00e9 Modernoso! Esse pr\u00e9dio modernoso, al\u00e9m do pr\u00e9dio propriamente ao lado tem um acesso para estacionamento e coisa assim, ent\u00e3o ali havia dois pr\u00e9dios um era a biblioteca do estado. O outro, eu agora at\u00e9 n\u00e3o estou me lembrando exatamente o que era e tinha o mais antigo de todos que era a C\u00e2mara Municipal que fica bem em frente ao \u201cLacerda\u201d, do outro lado. Esse pr\u00e9dio ali funcionou a Prefeitura por muito tempo, mas o pr\u00e9dio se destinava mesmo era a ser a C\u00e2mara municipal e continuou e agora a C\u00e2mara municipal criou um espa\u00e7o cultural, uma coisa assim, que fica do lado de l\u00e1 da biblioteca, aproveitando aquela vista que \u00e9 maravilhosa. Mas ent\u00e3o, era Pra\u00e7a Municipal, era a pra\u00e7a principal de Salvador e a outra pra\u00e7a que vem logo sem seguida que \u00e9 vazia hoje, a Pra\u00e7a da S\u00e9, ali ficava a Igreja da S\u00e9 que foi demolida. E em volta da Igreja da S\u00e9 existia a rua do col\u00e9gio onde existia uma famosa livraria onde eu como menino e todos os meninos da \u00e9poca \u00edamos comprar caderno, l\u00e1pis, livro, r\u00e9gua, esse neg\u00f3cio todo. Tudo isso desapareceu com a destrui\u00e7\u00e3o do, a demoli\u00e7\u00e3o do quarteir\u00e3o da &#8220;S\u00e9&#8221;. Mas a quest\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o, bem, podemos logo dizer que televis\u00e3o n\u00e3o existia, isso \u00e9 f\u00e1cil. A internet ainda menos. Ent\u00e3o, o que \u00e9 que havia? Havia os jornais impressos. Naquele tempo eram v\u00e1rios jornais. A Tarde foi o que sobreviveu por mais tempo. \u00c9,\u00a0 A Tarde vem de 1.912, acho que 1.912. Ernesto Sim\u00f5es Filho foi quem criou e continua com a fam\u00edlia at\u00e9 hoje. Bem, al\u00e9m do A Tarde existia O Imparcial, o Estado da Bahia, o Di\u00e1rio de Not\u00edcias. Esses dois, durante muito tempo foram do Duarte de Assis Chateaubriand, que eram uma cadeia. Cadeia dos di\u00e1rios associados. Isso Nelson com certeza conheceu, voc\u00eas talvez n\u00e3o tenham conhecido. Que Assis Chateaubriand foi uma personalidade aqui nesse Brasil, \u00c9, e talvez mais algum. Esses seguramente s\u00e3o da minha \u00e9poca. Na minha \u00e9poca existiam esses quatro ou cinco jornais, que eram constantemente lidos, um pouco rivais uns dos outros n\u00e9, cada qual com um colorido pol\u00edtico. Bem, e havia a r\u00e1dio n\u00e9, a r\u00e1dio que come\u00e7ou a\u00ed pela d\u00e9cada de 30. Pelo menos como uma&#8230; mais divul&#8230; mais difundido. Agora quando come\u00e7ou exatamente, isso eu n\u00e3o sei lhe dizer. A mais importante das r\u00e1dios naquela \u00e9poca era a R\u00e1dio Sociedade da Bahia, \u00e9 PRA4, n\u00e3o sei se continuam com esse prefixo. Que durante algum tempo foi do Assis Chateaubriand tamb\u00e9m, mas teve outros nomes antes e depois. Hoje eu tenho a impress\u00e3o at\u00e9 que t\u00e1 com alguma dessas igrejas n\u00e9? \u00c9. T\u00e1 com uma das igrejas evang\u00e9licas. Esse \u00e9 o mais antigo. Durou, depois vieram muitos outros n\u00e9? Estou que esse n\u00famero de esta\u00e7\u00f5es j\u00e1 chegou a umas dez ou por a\u00ed.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: E os jornais de fora chegavam?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Pouco. Tardiamente. Como hoje por exemplo voc\u00ea tem A Folha de S\u00e3o Paulo, O Estad\u00e3o, antes disso O Globo era talvez&#8230; o Jornal do Brasil, O Globo. Quando o Rio de Janeiro era a capital, o que infelizmente deixou de ser, n\u00e3o foi s\u00f3 pelo aspecto de sede do governo, mas a capital cultural, capital , vamos dizer, empresarial, financeira e tal, o Rio de Janeiro teve uma import\u00e2ncia na vida do pa\u00eds n\u00e9, que foi em partes substitu\u00edda pelo crescimento de S\u00e3o Paulo, e o Rio de Janeiro ficou pra traz, e em parte como sede do governo que foi Bras\u00edlia, mas que n\u00e3o tem nada dessas outras caracter\u00edsticas. Bras\u00edlia demorou muito em ter algum m\u00ednimo desenvolvimento cultural, e ainda n\u00e3o tem, e art\u00edstico, tamb\u00e9m n\u00e3o tem, e tudo isso se concentrava no Rio de Janeiro. Era o Rio de Janeiro! Os brasileiros pensavam muito, sonhavam muito em se aposentar e ir morar no Rio, que era uma cidade agrad\u00e1vel e tal. Depois cresceu muito, os servi\u00e7os pioraram a qualidade, a qualidade dos servi\u00e7os ficou realmente muito ruim, e depois veio o problema da viol\u00eancia n\u00e9, o problema da viol\u00eancia que ainda t\u00e1 persistindo. Ficam dizendo que melhorou e tal, mas ainda existe muita.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Professor Roberto, voltando um pouquinho l\u00e1 no in\u00edcio da fam\u00edlia, quer dizer, o senhor conviveu com uma fam\u00edlia que depois o pai foi o reitor e fundador dessa universidade.\u00a0 \u00a0 Como era essa conviv\u00eancia familiar?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Pois n\u00e3o&#8230; Bem como eu disse meu pai era cirurgi\u00e3o n\u00e9, e ele tinha uma cl\u00ednica particular que atendia no sanat\u00f3rio espanhol, que ainda existe e voc\u00eas todos conhecem. Ele foi diretor cl\u00ednico do Sanat\u00f3rio Espanhol durante uns 30 anos. Faleceu em 1.962. Pois bem, ent\u00e3o ele&#8230; e ao mesmo tempo em 1.926 ele foi nomeado professor interino e depois em 1927, ele fez concurso e se tornou catedr\u00e1tico de cirurgia e a faculdade de medicina, a parte cl\u00ednica da faculdade de medicina naquela \u00e9poca ficava no Hospital Santa Izabel, que era tamb\u00e9m muito diferente do que \u00e9 hoje. Era um hospital antiquado, sem enfermagem. \u00a0A enfermagem foi a grande diferen\u00e7a na aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade aqui no Brasil, e ele teve muito que ver com isso, ah&#8230; ent\u00e3o, tinha o Hospital Santa Izabel que era onde se fazia a parte, da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia, onde se fazia a parte cl\u00ednica do curso m\u00e9dico. Bom, ent\u00e3o ele de dia,\u00a0 dividia o tempo entre a c\u00e1tedra na Faculdade de Medicina e a cl\u00ednica privada, e n\u00f3s \u00edamos para o col\u00e9gio, \u00edamos para as aulas, e quando chegava a noite, ele tinha um carrinho de uma marca que tamb\u00e9m n\u00e3o existe mais, e ele ia visitar os pacientes que ele tinha operado durante o dia, e n\u00f3s \u00edamos com a minha m\u00e3e e com ele e sa\u00edamos \u00e0 noite esse era um hor\u00e1rio assim, de revela\u00e7\u00f5es, porque nos \u00edamos, sa\u00edamos com ele pra visitar os pacientes que ele tinha operado no dia, ou na v\u00e9spera e tal. Fora da\u00ed, n\u00f3s and\u00e1vamos todos de bonde. Fam\u00edlias que transportam os filhos de autom\u00f3vel, que hoje em dia s\u00e3o muito frequentes, naquele tempo nem se cogitava disso, ent\u00e3o os meninos todos andavam de bonde, e no caso do Vieira, eu e v\u00e1rios outros colegas que mor\u00e1vamos pro lado da Barra, tom\u00e1vamos o transporte para o bonde da Barra Avenida ,que entrava pelo Campo Grande, para o lado, em dire\u00e7\u00e3o ao Garcia, desc\u00edamos do bonde l\u00e1, naquele lado per.. ali em frente ao Castro Alves, e and\u00e1vamos a p\u00e9 at\u00e9 o Vieira. Ent\u00e3o quatro vezes por dia de manh\u00e3, \u00edamos pro Vieira, meio dia volt\u00e1vamos, de tarde \u00edamos outra vez ,depois volt\u00e1vamos&#8230; a p\u00e9! E tudo isso ningu\u00e9m reclamava nem achava&#8230; era a vida da \u00e9poca n\u00e9? Pois bem, isso ent\u00e3o at\u00e9 o tempo da faculdade n\u00e9? O tempo da faculdade \u00e9 que passamos a ir da Barra pra Nazar\u00e9 onde tom\u00e1vamos dois bondes, um bonde que ia da Barra at\u00e9 o Rel\u00f3gio de S\u00e3o Pedro e ali no Rel\u00f3gio de S\u00e3o Pedro n\u00f3s peg\u00e1vamos o bonde de Nazar\u00e9. A linha que vinha de Terreiro&#8230; tudo acabava no Terreiro. Ent\u00e3o do Terreiro at\u00e9 Nazar\u00e9 que era a linha 1. Esses n\u00fameros de linhas ficaram pra vida inteira. O n\u00famero 1 era o bonde de Nazar\u00e9, o n\u00famero 2 era o bonde da Barra, o \u00a0n\u00famero 3 era o Bonde do Canela, o n\u00famero 4 era o bonde da Barra Avenida, o n\u00famero 5 era o bonde dos Barris, n\u00famero 6 \u00e9 a Gra\u00e7a e por essa a fora. Isso levou d\u00e9cadas assim.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aluna: O senhor fala \u201cn\u00f3s\u201d, o senhor e seus irm\u00e3os? O senhor pode falar o nome deles, a quantidade, quantos irm\u00e3os o sr. tinha?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Irm\u00e3os e parentes, primos. Ah, eu tenho um mais velho e um mais novo. O mais velho era tr\u00eas anos mais velho do que eu. Foi o que formou-se em medicina. O que tamb\u00e9m n\u00e3o era raro, formou-se em medicina mas tornou-se empres\u00e1rio. E o mais novo formou-se em engenharia, trabalhava na prefeitura daqui, mas faleceu muito cedo. E eu que fui estudar medicina e fiquei nessa vida universit\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aluna: E pensou em algum momento ter alguma outra forma\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser a medicina?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Bom, \u00e9.. na verdade se voc\u00ea me perguntar se eu fui pra medicina por uma voca\u00e7\u00e3o que n\u00e3o permitia outras hip\u00f3teses eu&#8230; realmente o que havia, e eu vi isso, por exemplo, tamb\u00e9m com meu irm\u00e3o, e havia muitos outros m\u00e9dicos que eram assim, que se formaram em medicina e nunca exerceram. Eu fui mais longe que isso que eu formei em medicina e fui ser professor e outros neg\u00f3cios&#8230; mas a faculdade de medicina tinha uma influ\u00eancia muito grande na vida social da cidade e era de longe a melhor educa\u00e7\u00e3o no sentido amplo que voc\u00ea obtinha nessa cidade. Ent\u00e3o, eu acho que eu fui um pouco atra\u00eddo por isso tamb\u00e9m. Depois, meu pai era m\u00e9dico e como professor ele tinha assistentes que trabalhavam junto com ele e que eram pr\u00f3ximos a n\u00f3s e que conversavam, ent\u00e3o, esses eram todos m\u00e9dicos, os amigos dele tamb\u00e9m eram m\u00e9dicos,enfim, era um ambiente muito da \u00e1rea m\u00e9dica. Isso, sem d\u00favida, influenciou e com isso eu fui pra medicina e fiquei.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aluna: O senhor falou sobre outras l\u00ednguas, franc\u00eas, o quanto era importante para a medicina, como se deu sua forma\u00e7\u00e3o em outras l\u00ednguas?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Pois n\u00e3o. Essa outra coisa \u00e9 um dos motivos ali\u00e1s de ter sido, vamos dizer, educado, ter feito primeiro curso prim\u00e1rio em casa. \u00c9 que com isso n\u00f3s aprendemos l\u00ednguas muito cedo. Eu comecei a aprender Alem\u00e3o, naquela \u00e9poca tava mais influente no mundo todo, quase que ao mesmo tempo que fui aprender Portugu\u00eas. Depois, no gin\u00e1sio era obrigat\u00f3rio pra todos, primeiro ano de gin\u00e1sio todos aprendiam Franc\u00eas. Isso era obrigat\u00f3rio, e continuava Franc\u00eas todo o curso do gin\u00e1sio, e no segundo ano come\u00e7\u00e1vamos ingl\u00eas. Ent\u00e3o havia muito pouco livro t\u00e9cnico, cient\u00edfico, em portugu\u00eas. Ent\u00e3o, pra fazer um curso superior e pra fazer com certa profundidade voc\u00ea precisava da l\u00edngua estrangeira. Isso mudou muito, muito mesmo, mas era regra. O que havia de livro t\u00e9cnico em portugu\u00eas era pouqu\u00edssimo. Tinham os de segundo grau, de primeiro grau, mas livros t\u00e9cnicos de n\u00edvel mais alto n\u00e3o existiam.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: O senhor estudou no Vieira e nessa \u00e9poca voc\u00ea tinha um sistema p\u00fablico de educa\u00e7\u00e3o que era consider\u00e1vel, n\u00e9?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Tinha, o gin\u00e1sio da Bahia era tal coisa, gin\u00e1sio da Bahia realmente, se fala muito que tinha professores que eram do mais alto n\u00edvel, e havia muito professor do gin\u00e1sio da Bahia que era das faculdades e vice-versa. V\u00e1rios dos colegas do meu pai eram professores do gin\u00e1sio da Bahia, e professores destacados. E&#8230; essa condi\u00e7\u00e3o depois mudou, mas&#8230; e fala-se muito que naquele tempo, os gin\u00e1sios eram formid\u00e1veis e num sei o que, mas na verdade era uma elite. Era uma elite de alunos muito reduzida em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o da idade escolar e era uma elite de professores. \u00c9, ent\u00e3o, a evolu\u00e7\u00e3o nesse sentido eu n\u00e3o creio que tenha sido negativa, pelo contr\u00e1rio, a qualidade baixou mas a quantidade n\u00e9, a&#8230; vamos chamar pra usar uma palavra bonita, democratiza\u00e7\u00e3o do ensino, essa \u00e9 vis\u00edvel. Agora h\u00e1 umas coisas sim, por exemplo, quando se fala que as escolas&#8230; o curso prim\u00e1rio de hoje \u00e9 fraqu\u00edssimo, o que \u00e9 verdade, e assim por diante, \u00e9 preciso lembrar que muitos dos alunos que est\u00e3o agora fazendo o primeiro grau e o segundo grau s\u00e3o os primeiros da fam\u00edlia que est\u00e3o fazendo algum curso desses e muitas dessas fam\u00edlias n\u00e3o assimilaram ainda o significado dessa oportunidade de educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, enquanto assim como voc\u00ea ouve falar que na Coreia do Sul, na Singapura, n\u00e3o sei o que, as fam\u00edlias pressionam os meninos, n\u00f3s que de certo modo faz\u00edamos parte dessa elite \u00e9ramos pressionados para estudar. Os pais acompanhavam isso muito de perto. Eu estou vendo que ultimamente mudou outra vez. Os meus netos que s\u00e3o do Vieira tem um acompanhamento pelos pais deles &#8211; Quer dizer, pelos meus filhos e filhas &#8211; que \u00e9 muito mais intenso do que era no meu tempo. Ent\u00e3o houve uma&#8230; isso voltou outra vez. Mas as oportunidades que essa grande massa de estudantes tem hoje, eles n\u00e3o tem, n\u00e3o sofrem a press\u00e3o das fam\u00edlias que em outros pa\u00edses voc\u00ea v\u00ea. Outra coisa que voc\u00ea v\u00ea tamb\u00e9m em outros pa\u00edses, \u00e9 que o professor prim\u00e1rio n\u00e9, \u00e9 uma personalidade dentro da comunidade. Nas cidades pequenas o professor \u00e9 uma grande figura. Aqui nem sempre, \u00e9 da tradi\u00e7\u00e3o. Os nossos antepassados portugueses n\u00e3o faziam muita quest\u00e3o disso. Voc\u00ea v\u00ea, nos estados de imigra\u00e7\u00e3o de outros pa\u00edses da Europa, voc\u00ea v\u00ea mais isso n\u00e9? Italianos, espa&#8230;, ha, por&#8230; Alem\u00e3es eles pressionam muito mais as fam\u00edlias do que aqui. Aqui houve um pouco de relaxamento. \u201cAqui\u201d eu digo nos que vem de origem portuguesa. Porque Portugal tamb\u00e9m nunca foi um grande pa\u00eds no ponto de vista cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Muito bem. Ent\u00e3o a\u00ed passamos um pouco pela sua inf\u00e2ncia ai&#8230; ai casou! Conte um pouquinho. [Risos]<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Pois n\u00e3o. Eu fiquei viajando pelo exterior, fiz algumas viagens quando estava solteiro ainda, que talvez n\u00e3o fosse t\u00e3o f\u00e1cil com fam\u00edlia, eu sei que eu casei tarde.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Viajava de que? De navio?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: \u00c9. quando eu terminei o curso m\u00e9dico eu j\u00e1 estava com uma programa\u00e7\u00e3o pra ir pra uma bolsa nos Estados Unidos. Era uma bolsa da Funda\u00e7\u00e3o Kellogs. O Kellogs que faz as&#8230; as comidas de&#8230; de cereal, essa coisa a\u00ed. E da\u00ed ent\u00e3o, eu j\u00e1 no primeiro ano depois de formado, era justamente depois da guerra, a Europa tinha se ocupado do Plano Baixo, que foi um apoio \u00e0 Europa, e quando foi por volta de 1.950, os Estados Unidos come\u00e7aram a voltar as vistas pro lado de c\u00e1 e a Funda\u00e7\u00e3o Kellogs foi encarregada de financiar prov\u00e1veis lideran\u00e7as da \u00e1rea da sa\u00fade. Ent\u00e3o, aqui no nosso hospital, n\u00f3s fomos bastante&#8230; e na Faculdade de Medicina, fomos bastante beneficiados pela funda\u00e7\u00e3o Kellogs. Pois bem. Da\u00ed ent\u00e3o eu fui primeiro pra um curso em Nova York, no hospital Melville, que \u00e9 um grande hospital, estilo Santa Casa, da municipalidade de Nova York. Veja voc\u00ea&#8230; com outros m\u00e9dicos estrangeiros fomos pra esse curso, pra fazer uma adapta\u00e7\u00e3o aos m\u00e9todos americanos de exerc\u00edcio da medicina e de ensino m\u00e9dico. E da\u00ed eu fui pra Ann Arbour\/ Michigan, que \u00e9 relativamente perto de Minnesota &#8211; \u00e9 mais perto &#8211; e fiquei l\u00e1 um ano e meio, e depois fui pra Boston, pra Harvard &#8211; Massachusetts General\u00a0 Hospital, a\u00ed pra fazer pesquisa. E Boston na \u00e1rea m\u00e9dica \u00e9 realmente a Meca. O que \u00e9 de melhor qualidade em todos os setores da medicina t\u00e1 em Boston. E eu acho que continua assim. Bom, a\u00ed foram tr\u00eas anos. Da\u00ed a pouco o CNPQ estava come\u00e7ando a funcionar, \u00e9, eu consegui uma bolsa pra ir pra Inglaterra. Mais tarde eu passei uma temporada na Alemanha, e com isso fui, fui me formando. Quando eu sentei aqui pra cuidar da vida, eu casei, ent\u00e3o j\u00e1 com alguns anos de atraso. Casei com uma mo\u00e7a daqui que tinha sido minha aluna, minha disc\u00edpula. Ela tava fazendo&#8230; eu era professor de Medicina, ela tava fazendo o curso de Nutri\u00e7\u00e3o, que era um curso que tava come\u00e7ando. E da\u00ed come\u00e7ou o namoro, e da\u00ed casamos e tivemos seis filhos, quase seguidos, um atr\u00e1s do outro. Desses seis filhos, pra voc\u00ea ver como as coisa mudam. Naquela \u00e9poca ter seis filhos era poss\u00edvel. N\u00e3o era f\u00e1cil mas era poss\u00edvel. Voc\u00ea pensar hoje em ter seis filhos&#8230; nem, nem cogitar! O resultado: esses meus seis filhos tiveram ao todo hoje sete netos! Bom, isso \u00e9 bem o esp\u00edrito dos tempos n\u00e9? Bom, da\u00ed vivemos uma vida realmente, uma vida de fam\u00edlia muito intensa e minha esposa faleceu h\u00e1 menos de dois&#8230; h\u00e1 um ano e pouco. E realmente foi uma perturba\u00e7\u00e3o muito grande na vida da gente. Tava toda&#8230; T\u00ednhamos 48 anos de casados, ela teve um fim de vida dif\u00edcil, \u00e9, ent\u00e3o foi, foi complicado. E dos meninos, s\u00e3o seis como eu disse entre meninos e meninas, tr\u00eas moram aqui, tr\u00eas moram fora. Cada qual seguiu uma carreira diferente. Ningu\u00e9m duplicou a carreira do outro e escolhas espont\u00e2neas, n\u00e3o influenciamos nada. Tem de tudo. Tem uma m\u00e9dica, tem um doutor em inform\u00e1tica, tem uma doutora em agronomia, tem, enfim \u00e9&#8230; tem administrador de imprensa \u00e9 &#8211; de empresa. \u00c9 tudo variado. E vivemos uma vida de fam\u00edlia muito unida. Felizmente!\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Com muita conviv\u00eancia familiar? A casa era muito animada sempre?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: A casa era animada, continua sendo porque com meios de comunica\u00e7\u00e3o, eles se comunicam constantemente conosco, e vivemos uma vida comum.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Maria Am\u00e9lia foi sua professora de inform\u00e1tica, n\u00e9? Eu sei disso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: \u00c9, ela aprendeu mais r\u00e1pido do que eu [risos]. Passava pra mim essas coisas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Jamile Sampaio: Como o senhor encarou essa mudan\u00e7a tecnol\u00f3gica nos meios de comunica\u00e7\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Bom, eu fui procurando me adaptar e algumas coisas eu aprendi, outras n\u00e3o. Se voc\u00ea falar por exemplo da televis\u00e3o e do celular, eu s\u00f3 aproveito telefone celular, sei l\u00e1, 40%, 50% do que ele pode dar, e no computador \u00e9 claro que \u00e9 a mesma coisa ou at\u00e9 mais [Risos]. Porque, por exemplo, no computador o que eu uso mais \u00e9 editor de texto, isso para mim foi o que voc\u00ea pode chamar de uma revolu\u00e7\u00e3o, o editor de texto realmente facilita para voc\u00ea escrever e depois rabiscar, como eu rabiscava antigamente, riscava, voltava para tr\u00e1s, tornava a riscar, isso no computador voc\u00ea faz de uma maneira tranquila e limpa, os meus escritos antigamente eram todos sujos de rabiscos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Bom, para n\u00e3o falar que haviam telefone, essas coisas todas, o telefone, o que j\u00e1 foi o telefone, se levava seis vezes para conseguir uma linha, eu morei bastante tempo na Pituba, eu morei por quarenta anos na Pituba. Peguei a Pituba quando era local de veraneio e os fins de semana. E fui morar e l\u00e1 n\u00e3o tinha nada, inclusive n\u00e3o tinha telefone, n\u00e3o tinha uma farm\u00e1cia, depois a Pituba estourou como voc\u00eas conhecem e talvez alguns de voc\u00eas morem l\u00e1 agora, a Pituba estourou com o Polo Petroqu\u00edmico. O Polo&#8230; a vida para quem vem do Polo. Voc\u00ea morou l\u00e1 n\u00e3o foi?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: N\u00e3o morava aqui. A minha m\u00e3e mora l\u00e1.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Sua m\u00e3e ainda mora l\u00e1? Se voc\u00ea vem pela via parafuso,\u00a0 o primeiro bairro vamos dizer, urbano propriamente, antes de entrar na confus\u00e3o do tr\u00e1fego \u00e9 a Pituba. Ent\u00e3o aquilo que era vazio, a Pituba tinha sido uma fazendinha, foi toda loteada e da\u00ed ent\u00e3o teve um crescimento explosivo, assim, r\u00e1pido. A ponto que hoje para voc\u00ea morar no andar t\u00e9rreo ou em casa na Pituba, n\u00e3o \u00e9 conveniente, da\u00ed h\u00e1 uns 10 anos eu me mudei, mas morei 40 anos na Pituba.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: O Senhor mora onde hoje?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: hoje eu moro em frente ao Hospital Alian\u00e7a, tem uma por\u00e7\u00e3o de condom\u00ednios ali, e n\u00f3s mudamos para um desses condom\u00ednios.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Como o senhor v\u00ea as mudan\u00e7as do jeito de morar na cidade? Que \u00e9 muito diferente n\u00e9?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: \u00c9 completamente diferente sim. A Barra era um bairro tranquilo, n\u00f3s falamos em mudan\u00e7a na Rua Chile, mas eu acho que tanto a mais que a Rua Chile, mudou a Barra.\u00a0 A Barra hoje \u00e9 completamente diferente do que era. Era um bairro muito tranquilo voc\u00ea conhecia praticamente todo mundo que morava l\u00e1. O transporte era um bonde e um pouco do autom\u00f3vel, as pessoas, as poucas pessoas tinham autom\u00f3veis, e era um bairro tranquilo, e agora est\u00e1 uma confus\u00e3o [Risos]. N\u00e3o sei se alguns de voc\u00eas frequentam l\u00e1, vive l\u00e1, mudou completamente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Aluna: Muitas constru\u00e7\u00f5es?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: \u00c9, constru\u00e7\u00f5es e sobretudo, o aspecto social da vida, mudou muito, virou com\u00e9rcio de dia e de noite tem muito barzinho, muitas coisas dessas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Queria voltar um pouquinho ent\u00e3o agora para a quest\u00e3o da Universidade, que \u00e9 nosso lugar assim&#8230; o Senhor entrou cedo n\u00e9, como Professor titular na \u00e9poca que existia a figura de Catedr\u00e1ticos. Fala um pouquinho sobre a hist\u00f3ria do Catedr\u00e1ticos que \u00e9 marcante na Universidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Isso foi uma das grandes modifica\u00e7\u00f5es no ponto de vista na educa\u00e7\u00e3o no Brasil. Que \u00e9 o regime de C\u00e1tedra, tenho dito, era um regime monocr\u00e1tico, quem decidia era o professor catedr\u00e1tico e ponto final. Ele tinha assistentes, nem se chamava, como hoje tem a categoria de professor assistente, professor adjunto e assim por diante, naquele tempo era o professor e seus assistentes, e por exemplo, na Faculdade de Medicina, durante d\u00e9cadas havia 35, 36, 37 catedr\u00e1ticos, os outros eram assistentes. Na Faculdade de Medicina, as disciplinas b\u00e1sicas eram todas no terreiro, num pr\u00e9dio que tava meio obsoleto e os laborat\u00f3rios eram antiquados e eram pobres e a parte cl\u00ednica era no Santa Isabel, que para se ter uma ideia, naquela \u00e9poca mudou completamente. Mas naquela \u00e9poca n\u00e3o existia enfermagem, quando eu era estudante, os pacientes n\u00e3o se incomodavam de ficar no hospital, eles tinham sua vida, mas a condi\u00e7\u00e3o social da maior parte dos pacientes de Santa Isabel, levava aqueles que preferissem ficar no hospital. Eles tinham melhor condi\u00e7\u00e3o, tinham comida, n\u00e3o tinham que se esfor\u00e7ar com servi\u00e7os em casa, n\u00e3o tinham de trabalhar, e com isso eles ficavam, por uma temporada sem reclamar. Hoje voc\u00ea vai, por exemplo, no Hospital das Cl\u00ednicas, mudou desde a faixa et\u00e1ria, at\u00e9 a condi\u00e7\u00e3o social do paciente mesmo sendo paciente do SUS. Naquele tempo, existia o que chama paciente indigente, paciente indigente \u00e9 o que n\u00e3o tem a que apelar,vamos dizer, n\u00e3o tinha seguro sa\u00fade, n\u00e3o tinha SUS, eles ent\u00e3o iam para o hospital, onde eles se prestavam a ser objeto de estudo, de ensino, de pesquisa e assim por diante. E tudo, estava tudo muito bem, porque eles eram indigentes, eles n\u00e3o tinham direitos. \u00c9 uma coisa impressionante, voc\u00ea via, por exemplo, o m\u00e9dico marcava a consulta de uma pessoa que vinha l\u00e1 do sub\u00farbio, para um dia, uma hora, e n\u00e3o ia e pronto, n\u00e3o foi, a pessoa vinha de longe, com sacrif\u00edcio, o dinheiro de transporte e tal, e pronto: &#8220;N\u00e3o o m\u00e9dico n\u00e3o veio hoje e acabou&#8221;. E ningu\u00e9m reclamava nada. Era realmente um ambiente social completamente diferente, hoje ainda tem um pouco isso, mas n\u00e3o se compara com o que era. Quando se fala, conservando ainda na \u00e1rea m\u00e9dica, quando voc\u00ea fala em qualidades de assist\u00eancia m\u00e9dica, sem d\u00favida h\u00e1 queixas: \u201co ambulat\u00f3rio fechou, faltou isso, o aparelho de raio x t\u00e1 quebrado\u201d, esse tipo de coisa, mas comparado com que era, pegando essa coisa, vamos dizer, no atacado e grosso, sem d\u00favida assist\u00eancia a sa\u00fade melhorou muito, melhorou muito, precisamos ainda levar para frente muita coisa, mas sem d\u00favida melhorou.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: O SUS foi muito importante, n\u00e9?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: O SUS foi a constitui\u00e7\u00e3o de 88, foi uma mudan\u00e7a radical, sobre esse aspecto. O indigente deixou de existir e era uma coisa que voc\u00ea ouvia toda a hora, era alguma correntes eram indigentes. Indigente assim, n\u00e3o tinha direitos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: E como era a hist\u00f3ria, o Senhor falava um pouco do indigente, da \u00e9tica m\u00e9dica nas pesquisas, tinham algum tipo de preocupa\u00e7\u00e3o sobre isso?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Havia um pouco, mas uma coisa mais remota, e que n\u00e3o era cobrada, de vez em quando voc\u00ea ouvia um coment\u00e1rio, n\u00e3o era cobrado de modo algum como \u00e9 hoje. E tamb\u00e9m havia muito menos pesquisas. Muito menos. Houve um per\u00edodo em que, no caso ainda da medicina, para ter o diploma de m\u00e9dico, voc\u00ea tinha de defender uma tese. Essas teses est\u00e3o a\u00ed, est\u00e3o impressas, a Faculdade de Medicina, tem teses de Paris, tem teses de Buenos Aires, tem teses do Rio de Janeiro, n\u00e3o sei mais de onde e tem as teses da Bahia, mas eram trabalhos muitos rudimentares, muito mesmo, n\u00e3o havia linha de pesquisa, o estudante via na literatura qualquer coisa, e era mais revis\u00e3o de literatura do que trabalho original.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Era uma forma\u00e7\u00e3o mais pr\u00e1tica do que hoje ou n\u00e3o \u00e9?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Era a especializa\u00e7\u00e3o precoce, quer dizer no caso da medicina, depois podemos falar alguma coisa das outras profiss\u00f5es que eu conhe\u00e7o muito menos. Mas, no caso da medicina voc\u00ea entrava para faculdade, escolhia um servi\u00e7o, e fazia tr\u00eas, quatro anos, as vezes cinco anos naquele servi\u00e7o, quer dizer, as vezes por inclina\u00e7\u00e3o ou por voca\u00e7\u00e3o, as vezes por parentesco, as vezes por acaso, voc\u00ea entrava para a cl\u00ednica onde voc\u00ea tinha algum conhecido, ou amigo e fazia sua especializa\u00e7\u00e3o, fazia seu curso de medicina naquele servi\u00e7o. Na parte cl\u00ednica, as exig\u00eancias para a aprova\u00e7\u00e3o os crit\u00e9rios para dar a nota, eram muito frouxos, haviam um professor ou dois que exigiam e esses eram conhecidos, mas a grande maioria passavam por acaso. Bem, o importante era o vestibular, passou no vestibular, ainda tinha uma anatomia que era exigente, que era muito chata, muito mal lecionada. Mas tinha que fazer, havia umas outras disciplinas que eram mais assim de banco escolar, mas a parte importante do curso que era a parte m\u00e9dica, os \u00faltimos tr\u00eas a quatro anos eram nessa base, as provas eram muito simplificadas, e com isso voc\u00ea se formava inteiramente fora das exig\u00eancias regimentais e \u00e9 porque as provas eram julgadas muito simplesmente e voc\u00ea estava se especializando precocemente. Essa mudan\u00e7a, veio l\u00e1 depois da guerra, um pouco tamb\u00e9m da influ\u00eancia anglo-sax\u00f4nica e tal, foram mudando algumas dessas coisas, e depois veio a fase, essa coisa que estive mais envolvido, que foi a da restrutura\u00e7\u00e3o da Universidade, eu n\u00e3o sei o que voc\u00ea t\u00eam bem presente, at\u00e9 a d\u00e9cada de 1.930, portanto, h\u00e1 pouco anos, 50 anos, 60 anos, n\u00e3o existia Universidade no Brasil, existiam faculdades que correspondiam aquelas primeiras do tempo de D Jo\u00e3o VI, que eram escolas isoladas, quer dizer eles n\u00e3o eram ligadas a Universidade, nem uma academia, eram escolas completas em si mesmo. Ent\u00e3o se voc\u00ea estuda, por exemplo, engenharia, voc\u00ea tinha a matem\u00e1tica da engenharia, era da Escola Polit\u00e9cnica, matem\u00e1tica da arquitetura, era da Escola da Arquitetura, a matem\u00e1tica da Escola de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas, era da Economia, a matem\u00e1tica da Filosofia, era matem\u00e1tica propriamente dita. E por a\u00ed a fora haviam uma multiplica\u00e7\u00e3o de meios para fins id\u00eanticos, para F\u00edsica a mesma coisa, Qu\u00edmica, Geoci\u00eancias, Ci\u00eancias Humanas, Letras. Tudo isso era fragmentado, o que n\u00e3o dava massa cr\u00edtica de pessoal, nem de equipamento para fazer p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, nem para fazer pesquisa, a pesquisa era uma coisa espor\u00e1dica, assim. Algumas pessoas que se dedicavam, houve alguns nomes realmente muitos respeitados, mas era coisa rara. Ent\u00e3o, essas ci\u00eancias, pr\u00e9- profissionais serviam para que o estudante aprendesse algumas coisas, mas com objetivo, que era passar a pr\u00e1tica profissional. Essas ci\u00eancias b\u00e1sicas como ci\u00eancias b\u00e1sicas, pela import\u00e2ncia da disciplina \u00e9 muito recente, isso veio depois da d\u00e9cada de 1.930 para c\u00e1, ent\u00e3o veio p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e pesquisa, porque aquilo que era apenas um apoio, a compreens\u00e3o pr\u00e1tica profissional, passou a ser uma disciplina importante: a matem\u00e1tica, a f\u00edsica, a qu\u00edmica, etc. Bem, ent\u00e3o as faculdades brasileiras nasceram para suprir com maior rapidez poss\u00edvel os profissionais que n\u00e3o tinham vindo de Portugal. Ent\u00e3o a popula\u00e7\u00e3o cresceu, era preciso ter m\u00e9dico, era preciso ter bacharel em Direito, na pr\u00f3pria parte da engenharia, enquanto fomos col\u00f4nia, em Portugal faziam os projetos e pegavam as pedras e cortavam pedras que vinham nos lastros dos navios para aqui na Bahia ou para o Rio de Janeiro ou para Recife. Ent\u00e3o a pr\u00f3pria Engenharia ela \u00e9 extremamente prec\u00e1ria, quando chegou na d\u00e9cada de 1.908 isso come\u00e7ou a mudar com essas faculdades, que eram isoladas e completas em si mesmos. O setor\u00a0 b\u00e1sico do conhecimento, a parte pr\u00e9 profissional, servia apenas para preparar o futuro profissional. Bem, isso levou assim at\u00e9 a d\u00e9cada 1.930, quando come\u00e7aram as Faculdades de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras que passaram a ensinar setores b\u00e1sicos do conhecimento, ensinar e a pesquisar, come\u00e7ou uma Faculdade de Ci\u00eancias e Letras em S\u00e3o Paulo, que foi muito beneficiada, porque um dos professores viajou pela Europa para captar os s\u00e1bios, sobretudo o israelitas que estavam sendo expulsos pelo Nazismo. Ent\u00e3o professores de Matem\u00e1tica, de F\u00edsica, de Qu\u00edmica, da melhor categoria na Europa vieram para c\u00e1, isso fez S\u00e3o Paulo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">S\u00e3o Paulo tomou esse impulso todo, em fun\u00e7\u00e3o desses professores que vieram a menos de 100 anos, 80 anos, 70 anos. No Rio de Janeiro, foram sobretudo os franceses na \u00e1rea de Ci\u00eancias Humanas, na Faculdade de Filosofia no Rio coincide, mais ou menos, com a Faculdade de Filosofia de S\u00e3o Paulo, e mais ou menos, na mesma \u00e9poca come\u00e7aram as universidades, tinham vindo umas universidades criadas no papel, tem at\u00e9 umas coisas, meio irris\u00f3rias a esse respeito, por exemplo, no Rio de Janeiro, que era capital da Rep\u00fablica, eram onde estavam todos as pessoas assim de grande desenvolvimento intelectual , anunciou-se a visita do Rei da B\u00e9lgica, Rei Alberto I, foi uma grande personalidade, e tal, e procuravam ver que homenagem eles iriam fazer ao Rei Alberto , que honrava ao Brasil com a visita aqui e descobriram que era preciso dar um t\u00edtulo de doutor honoris causa, ent\u00e3o criaram uma universidade, eu n\u00e3o sei at\u00e9 onde isso \u00e9 verdade, mas \u00e9 a imagem que ficou. Para dar o t\u00edtulo de Doutor honoris causa ao Rei Alberto, da B\u00e9lgica, e a Universidade n\u00e3o funcionou, quer dizer, existiam a faculdade de Medicina, j\u00e1 tinha uma tradi\u00e7\u00e3o, Faculdade Direito do Rio, tinha muito tradi\u00e7\u00e3o, a Escola Polit\u00e9cnica tinha, mas universidade n\u00e3o existia, foi somente, as primeiras que criaram de 1.934, 1.935, para frente, a de S\u00e3o Paulo que teve muitos professores de fora, que era Estadual e a do Rio de Janeiro que se chamava Universidade do Brasil, para ver como era a ideia de tudo deveria ser concentrado, centralizado na capital da Rep\u00fablica, ent\u00e3o ficou Universidade do Brasil, e as faculdades tinham o t\u00edtulo, Faculdade Nacional de Direito, Faculdade Nacional de Engenharia, Nacional de Engenharia, quer dizer, eram os padr\u00f5es, as outras deviam se submeter, deviam copiar o que estava naquelas super faculdades e que na verdade n\u00e3o eram super coisa nenhuma, bem isso ent\u00e3o foi a partir, portanto, de 1.930. Aqui na Bahia ,a Universidade se criou em 1.946, no mesmo estilo das outras que vieram ter naquela \u00e9poca e depois at\u00e9 1.960, que era juntar as faculdades que j\u00e1 existiam, ent\u00e3o aqui tinha Faculdade de Medicina, que era mais prestigiosa, tinha a Faculdade de direito que tinham nomes famosos da Pol\u00edtica, da magistratura, enfim, havia nomes famosos, a Escola Polit\u00e9cnica a mesma coisa, mas as instala\u00e7\u00f5es eram pobres, os sal\u00e1rios eram irris\u00f3rios e assim por diante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mas mesmo nas federais, at\u00e9 final da d\u00e9cada de 60, todos os sal\u00e1rios eram para tempo parcial, n\u00e3o existia professor com tempo integral, nem dedica\u00e7\u00e3o exclusiva, isso foi outra coisa que fez uma diferen\u00e7a enorme. Acho que as tr\u00eas coisas importantes nessa evolu\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos 60, 70 anos, foram primeiro a dedica\u00e7\u00e3o exclusiva, isso teve uma import\u00e2ncia enorme para a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. A p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o foi a outra coisa muito importante que foi regulamentada em 1.965, para ver como tudo isso \u00e9 muito novo, muito recente, ent\u00e3o a gente tem o desejo que o Brasil mostre a famosa hist\u00f3ria de que no Brasil n\u00e3o tem nenhum Pr\u00eamio Nobel, existem Pr\u00eamios Nobel argentinos, chilenos, Pr\u00eamios Nobel, enfim de pa\u00edses pan-americanos, mas n\u00f3s n\u00e3o temos nenhum. Pois bem, e um dos motivos \u00e9 esses , \u00e9 que aqui no Brasil essas coisas de maior sofistica\u00e7\u00e3o, na \u00e1rea cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica s\u00e3o muito recentes, muito recentes, ent\u00e3o n\u00f3s n\u00e3o temos que nos envergonhar\u00a0 disso, porque \u00e9 pouco tempo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Professor o sr. falava da cria\u00e7\u00e3o das universidades de S\u00e3o Paulo e do Rio e na Bahia no seu caso particular, tem seu pai, o Edgar, como criador, conta um pouquinho sobre&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Ele era professor de Medicina e era diretor da Faculdade de Medicina desde 1.935, 36, e a Faculdade de Medicina tinha essa grande import\u00e2ncia na vida da cidade e ele como diretor da Faculdade de Medicina come\u00e7ou a se relacionar muito, com o Mi precoce nist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, porque ele tinha o sonho e acabou conseguindo construir o Hospital das Cl\u00ednicas, que foi realmente uma mudan\u00e7a radical e agora ultimamente decaiu, que \u00e9 uma tristeza, mas foi o grande impulso que a medicina teve aqui, eu tenho dito e escrito ali\u00e1s, que o maior acontecimento do s\u00e9culo XX na \u00e1rea da sa\u00fade foi o funcionamento do hospital das cl\u00ednicas, que mudou toda a concep\u00e7\u00e3o. Um dos fatores importantes foi a enfermagem. A escola de enfermagem foi planejada, foi programada, para formar as primeiras turmas, quando o hospital das cl\u00ednicas come\u00e7ou a funcionar e o hospital das cl\u00ednicas ent\u00e3o foi uma mudan\u00e7a de padr\u00e3o hospitalar, de padr\u00e3o de assist\u00eancia a sa\u00fade. Bom, ent\u00e3o ele como diretor da Faculdade de Medicina, se relacionou muito com o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, com o ministro da educa\u00e7\u00e3o,\u00a0 quando em certo momento veio um dos ministro que era paulista Ernesto Souza Campos, que tinha vindo muito aqui porque foi uma esp\u00e9cie de conselheiro da programa\u00e7\u00e3o do Hospital das Cl\u00ednicas, foi feito ministro da educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade, naquele tempo era ministro da educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. E o Souza Campos que conhecia muito aqui a Bahia e era amigo do meu pai e tal, que foi convidado pelo presidente Dutra para ser o ministro da educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade, prop\u00f4s ent\u00e3o a cria\u00e7\u00e3o de duas universidades no nordeste, existia a de S\u00e3o Paulo, existia a do Rio de Janeiro e creio que no Rio Grande do Sul, Paran\u00e1, n\u00e3o sei exatamente, o que eu sei \u00e9 que n\u00e3o existia nenhuma, e o Souza Campos prop\u00f4s ao presidente Dutra a cria\u00e7\u00e3o da da Bahia e da de Recife e meu pai como diretor da Faculdade de Medicina daqui, foi quem liderou a organiza\u00e7\u00e3o da faculdade pela a aglomera\u00e7\u00e3o das escolas que tinham mais destaque local, que eram a de Medicina, a de Engenharia, a de Direito, a de Belas Artes, a de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas e talvez houvesse mais alguma e assim come\u00e7aram cada qual com uma hist\u00f3ria diferente, uma origem diferente. E o come\u00e7o foi dif\u00edcil, porque cada escola dessas estava habituada a resolver seus problemas internamente. Complicou a situa\u00e7\u00e3o do professor, complicou a situa\u00e7\u00e3o do aluno, o padr\u00e3o do vestibular, a faculdade resolvia isso, cada faculdade resolvia isso. Quando veio o conselho universit\u00e1rio, veio o estatuto comum, depois foi tudo federalizado, vieram as condi\u00e7\u00f5es de sal\u00e1rio e de financiamento da despesa de capital e de consumo, mudaram completamente com a federaliza\u00e7\u00e3o e tudo isso foi justamente no tempo do meu pai, ele encontrou resist\u00eancias tamb\u00e9m, encontrou muitas resist\u00eancias porque os professores de medicina se consideravam uma casta \u00e0 parte, eles eram superiores, quando vieram as escolas de arte, que tamb\u00e9m foram no tempo do meu pai, o professor de medicina que ficava em igualdade de condi\u00e7\u00f5es universit\u00e1rias, hier\u00e1rquicas, achava que ter um professor de teatro, mesmo de administra\u00e7\u00e3o, havia assim uma hierarquia, que a universidade quebrou isso, porque houve uma equipara\u00e7\u00e3o de muitas dessas regras de trabalho, de vida e tal, que n\u00e3o existiam, cada faculdade era isolada em si mesma.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: E nem tinha tanto teatro nessa \u00e9poca, foi ele que trouxe na verdade. N\u00e3o \u00e9 isso?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Exatamente. Eu tenho dito que h\u00e1 3 aspectos fundamentais no trabalho dele. O que aparece mais \u00e9 esse. A vida cultural da Bahia. A Bahia tinha tido uma vida econ\u00f4mica e cultural mais desenvolvida at\u00e9 o s\u00e9culo XIX. E depois outros estados, outras capitais foram passando adiante e a Bahia foi ficando para tr\u00e1s. Inclusive do ponto de vista cultural. E ele fez como que uma revolu\u00e7\u00e3o cultural aqui na Bahia. Na \u00e1rea do teatro, da m\u00fasica, da dan\u00e7a, essas coisas, que estavam completamente estagnadas, n\u00e3o existiam praticamente aqui na Bahia, ele conseguiu atrair artistas de grande capacidade, n\u00e3o s\u00f3 na respectiva arte, como capacidade de lideran\u00e7a. O Martim Gon\u00e7alves no Teatro, foi um grande l\u00edder, o [<\/span><span style=\"font-weight: 400\">Hans Joachim] Koellreutter e posteriormente [Ernst] Widmer na m\u00fasica, a Yanka Rudska na na dan\u00e7a e por a\u00ed afora, foram pessoas que mov<\/span><span style=\"font-weight: 400\">imentaram, mobilizaram o ambiente\u00a0 em fun\u00e7\u00e3o daquela arte, naquele ramo das artes. Ent\u00e3o uma \u00e9 essa quest\u00e3o das artes, a outra \u00e9 a medicina. Com a cria\u00e7\u00e3o do hospital das cl\u00ednicas a medicina, realmente a sa\u00fade mudou de fei\u00e7\u00e3o aqui na Bahia e ultimamente caiu outra vez. E a terceira coisa que \u00e9 at\u00e9 pouco citada, mas foi extremamente importante, foi a assist\u00eancia ao estudante, que n\u00e3o existia n\u00e3o era s\u00f3 na Bahia n\u00e3o, nas outras universidades brasileiras. Ele criou a resid\u00eancia do estudante, depois fez uma segunda, criou o restaurante universit\u00e1rio, realmente essas coisas\u00a0 n\u00e3o existiam aqui, e foram ideias dele, ele que promoveu, buscou recursos e montou essas coisas. Ent\u00e3o, eu acho que o \u00e2ngulo da assist\u00eancia ao estudante \u00e9 t\u00e3o importante quanto as outras.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Joana: Como era rela\u00e7\u00e3o do movimento estudantil nesse surgimento da universidade?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Ele teve dificuldades tamb\u00e9m, houve greves, foi quando come\u00e7aram as greves, alguns achavam que, soprados um pouco por alguns professores que faziam resist\u00eancia a ele, que a orienta\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava certa, por exemplo, o Museu de Arte Sacra era um pr\u00e9dio de grande valor hist\u00f3rico e art\u00edstico, mas que estava abandonado, tinha funcionado como semin\u00e1rio\u00a0 da \u00e9poca da independ\u00eancia em 1.822 at\u00e9 1.940 e tantos, 50, o pr\u00e9dio estava acabado, e ele consegui articula\u00e7\u00e3o com \u201cMitre\u201d, e depois com com Roma, com o Vaticano para que a constru\u00e7\u00e3o fosse entre a universidade e a universidade restaurou e ficou sendo um dos cart\u00f5es postais daqui da Bahia, eu n\u00e3o sei se voc\u00eas todos j\u00e1 visitaram o museu, mas \u00e9 uma coisa que valia a pena fazer e isso foi&#8230; come\u00e7aram a criticar de que ele estava gastando demais com essas coisas que n\u00e3o seriam universit\u00e1rias, o que \u00e9 uma vis\u00e3o distorcida, essa coisa cultural que \u00e9 fun\u00e7\u00e3o fundamental da vida da universidade tava largada, n\u00e3o s\u00f3 na Bahia, em outros estados mais ricos tamb\u00e9m.\u00a0 E ele deu esse impulso, tanto na forma\u00e7\u00e3o de profissionais de artes, de desenvolvimento das artes, como na parte material de reconstru\u00e7\u00e3o, de restaura\u00e7\u00e3o, que era tamb\u00e9m&#8230; a Bahia se tornou um dos grandes centros de restaura\u00e7\u00e3o. A escola de arquitetura tem um centro de restaura\u00e7\u00e3o que \u00e9 muito importante. E por a\u00ed a fora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Ele dirigiu um pouco com m\u00e3os de ferro a Universidade?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS:\u00a0 Ele dirigiu com m\u00e3os de ferro, mas ao mesmo tempo era uma pessoa muito af\u00e1vel.\u00a0 Quando chegavam pessoas irritadas, querendo fazer e acontecer e tal, ele conseguia quebrar isso, ele era ao mesmo\u00a0 tempo muito diplomata, vamos dizer, embora ele fosse voluntarioso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Conta uma lenda ai que tinham greves de estudantes e que ai ocupavam a reitoria , ele chegava l\u00e1 e : \u201cOs meninos est\u00e3o bem?\u201d \u00c9 verdade isso?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: N\u00e3o eram s\u00f3 os meninos, eram os professores tamb\u00e9m vinham muitos que vinham zangados, houve um tempo que voc\u00eas sabem que a reitoria foi onde era a diretoria da Faculdade de Medicina e onde h\u00e1 aqueles corredores, ent\u00e3o ele chegava , chamava para passear por alie tal,\u00a0 e com isso ia contornando as coisas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Ele comentava muito isso em casa assim, ou essas coisas ele era mais reservado?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Ele era mais reservado, embora n\u00e3o fosse, vamos dizer, secreto, nada disso, eram coisas sabidas. E depois muitos desses\u00a0 muitos desses mudaram os pontos de vistas e passaram a apreciar e a aplaudir aquilo que tinha sido feito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Mas foi uma coisa sofrida a gest\u00e3o dele ou ele &#8220;tirou de letra&#8221; digamos assim?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS:\u00a0 Em alguns momentos ele sofreu com isso e n\u00e3o era s\u00f3 pelos alunos, era\u00a0 at\u00e9 mais por muitos professores. Voc\u00ea v\u00ea essa coisa da casta da Faculdade de Medicina, h\u00e1 pouco, gente que estava viva h\u00e1 pouco tempo, ainda achava que tinha sido um erro a cria\u00e7\u00e3o da Universidade, porque a Faculdade de Medicina estava acima das outras.\u00a0 Isso \u00e9 um neg\u00f3cio entranhado na vida da sociedade. Professores que s\u00e3o, assim, de nomes conhecidos e tal, achavam que tinha sido um erro, n\u00e3o devia ter feito isso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: E politicamente, quer dizer, a sociedade, a pol\u00edtica local nessa \u00e9poca apoiou isso?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: A pol\u00edtica dele era a Universidade. Isso que ele dizia. A pol\u00edtica dele era a Universidade.\u00a0 Ele nunca pertenceu a nenhum partido e a nenhuma fac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Eram fac\u00e7\u00f5es que brigavam entre si de uma forma terr\u00edvel. E ele gostava mais de uns do que de outros, mas nunca se incorporou a nenhum delas porque, como ele dizia, pol\u00edtica dele, o partido dele\u00a0 era a Universidade. Haviam coisas assim, por exemplo, em 1950, 51, por a\u00ed, a Universidade j\u00e1 estava criada, estava&#8230; mas ainda precisando de muito apoio. Era o segundo governo de Get\u00falio, Get\u00falio eleito, que antes n\u00e3o tinha sido, tinha era revolu\u00e7\u00e3o essa hist\u00f3ria. O Get\u00falio nomeou ministro da Educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade Sim\u00f5es Filho, o dono do A Tarde, que tinha sido contr\u00e1rio a ele, ent\u00e3o os que n\u00e3o gostavam dele ficavam dizendo : \u201cE agora como \u00e9, Edgar e Sim\u00f5es?\u201d Pois bem, no fim de pouco tempo estavam plenamente entendidos. H\u00e1 fotografias muito engra\u00e7adas em que voc\u00ea v\u00ea os dois, sobretudo, uma fotografia que ficou na \u00e9poca muito conhecida, no audit\u00f3rio daqui da reitoria da universidade, o audit\u00f3rio estava vazio,\u00a0 ia come\u00e7ar alguma coisa ou tinha acabado algum coisa, ent\u00e3o voc\u00ea encontra os dois segredando no anfiteatro completamente vazio, era justamente para mostrar que ele e sim\u00f5es passaram a se entender muito bem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: O senhor acha que foi mais por um movimento dele ou de Sim\u00f5es filho enquanto pol\u00edtico?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Eu acho que foi de parte a parte, eles se entenderam.\u00a0 Das figuras pol\u00edticas da \u00e9poca, onde ele esteve mais pr\u00f3ximo foi a da corrente juracizista. Do av\u00f4 do atual Juta\u00edzinho, o pai e tal. Mas nunca se integrou a nenhuma dessas correntes.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: O Senhor falou da parte de Artes, do Hospital das Cl\u00ednicas, assist\u00eancia estudantil, mas\u00a0 tamb\u00e9m ele trouxe muita gente importante para a cria\u00e7\u00e3o da universidade e no campo da f\u00edsica, da geoci\u00eancia foi uma \u00e1rea que tamb\u00e9m ganhou bastante&#8230;\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: A geoci\u00eancia tomou um impulso muito grande, porque foi a \u00e9poca que se descobriu o petr\u00f3leo no Brasil. E o petr\u00f3leo brasileiro foi descoberto na Bahia\u00a0 e os primeiros po\u00e7os que foram produtivos realmente foram aqui na Bahia. Ent\u00e3o ele deu uma \u00eanfase muito grande \u00e0s geoci\u00eancias como forma de preparar a f\u00edsica, vamos dizer, b\u00e1sica do petr\u00f3leo. E eu tinha falado na estagna\u00e7\u00e3o da Bahia do ponto de vista cultural, mas simultaneamente com isso, a economia baiana tinha andado muito para tr\u00e1s, a economia baiana ficou muito concentrada no cacau e mesmo assim, no conjunto ficou reduzida. Com o petr\u00f3leo a Bahia come\u00e7ou\u00a0 a ter um novo impulso tamb\u00e9m do ponto de vista econ\u00f4mico. E naquela \u00e9poca a Petrobras rec\u00e9m criada, inclusive R\u00f4mulo Almeida participou muito disso, Pinto de Aguiar, participaram baianos, e participaram muito disso e muito ligados a ele. O petr\u00f3leo ent\u00e3o era muito&#8230; a Petrobras ent\u00e3o ficou muito ligada a universidade. Os primeiros cursos de engenharia de petr\u00f3leo, foram feitos na Faculdade de Filosofia, l\u00e1 no pr\u00e9dio que \u00e9 de Nazar\u00e9, no fundo tem um pr\u00e9dio, quer dizer, um pavilh\u00e3o, que, onde se\u00a0 fez o primeiro curso de engenharia de petr\u00f3leo financiado pela Petrobras com engenheiros estrangeiros, que vieram para c\u00e1 para formar os primeiros profissionais de n\u00edvel superior de petr\u00f3leo no Brasil e tudo isso trabalhado por eles. Ele junto com a Petrobras, os dirigentes da Petrobras tamb\u00e9m, sempre muito pr\u00f3ximos a eles e vice-versa e tal. Ent\u00e3o, tamb\u00e9m nessa quest\u00e3o do desenvolvimento econ\u00f4mico ele teve um papel importante.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Ele trouxe nomes importantes tamb\u00e9m, n\u00e9?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Trouxe nomes importantes, a escola de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas criou o Centro de Economia Baiana, n\u00e3o lembro bem o nome exato, tamb\u00e9m dele com Pinto de Aguiar, no\u00a0 governo Balbino, o Balbino ajudou tamb\u00e9m, era outro pol\u00edtico que era muito amigo dele, mas ele nunca se filiou, digamos, a uma corrente balbinista, ent\u00e3o realmente nessa \u00e1rea econ\u00f4mica ele se articulou muito nesse renascimento da economia baiana com o petr\u00f3leo. Depois veio a refinaria, depois veio o polo petroqu\u00edmico. Tudo isso em fun\u00e7\u00e3o daquele come\u00e7o do petr\u00f3leo brasileiro, que foi todo ele na Bahia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Nesse Per\u00edodo o Sr. j\u00e1 estava ent\u00e3o professor da faculdade, da Universidade ent\u00e3o, e a\u00ed\u00a0 come\u00e7a entrar tamb\u00e9m um pouco mais pro lado da pol\u00edtica, n\u00e9?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Naquele per\u00edodo eu era tempo integral, dedica\u00e7\u00e3o exclusiva na Faculdade de Medicina, no hospital das cl\u00ednicas havia um andar para qual n\u00e3o se tinha no projeto inicial, n\u00e3o se tinha programado nada e ent\u00e3o eu consegui fazer, de volta dos EUA, onde eu tinha trabalhado em pesquisa m\u00e9dica na fase final, eu fiz uma resid\u00eancia de cl\u00ednica m\u00e9dica e depois uma pesquisa em Boston. E ent\u00e3o montei aqui um laborat\u00f3rio de metabolismo hidromineral\u00a0 em fun\u00e7\u00e3o renal. E da\u00ed nessa dedica\u00e7\u00e3o exclusiva eu formei o programa de residentes que ainda n\u00e3o existia aqui na Bahia, e que foi de uma import\u00e2ncia enorme pra dar impulso ao hospital das cl\u00ednicas e formamos um grupo de pesquisadores na \u00e1rea m\u00e9dica, que chamava NUMEX, N\u00facleo de Medicina Experimental. E eu era inteiramente dedicado a isso, s\u00f3 sabia disso, n\u00e3o estava envolvido no restante da universidade, nem em pol\u00edtica partid\u00e1ria nem nada disso. Depois, isso foi&#8230; eu me formei professor em 1.956, as minhas teses foram feitas j\u00e1 nesse N\u00facleo de Medicina Experimental, depois vieram v\u00e1rios outros companheiros, da\u00ed ent\u00e3o eu comecei a me dedicar muito a reorganiza\u00e7\u00e3o do ensino m\u00e9dico, apareceram colegas nossos, professores de outras universidades, alguns deles nomes conhecidos, Fraga Filho no<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> Rio de Janeiro, Oleor Cintra (?????) em S\u00e3o Paulo, Ruben Maciel no Rio Grande do Sul,<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> que se rebelaram contra aquele neg\u00f3cio da especializa\u00e7\u00e3o precoce, que eu descrevia pouco aqui na Bahia, mas que era generalizado. E come\u00e7amos ent\u00e3o a fazer o ensino m\u00e9dico moderno, tamb\u00e9m era uma transi\u00e7\u00e3o do que tinha sido a influ\u00eancia francesa, passou a ser depois influ\u00eancia Anglo-sax\u00f4nica. E os curr\u00edculos na \u00e1rea m\u00e9dica mudaram completamente,\u00a0 as exig\u00eancias quanto a forma\u00e7\u00e3o do aluno procurou-se acabar com essa especializa\u00e7\u00e3o precoce e durante bastante tempo essas coisas tiveram sucesso, depois elas foram mudando e tal, mas isso tudo teve uma fase, vamos dizer uma fase \u00e1urea. Bom, depois, por uma circunst\u00e2ncia inesperada, eu fui ser reitor.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: O Senhor foi secret\u00e1rio de sa\u00fade antes. Porque essa entrada assim?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: O que houve \u00e9 que Lu\u00eds Viana Filho, era outro pol\u00edtico que tamb\u00e9m era muito amigo de meu pai, e Miguel Calmon que foi reitor tamb\u00e9m, meu pai sempre dizia que se Miguel tivesse sido governador da Bahia, a Bahia era diferente. Realmente era um homem de muita vis\u00e3o, muita informa\u00e7\u00e3o internacional sobre essa coisa econ\u00f4mica, e tamb\u00e9m muito amigo de Luiz Viana. Eu sei que houve um momento em que Luiz Viana foi nomeado, foi escolhido governador, ele tinha sido chefe de gabinete da casa civil do Castelo Branco, que era um general intelectualizado, \u00fanico. E Luiz Viana foi por essa via da liga\u00e7\u00e3o com Castelo Branco, foi escolhido governador.\u00a0 E ai me chamou, para eu ser a princ\u00edpio me chamou para secret\u00e1rio da Educa\u00e7\u00e3o, mas eu preferi para ser secret\u00e1rio de sa\u00fade, que era onde eu estava com ideias assim e me preparei, levei um ano me preparando para ser secret\u00e1rio de sa\u00fade. E realmente quando eu cheguei na secretaria era uma coisa completamente diferente do que eu tinha imaginado do que devesse ser uma secretaria de sa\u00fade aqui na Bahia. E comecei a trabalhar. A\u00ed era hora da substitui\u00e7\u00e3o de Miguel Calmon, que estava pr\u00f3ximo a ser substitu\u00eddo, mas que faleceu numa doen\u00e7a fulminante, uns 2 ou 3 meses antes da substitui\u00e7\u00e3o. Orlando Gomes que ia ser o reitor pela aceita\u00e7\u00e3o geral, ou quase geral, porque havia umas pessoas, sobretudo da Faculdade de Medicina, que queriam botar\u00a0 uma areia na escolha de Orlando para conseguir com isso se tornar reitor. Bom, e Orlando tinha sido do partido socialista na d\u00e9cada de 30, um socialismo rom\u00e2ntico que n\u00e3o tinha nada a ver com a revolu\u00e7\u00e3o, com subvers\u00e3o, nem nada disso. Pelo contr\u00e1rio, Orlando era uma pessoa de capacidade intelectual fora do comum, ele foi um grande jurista internacionalmente conhecido, e ia ser o reitor escolhido por todos. Pois bem, inclusive pelos nossos amigos, para surpresa geral , pelas fofocas que armaram a prop\u00f3sito dessa juventude dele, a revolu\u00e7\u00e3o recusou Orlando. E da\u00ed ent\u00e3o ficou aquela perplexidade. Quando sentiram que poderia haver algum risco de Orlando n\u00e3o vier ser escolhido, amigos nossos inclusive ele quiseram que eu entrasse na lista tr\u00edplice para escolha do reitor, que naquele tempo era a lista tr\u00edplice. E eu estava entretido l\u00e1 na secretaria de sa\u00fade de Luis Viana e n\u00e3o quis ser. A\u00ed foi uma confus\u00e3o porque acharam que ia desmantelar esse neg\u00f3cio todo e tal. E afinal com poucos dias eu aceitei ser candidato e entrei no segundo escrut\u00ednio com uma vota\u00e7\u00e3o muito boa, ainda mais porque tinha sido uma elei\u00e7\u00e3o disputada, eu sei que quando foi para Bras\u00edlia para fazer a escolha, recusaram a escolha de Orlando e disseram que devera ser eu.\u00a0 Houve uma famosa conversa com o ministro da educa\u00e7\u00e3o que na \u00e9poca era Tarso Dutra, era ga\u00facho voc\u00ea dever ter conhecido, eu estava no conselho federal de educa\u00e7\u00e3o, mandaram me chamar, estavam Tarso Dutra com Adriano Pond\u00e9, que era o vice-reitor no exerc\u00edcio da reitoria quando Miguel morreu ele assumiu, e tinha mais um ou dois professores daqui da Bahia que tinham ido levar a lista tr\u00edplice. Ent\u00e3o Tarso Dutra era uma pessoa de voz mansa e tinha sido muito amigo do meu pai que tinha participado da comiss\u00e3o de finan\u00e7as do senado, onde meu pai ia defender os recursos para a Bahia, ele admirava o trabalho que meu pai fazia e tal. Eu sei que ele come\u00e7ou dizendo que estava encaminhando a minha nomea\u00e7\u00e3o, eu disse que aquilo era uma surpresa, porque todos esperavam que Orlando que fosse nomeado. Ele ent\u00e3o disse que nessa nomea\u00e7\u00e3o ele fazia uma homenagem a meu pai que ele tinha conhecido muito bem e tal. Eu disse a ele, ficou uma frase decisiva a\u00ed, que a melhor homenagem que ele poderia fazer a mem\u00f3ria do meu pai, todos os nossos amigos, familiares entendiamos que era a nomea\u00e7\u00e3o de Orlando. Ele ent\u00e3o daquele jeito manso dele disse, : \u201c \u00c9 mas se o sr. n\u00e3o aceitar, vamos ter que devolver a lista para o conselho universit\u00e1rio para formar uma nova lista\u201d. Isso foi um choque. Da\u00ed sa\u00edmos de l\u00e1, Adriano Pond\u00e9 e eu, as comunica\u00e7\u00f5es por telefone\u00a0 eram terr\u00edveis, complicadas, os avi\u00f5es n\u00e3o eram t\u00e3o frequentes como agora e tal. E nos comunicamos com Orlando. E Orlando achou que isso ia ser uma confus\u00e3o pra Universidade, para a institui\u00e7\u00e3o e achou ent\u00e3o que eu devia aceitar e dizendo mais ainda, que ele estava inteiramente disposto a me ajudar na Reitoria se fosse essa realmente a decis\u00e3o. Pronto, eu acabei aceitando e da\u00ed mudei de vida.[Risos] Eu pensei em conciliar por causa da proximidade f\u00edsica da Reitoria com o hospital das cl\u00ednicas, em conciliar uma coisa com a outra, mas vi que n\u00e3o dava. A universidade tinha crescido, resultado, da\u00ed eu mudei de vida, da\u00ed eu fui para o Conselho Federal de Educa\u00e7\u00e3o, para presidir o conselho, da\u00ed me escolheram para o governo, j\u00e1 foi outra coisa, porque aqui na Bahia a ARENA era muito grande e o MDB era pequeno, a ARENA, era um pouco do esp\u00edrito do baiano mesmo, mas a ARENA tinha 4 fac\u00e7\u00f5es que brigavam muito entre si, terrivelmente entre si. E at\u00e9 o PMDB&#8230; o MDB que era pequeno tamb\u00e9m brigava internamente. E eu n\u00e3o era ligado a nenhum deles, eu me dava com todos, mas n\u00e3o era ligado a nenhum deles. O resultado \u00e9 que eu acabei sendo indicado para o governo do estado, embora&#8230; porque a coisa era essa: todas as fac\u00e7\u00f5es da ARENA tinham um candidato preferencial e as outras fac\u00e7\u00f5es n\u00e3o aceitavam o candidatos de nenhum dos companheiros. Mas da\u00ed passaram a me aceitar como segunda hip\u00f3tese. Resultado: Acabei sendo governador. E da\u00ed fui para o governo, trabalhei muito, eu sei que realmente trabalhei muito, fiz muita coisa, da\u00ed ent\u00e3o, quando eu completei o meu quatri\u00eanio eu j\u00e1 estava encaminhado\u00a0 para a pol\u00edtica, mas n\u00e3o dentro daquele esquema, eu fui para o MDB e da\u00ed&#8230; era o bipartidarismo que se modificou pro pluripartidarismo, e da\u00ed fiquei na pol\u00edtica algum tempo e assim que pude eu sai.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Primeiro conta um pouquinho como era a elei\u00e7\u00e3o naquele momento, que eu acho importante a gente registrar, e depois o retorno, quer dizer, mesmo nesse contato com Orlando Gomes, acertado entre voc\u00eas, houve algum tipo de rea\u00e7\u00e3o na universidade, havia muita mobiliza\u00e7\u00e3o no per\u00edodo, ou tava meio&#8230;?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: N\u00e3o, que me tivesse chegado ao meu conhecimento, n\u00e3o houve.\u00a0 Eu posso dizer o seguinte, eu tinha como professor, entre aspas, catedr\u00e1tico, que era um neg\u00f3cio que realmente tinha de acabar e que acabou. Eu tinha me interessado muito pela reorganiza\u00e7\u00e3o do ensino m\u00e9dico no Brasil, que tinha ficado realmente muito estagnado, com uma influ\u00eancia que j\u00e1 estava meio remota, dessa influ\u00eancia europeia, francesa, e n\u00f3s\u00a0 juntos com outros professores, de outras faculdades, acabamos criando a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Escolas M\u00e9dicas, est\u00e1vamos, ent\u00e3o, muito envolvidos na reorganiza\u00e7\u00e3o do ensino de medicina. E fui para o conselho federal de Educa\u00e7\u00e3o, que era um \u00f3rg\u00e3o que na \u00e9poca tinha muita for\u00e7a, muito prest\u00edgio dentro das Universidades e assim por diante. Bom, o Conselho Federal de Educa\u00e7\u00e3o, na \u00e9poca tinha Alguns t\u00e9cnicos em educa\u00e7\u00e3o, que eram do maior peso, vamos dizer, da maior capacidade.\u00a0 E entre outras fun\u00e7\u00f5es, tinha repercutido no ensino superior brasileiro a cria\u00e7\u00e3o da universidade de Bras\u00edlia, eu tinha falado aqui de quando come\u00e7aram a funcionar as primeiras universidades, em 1.934, 1.935 at\u00e9 1.960, todas as Universidades no Brasil tinham resultado da mesma forma que era a aglomera\u00e7\u00e3o das faculdades isoladas e completas em si mesmas. Bras\u00edlia foi a primeira exce\u00e7\u00e3o. A ideia era que a \u00faltima oportunidade naquele per\u00edodo, naquela fase da hist\u00f3ria, de se criar uma Universidade Federal com muito recurso, de grande porte e que deveria ent\u00e3o se examinar a possibilidade de se fazer um outro sistema universit\u00e1rio. E\u00a0 nisso foram muito influentes An\u00edsio Teixeira, que \u00e9 um baiano, e Darcy Ribeiro, que era um disc\u00edpulo dele, era um antrop\u00f3logo de grande vis\u00e3o, e eram os dois, Darcy era disc\u00edpulo de An\u00edsio e os dois trabalhando conjuntamente, tinham criado a Universidade de Bras\u00edlia. E pela primeira vez surgiu uma universidade no Brasil, que n\u00e3o resultava da uni\u00e3o de faculdades at\u00e9 porque n\u00e3o existiam faculdades. N\u00e3o existia nada, Bras\u00edlia era mato. Bem acontece que logo depois de criada essa Universidade, vieram circunst\u00e2ncias pol\u00edticas complicad\u00edssimas e aquela concep\u00e7\u00e3o de universidade foi prejudicada com isso. Pareceu que tinha acabado, a Universidade de Bras\u00edlia, o sentido da universidade\u00a0 acabou. Na verdade n\u00e3o aconteceu isso, passado alguns anos, o Conselho Federal de Educa\u00e7\u00e3o, que era, que tinha um feitio t\u00e9cnico, muito respeit\u00e1vel, com pessoas de excelente n\u00edvel na \u00e1rea da filosofia da Educa\u00e7\u00e3o, da organiza\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, o conselho ressuscitou alguns dos conceitos que tinham sido da Universidade de Bras\u00edlia, e foi a\u00ed que no Conselho Federal de Educa\u00e7\u00e3o, que foram preparados, os dois decretos de leis que se transformaram na base, na raiz, vamos dizer, da restrutura\u00e7\u00e3o das Universidades. Foram dois princ\u00edpios, que diziam que fica proibida a duplica\u00e7\u00e3o de meios, a multiplica\u00e7\u00e3o de meios para fins id\u00eanticos, e o outro, de que s\u00e3o indissoci\u00e1veis o ensino e a pesquisa.\u00a0 Essa quest\u00e3o, vou explicar, detalhar o que significam esses princ\u00edpios. Na quest\u00e3o de n\u00e3o duplica\u00e7\u00e3o de meios para fins id\u00eanticos, o que havia era justamente evitar na estrutura de uma mesma universidade, que houvesse uma matem\u00e1tica na escola da polit\u00e9cnica, outra na de arquitetura, aquilo que n\u00f3s j\u00e1 comentamos a pouco. Era preciso juntar as matem\u00e1ticas e fazer uma matem\u00e1tica com bastante densidade, com bastante massa cr\u00edtica para permitir a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e a pesquisa, o mesmo dizia a respeito a F\u00edsica, a qu\u00edmica, a geoci\u00eancias, as letras, as ci\u00eancias humanas e assim por diante. Ent\u00e3o, esse foi um dos princ\u00edpios da reestrutura\u00e7\u00e3o, que teve como primeira norma geral um decreto de lei 53 de 1.966. E como esse decreto de lei ficassem assim em termos meio filos\u00f3ficos e meio gerais, ent\u00e3o se sentiu a necessidade de um outro decreto de lei que foi o 252 de 1.967, ent\u00e3o, essa nova estrutura da universidade resultou de dois decretos de lei, um de 66, outro de 67, praticamente elaborados pelo conselho federal de educa\u00e7\u00e3o, por t\u00e9cnicos do Conselho Federal de Educa\u00e7\u00e3o, eu n\u00e3o sei porque se difundiu a ideia de que essa reforma nasceu em 68. Houve em 68 uma outra lei que contribuiu\u00a0 tamb\u00e9m para a reforma da Universidade, mas que j\u00e1 era numa fase adiantada da reforma. A reforma na verdade \u00e9 de 1.966 com um complemento de 1.967. Da\u00ed ent\u00e3o surgiu a reestrutura\u00e7\u00e3o da universidade. As faculdades completas em si mesmo perdem toda a sua parte pr\u00e9-profissional. E essas c\u00e1tedras e departamentos pr\u00e9-profissionais se juntam em institutos, outras faculdades, outras universidades deram outros nomes, mas enfim, em unidades que se dedicam a setores b\u00e1sicos do conhecimento. Foi isso que aconteceu aqui tamb\u00e9m, e foi isso que me ocupou durante os 4 anos de reitoria. Foi justamente criar o instituto de matem\u00e1tica, de f\u00edsica, de qu\u00edmica, para isso n\u00f3s tivemos o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID, tivemos um recurso, um apoio da UNESCO, para trazer professores desses setores b\u00e1sicos de conhecimento, que no Brasil eram muito iniciais, muito insipientes. Ent\u00e3o, veio gente de v\u00e1rios pa\u00edses europeus por conta da Unesco para o instituto de matem\u00e1tica, instituto de f\u00edsica, instituto de qu\u00edmica e essas unidades tomaram impulso. At\u00e9 ent\u00e3o, todo o prest\u00edgio, o pr\u00f3prio governo da universidade era todo por conta das disciplinas profissionalizantes, na medicina era o pessoal das cl\u00ednicas, enfim, da fase final, dos tr\u00eas ou quatro anos finais dos curr\u00edculos que correspondiam as fases profissionalizantes. E nessa ocasi\u00e3o a faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras, nosso caso, estava com cerca de tr\u00eas mil alunos, tanto de ci\u00eancias, como letras e Filosofia. Como muitas dessas disciplinas foram para os institutos, criou-se ent\u00e3o a Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m era uma ideia, um prop\u00f3sito de An\u00edsio Teixeira, fazer nas Universidades uma faculdade de educa\u00e7\u00e3o, como aconteceu em Bras\u00edlia. Aqui ent\u00e3o n\u00f3s criamos tamb\u00e9m a Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o em 67 por a\u00ed, e essa faculdade passou a ter como foco principal a \u00e1rea da Pedagogia que aqui se desenvolveu muito tamb\u00e9m, mas tinham tamb\u00e9m as licenciaturas que resultavam da combina\u00e7\u00e3o das mat\u00e9rias pedag\u00f3gicas com as mat\u00e9rias de conte\u00fado. Ent\u00e3o, existiu a\u00ed, licenciatura de matem\u00e1tica, licenciatura de f\u00edsica, de qu\u00edmica e assim por diante. E os professores de segundo grau, mas tamb\u00e9m de primeiro grau deveriam ter essa forma\u00e7\u00e3o das licenciaturas para ent\u00e3o poderem exercer a profiss\u00e3o de professores. Essa foi uma fase fundamental na hist\u00f3ria da Universidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Quando, esse per\u00edodo \u00e9 o per\u00edodo da Ditadura militar, ent\u00e3o essa reforma universit\u00e1ria foi sempre muito associada com <\/span><span style=\"font-weight: 400\">acordo MEC-USAID, essas coisas todas, como o Senhor viveu e coordenou esse processo?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: A reforma, reestrutura\u00e7\u00e3o, como n\u00f3s cham\u00e1vamos, n\u00e3o teve nada que ver com governo militar, foi toda elaborada cozinhada, no Conselho Federal de Educa\u00e7\u00e3o, com pessoal t\u00e9cnico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: O Senhor lembra de alguns nomes?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Ah sim, Nilton Sucupira e Valnir Chagas foram principais, Valnir Chagas que era um trabalhador da Educa\u00e7\u00e3o, ele era do Cear\u00e1, tava vivo h\u00e1 pouco tempo, Nilton morreu. E ele era, assim, um fan\u00e1tico do problema da educa\u00e7\u00e3o, como ci\u00eancia e como pr\u00e1tica, teve um papel fundamental nisso. Mas tinha mais, tinha o Padre Vasconcelos, e tinha as pessoas da \u00e1rea da cultura, na \u00e9poca n\u00e3o existia Conselho de Cultura, ent\u00e3o Alceu Amoroso Lima era membro do Conselho, Deolindo Chagas, da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, era Presidente do Conselho, Josu\u00e9 Montello, que era da \u00e1rea de Letras, tamb\u00e9m era do Conselho. O conselho era de Educa\u00e7\u00e3o e Cultura, depois se criou o Conselho de Cultura, e a\u00ed veio Pedro Calmon, enfim, veio um outro pessoal, ent\u00e3o quando se fala em Reforma de 68, a minha interpreta\u00e7\u00e3o e que quiseram pegar uma legisla\u00e7\u00e3o e que a revolu\u00e7\u00e3o, os generais da revolu\u00e7\u00e3o tiveram alguma influ\u00eancia que \u00e9 outra fase neg\u00f3cio de fazer lista s\u00eaxtupla, em vez de lista tr\u00edplice, fazer a quest\u00e3o dos diret\u00f3rios acad\u00eamicos foram regulamentadas por essas leis, mas a reestrutura\u00e7\u00e3o da Universidade veio de dois decretos de leis anteriores a 68 e que n\u00e3o tiveram nada que ver com pessoal da Revolu\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Tem duas coisas que associam muito, \u00e9 essa hist\u00f3ria de Ditadura Militar e a Reforma, a ideia de departamentos e a ideia da cria\u00e7\u00e3o dos institutos como uma ideia de afastar as pessoas para que n\u00e3o houvesse aglutina\u00e7\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Isso n\u00e3o tem nada que ver, isso foi Valnir Chagas com Nilton Sucupira com a Universidade de Bras\u00edlia, de An\u00edsio, e de Darcy Ribeiro, eles que bolaram essas coisas. A quest\u00e3o do departamento que eu tenho percebido que renasceu um pouco aqui na Bahia, era outra coisa tamb\u00e9m, \u00e9 que n\u00f3s vimos como as c\u00e1tedras eram regimes monocr\u00e1ticos, quem mandava era o professor catedr\u00e1tico e t\u00e1 acabado. O departamento era saudado como a Democratiza\u00e7\u00e3o em vez de ser a decis\u00e3o do professor. Os departamentos incluiam na decis\u00f5es os jovens professores, aqueles mais novos que tinham tido uma forma\u00e7\u00e3o mais recentes, e assim por diante.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ent\u00e3o, e por isso os departamentos que tinham a fun\u00e7\u00e3o important\u00edssima. Quem viveu o regime de c\u00e1tedras sabe como era e viveu os regimes dos departamentos, sabe que isso foi a democratiza\u00e7\u00e3o. porque que depois come\u00e7ou-se a criticar o departamento? Eu lhe confesso que n\u00e3o entendo, a n\u00e3o ser esse de achar que veio do regime militar mas que n\u00e3o tinha nada que ver com o regime militar, era a democratiza\u00e7\u00e3o p\u00f3s-c\u00e1tedra, vamos dizer, e foi uma grande coisa, porque foi o que abriu as decis\u00f5es sobre curr\u00edculos, sobre a escolha dos professores, sobre a vida das institui\u00e7\u00f5es, foi realmente o departamento, agora de repente voltou, eu nem tenho certeza se a departamentaliza\u00e7\u00e3o veio realmente desse per\u00edodo, \u00e9 o caso at\u00e9 de eu olhar, porque eu n\u00e3o tenho certeza que tivesse sido, a ideia do departamento era a liquida\u00e7\u00e3o da c\u00e1tedra. Bom, mas houve muitas outras coisas que decorreram depois n\u00e9, essa quest\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o estudantil, essa foi tipicamente dessa fase de 68, bom, isso realmente, criticar-se isso corresponde a falar-se numa reforma de 68, quando uma reforma que nos importa foi a reforma de 66, com uma explicita\u00e7\u00e3o maior em 67.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Foi dif\u00edcil ser reitor nesse per\u00edodo conturbado?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: \u00c9, ao mesmo tempo foi dif\u00edcil, porque realmente havia uma mobiliza\u00e7\u00e3o estudantil muito grande, mas foi muito, \u00e9, gratificante, vamos dizer, porque a\u00ed \u00e9 que veio p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o existia, n\u00e3o era regulamentada, o parecer de Nilton Sucupira, ali\u00e1s \u00e9 at\u00e9 anterior, \u00e9 de 65, \u00e9 que criou e regulamentou e deu impulso a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, \u00e9 que eu acho que \u00e9 mestrado e doutorado, essa p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de especializa\u00e7\u00e3o e \u201cn\u00e3o sei o que\u201d, isso n\u00e3o \u00e9 a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o que n\u00f3s imaginamos. Bom isso \u00e9 uma coisa, a outra coisa foi dedica\u00e7\u00e3o exclusiva e n\u00e3o existia nenhuma faculdade federal, S\u00e3o Paulo j\u00e1 tinha escola estadual e por isso teve o desenvolvimento que teve. A p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o das universidades federais come\u00e7ou no final, com a cria\u00e7\u00e3o dos institutos, nome de instituto n\u00e3o importa, mas com o desenvolvimento dos setores b\u00e1sicos de conhecimento, a dedica\u00e7\u00e3o exclusiva, como n\u00f3s sabemos \u00e9 mais f\u00e1cil na fase pr\u00e9-profissional do que na fase profissional. O profissionais t\u00eam outros meios de se ocupar, de ter receitas e assim por diante, ao passo que para o pessoal dos setores b\u00e1sicos de conhecimento a vida universit\u00e1ria \u00e9 que \u00e9\u00a0 decisiva realmente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: O senhor recebeu press\u00e3o direta dos militares nesse per\u00edodo? Foi um per\u00edodo muito duro.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Foi um per\u00edodo muito duro, mas primeiro, o baiano n\u00e3o \u00e9 violento e os que vieram pra c\u00e1 durante esse per\u00edodo n\u00e3o criaram assim esse terror, houve \u00e9 claro, houve pris\u00f5es, houve gente que teve de interromper os estudos, alguns tiveram que mudar de faculdade, ou de universidade. Mas eu vou lhe dizer, eu abria o sal\u00e3o da reitoria para os debates estudantis, quando havia choques nos centros de cidades e houve alguns, eu disse, mas antes de eu ir l\u00e1 para reitoria, e houve um momento, a\u00ed que foi, assim, um momento meio de choque, em que a pol\u00edcia quis entrar no sal\u00e3o nobre da reitoria, para onde tinham ido os estudantes e eu n\u00e3o permiti, eu fui pra l\u00e1 e disse que n\u00e3o podia, esse foi assim talvez o momento mais dram\u00e1tico e at\u00e9 a pol\u00edcia atendeu. O governador da maior parte da \u00e9poca, era o Luis Viana, houve o momento em que Navarro de Brito, que era ali\u00e1s uma grande figura, era o Secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o e desagradou l\u00e1 por qualquer coisa, que eu at\u00e9 nem lembro direito o que era, e a\u00ed fizeram uma rea\u00e7\u00e3o contra o Navarro de Brito, mas na verdade n\u00e3o se compara com outras coisas que falam das masmorras e dessas coisas, e isso aqui na Bahia existiu, mas n\u00e3o teve esse sentido assim de uma guerra de Araguaia e coisas desse tipo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Os conselhos universit\u00e1rios aconteciam normalmente naquele per\u00edodo?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Aconteciam, houve uma ou duas invas\u00f5es, houve uma invas\u00e3o na faculdade de direito, houve uma invas\u00e3o, essa do hospital das cl\u00ednicas foi muito depois, n\u00e3o foi comigo, j\u00e1 foi no tempo de Jo\u00e3o Durval, e com Ant\u00f4nio carlos muitas coisas, mas durante meu per\u00edodo como Reitor e tamb\u00e9m como governador n\u00e3o houve coisas assim terr\u00edveis um pouco pelo pr\u00f3prio esp\u00edrito do baiano. S\u00e3o Paulo, por exemplo, os empres\u00e1rios se juntaram e financiaram muitas coisas, porque aqui na Bahia, primeiro n\u00e3o tem empres\u00e1rio desse porte e segundo n\u00e3o dava para, o esp\u00edrito do baiano n\u00e3o \u00e9 para isso.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: E do ponto de vista da universidade, quer dizer, como foi nesse per\u00edodo a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o crescimento da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, os institutos, como \u00e9 que o senhor avaliou aqueles quatro anos?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Nesse per\u00edodo se criaram os primeiros cursos da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Os primeiros: o Machado Neto, da Faculdade de Direito, tinha passado uma temporada na fase \u00e1urea de Bras\u00edlia, ent\u00e3o tinha trazido essas ideias. E entre ele, Machado Neto, Zaid\u00ea, esposa dele e outras, Maria Brand\u00e3o,\u00a0 criaram o curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Humanas, n\u00e3o lembro exatamente como era o progamia, mas foi um dos primeiros. O outro, dos primeiros programas, que hoje at\u00e9 nem se fala mais, Alexandre Gal Costa, n\u00e3o sei se voc\u00ea o conheceu, era professor de parasitologia na medicina, e era um bot\u00e2nico de excelente qualidade, ele se juntou com o pessoal da SEPLAC, que foi uma grande organiza\u00e7\u00e3o no sul do estado para pesquisar o cacau e tinha o pessoal com doutorado, que a praga do cacau se \u201cdesmantelou\u201d, mas muitos deles foram aproveitados pela Universidade de Santa Cruz, tanto que a Universidade de Santa Cruz tem um percentual de doutores relativamente alto. O Alexandre Gal Costa ent\u00e3o juntou aqui, a bot\u00e2nica da filosofia da UFBA com a bot\u00e2nica da SEPLAC, e fez um curso de mestrado de muito bom n\u00edvel. Esses foram os primeiros, depois vieram vindo, \u201cmedicina\u201d&#8230;a\u00ed surgiram alguns, e vieram, foram chegando.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: E a Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o como foi esse per\u00edodo, o senhor disse que foi nesse\u00a0 per\u00edodo que ela foi criada, n\u00e9?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: A Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o foi criada n\u00e9, a professora Leda Jesu\u00edno foi a diretora, ela \u00e9 muito atuante junto aos professores, Iracy Pican\u00e7o teve muita participa\u00e7\u00e3o naquela \u00e9poca e houve uma figura que infelizmente foi esquecida, que foi uma inglesa que veio aqui\u00a0 pela UNESCO, e que foi, era uma mulher muito inteligente, muito competente, conhecedora dos problemas da educa\u00e7\u00e3o e que na minha vis\u00e3o teve um papel importante da cria\u00e7\u00e3o, digamos, de uma mentalidade da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, depois n\u00e3o se falou mais nela. Houve um momento em que, numa reuni\u00e3o sobre\u2026 daqui da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, de pedagogia\u00a0 e tal, eu procurei falar o papel dela e professoras importantes daqui, eu tamb\u00e9m n\u00e3o estou sabendo o nome, acharam que ela era muito est\u00fapida, muito agressiva e que \u201cn\u00e3o sei o que\u201d, e riscaram o nome dela, eu acho que isso foi uma grande injusti\u00e7a, acho que o nome dela nem \u00e9 mais citado, n\u00e9?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: O senhor lembra o nome?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Professora\u2026<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Eu mesmo nunca ouvi falar [risos]\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Pois \u00e9, por isso, apagaram o nome dela, ela realmente n\u00e3o era uma pessoa af\u00e1vel, n\u00e3o era uma pessoa, digamos, baiana, entendeu? E apagaram o nome dela, mas est\u00e1 escrito, tem escrito.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Vamos localizar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Era realmente uma figura muito interessante e muito competente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Consta a lenda de que esses pr\u00e9dio que n\u00f3s estamos aqui, foi originalmente constru\u00eddo para a Faculdade de Economia, e que a professora Leda que tomou conta dele, perguntamos a ela e ela respondeu politicamente sem dizer que sim ou n\u00e3o, o senhor se lembra disso?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Esse pr\u00e9dio, \u00e9 posterior a mim, eu acho que foi Lafaiete, foi no reitorado de Lafaiete, o que houve no meu per\u00edodo nessa \u00e9poca \u00e9 o seguinte: A Faculdade de Filosofia\u00a0 tinha todos esses cursos que voc\u00ea conhece, tinha matem\u00e1tica, tinha qu\u00edmica, tinha f\u00edsica, pedagogia, tinha ci\u00eancias humanas, e chegou a ter naquele pr\u00e9dio de Nazar\u00e9, que era um pr\u00e9dio pequeno e antiquado, tinha servido de escola normal antes da constru\u00e7\u00e3o do Barbalho, tanto voc\u00ea v\u00ea que era um pr\u00e9dio, vamos dizer, defasado. Estavam l\u00e1 3.000 alunos, era um caldeir\u00e3o. O meu amigo querido Joaquim Batista Neves, que era o diretor, ele conseguia equilibrar aquilo e tal, ele levava para um lado e para o outro,\u00a0 com o jeit\u00e3o dele conseguia segurar o caldeir\u00e3o, mas era um caldeir\u00e3o. Quando eu cheguei com a cria\u00e7\u00e3o dos institutos, ent\u00e3o come\u00e7ou saindo o pessoal de Matem\u00e1tica, o pessoal de F\u00edsica, foi saindo o pessoal de todos os pr\u00e9dios que foram constru\u00eddos com apoio do BID e com os professores que a UNESCO tinha trazido, pois bem, e com isso ent\u00e3o foram saindo. No ficaram Ci\u00eancias Humanas, Letras, s\u00f3, e a faculdade de Educa\u00e7\u00e3o que estava l\u00e1, isso era para ter mais do que houve uma mudan\u00e7a no governo da universidade, por que voc\u00ea procura e v\u00ea de que escolas vieram os reitores, quase todos vieram de \u201cMedicina\u201d, quase todos, exceto Lafaiete que era da Faculdade de Direito, e que era tamb\u00e9m de uma fam\u00edlia de grande prest\u00edgio, depois veio o Serpa, que era o \u00fanico da Educa\u00e7\u00e3o, que era de F\u00edsica, ali\u00e1s, e qual foi o outro que veio?&#8230; Z\u00e9 Rog\u00e9rio, que era da Polit\u00e9cnica, e\u00a0 que n\u00e3o foi bem aceito. Pois bem, mas todos os outros, todos, vieram de Medicina, que era&#8230;o governo da universidade era das disciplinas profissionalizantes, da \u00e1rea b\u00e1sica n\u00e3o tinha nenhum, n\u00e3o teve nenhum, eu acho que at\u00e9 agora n\u00e3o teve nenhum, e tinha Felipe que tinha sido da F\u00edsica, mas emprestado \u00e1 Educa\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m era da fase profissionalizante. Bom, ent\u00e3o voc\u00ea v\u00ea que a fase profissional, quando passaram a ter for\u00e7a, voc\u00ea veja, a Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o tinha representa\u00e7\u00e3o na \u00e9poca que era, no conselho universit\u00e1rio que era, do diretor da faculdade e de mais um professor. Pois bem, dentro do conselho universit\u00e1rio, todo peso era das escolas profissionalizantes, da Filosofia Ci\u00eancias e Letras passou a vir o representante da matem\u00e1tica, o representante da f\u00edsica e por a\u00ed vai. Da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o sa\u00edram sete representa\u00e7\u00f5es da Faculdade de Filosofia Ci\u00eancias e Letras, sa\u00edram sete representantes no conselho universit\u00e1rio, ent\u00e3o, isso dentro do conselho universit\u00e1rio, era para ter sido uma revolu\u00e7\u00e3o, quer dizer, o governo da universidade era para ter se deslocado com uma influ\u00eancia muito maior para os setores b\u00e1sicos do conhecimento, mas isso foi devagar, isso foi devagar porque assim como foi no s\u00e9culo XIX, as escolas profissionais que existiam, impediram a cria\u00e7\u00e3o das universidades e foram elas que impediram, era o prest\u00edgio delas que impediu no s\u00e9culo XIX, a cria\u00e7\u00e3o de universidades, no governo das universidades de hoje, o peso dos setores b\u00e1sicos do conhecimento, agora que est\u00e1 come\u00e7ando, e eu vou lhe dizer, aqui entre n\u00f3s, n\u00e3o sei at\u00e9 se devia interromper a\u00ed, o meu empenho em criar uma faculdade de ci\u00eancias, uma academia de ci\u00eancias, \u00e9 justamente para dar maiores oportunidades para esse pessoal que veio com a cria\u00e7\u00e3o dos institutos aqui na nossa universidade\u00a0 e realmente eles se viraram eles est\u00e3o dando conta. Agora em rela\u00e7\u00e3o a Faculdade de educa\u00e7\u00e3o eu tenho uma pergunta que ai \u00e9 voc\u00eas que v\u00e3o me responder, por que as licenciaturas n\u00e3o se articularam tanto pelo entendimento entre a Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o e os institutos, houve algum fator a\u00ed que dificultou isso?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Mas \u00e9 praticamente no mundo inteiro isso, n\u00e9, \u00e9 uma dificuldade de relacionamento\u2026<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Entre as mat\u00e9rias de conte\u00fado\u2026<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: E as faculdades de educa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: H\u00e1 muita discuss\u00e3o sobre o que deve ter prefer\u00eancia e tal, na forma\u00e7\u00e3o, mas de alguma forma tem ido para frente, n\u00e9?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: \u00c9 acho que sim, e acho que tem muita coisa para ser feita ainda, acho que tem muita mudan\u00e7a que tem que acontecer, na concep\u00e7\u00e3o, na \u201ccabe\u00e7a\u201d das licenciaturas, como daqui tamb\u00e9m acho que falta um\u2026<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Acho que \u00e9 rec\u00edproco.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Eu acho que \u00e9 rec\u00edproco, e isso \u00e9 antigo n\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Bom, eu n\u00e3o sei se teve tanto destaque quando os setores b\u00e1sicos do conhecimento eram muito, vamos dizer, submissos,\u00a0 n\u00e9, \u00e0s \u00e1reas profissionalizantes, agora que eles est\u00e3o criando corpo n\u00e3o sei at\u00e9 onde isso se modificou, tamb\u00e9m ficaram muito dos bacharelados, n\u00e9, eu n\u00e3o sei at\u00e9 onde os bacharelados tomam mais destaque do que as licenciaturas, isso eu n\u00e3o sei.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Eu acho que toma sim, sempre toma, termina tomando. Que as licenciaturas&#8230; bom, tanto \u00e9 que quando foi criado o Instituto de F\u00edsica e Matem\u00e1tica ali ao fundo do pr\u00e9dio de Filosofia Ci\u00eancias e Letras, naqueles pavilh\u00f5es continuaram os centros de ci\u00eancias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Exato.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Eles continuaram l\u00e1, eles n\u00e3o foram para o miolo da f\u00edsica, da qu\u00edmica, ficaram l\u00e1 digamos assim\u2026 que foram projetos importantes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: \u00c9, isso foi do tempo do meu pai, pela inspira\u00e7\u00e3o da Universidade de Bras\u00edlia, quer dizer An\u00edsio, Darci, assim por diante, e\u00a0 da\u00ed ent\u00e3o \u00e9 que veio a quest\u00e3o do petr\u00f3leo, que tamb\u00e9m foi para l\u00e1.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Professor Roberto, e de repente governador, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o de repente assim n\u00e3o \u00e9?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: [risos] De repente governador, foi isso era o chamado partido do governo, tinha 4 fac\u00e7\u00f5es, que brigavam entre si, se estrangulavam entre si, cada qual tinha um candidato que os outros n\u00e3o aceitavam, mas da\u00ed ent\u00e3o surgiu que os candidatos preferenciais de cada fac\u00e7\u00e3o n\u00e3o eram aceitos pelas outras, mas eu poderia ser aceito como segundo candidato e da\u00ed \u00e9 que veio, da\u00ed \u00e9 que acabei sendo escolhido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: E como foi?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Isso foi muito jogado em Bras\u00edlia, Petr\u00f4nio Portela, que era o presidente da ARENA tinha se tornado, eu tinha trabalhado muito no Conselho Federal de educa\u00e7\u00e3o, tinha estado presente l\u00e1 no ambiente federal por essa via, e o Petr\u00f4nio, presidente da ARENA,\u00a0 se dava muito bem comigo, e se a transis\u00e3o n\u00e3o tivesse sido, se o Petr\u00f4nio n\u00e3o tivesse morrido, a transi\u00e7\u00e3o teria sido muito mais operosa do que acabou sendo. O Petr\u00f4nio era um pol\u00edtico, de fato n\u00e3o era um partid\u00e1rio disso ou daquilo, era um pol\u00edtico que queria tocar o Brasil para frente, mas morreu.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: E o senhor se considera um pol\u00edtico?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Eu, n\u00e3o [Risos].<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Como foi conviver com pol\u00edticos t\u00e3o profissionais quanto Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Bom, o fato \u00e9 que n\u00e3o nos entendemos, n\u00e9? N\u00e3o nos entendemos. N\u00e3o havia como conciliar. Eu me dei muito bem com o Luiz Viana que era<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> um sujeito culto,<\/span><span style=\"font-weight: 400\"> que tinha vis\u00e3o das coisas. Me dei bem com o Juthay que era um homem tranquilo, Lomanto j\u00e1 tinha passado um pouco da \u00e9poca mas ainda tinha uma lideran\u00e7a e \u00e9 uma pessoa com quem se pode perfeitamente conviver, n\u00e3o deu para conviver foi com Ant\u00f4nio Carlos, que esse era pol\u00edtico profissional, a\u00ed n\u00e3o deu.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Mas existiam embates?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Ah sim, de todo tipo. Ele procurou cortar muita coisa que, do Federal que podia ter vindo para c\u00e1, coisa desse tipo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: E mesmo no seu governo n\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: No meu governo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Ci\u00eancia e Tecnologia, por exemplo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Sim, sim o Museu de Ci\u00eancia e Tecnologia, que era uma coisa de uma import\u00e2ncia enorme, porque a Bahia tava saindo da fase agr\u00edcola exportadora, para uma fase industrial, e a juventude n\u00e3o sabia n\u00e3o tinha conhecimento disso, as fam\u00edlias locais n\u00e3o tinham nenhuma vis\u00e3o disso, ent\u00e3o o museu tinha um papel important\u00edssimo e foi todo planejado nessa dire\u00e7\u00e3o, teve uma assessoria do conselho brit\u00e2nico que foi fundamental para parte cient\u00edfica, depois na parte de tecnologia a Petrobras ajudou muito, a Petrobras gastou muito com o museu e tudo isso se acabou, o est\u00e1dio tamb\u00e9m liquidaram, assim, ele fechou o est\u00e1dio, acabou. E a ideia quando eu tava para assumir o governo, a imprensa esportiva especializada, todo dia dava not\u00edcia de que a Bahia precisa de um segundo est\u00e1dio, porque o est\u00e1dio da Fonte Nova, \u00e9 um est\u00e1dio muito grande e muito oneroso, porque das partidas de futebol que existiram naquela \u00e9poca, s\u00f3 cobriam a despesa de opera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 nem de manuten\u00e7\u00e3o, as despesas de opera\u00e7\u00e3o s\u00f3 eram cobertas pelos jogos Bahia e vit\u00f3ria, e no entanto, naquele tempo a Bahia tinha o Gal\u00edcia, o Ipiranga que tinha uma torcida muito grande, tinha o Botafogo baiano, tinha o Le\u00f4nico, tinha v\u00e1rios outros partidos que morreram, acabaram, porque s\u00f3 cobriam as despesas de opera\u00e7\u00e3o do Ot\u00e1vio mangabeira as partidas Bahia e Vit\u00f3ria. Ent\u00e3o,\u00a0 a imprensa esportiva com raz\u00e3o dizia que a Bahia precisa de um est\u00e1dio mais barato, n\u00e3o que seja inferior n\u00e3o, mas de um est\u00e1dio que n\u00e3o fosse t\u00e3o oneroso na sua opera\u00e7\u00e3o quanto o grande est\u00e1dio da Fonte Nova. Ent\u00e3o, quando eu entrei, cuidei logo de identificar o local, foi escolhido com muita cautela, and\u00e1vamos de helic\u00f3ptero procurando onde era o melhor local, depois aproveitou essa topografia da cidade de Salvador, que tem esses morrinhos, e ficou um pr\u00e9dio de constru\u00e7\u00e3o barata, porque ali a natureza tinha preparado uma arquibancada, enfim, fizemos isso tudo na ideia de que existisse um segundo est\u00e1dio em Salvador, e fecharam evidentemente fecharam , acabou, o pr\u00f3prio Parque de Pitua\u00e7u, que era uma das coisas engra\u00e7adas daqueles per\u00edodo foi o seguinte, das atra\u00e7\u00f5es do Parque de Pitua\u00e7u, uma das mais importantes ia ser uma arena de teatro ao ar livre que ficava num lugar bel\u00edssimo de natureza deslumbrante que \u00e9 o Alto S\u00e3o Jo\u00e3o, l\u00e1 no Parque de Pitua\u00e7u. N\u00f3s t\u00ednhamos preparado aquilo com esses pr\u00e9-fabricados, essa arena e uma pra\u00e7a coberta, para fazer pra\u00e7a de artesanato para os turistas, com produ\u00e7\u00e3o das \u00e1reas de baixa renda, que estavam j\u00e1 l\u00e1 localizadas, pois bem Ant\u00f4nio Carlos assumiu o governo, acho que foi em mar\u00e7o, e queria inaugurar, para mostrar produtividade logo, ent\u00e3o essas coisas de pr\u00e9-fabricados s\u00e3o baratas pelo material mas s\u00e3o caras pela instala\u00e7\u00e3o, ele, j\u00e1 estava tudo aquilo montado, desmontou tudo, a um pre\u00e7o alto para remontar nesse mercado de carnes em Ogunj\u00e1, para dizer que inaugurou uma obra com tr\u00eas meses\u00a0 de governo e pronto, e acabou com aquele neg\u00f3cio de Pitua\u00e7u.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: E o Parque de Pitua\u00e7u j\u00e1 previa a presen\u00e7a da Cat\u00f3lica l\u00e1?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: N\u00e3o, nada. Foi uma maneira de dizer que n\u00e3o jogou fora, que entregou uma entidade que n\u00e3o tem dinheiro para isso, \u00e9 uma obra benem\u00e9rita, \u00e9 um grande trabalho mas n\u00e3o tem recurso. Pitua\u00e7u se conservou porque ali ainda existe uma represa, que serviu para o abastecimento de \u00e1gua de salvador at\u00e9 a pouco tempo, ent\u00e3o aquela \u00e1rea escapou da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, e tornou ent\u00e3o poss\u00edvel aquela ciclovia, que tamb\u00e9m naquela \u00e9poca tava muito em moda, a ciclovia de Pitua\u00e7u tem 16 quil\u00f4metros, com trechos muito bonitos. N\u00f3s fizemos uma ciclovia da cidade de Cama\u00e7ari para o polo petroqu\u00edmico, que era para ter sido tamb\u00e9m muito promovida, para gente que morasse em Cama\u00e7ari e trabalhasse no polo com essa facilidade de transporte, enfim, v\u00e1rias outras coisas que vieram daquele tempo e que simplesmente foram ignoradas, para acabar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: o senhor falou v\u00e1rias vezes ai sobre avi\u00e3o, os primeiros aviadores, tem um avi\u00e3o no Museu de Ci\u00eancia e Tecnologia, quer dizer, ent\u00e3o o nosso aeroporto \u00e9 Dois de Julho?[Risos] Deve ser ou n\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Voc\u00ea sabe qual a origem do Aeroporto Dois de Julho? Aquele espa\u00e7o, aquele terreno, pertenceu a uma empresa francesa que se chamava, acho que se chamava, acho que n\u00e3o existe, <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Lat\u00e9co\u00e8re, <\/span><span style=\"font-weight: 400\">que \u00e9 onde circulava em voos intercontinentais, o Mermoz, que foi um dos her\u00f3is <\/span><span style=\"font-weight: 400\">do autor do Pequeno Pr\u00edncipe, que \u00e9 um livro que voc\u00eas todos conhecem. Pois bem, o Mermoz fazia parte dessa <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Lat\u00e9co\u00e8re<\/span><span style=\"font-weight: 400\">, que era uma empresa de voos intercontinentais. Em 1920 e tantos eles descobriram o terreno do Aeroporto Dois de Julho e montaram l\u00e1 o primeiro aeroporto baiano, vamos dizer. Durante a guerra, desenvolveram mais, ali\u00e1s, em algum momento desenvolveram mais os hidroavi\u00f5es, ent\u00e3o a Bahia passou a receber avi\u00f5es, do Porto dos Tainheiros, que voc\u00eas conhecem, ali foi o aeroporto de salvador durante muito tempo, Porto dos Tainheiros, primeiro uma instala\u00e7\u00e3ozinha de madeira avan\u00e7ando para o mar e depois fizeram uma constru\u00e7\u00e3o de cimento armado, que funcionou muitos anos, era o novo aeroporto de Salvador. Durante a guerra os hidroavi\u00f5es foram superados pelos aeroplanos, que eram esses avi\u00f5es de terra n\u00e9, e da\u00ed ent\u00e3o a Bahia, os aeronautas redescobriram o porto da <\/span><span style=\"font-weight: 400\">Lat\u00e9co\u00e8re<\/span><span style=\"font-weight: 400\">, que era o Dois de Julho, e os americanos durante a guerra fizeram a estrada, chamada Estrada Velha, que era uma estrada\u00a0 que em 22 ou 23 quil\u00f4metros tinha 80 e tantas curvas, porque eles aproveitaram eles tinham pressa, queriam fazer o aeroporto para servira guerra, eles aproveitaram a caminhada, e fizeram ent\u00e3o um asfalto de muito boa qualidade, mas que al\u00e9m de ser de boa qualidade por ser de caminhada n\u00e3o sofria as inunda\u00e7\u00f5es que depois toda Bahia come\u00e7ou a sofrer com essas inunda\u00e7\u00f5es. Pois bem, e com isso ent\u00e3o, a DP, que era a empresa americana que constru\u00eda essas coisas, durante a guerra construiu o caminho da estrada velha do aeroporto, da\u00ed ent\u00e3o, mais tarde fizeram no governo Ot\u00e1vio Mangabeira, fizeram, asfaltaram a orla, para ent\u00e3o chegar l\u00e1 ao aeroporto, e muito mais tarde Luiz Viana fez a Paralela que \u00e9 outro acesso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: E o futuro?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: E o Futuro? Bom, eu acho que houve um grande desenvolvimento muito na base da ci\u00eancia e tecnologia de S\u00e3o Paulo. O Rio de janeiro com o funcionamento de Bras\u00edlia deu para traz, e o nordeste teve uma fase de Celso Furtado, de R\u00f4mulo Almeida, desse entusiasmo pelo nordeste, isso depois reduziu muito, eu acho que o nordeste precisa se entusiasmar\u00a0 pela ci\u00eancia e tecnologia para ent\u00e3o poder aproveitar as mat\u00e9rias-primas que existem aqui e que est\u00e3o muito subaproveitadas, como isso vai acontecer, eu n\u00e3o sei. A universidade, a nossa universidade deveria ter uma lideran\u00e7a maior nessa dire\u00e7\u00e3o, mas est\u00e1 demorando de acontecer, eu acho que com as nossas condi\u00e7\u00f5es de espa\u00e7o e de perspectivas de mat\u00e9rias-primas vai ter de ser na base do desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico,\u00a0 e por isso \u00e9 que a universidade precisava tomar a dianteira nisso, n\u00e3o sei se vai acontecer. A \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o n\u00f3s sabemos que na Bahia est\u00e1 realmente muito, muito largada, n\u00f3s temos um espa\u00e7o geogr\u00e1fico muito grande, uma densidade geogr\u00e1fica menor e n\u00e3o temos \u201cpodido\u201d enfrentar, na quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o nos seus v\u00e1rios n\u00edveis como precis\u00e1vamos, como era importante que tiv\u00e9ssimos, ent\u00e3o voc\u00eas a\u00ed da \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o tem uma responsabilidade muito grande, primeiro grau, segundo grau. Quando eu ocupei o governo a nossa prioridade na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o foi o segundo grau, foram as escolas profissionalizantes, n\u00f3s conseguimos um recurso da caixa Econ\u00f4mica, que chamava Fundo de Apoio Social, o FAS, e constru\u00edmos 19 escolas espalhadas pelo estado todo, fizemos previamente uma pesquisa de mercado, para ver quem precisava, o que, onde, de habilita\u00e7\u00e3o profissionalizante e fizemos essas escolas com o ensino pr\u00e1tico. Essa era a coisa, era para mim a chave que a Bahia tava precisando era escolas de segundo grau com ensino pr\u00e1tico, que foi um neg\u00f3cio que quase tava deixando de\u00a0 existir e que caiu muito depois tamb\u00e9m, que n\u00f3s sa\u00edmos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: E o futuro pessoal? Existencial.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Meu? Ah! Eu estou com 85 anos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: \u00c9 jovem. Tem muito pela frente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: [Risos] Com filhos e netos a\u00ed e com amigos, essas amizades \u00e9 que s\u00e3o importantes, isso voc\u00eas v\u00e3o descobrir, o importante mesmo, \u00e9 o que n\u00f3s temos de amizade, de fam\u00edlia. E diante disso, \u00e9 claro que a gente tem que ficar olhando pela comunidade, mas sabendo que tem de se recolher mesmo \u00e9 para a fam\u00edlia e os amigos. Porque o tempo passa mais depressa do que a gente pensa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">NP: Muito bem. Muito obrigado.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">RS: Eu \u00e9 que agrade\u00e7o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">[Palmas]<\/span><\/p>\n<p><strong>Depoimento dos(as) estudantes p\u00f3s entrevista<\/strong><\/p>\n<p><strong>Hilnai Cantu\u00e1ria Borges<\/strong><span style=\"font-weight: 400\">: Sou do curso de pedagogia, estou come\u00e7ando agora aqui na UFBA, que eu vim de uma outra institui\u00e7\u00e3o e foi muito gratificante participar dessa entrevista com o professor Roberto Santos. Sou baiana de salvador, nasci em salvador, passei um tempo em Feira, voltei de novo, j\u00e1 voltei para Feira de novo e agora estou aqui.<\/span><\/p>\n<p><strong>Joana Dourado<\/strong><span style=\"font-weight: 400\">: Eu sou Joana Dourado, estudante de pedagogia, creio que no d\u00e9cimo semestre, por conta do interc\u00e2mbio que fiz, muito prazeroso, um aprendizado muito grande ter participado dessa produ\u00e7\u00e3o, enfim. Sou de Salvador, nasci em salvador, aqui, minha fam\u00edlia \u00e9 de Irec\u00ea, mas nasci aqui, e s\u00f3.<\/span><\/p>\n<p><strong>Isabela Lacerda<\/strong><span style=\"font-weight: 400\">: Meu nome \u00e9 Isabela Lacerda, tamb\u00e9m do d\u00e9cimo semestre de pedagogia e pretendo me formar no pr\u00f3ximo ano, est\u00e1 sendo muito bom fazer essa disciplina, inclusive pelo conhecimento\u00a0 que a gente adquire pesquisando a respeito dos entrevistados, no caso. Nasci em Salvador, fui criada aqui, minha fam\u00edlia por parte pai e m\u00e3e de S\u00e3o Felipe ,a gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es e eu vivi muto tempo l\u00e1, mas assim, sempre morando em Salvador, mas o m\u00e1ximo de tempo que eu podia passava l\u00e1, dava as f\u00e9rias da escola ia para l\u00e1, s\u00f3 voltava no dia da aula e todo final de semana que podia tava l\u00e1, ent\u00e3o, de um certo modo me considero at\u00e9 mais de S\u00e3o Felipe do que de Salvador, e \u00e9 isso.<\/span><\/p>\n<p><strong>Eric Petroson<\/strong><span style=\"font-weight: 400\">: Sou estadunidense, um estudante intercambista dos estados Unidos, de Minesota, e a dois meses que estou gostando muito da vida aqui, de tudo em Salvador, e aprendi muito nessa entrevista, aprendi muito, e foi muito legal participar dessa entrevista.<\/span><\/p>\n<p><strong>Jamile Sampaio<\/strong><span style=\"font-weight: 400\">: Sou estudante de pedagogia, do oitavo semestre, pretendo sair esse\u00a0 semestre, estou num per\u00edodo bastante agitado da minha vida, fazendo monografia , casei a pouco tempo, t\u00f4 com tr\u00eas disciplinas, mas encontro for\u00e7as nos meus amigos, na minha fam\u00edlia, em experi\u00eancias\u00a0 como essa que eu tive aqui n\u00e9, com conhecimentos novos e est\u00e1 sendo muito importante, interessante fazer parte dessa disciplina, porque est\u00e1 me desenvolvendo cada vez mais e \u00e9 isso.<\/span><\/p>\n<p><strong>Elba Caroline<\/strong><span style=\"font-weight: 400\">: Sou estudante de comunica\u00e7\u00e3o, na Facom, na UFBA, quinto semestre, estou fazendo parte aqui do Mem\u00f3ria em v\u00eddeo, como bolsista e est\u00e1 sendo interessante, j\u00e1 \u00e9 a quarta entrevista que participo e tem sido muito satisfat\u00f3rio. Eu sou de Cruz das Almas, moro aqui h\u00e1 pouco tempo, s\u00f3 por caos da faculdade mesmo, e est\u00e1 sendo muito bom.<\/span><\/p>\n<p><strong>Bruno Gon\u00e7alves<\/strong><span style=\"font-weight: 400\">: Formando de pedagogia, quer dizer j\u00e1 me formei, j\u00e1 tem um ano e meio, estou aqui junto com o professor Nelson como bolsista de tecnologia, bolsista de apoio t\u00e9cnico, esse ano foi, ali\u00e1s, os tr\u00eas semestres que estou participando do projeto, assim, para mim est\u00e1 sendo, experi\u00eancias fant\u00e1sticas, hist\u00f3rias de vida e de profissionais, assim, que eu fico de boca aberta, depois eu fa\u00e7o a edi\u00e7\u00e3o disso eu fico assim, imaginando muitas coisas, que, poxa, essas pessoas, viveram muito, muito, e ainda tem muita coisa para poder explorar de aprendizado, assim, para mim \u00e9 fant\u00e1stico. Bem, eu sou nascido aqui e Salvador, nasci no Santa Isabel, e meus pais, um de Sergipe e um daqui da Bahia, meu pai \u00e9 da Bahia e minha m\u00e3e de Sergipe, \u00e9 isso.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Revis\u00e3o final da transcri\u00e7\u00e3o de Fabio de Souza, bolsista de Comunica\u00e7\u00e3o e aluno de EDC61 \u2013 Mem\u00f3ria em V\u00eddeo da Educa\u00e7\u00e3o na Bahia<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gravado nos est\u00fadios do \u00c9duCANAL \u2013 Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFBA, em 11\/10\/2011. Roberto Santos (RS): Meu nome \u00e9 Roberto Figueira Santos. Eu nasci em Salvador a 15 de Setembro, de 1926. Estou, portanto, com 85 anos completos. Felizmente, com sa\u00fade quase boa, com pequenas dificuldades aqui e ali, s\u00e3o pr\u00f3prios da idade, mas estou trabalhando e isso \u00e9 que \u00e9 importante. Estou podendo atender os convites dos amigos, continuo me movimentando em todos os programas da educa\u00e7\u00e3o, sobretudo, de educa\u00e7\u00e3o superior aqui na Bahia. Meus pais eram ambos nascidos em Salvador, e dos quatro av\u00f3s, tr\u00eas eram nascidos em Salvador e o quarto veio de Portugal aos 11 anos de idade e ficou tamb\u00e9m aqui em Salvador. Ent\u00e3o, eu sou produto aqui dessa terra. Nasci aqui, eu tamb\u00e9m estudei. Fiz todo o meu curso at\u00e9 a gradua\u00e7\u00e3o em n\u00edvel superior aqui em Salvador. Naquele tempo, ainda havia possibilidade de fazer, em aulas particulares, o programa at\u00e9 o temido Exame de Admiss\u00e3o, pelo qual os brasileiros em torno dos 11 anos eram selecionados para entrar ou n\u00e3o no gin\u00e1sio. Essas aulas infelizmente desapareceram h\u00e1 muitos anos. E, as reformas se sucederam. Quando eu passei do prim\u00e1rio para o que era secund\u00e1rio na \u00e9poca, entrei no gin\u00e1sio, perto dos 11 anos, e fiquei 5 anos at\u00e9 completar\u00a0 esse gin\u00e1sio. Nelson Pretto (NP):\u00a0 O \u201cAdmiss\u00e3o\u201d tinha a mesma tens\u00e3o do vestibular de hoje, ou maior? RS: Era mais ou menos na mesma linha. Porque isso definia muito o destino das crian\u00e7as, naquele tempo eram crian\u00e7as, n\u00e9? Eu tinha feito o curso prim\u00e1rio em casa com a professora, e quando entrei para o gin\u00e1sio, fiquei a\u00ed esses 5 anos, e s\u00f3 depois disso \u00e9 que eu fui, para o que se chamava naquele tempo o curso \u201cPRE\u201d, o curso complementar ao gin\u00e1sio &#8211; era uma das in\u00fameras reformas na educa\u00e7\u00e3o que tinha havido, em que voc\u00ea fazia o curso secund\u00e1rio dessa forma: cinco anos de gin\u00e1sio e dois anos complementares. O curso complementar come\u00e7ava uma certa especializa\u00e7\u00e3o \u2013 havia um pr\u00e9-m\u00e9dico, um pr\u00e9-judr\u00eddico, e um pr\u00e9-t\u00e9cnico de engenharia. Eu fiz o pr\u00e9-m\u00e9dico. Com isso, ao fim dos 7 anos do secund\u00e1rio, eu fiz o exame vestibular para medicina. NP: J\u00e1 se chamava vestibular? RS: J\u00e1 chamava vestibular. Depois mudou o nome para o concurso da habilita\u00e7\u00e3o. Porque eram, n\u00e3o era bem um exame, era concurso classificat\u00f3rio. As faculdades tinham o n\u00famero de alunos limitados. Era o famoso n\u00fameros clausos, pelo qual o Brasil sempre se orgulhou, comparado com outros pa\u00edses, e inclusive com os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, em que as faculdades recebiam um n\u00famero muito grande de alunos no primeiro ano e muito pouco desses passaram para o\u00a0 segundo e terceiro. O brasil selecionou, desde que eu me entendo, na entrada, no acesso ao n\u00edvel superior, colocando um limite no n\u00famero de alunos a depender das condi\u00e7\u00f5es de funcionamentos da escola. Eu fui ent\u00e3o para \u201cMedicina\u201d e comecei o curso m\u00e9dico em 1.943, portanto durante a guerra. Havia uma s\u00e9rie de influ\u00eancias a que os estudantes ficavam ligados, diante daquele clima que o brasil atravessava \u2013 se devia entrar na guerra ou devia n\u00e3o entrar na guerra. Isso, j\u00e1 naquele tempo, gerou muitas faltas nas aulas, porque haviam os movimentos em um sentido e em outro sentido. NP: Era forte o movimento estudantil? Nessa discuss\u00e3o? RS: Era forte o movimento estudantil. Era a ditadura Vargas, n\u00e9? E, G\u00e9tulio Vargas tinha ministros para um lado e ministros para outro lado, sendo que, para o lado dos aliados pendia o Osvaldo Aranha , que era das rela\u00e7\u00e3o aos exteriores, para o lado do nazismo pendia Eurico Dutra, que era o general do ministro da guerra. E n\u00e3o s\u00f3 os estudantes, mas os m\u00e9dicos por exemplo. A Faculdade de Medicina, do &#8220;Terreiro&#8221;, tem um sal\u00e3o nobre, que durante muito tempo, muitas d\u00e9cadas, foi uma esp\u00e9cie de, sala de visitas para a realiza\u00e7\u00e3o de grandes eventos, n\u00e3o havia outros sal\u00f5es daquele tamanho aqui em Salvador. E os m\u00e9dicos estiveram muito presentes nessa discuss\u00e3o, e houve muitos discursos, muitas sess\u00f5es, pendendo, sobretudo para o lado dos aliados. Os m\u00e9dicos se tornaram famosos pelos oradores que defendiam, sobretudo ao lado dos aliados. NP: O senhor lembra de alguns nomes deles? RS: Sim. Havia lideran\u00e7as, n\u00e9?! Havia por exemplo, o professor Eduardo de Morais \u2013 que era professor de otorrinolaringologia, mas era um homem culto, um homem que tinha uma viv\u00eancia social muito intensa, e ele era um dos oradores l\u00edderes dos m\u00e9dicos. Mais ou menos em competi\u00e7\u00e3o com ele havia um professor Pinto de Carvalho, que foi professor de neurologia e que foi membro e creio que\u00a0 presidente da Academia de Letras da Bahia. Pinto de Carvalho tamb\u00e9m, todos muito entusi\u00e1stas da Fran\u00e7a \u2013 a influ\u00eancia francesa do ponto de vista cultural foi imensa no Brasil at\u00e9 a segunda guerra mundial, at\u00e9 os meus dias, a\u00ed que come\u00e7ou a se modificar. NP: E fora da medicina tinha? RS: Tamb\u00e9m, tamb\u00e9m. NP: O senhor lembra de nomes que eram importantes&#8230; oradores, lideran\u00e7as nesse per\u00edodo? RS: Sim, naquela \u00e9poca, ainda bem mais do que \u00e9 hoje, a Faculdade de medicina tinha uma influ\u00eancia, sobre toda a comunidade baiana, muito grande. As outras faculdades tinham nomes destacados mas n\u00e3o tinham a mesma influ\u00eancia sobre o ambiente social que tinha a Faculdade de Medicina \u2013 que tinha sido a mais antiga, tinha instala\u00e7\u00f5es muito melhores do que as outras e era uma faculdade federal \u2013 eu n\u00e3o sei desde quando mantida com recursos federais e havia naquela \u00e9poca tamb\u00e9m uma outra diferencia\u00e7\u00e3o que hoje n\u00e3o se v\u00ea mais: O funcion\u00e1rio p\u00fablico federal tinha condi\u00e7\u00f5es melhores de sal\u00e1rio, de aposentadoria, assim por adiante, o estadual ficava no meio e o municipal tinha condi\u00e7\u00f5es piores. E no caso do ensino superior a Faculdade de Medicina j\u00e1 era federal h\u00e1 muito tempo e isso tamb\u00e9m \u00e9 destac\u00e1vel. Quando chegou a cria\u00e7\u00e3o da universidade, que foi em 1.946 n\u00e9, a \u00fanica federal era \u201cMedicina\u201d, \u201ca Polit\u00e9cnica\u201d\u00a0 j\u00e1 tinha sido e tinha deixado de ser, outro<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":107,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"single.php","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-160","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-transcricoes"],"featured_image_src":null,"featured_image_src_square":null,"author_info":{"display_name":"bsglinux2","author_link":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/author\/bsglinux2\/"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/160"}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=160"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/160\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":978,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/160\/revisions\/978"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=160"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=160"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=160"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}