{"id":1513,"date":"2026-07-30T14:58:26","date_gmt":"2026-07-30T17:58:26","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/?p=1513"},"modified":"2026-07-30T14:58:28","modified_gmt":"2026-07-30T17:58:28","slug":"ione-sousa-transcricao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/ione-sousa-transcricao\/","title":{"rendered":"Ione Sousa &#8211; transcri\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>[In\u00edcio da Entrevista]<\/p>\n\n\n\n<p>(M\u00fasica instrumental)<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: Eu sou Ione Celeste Jesus de Sousa, sou nascida em Salvador, em uma noite muito fria desse m\u00eas de julho, a \u00faltima noite do m\u00eas de julho, em 1963. Sou filha de uma professora prim\u00e1ria, formada pelo Instituto Normal da Bahia, e acho que desde que eu me conhe\u00e7o, eu me lembro dentro de uma escola, de uma sala de aula, porque eu acompanhava minha m\u00e3e em quase todas as atividades. Eu era mais velha, depois vieram naquela famosa escadinha de antigamente, que era um filho a cada ano, ent\u00e3o um em junho, outro em julho e outro em agosto. E eu tinha um irm\u00e3o pequeno que era um pouco mimado e n\u00e3o podia deixar eu e ele junto dentro de casa porque um tocava fogo no outro, ent\u00e3o eu acompanhava muito minha m\u00e3e nessas coisas. E volto a dizer, sempre me lembro de estar em algum lugar referente \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estou querendo ser assim meio tautol\u00f3gica, mas \u00e9 porque as minhas lembran\u00e7as realmente est\u00e3o quase todas referentes \u00e0 sala de aula, \u00e0 atividade de minha m\u00e3e. Outro dia eu estava conversando com uma amiga e ela \u00e9 assim muito ansiosa, est\u00e1 no doutorado e muito agoniada e a gente conversando com outra pessoa, eu disse a ela, mas tal pessoa \u00e9 filha \u00fanica de professora, isso eu entendo. Voc\u00ea \u00e9 realmente cobrado o tempo todo dentro da sua pr\u00f3pria casa. Ent\u00e3o as brincadeiras, al\u00e9m das brincadeiras comuns de menina da minha \u00e9poca, que era brincar de boneca, brincar de casinha, aquela coisa toda, era muito focado em voc\u00ea brincar com coisas de escola. Hoje, passados todos esses anos, eu vejo que isso incidiu de forma muito forte nas minhas escolhas depois, referente \u00e0s minhas coleguinhas, \u00e0s primas, a essas coisas todas. Mas naquela \u00e9poca j\u00e1 tinha isso e tinha uma coisa mais interessante. Como muitas das professoras da \u00e9poca dela, minha m\u00e3e formou em 1957, j\u00e1 um pouco madura, porque n\u00e3o estudou durante a fase de 13 a 14 anos, por quest\u00f5es de fam\u00edlia, ela trabalhava em casa. Ent\u00e3o ela fez concurso para o Estado, foi trabalhar \u00e0 noite, no que hoje a gente consideraria um EJA, mas na \u00e9poca n\u00e3o era EJA, n\u00e3o tinha esse nome, n\u00e3o existia nada disso, era a educa\u00e7\u00e3o de adultos, e durante o dia ela ficava em casa. E a\u00ed foi engra\u00e7ado, um dia que ela foi dar uma entrevista a uma aluna minha de Feira de Santana, quando eu j\u00e1 estava l\u00e1, ent\u00e3o j\u00e1 bem mais velha, e ela falando, a mo\u00e7a foi me levar o que foi gravado e tal, e a\u00ed eu n\u00e3o sabia se eu ria ou se eu chorava, porque ela dizendo que quando a menina dela fez 6 para 7 anos, ela a\u00ed fez um outro concurso, que foi para a prefeitura. E que a menina ficou muito zangada, porque ela ia trabalhar durante o dia, arrumou uma trouxa e disse que ia embora para S\u00e3o Paulo. E eu li muito, porque eu me lembrava desse epis\u00f3dio, n\u00e9? De eu zangada, arrumando minhas coisinhas l\u00e1, vou-me embora, n\u00e3o quero mais morar nessa casa, n\u00e3o gosto mais de voc\u00ea, essas coisas que existem.<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: Como \u00e9 o nome de sua m\u00e3e?<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: Minha m\u00e3e \u00e9 professora Iraildes Ribeiro de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: E voc\u00ea lembra onde \u00e9 que ela ensinava?<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: Ela ensinava\u2026 fora de casa. A gente morava no Largo do Tanque. N\u00f3s sempre moramos ali naquela regi\u00e3o da Liberdade, Largo do Tanque, S\u00e3o Caetano, aquele entorno dali. Quando eu nasci mesmo, n\u00e3o v\u00e3o dar risada, mas eu nasci dentro do Curuzu. Mas com tr\u00eas meses de idade eu fui morar no Largo do Tanque, mais perto da irm\u00e3 mais velha, a \u00fanica irm\u00e3 que ela tinha, parte de m\u00e3e, como se chama, n\u00e9? porque nas fam\u00edlias, n\u00e3o sei se voc\u00eas\u2026 \u00c9 muita coisa de\u2026 \u00c9 do casal, \u00e9 da m\u00e3e, \u00e9 do pai. Ent\u00e3o, ela tinha irm\u00e3s por parte de m\u00e3e. E n\u00f3s fomos morar no Largo do Tanque, voltando, porque tamb\u00e9m era muito perto da escola onde ela ensinava, que \u00e9 uma escola que a estupidez da gest\u00e3o municipal acabou de destruir. E tem uma outra que est\u00e1 a pouco de ser tamb\u00e9m destru\u00edda, a edifica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a escola Em\u00edlio Lopes Freiro e Lobo, que ficava na subida de S\u00e3o Caetano, quem vai ali no Largo do Tanque, e tem uma que fica no Largo do Largo do Tanque, bem no Largo mesmo, subindo S\u00e3o Louren\u00e7o, que \u00e9 a Manuel Florencio dos Santos. S\u00e3o duas escolas bem interessantes, porque eram casas. Uma era, porque acabou de ser destru\u00edda, tem uns dois ou tr\u00eas anos, e a outra, a \u00faltima vez que eu passei por l\u00e1, tem uns tr\u00eas meses, ainda estava em p\u00e9. aluga-se ou vende-se e tal. \u00c9 uma casa mesmo de moradia com aquele alpendre, com aquela coisa toda, que eram adaptadas para ser escola. Ent\u00e3o, minha m\u00e3e trabalhou o maior parte da vida dela naquela escola, pelo Estado, \u00e0 noite. E depois ela passou a trabalhar na prefeitura, eu devia ter uns sete, oito anos, num lugar que chama Alto do Peru, que \u00e9 l\u00e1 tamb\u00e9m entre a Fazenda Grande e o Largo do Tanque. Ent\u00e3o a vida da gente foi muito ali pr\u00f3xima.<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: E como era essa vida ali? J\u00e1 tinha o picol\u00e9 capelinha?<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: Tinha picol\u00e9 capelinha, tinha o cine S\u00e3o Caetano, que era onde a gente ia para o cinema. Eu me lembro da primeira mem\u00f3ria que eu tenho de cinema, eu devia ter uns quatro anos e fiquei muito traumatizada, porque fui assistir aquele filme dos Meios Mandamentos de Mois\u00e9s com o Charleston Heston, hoje eu sei quem \u00e9 o Charleston Heston, na \u00e9poca eu n\u00e3o sabia quem era, era algum ator. E aquela imagem, duas imagens que ficaram muito gravadas, uma da morte do filho do fara\u00f3, que eu morri de pena do menino pequeno, a pobre da crian\u00e7a, me identifiquei com ele morrendo. E a outra, aquela imagem do mar se abrindo, e Mois\u00e9s passando com a turma dele, que eu n\u00e3o vou chamar de hebreu, porque eu n\u00e3o sabia o que era hebreu, ent\u00e3o Mois\u00e9s com a turma dele, E a \u00e1gua vindo e derrotando tamb\u00e9m, afogando o fara\u00f3 com a sua turma. Eu fiquei tamb\u00e9m com pena do fara\u00f3. N\u00e3o consegui fazer essa liga\u00e7\u00e3o de \u00f3dio de nenhum dos dois. Eu fiquei com pena de que morria, porque era muito dif\u00edcil. Me lembro tamb\u00e9m desse cinema, um outro filme a\u00ed, que esse voc\u00ea conhece. &#8220;Dio, como ti amo&#8221;, que tinha aquela m\u00fasica, eu adorava aquela m\u00fasica. E tinha uma cena tamb\u00e9m que me chamava muito a aten\u00e7\u00e3o, era a cena da despedida, a mo\u00e7a chorando, ent\u00e3o eu tenho boas mem\u00f3rias do Sim, S\u00e3o Caetano, tinha Baleiro, tinha aquela coisa toda, voc\u00ea podia ir, atravessar s\u00f3 a ruazinha, que eu morava bem de fronte, uma rua assim, lateral, que \u00e9 bem de fronte do antigo cinema, hoje ele \u00e9 uma esp\u00e9cie de cl\u00ednica m\u00e9dica, dessas cl\u00ednicas populares, e minha m\u00e3e era muito conhecida ali, porque elas cresceram ali tamb\u00e9m, naquela regi\u00e3o dali, ent\u00e3o tanto que o nome dela era Iraildes, mas o pessoal j\u00e1 chamava ela de professora Didi ela morreu sendo chamada assim, de professora Didi, e na nossa casa ent\u00e3o ela passou a trabalhar dois turnos, mas ainda tinha um turno que ela dava a famosa banca em casa, tanto ela quanto minha tia, que era leiga minha tia era alguns anos mais velha que ela, 8, 10 anos mais velha mas tinha feito o ensino prim\u00e1rio quase completo e ent\u00e3o ela era artes\u00e3 n\u00e3o \u00e9 bem artes\u00e3 que chama, quem trabalha na f\u00e1brica que trabalha com o tear Tecel\u00e3 e j\u00e1 casou, mais velha e o marido naquela coisa era militar, voc\u00ea n\u00e3o trabalha tinha ci\u00fame porque minha tia era muito bonita ent\u00e3o tinha muito ci\u00fame ela ficou em casa, mas a\u00ed dava a famosa banca e a\u00ed eu vou falar um pouco, a\u00ed j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais s\u00f3 eu relembrando, mas j\u00e1 de uma reflex\u00e3o profissional que eu acho que \u00e9 dif\u00edcil a gente separar se voc\u00ea trabalha com hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o das lembran\u00e7as que voc\u00ea tem, acaba entrando em uma regi\u00e3o de fronteira que era assim, minha tia pegava as crian\u00e7as menores naquele beab\u00e1, eu aprendi assim, com aquela um peda\u00e7o de papel, uma folha de papel que fazia assim, um buraco no meio, voc\u00ea primeiro aprendia o alfabeto todo, A, B, C e tal, depois vinha o salteado que voc\u00ea ia botando aquele papel em cima e ia salteando as letras pra ver se a crian\u00e7a tinha realmente decorado aprendido, n\u00e9, as letras e os n\u00fameros, ent\u00e3o minha tia era craque nisso a\u00ed, e minha m\u00e3e ia pegando as crian\u00e7as mais velhas, hoje eu vejo que era uma forma de arruma\u00e7\u00e3o interna entre elas duas, entre a que fez o curso de normalista e a que n\u00e3o fez mas naquele momento o que eu sabia \u00e9 que eu aprendia com minha tia, e \u00e9 interessante que a gente tamb\u00e9m aprendia a escrever cobrindo a letra de algu\u00e9m a minha letra \u00e9 igualzinha a de minha tia n\u00e3o tem outro jeito n\u00e3o tem outro jeito, eu me percebi isso quando ela estava j\u00e1 bem mais velha que eu fui assinar algumas coisas em conjunto com ela, porque eu fui curadora essa coisa toda, e a\u00ed quando eu olhava a letra com algumas caracter\u00edsticas mais pessoais eu tenho algumas letras que s\u00e3o mais arredondadas mas o tale, como se diz \u00e9 igualzinho ao dela e eu lembro muito dela ensinando dessas brincadeiras todas e a\u00ed eu vou contar uma coisa que tinha na banca, tinha bolo bolo palmat\u00f3ria castigo f\u00edsico ent\u00e3o uma das coisas que fazia a diferen\u00e7a do pessoal gostar que minha m\u00e3e desse aula para os filhos \u00e9 exatamente esse aspecto disciplinar, tinha bolo, os pais procuravam quando eu comecei a ficar adolescente eu dizia esse povo \u00e9 louco, briga para vir botar esses meninos porque ela fechou a escola, ficou ficando mais velha e pegou um cargo de dire\u00e7\u00e3o na rede p\u00fablica E a\u00ed o pessoal ia procurar ela Ah, mas Didi, voc\u00ea vai fechar a escola? Quem vai ensinar esses meninos? Ah, eu tenho um menino muito retado em casa E eu preciso que voc\u00ea bote ele na linha E eu ficava olhando assim e dizia O povo \u00e9 louco, n\u00e9? Tem um dos \u00faltimos alunos Que agora est\u00e1 com 82 anos, Oswaldo Oswaldo, ele me encontra em alguns lugares a gente frequenta os mesmos locais espiritualistas e ele me disse, ah eu lembro tanto de sua m\u00e3e porque ele tem uma perna cortada, ele perdeu uma perna em um acidente de como \u00e9 que trem n\u00e9, que passava ali perto onde hoje agora o VLT e ele disse que minha m\u00e3e ele dizia: mas professora, a senhora depois de adulto, a senhora n\u00e3o descontava em mim n\u00e9, eu ser perneta, n\u00e3o porque o mundo n\u00e3o ia ser diferente pra voc\u00ea assim, dura e na hora n\u00e3o tinha conversa, e quem tamb\u00e9m foi aluno de minha m\u00e3e, foi algu\u00e9m que n\u00e3o foi professor daqui mas que interagiu muito com voc\u00eas Manuel de Almeida Cruz da pedagogia inter\u00e9cnica, foram os dois alunos de minha m\u00e3e, e eram os dois chamados de insubordinados, porque eram muito, eu acho que hoje, depois que eu cresci e conheci Manuel nas lidas da Vida, eu vi que ele n\u00e3o ia se adaptar \u00e0quele mundo de ficar A, B, B, B, A, era muito mais, n\u00e9? E a\u00ed a palmat\u00f3ria gemia. Eu at\u00e9 lembrei disso, eram tr\u00eas palmat\u00f3rias, uma dos meninos, que era Zorro, uma das meninas, que era Mimosa, e tinha uma outra pequena que ficava assim penduradazinha, n\u00e9, tal. Depois elas pararam de trabalhar tanto, n\u00e9, porque tinha todas as regras, mas elas ficavam l\u00e1 de lembran\u00e7a dessa \u00e9poca. Eu s\u00f3 tomei bolo duas vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: Do\u00eda?<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: Do\u00eda na m\u00e3o e do\u00eda na alma. Na alma, acho que ainda do\u00eda mais porque os colegas estavam fazendo goza\u00e7\u00e3o, n\u00e9? E eu ainda tinha a quest\u00e3o de ser filha da professora. Ent\u00e3o, tomar bolo, pra eles, era nunca colega me deu. Que eu nunca dei, como \u00e9 que eu dizia assim? Eu n\u00e3o era aquele tipo de aluno que errava muito, n\u00e9? E tinha tal da sabatina, ent\u00e3o na sabatina eu n\u00e3o dava bobeira pra colega me dar bolo, que eu n\u00e3o ia cair nessa. Mas ela pr\u00f3pria me deu bolo duas vezes, n\u00e9? Porque eu errei e numa coisa de matem\u00e1tica que eu acabei tomando bolo e eu sabia que as colegas, boa parte, estavam rindo naquele momento. Ent\u00e3o do\u00eda no corpo, do\u00eda na alma. Quando os colegas tomavam, que era algum colega que eu gostava mais, minha prima, a\u00ed eu tamb\u00e9m chorava, mas depois\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: Mas ent\u00e3o n\u00e3o era por disciplina, era tamb\u00e9m como um sistema de aprendizado. Os dois lados.<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: Os dois lados. Se voc\u00ea errava, tinha dia de ter tabuado, eu me lembro bem dessa tabuada e de sabatina de uma forma geral. E era chamado assim mesmo, sabatina. Eu n\u00e3o sei porqu\u00ea esse nome, sabatina, l\u00e1 depois eu fiquei sabendo nas pesquisas \u00e9 porque era dia de s\u00e1bado que tinha essas atividades, n\u00e9, nada coisa, mas l\u00e1 j\u00e1 n\u00e3o tinha mais aula dia de s\u00e1bado, era dia de segunda a sexta mas tinha a sabatina, a de matem\u00e1tica a de geografia, a de hist\u00f3ria e a de portugu\u00eas, n\u00e9, eu tomei boa numa de matem\u00e1tica e numa de geografia.<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: Muito bem, a\u00ed entrou depois dessa forma\u00e7\u00e3o em casa foi pra escola formal?<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: Fui pra escola bem pequena. Fui pra escola bem pequena em termos formais. Eu me alfabetizei, minha m\u00e3e sempre falou que eu me alfabetizei, ningu\u00e9m sabe como com tanta gente, tanta brincadeira de desenho, de escola, de fa\u00e7a letra e ficava ouvindo os alunos falando, soletrando o tempo todo ali sentada eu aprendi muito cedo e me lembro de ter alfabetizado meu irm\u00e3o que \u00e9 o colado em mim ent\u00e3o tudo que eu aprendi eu ensinava a ele foram os dois quase ao mesmo tempo mais ou menos entre os cinco anos eu j\u00e1 sabia algumas coisas e tinha muito livro em casa, livro de hist\u00f3ria \u00e9 isso que eu digo que \u00e9 uma coisa que \u00e9 muito diferencial para mim em termos das outras pessoas que eu conhe\u00e7o, porque sempre existiu esse est\u00edmulo ao uso de livros em casa. Minha m\u00e3e era aquela t\u00edpica professora, que podia faltar alguma coisa, mas livro ela comprava. Ent\u00e3o, tanto em romances como livros infantis, eu, quando eu fiz um ano, minha m\u00e3e comprou a hora da crian\u00e7a, que ainda est\u00e1 l\u00e1 em casa, ningu\u00e9m toca, ningu\u00e9m pega. Est\u00e1 l\u00e1 em casa, agora s\u00f3 meu sobrinho neto que eu mostro a ele as coisas. Mas assim, com cinco anos eu fui para a escola, j\u00e1 de inf\u00e2ncia. Era uma escola particular, que a gente fazia nesse circuito das coisas que existiam ali. Tem o Col\u00e9gio Duque de Caxias, bem da franca do Col\u00e9gio Duque de Caxias, tem uma rua larga, que o nome \u00e9 o nome de algum pol\u00edtico baiano, E ali tinha uma escola de um dono de v\u00e1rias escolas que tinha ali, que se chamava Almir Ara\u00fajo, que foi pol\u00edtico, era um cara enrolado, donado, um horror. A escola parou no meio do ano porque ele n\u00e3o pagou a professora. E a gente chorou muito, eu e meu irm\u00e3o, que est\u00e1vamos juntos, e eu fui para l\u00e1. E eu vou lembrar o nome dela porque esse meu sobrinho neto, que fez agora cinco anos, eu ganhei um quadro de um ex-aluno l\u00e1 de Feira, retratando a escola normal, com duas figuras de normalistas, uma comum e uma outra uma mulher negra que ele fez para me homenagear. E meu sobrinho fica me perguntando, o que \u00e9 aquilo ali? \u00c9 uma escola. E aquela \u00e9 sua professora? Eu digo n\u00e3o. E como \u00e9 o nome da sua professora? Como era o nome da sua professora quando voc\u00ea era pequena? E a\u00ed eu fui lembrar, parei para poder contar a Jorge o nome das minhas professoras, a\u00ed lembrei. A minha primeira professora era a professora S\u00f4nia. Era uma mo\u00e7a baixinha, gordinha, lourinha com uma paci\u00eancia com a gente terr\u00edvel a\u00ed depois a gente saiu dessa escola essa escola fechou por causa desse rolo do diretor, do dono e n\u00f3s fomos, foi quando minha m\u00e3e entrou na prefeitura e n\u00f3s fomos estudar nessa Escola Uni\u00e3o e Progresso que era a escola da prefeitura conveniada como muitas das escolas daquela \u00e9poca e n\u00f3s ficamos estudando l\u00e1 e eu n\u00e3o consigo me lembrar o nome da minha professora Alzenita, que \u00e9 muito engra\u00e7ado, porque depois, quando eu dei aula na Cat\u00f3lica, que eu assinei na Cat\u00f3lica h\u00e1 muitos anos, o filho dela, Emmanuel, foi meu aluno. Ent\u00e3o, foi bem engra\u00e7ado, ele fez a hist\u00f3ria l\u00e1. Eu lembro mais de uma professora que meu irm\u00e3o tinha, porque eu a admirava muito, era uma mulher negra clara, alta, Falava bem e tal Professora Ant\u00f4nia Me lembro muito de Ant\u00f4nia Depois de adulta, a encontrei na APLB Por ali Eu admirava muito ela quando eu era pequena Porque ela tinha postura Ela tinha assim, aquela coisa Me lembro das irm\u00e3s Melo Que depois foram pra Dirigentes da PLB Chamava elas de Irm\u00e3s Melo Que t\u00e1 ainda hoje Acho que \u00e9 da APLB me lembro de professora Didma, que hoje h\u00e1 muitos anos \u00e9 professora da Uneb e tinha uma outra professora que chamava Alba e tinha uma que eu n\u00e3o gostava dela porque, Vera porque ela s\u00f3 gostava de meu irm\u00e3o ent\u00e3o eu n\u00e3o gostava dela ela era irm\u00e3 de Ant\u00f4nia, me lembro bem dessas professoras, a gente ficou l\u00e1 at\u00e9 o terceiro ano e a\u00ed minha m\u00e3e trabalhava l\u00e1, minha m\u00e3e chegou a ser diretora de l\u00e1, da escola, tinha muito aqueles, eu me lembro muito daqueles encontros de forma\u00e7\u00e3o docente que a gente tinha, eu me lembro de um projeto que chama, acho que era Logos, uma coisa dessa, que tinha, que minha m\u00e3e sempre levava para acompanhar porque era eu n\u00e3o me lembro em que lugar da cidade \u00e9 que era dado, mas era algum lugar que ficava ali no centro hist\u00f3rico, ent\u00e3o era aquela pr\u00e1tica de levar, n\u00e3o sair sozinha para ir para aquela regi\u00e3o da rua do Bispo, aquela regi\u00e3o dali toda. E eu me lembro muito dessas quest\u00f5es todas. A\u00ed depois eu fui para estudar na Em\u00edlio Lobo durante o dia que era para poder tirar o quarto ano, o quinto ano prim\u00e1rio, que eu ainda peguei aquela fase de voc\u00ea estudar para pegar o quinto ano prim\u00e1rio. Ent\u00e3o as escolas do governo voc\u00ea tirava e era, as pessoas achavam que seria mais f\u00e1cil voc\u00ea passar no exame de admiss\u00e3o. A\u00ed minha m\u00e3e me botou l\u00e1 na escola Em\u00edlio Lobo onde ela trabalhava \u00e0 noite. E essas duas professoras eu lembro muito. Era a professora Zilda que ensinava portugu\u00eas, geografia e a professora Ruth Gifoni que ensinava matem\u00e1tica e ci\u00eancias. Zilda eu n\u00e3o me lembro do sobrenome dela. Ruth eu me lembro porque depois de adulta eu a encontrei v\u00e1rias vezes e eu tinha muito medo dela. Tinha muito medo porque ela era muito r\u00edgida. Eu vindo da minha m\u00e3e, eu tinha medo de Ruth. Imagina a rigidez dela, n\u00e9? Ela era muito r\u00edgida, era uma mulher de classe m\u00e9dia. Ent\u00e3o, a gente sentia aquela diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a ela. Agora, ela \u00e9 uma excelente professora. E eu me preparando para fazer o curso de admiss\u00e3o, estudando naquele livr\u00e3o que tinha de admiss\u00e3o, n\u00e9? me botaram para estudar aquilo quando chegou no fim do ano eu me preparando pra ir pro quinto ano e fazer o exame de admiss\u00e3o passou a 5692 e me livrou daquele terror, n\u00e9, porque eu j\u00e1 tava na zona do terror, n\u00e9 eu tenho que passar, sen\u00e3o minha m\u00e3e me mata e isso, aquilo, aquela coisa toda veio a 5692, que eu nunca esque\u00e7o o nome, o n\u00famero porque foi a que me livrou de todo aquele horror, e a\u00ed eu passei da quarta s\u00e9rie pra a quinta s\u00e9rie mas continuei naquele entorno a escola tinha aquelas linhas, n\u00e9, cada escola mandava pra uma escola de, como a gente usava o termo gin\u00e1sio a\u00ed eu fui pra Celina Pinho no fim de linha do do Curuzu e a\u00ed era massa porque eu podia andar na rua sozinha subia a turma descia a turma, passava naquele Paes mendon\u00e7a que tinha ali na entrada do Curuzu, comprava biscoito recheado, dizia fazendo goza\u00e7\u00e3o com a cara de todo mundo pela ladeira de pedra, era massa. Mas a\u00ed por algumas resolu\u00e7\u00f5es de minha m\u00e3e, com o excelent\u00edssimo seu meu pai, que at\u00e9 agora n\u00e3o apareceu, vai aparecer aqui agora, meu pai era um homem da \u00e9poca dele, ele era funcion\u00e1rio p\u00fablico do INSS, na \u00e9poca n\u00e3o era, tinha um outro nome do INSS, era\u2026 Inampes. Inampes, isso. Era do Inampes, exatamente. Que ficava ali no Centro Hist\u00f3rico, na Rua do Tesouro. E era aquele tipo foguete, n\u00e9? Ele aparecia, desaparecia, ele aparecia, porque na verdade ele tinha uma outra fam\u00edlia, n\u00e9? E\u2026 ele era t\u00e3o safo que uma fam\u00edlia morava na Liberdade, a outra morava no Largo do Tanque. Era uma\u2026 Depois que eu fiquei adulta, bem adulta j\u00e1, depois que ele morreu, ele morreu e tinha quarenta e poucos anos, eu vim conhecer a vi\u00fava e ela me disse a mesma coisa que minha m\u00e3e dizia, que o terror delas, que a\u00ed canta tanto uma quanto outra, n\u00e3o \u00e9 um terror em conjunto n\u00e3o, cada um do seu lado, mas o terror delas era que os filhos se conhecessem naquelas festinhas, na discoteca que tinha. A\u00ed eu vim entender porque minha m\u00e3e nunca me deixou ir na discoteca. Eu nunca fui pra discoteca, quem pagou o pato fui eu, nunca fui pra discoteca n\u00e3o podia ir nas festas, porque l\u00e1 tinha um irm\u00e3o homem e tr\u00eas mulheres c\u00e1 na casa de minha m\u00e3e era uma mulher com dois homens, ent\u00e3o se juntasse tudo podia sair alguma trag\u00e9dia e a\u00ed a coisa existiu ent\u00e3o eles resolveram, foi uma das voltas deles e a gente foi morar no S\u00e3o Caetano ali p\u00e9 n\u00e3o sei se voc\u00eas conhecem um lugar que se chama Formiga de S\u00e3o Caetano voc\u00ea conhece? voc\u00ea sabe aquela parte que tem a Formiga pra c\u00e1 a rua de S\u00e3o Caetano a Formiga \u00e9 pro lado de l\u00e1 h\u00e1 uma rua que tem assim embaixo que se chama Conjunto Miguel Calmon que s\u00e3o de casas, n\u00f3s fomos morar ali foi uma \u00e9poca que eu gostei muito, que era uma casa grande com quintal, com varanda com essas coisas todas e minha m\u00e3e, pra ficar mais perto se transferiu pra escola Francisco Mangabeira que fica bem no Largo da Geral a\u00ed eu fui estudar ali no Edson Carneiro fiz a sexta s\u00e9rie ali no Edson Carneiro depois a gente, era o sistema Pinto de Carvalho um pode adjetivar?<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: Pode.<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: o famigerado sistema de liga\u00e7\u00e3o entre prefeito e vereador na \u00e9poca da ditadura, aquela coisa toda a gente n\u00e3o sabia nada de ditadura mas sabia que a coisa era fechada, n\u00e9, voc\u00ea era a escola pra voc\u00ea os pais adoravam, n\u00e9 porque era assim, diretor tinha todo o direito de sobre o aluno abrir bolsa, n\u00e9 futucar sacola tal, e no Pinto de Carvalho tinha uma coisa bem interessante, que era um diretor que at\u00e9 hoje \u00e9 visto como um grande cidad\u00e3o, um grande her\u00f3i, n\u00e3o vou entrar nos m\u00e9ritos, mas \u00e9 uma lembran\u00e7a que ele j\u00e1 n\u00e3o era mais diretor oficial, mas ele tinha esse direito de entrar, de disciplinar alunos, n\u00e9, tal, e vira e mexe, um dia na semana ele aparecia nas salas de aula pra fazer essa vistoria, era um dia de terror, porque tinha aquelas colegas mais espertas, n\u00e9, que fumavam, aquela coisa toda, e a\u00ed quando ele chegava, Guedes chegou, Guedes chegou, e a\u00ed era aquela loucura pra esconder carteira de cigarro, botava dentro da minha sacola, Porque eu n\u00e3o fumava, eu era quietinha. Ent\u00e3o, na minha bolsa, ningu\u00e9m ia bolir Ent\u00e3o, eu era t\u00e3o\u2026 Eu digo assim, a minha rebeldia era para dentro. Eu n\u00e3o fazia, mas eu ajudava quem fazia. Ent\u00e3o, elas botavam dentro da minha bolsa. A\u00ed, quando chegava aquela vistoria, n\u00e3o, essa daqui n\u00e3o, n\u00e3o sei quem n\u00e3o, Iara e Ione n\u00e3o, elas s\u00e3o pequenas. E a gente era pequenininha, n\u00e9? Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras. Ent\u00e3o, deixavam a gente mais ou menos em paz. E foi um per\u00edodo muito bom.<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: E voc\u00ea estava mais ou menos com\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: Tinha 12, 13 anos. Com 14 anos eu terminei o primeiro grau.<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: Isso a\u00ed era, ent\u00e3o, ainda um per\u00edodo duro da ditadura. Esse clima aparecia na escola? Quer dizer, fora o Guedes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: Fora o Guedes. Tinha aquela coisa, uma lembran\u00e7a que eu tenho muito, que na \u00e9poca que eu gostava de ir, era quando tinha a inaugura\u00e7\u00e3o de escolas. Ent\u00e3o, foi um per\u00edodo que hoje eu vejo, eu sei, Inclusive tem a Raizete que pesquisa isso. A gente tem uma interlocu\u00e7\u00e3o muito boa, porque ela pesquisou exatamente o Pinto de Carvalho, que \u00e9 onde eu estudei, e foi l\u00e1, conheceu a secret\u00e1ria que vem mais ou menos dessa \u00e9poca, acabou de falecer, tem um ano, dona Edna, de infarto. Mas a gente ia para as inaugura\u00e7\u00f5es das escolas. Eu me lembro quando inaugurou duas escolas na Fazenda Grande. onde minha m\u00e3e depois foi vice-diretora noturna, que \u00e9 a Dom Avelar, e a Bento alguma coisa, que fica bem no come\u00e7o da Fazenda Grande, n\u00e3o sei se ainda existe, porque muitas escolas foram fechadas, mas era uma escola grande que a gente foi e tinha que ficar l\u00e1 perfilado, aquela coisa de cantar o hino nacional. No Pinto de Carvalho tinha muito aquele controle disciplinar da sexualidade, ent\u00e3o tinha turma que ia para o fundo do col\u00e9gio para fumar, para namorar essa coisa toda a\u00ed voc\u00eas v\u00e3o perguntar: voc\u00ea ia? n\u00e3o, porque o povo todo da escola era amigo de minha m\u00e3e minha m\u00e3e fazia parte do sistema dessas escolas a Anitta Nobre que foi diretora e que foi colega dela do Instituto Normal, no ICEIA foi que conseguiu para ela o cargo Ent\u00e3o a gente era muito vigiado mesmo, n\u00e9? Assim, de saber que se aprontasse antes de chegar em casa, o peru, o dedo duro, j\u00e1 tinha ido contar. Ou depois ia contar. Ent\u00e3o eu era muito medrosa nessa coisa. Mas isso era muito presente, de controle, n\u00e9? Eu me lembro que tinha um centro estudantil que vira e mexe, tinha algum problema l\u00e1, mas era assim, uma coisa meio distante da gente, n\u00e9? Eu que lembro muito de l\u00e1 do Pinto, com os colegas. Alguns agora criaram um grupo de WhatsApp. Eu entrei no grupo do WhatsApp, mas n\u00e3o aguentei muito essa coisa de Ah, por qu\u00ea? Que saudade de Guedes, que saudade de Ana Maria. N\u00e3o combina muito comigo, n\u00e9? Ent\u00e3o eu aguentei, sa\u00ed uma vez, me botaram de novo. Quando foi agora, eu sa\u00ed porque n\u00e3o dava. Me desculpem, mas n\u00e3o combina, n\u00e3o d\u00e1. n\u00e3o vou ficar sendo hip\u00f3crita e me aborrecendo, tem uma professora que era o terror da escola toda, e que uma colega, que at\u00e9 fez hist\u00f3ria tamb\u00e9m comigo, me disse, ah, mas a gente tem que compreender que ela era uma professora, como \u00e9 que se dizia assim, do tempo antigo e tal, n\u00e3o, aquilo n\u00e3o era do tempo antigo, porque as outras eram do tempo antigo, e n\u00e3o eram t\u00e3o cru\u00e9is, n\u00e3o eram t\u00e3o autorit\u00e1rias, ali era ela mesmo e fizeram uma grande festa a\u00ed, n\u00f3s estamos em 2026, em 2024, fizeram uma festa com homenagem para o professor, com placa, tal, eu em cima da hora n\u00e3o fui, porque eu disse, eu n\u00e3o vou dar placa para a Ema Venera, n\u00e3o vai ter santo sobre a terra que me fa\u00e7a fazer isso, e a\u00ed eu n\u00e3o fui, ent\u00e3o l\u00e1, mas vai ter no ano que vem, vai ter a festa dos 50 anos que terminamos a oitava s\u00e9rie, a\u00ed eu vou tentar ir, como vai ter muita gente, n\u00e9? Eu vou me perder na multid\u00e3o e devo ir tamb\u00e9m. E tem uma professora que eu gostava muito, que era professora de\u2026 Como \u00e9 que a gente chama hoje? Ci\u00eancias Naturais. Professora Ieda, n\u00e9? Ainda est\u00e1 viva, com seus 90 anos. Ent\u00e3o, eu quero ir ver a professora Ieda. Mas eu lembro muito do professor de portugu\u00eas que formou gera\u00e7\u00f5es na Bahia, Petr\u00f4nio Oliveira, que era professor de latim. lembro muito dele, ele pegava no p\u00e9 da gente, mas a gente gostava, gostava porque ele era muito assim, parecendo um paiz\u00e3o, aquele pai que dizia, voc\u00ea n\u00e3o fez isso, aquilo e tal, e me lembro muito, al\u00e9m dessa matem\u00e1tica que \u00e9 pra l\u00e1, dos lados de c\u00e1 do cora\u00e7\u00e3o, tem Petr\u00f4nio, que \u00e9 de portugu\u00eas, tem uma outra que era um casal, que ele era de hist\u00f3ria, e ela era de portugu\u00eas, Ros\u00e9lia Rob\u00e9lia, uma coisa dessa, Clarizio, que era muito conhecido e um professor que eu gostava muito dele que era o professor de hist\u00f3ria que era o professor Emilcon esse professor me chamou muito a aten\u00e7\u00e3o a vez que ele fez uma coisa muito engra\u00e7ada quem tirasse mais de 70 pontos se quisesse dar dois pontos para algum colega que estivesse na beirada isso me chamou muito a aten\u00e7\u00e3o eu digo que esse cara \u00e9 legal e assim, ele dava aula de hist\u00f3ria e a\u00ed eu vou entrar porque \u00e9 hist\u00f3ria Clarizio eu gostava dele, mas ele dava hist\u00f3ria contempor\u00e2nea eu nunca gostei de hist\u00f3ria contempor\u00e2nea nunca gostei dessas coisas mas Emilcon dava hist\u00f3ria antiga ent\u00e3o ele fazia uns livrinhos de hist\u00f3ria antiga que ele mesmo publicava e mandava a gente, quem que pudesse comprar, ia comprar ali no, n\u00e3o sei se voc\u00ea conhece ali na rua Chile o edif\u00edcio Sulam\u00e9rica, porque o Sulacap todo mundo conhece, que \u00e9 o da frente. O Sulam\u00e9rica fica escondido, n\u00e9? A\u00ed a gente ia ali no Sulam\u00e9rica comprar. E foi uma briga l\u00e1 em casa, porque o meu livrinho, meu irm\u00e3o mais novo, queria ficar pra dono. Eu fui l\u00e1 na casa de minha m\u00e3e buscar o meu livrinho que trata da \u00c1sia e dos hebreus. Ou seja, era um cara que tinha feito hist\u00f3ria realmente na cat\u00f3lica, naquela coisa de quando era hist\u00f3ria com geografia junto, era um cara que tinha o conhecimento e ele dava aulas maravilhosas. Nas aulas dele voc\u00ea se via no Nilo, andando no camelo junto das pir\u00e2mides, n\u00e9? A forma que\u2026 Agora, era um terror, porque era o dia todo fumando. Ele tanto dava aula, quanto fumava. Tanto dava aula, como fumava. Voc\u00ea tinha que engolir aquele cigarro nele. Mas as aulas dele eram eu, com 13 anos, n\u00e3o achava fant\u00e1sticas. E a professora Ieda tinha duas coisas. Primeiro, ela era preta. Era n\u00e3o, \u00e9 preta. E segundo, ela tamb\u00e9m levava elementos de ci\u00eancias, passavam, e ela levou esqueleto. Ent\u00e3o, a gente p\u00f4de pegar no esqueleto, bulir no esqueleto. Essas coisas eram muito legais. Ent\u00e3o, eu me lembro. Da\u00ed, eu terminei o primeiro grau e tinha que escolher o que fazer. E a\u00ed, na \u00e9poca, todo mundo, a maior parte das pessoas queriam fazer escola t\u00e9cnica. Porque era do polo ganhar dinheiro, a ideia de que voc\u00ea ia ganhar dinheiro no polo. E eu entrei nessa conversa. Tanto eu quanto meus irm\u00e3os, quanto meu irm\u00e3o colado em mim, fizemos escola t\u00e9cnica. Eu j\u00e1 entrei no segundo, terceiro semestre, e ele entrou como mais ne\u00f3fito, mais coisa mesmo. E foi um per\u00edodo muito interessante para mim na escola t\u00e9cnica. Aprendi muito, aprendi muito disciplina de voc\u00ea ter que estudar por si mesmo, porque o professor n\u00e3o passava a m\u00e3o pela sua cabe\u00e7a. Tinha um diabo de passo, que eu n\u00e3o fiz passo, mas meu irm\u00e3o fez. E o namoradinho da \u00e9poca tamb\u00e9m fazia passo, me ensinava para quando eu fizesse o vestibular, porque eu n\u00e3o fiz logo no in\u00edcio, quando eu sa\u00ed, eu n\u00e3o ter dificuldade de f\u00edsica e de qu\u00edmica. Eu terminei a oitava s\u00e9rie, fiz um ano no ICEIA, porque minha m\u00e3e atormentou minha cabe\u00e7a para eu ir fazer magist\u00e9rio, eu fui sem querer, fiz um ano no ICEA, e durante a noite eu estudava para fazer a escola t\u00e9cnica. Passei e fiz tr\u00eas anos de escola t\u00e9cnica. Mas a\u00ed foi exatamente no ano de\u2026 A\u00ed eu j\u00e1 tinha uma vis\u00e3o pol\u00edtica um pouco maior. Por qu\u00ea? Porque l\u00e1 na escola t\u00e9cnica tinha um cidad\u00e3o, tem um cidad\u00e3o que ainda est\u00e1 vivo, que era do PC do B. E andava com aquela ruma de jornal debaixo do bra\u00e7o. O pessoal queria ver o diabo na frente, mas n\u00e3o queria ver Iglesias L\u00e1 vem aquele cara do PC do B. Mas eu achava ele muito bonitinho. E a\u00ed dava ouvido \u00e0s maluquices dele, que na \u00e9poca a gente dizia que era maluquice, de vez em quando pegava um jornal para ler. Outro dia a gente deu tanta risada, porque a escola t\u00e9cnica de dois em dois anos faz o encontro agora, tem mais ou menos dez anos, vai para o quinto agora. E esse \u00faltimo, do ano passado, ele estava a\u00ed me acabando de rir, a gente rindo, eu digo, Iglesias, voc\u00ea faz parte da minha consci\u00eancia pol\u00edtica, porque voc\u00ea vinha com aquele jornal, e eu li o jornal, interessada em conversar com ele, \u00e9 \u00f3bvio, n\u00e9? Mas come\u00e7ou a abrir um pouco mais a minha consci\u00eancia pol\u00edtica. E o outro lado, assim, foi quando minha m\u00e3e era muito, pegava muito no p\u00e9. Ent\u00e3o, uma das v\u00e1lvulas de escape que eu criei era ir para a biblioteca central. Eu ia muito para a biblioteca central pegar romance, livro para ler. E um dia, voc\u00ea precisa me perguntar como \u00e9 que eu fui l\u00e1 a primeira vez, eu n\u00e3o sei lhe dizer, na biblioteca do ICBA, daqui da Vit\u00f3ria. Eu n\u00e3o sei como \u00e9 a primeira vez, eu sei que eu me vi l\u00e1. E a\u00ed eu ia para a biblioteca do ICBA e eu era bem novinha, tinha 16, 17 anos, eu sempre fui baixinha, era mais magra ainda, imagine o belisquinho que eu era. E um dia eu estava l\u00e1 e chegou um cara, um senhor com aquela barba grande, e a\u00ed conversou comigo, bateu papo, me disse que achava engra\u00e7ado eu sempre pegar a \u00e1rea de humanas, n\u00e9, pra ler eu sempre gostei dessa coisa de como a gente chamava antigamente folclore, n\u00e9, essa coisa e a\u00ed ele ficou conversando e me perguntou onde \u00e9 que eu morava aquela coisa toda, naquele tempo a gente n\u00e3o tinha tanto medo de conversar com as pessoas, n\u00e9 e era Manuel de Almeida Cruz, e a\u00ed a gente foi trocando informa\u00e7\u00e3o, ele descobriu que eu era filha de professora DIdi e eu cheguei em casa, conversei com minha m\u00e3e Ela disse, \u00e9 esse mesmo, filho de seu Leandro, tal coisa e tal. E a\u00ed foi engra\u00e7ado, porque eu comecei a ir muito no ICBA, mas ao mesmo tempo eu queria fazer engenharia, porque eu queria ganhar dinheiro. Eu queria fazer engenharia mec\u00e2nica para ir para a plataforma e ganhar dinheiro. S\u00f3 que eu n\u00e3o sabia que no Brasil, de 1982, mulher n\u00e3o ia para a plataforma. n\u00e3o era coisa de mulher, eu n\u00e3o ia ganhar esse dinheiro todo. E por cima ainda veio a crise, que a\u00ed a gente j\u00e1 tinha consci\u00eancia da crise. A crise, na minha turma, tanto homens quanto mulheres tiveram muita dificuldade de arranjar emprego. N\u00f3s mulheres, obviamente, bem mais. E a\u00ed eu entrei numa certa esp\u00e9cie de, hoje eu vejo que foi uma mini depress\u00e3o, voc\u00ea terminar o curso, e a\u00ed minha m\u00e3e &#8220;est\u00e1 vendo que voc\u00ea n\u00e3o fez magist\u00e9rio, e disse que voc\u00ea fosse ser professora porque quem \u00e9 pobre \u00e9 de cor&#8221;, porque ela n\u00e3o usava preta nem negra, usava de cor. Que \u00e9 como a gente tem que ser professora e essa coisa toda na cabe\u00e7a. E a\u00ed voc\u00ea com 19 anos olha para um lado, olha para o outro, formada e sem arranjar emprego. E eu a\u00ed cedi, fui fazer, terminar o curso do magist\u00e9rio. Entrei de novo, de novo para fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: No ICEIA?<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: n\u00e3o, n\u00e3o fui mais para o ICEIA fui para uma escola que tem ali na Pero Vaz, eu n\u00e3o sei o nome dela ela fica na esquina, quando voc\u00ea termina de ir pela Pero Vaz e voc\u00ea pega a Pero Vaz e pega para o Pau Mi\u00fado, eu j\u00e1 tinha come\u00e7ado a fazer o curso de hist\u00f3ria na Cat\u00f3lica, porque eu ia fazer cursinho para fazer engenharia a\u00ed eu pensei, eu vou gastar meu tempo fazendo engenharia agora, melhor fazer o que minha m\u00e3e est\u00e1 falando e fazer alguma licenciatura. A\u00ed fiz o vestibular da cat\u00f3lica, passei em boa posi\u00e7\u00e3o, n\u00e9? Voc\u00ea vindo da escola t\u00e9cnica, voc\u00ea sempre passava em boa posi\u00e7\u00e3o. Passei em boa posi\u00e7\u00e3o. A segunda op\u00e7\u00e3o que minha m\u00e3e me fez botar, eu n\u00e3o queria passar, me perdoem, mas eu n\u00e3o queria fazer pedagogia. Mas a l\u00edngua paga, n\u00e9? Eu fiz hist\u00f3ria e l\u00e1 conheci uma professora tornou minha amiga desde aquela \u00e9poca hoje, depois a gente fez at\u00e9 o mestrado junto, ela foi fazer o mestrado j\u00e1 bem mais coroa quando eu fiz e ela era secret\u00e1ria, tinha algum cargo l\u00e1 nessa escola e ela me disse por que voc\u00ea n\u00e3o faz o magist\u00e9rio de segundo grau? Porque quando sai concurso, geralmente \u00e9 no magist\u00e9rio de segundo grau \u00e9 mais dif\u00edcil de que voc\u00ea na verdade n\u00e3o tinha concurso para professor de n\u00edvel fundamental 2, ensino m\u00e9dio. Era por contrato, aquela coisa toda. Ela me disse, voc\u00ea faz o curso que quando tiver concurso, voc\u00ea faz o concurso. E a\u00ed eu segui o conselho de Jane, junto com toda a cultura familiar. Ent\u00e3o, eu fazia na cat\u00f3lica e fazia esse curso na rede p\u00fablica. Como eu j\u00e1 tinha mais ou menos, acho que um ano ou dois, vindo de outro lugar, um ano mais, Eu sei que foi mais r\u00e1pido. Ent\u00e3o, eu tirei o magist\u00e9rio j\u00e1 fazendo hist\u00f3ria. Eu fiz hist\u00f3ria o curso todo na cat\u00f3lica, licenciatura. No meio do curso, eu fui assistir uma palestra, um conjunto de palestras l\u00e1 na UFBA Foi quando um monte de gente voltou do doutorado. Eu me lembro bem de Ros\u00e1rio. de Maria In\u00eas e de Albergaria. E a\u00ed eu fiquei encantada com Albergaria, com as maluquices de Albergaria, com as loucuras de albergaria, e resolvi fazer antropologia, porque eu queria fazer uma pesquisa sobre vida urbana como a Albergaria tinha feito. Mas ele n\u00e3o me quis nem ningu\u00e9m como orientadora. O Albergaria n\u00e3o orientou ningu\u00e9m. Ningu\u00e9m, ningu\u00e9m, ningu\u00e9m, ningu\u00e9m. E a\u00ed eu fiz o meu curso, terminei o curso de Hist\u00f3ria. Eu gosto muito de Hist\u00f3ria, depois optei at\u00e9 por ficar mais em Hist\u00f3ria. O m\u00eas passado eu estava lembrando, o Ginzburg morreu, e eu lembrando como foi que eu tive contato com a primeira obra do Ginzburg, Queijos Vermes, com o professor Argolo. N\u00e3o foi, engra\u00e7ado que n\u00e3o foi em metodologia, foi em Am\u00e9rica. em Am\u00e9rica 1, Am\u00e9rica 2, acho que Am\u00e9rica 2, que a gente leu, n\u00e3o, minto n\u00e3o, me engano, Moderna, foi Hist\u00f3ria Moderna. A gente foi ler o Queijos Vernes como parte de Hist\u00f3ria Moderna. Depois \u00e9 que eu fui ler como metodologia. Eu j\u00e1 estava na especializa\u00e7\u00e3o, no mestrado e outros espa\u00e7os. E como \u00e9 que a hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o entrou na minha vida? Bem, ela nunca saiu, n\u00e9? Ela sempre esteve. Nunca consegui me livrar. E quando eu estava na Cat\u00f3lica, no\u2026 A\u00ed eu vou ter d\u00favida, n\u00e3o sei foi no segundo ou no terceiro semestre, eu tive uma professora, Maria Lia, que era pedagoga, e ela dava aquelas disciplinas da \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o me engano eram fundamentos de educa\u00e7\u00e3o, alguma coisa assim, estrutura de educa\u00e7\u00e3o, uma coisa dessa. E a\u00ed ela perguntava a gente, como quase todos os professores do in\u00edcio, Eu me lembrei da professora de introdu\u00e7\u00e3o aos estudos hist\u00f3ricos, que foi sempre minha \u00eddola, a Yara Khoury. A Yara Bandeira de Ata\u00edde. A Khoury veio depois. A Yara Bandeira de Ata\u00edde, que foi minha professora de introdu\u00e7\u00e3o aos estudos hist\u00f3ricos. Eu sempre gostei muito de teoria. E lia que, sabendo da minha rela\u00e7\u00e3o familiar, ela perguntou o que cada um queria, aquela coisa toda. minha rela\u00e7\u00e3o familiar e acho que do desempenho que eu tive em sala de aula, eu tinha feito fazendo magist\u00e9rio, ent\u00e3o tinha uma leitura mais coisa, ela me deu um livro que pra mim foi fundamental que foi o livro da Liana Teixeira Marta, Hist\u00f3ria da Educa\u00e7\u00e3o, aquele pequenininho branquinho, desse tamanho acho que \u00e9 da \u00c1tica, n\u00e9? Ela me deu aquele livro e me disse, l\u00ea esse livro que voc\u00ea vai gostar, voc\u00ea vai mudar a sua cabe\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a ser professora, porque eu tava fazendo, mas eu n\u00e3o queria, eu estava fazendo porque tinha que fazer e realmente, eu um livro que me que guardei me serviu muito de reflex\u00e3o sobre a trajet\u00f3ria de minha m\u00e3e, sobre essa coisa dela considerar que se voc\u00ea nasce preto, pobre, perif\u00e9rico, voc\u00ea deve primeiro fazer magist\u00e9rio, fazer concurso e se estabelecer para depois fazer outros sonhos, o sonho dela foi assim mesmo, mas trazer outros sonhos e tal, mas a\u00ed foi quando eu me envolvi em ci\u00eancias sociais em antropologia e conheci a discuss\u00e3o de g\u00eanero com a Cec\u00edlia Sardenberg e nunca fiz parte do NEIM assim oficialmente, porque eu j\u00e1 tinha feito o concurso para a prefeitura, eu terminei logo o curso de hist\u00f3ria e realmente teve concurso os acasos da vida foi quando o M\u00e1rio Kertz brigou com ACM e pra se vingar de ACM fez concurso. A\u00ed a gente vai perguntar assim, por que o concurso foi uma vingan\u00e7a contra o ACM? A\u00ed eu acho que Pretto sabe mais. Aquele sistema que eu falei das escolas de ter um vereador, de ter\u2026 Era uma capilaridade danada, n\u00e9? Porque tinha o l\u00edder de rua, n\u00e9? Que era geralmente chefe de uma associa\u00e7\u00e3o de bairro, que era ligado ao vereador, que era ligado ao prefeito, tal. E os cargos das escolas, desde a pessoa que limpava o ch\u00e3o at\u00e9 a merendeira, e passando pelas professoras e pela dire\u00e7\u00e3o, era tudo ligado nessa hierarquia. E a\u00ed eu n\u00e3o sei qual foi o tchan que deu na cabe\u00e7a de M\u00e1rio Kertz, mas ele percebeu isso e ele quebrou, realmente ele quebrou em boa parte, quando fez concurso. Botou um monte de gente que n\u00e3o tinha liga\u00e7\u00e3o com esses vereadores nas escolas. E nesse bolo eu entrei. Entrou eu e a diretora daqui, Nanci. N\u00f3s entramos no mesmo concurso. Fomos colegas de curso de ci\u00eancias sociais e entramos no mesmo concurso. Ent\u00e3o, as escolas receberam um monte de gente nova. Eu tinha 25 anos. Tinha gente mais nova, com 20 anos, como Nanci. Eu tinha 25 anos, cheia de g\u00e1s, cheia de teoria na cabe\u00e7a, cheia de vontade de fazer alguma coisa. Foi uma experi\u00eancia muito legal, porque n\u00f3s fomos preparadas, capacitadas, com a dire\u00e7\u00e3o da secret\u00e1ria de Educa\u00e7\u00e3o, que era a Eliana Kertz, que voc\u00ea tamb\u00e9m lembra, foi quem deu for\u00e7a para que a discuss\u00e3o sobre o construtivismo chegasse na Bahia. Ent\u00e3o, n\u00f3s tivemos um curso de prepara\u00e7\u00e3o comm, como \u00e9 o nome da mulher? Celeste alguma coisa, que era aluna, tinha sido orientanda de Em\u00edlia Ferreiro, ent\u00e3o a gente teve, na \u00e9poca a gente chamava de apostilas, e quem quis aprender, aprendeu. Claro que a rede como um todo, que depois virou coisa da rede, e eu acho que foi a pior parte, porque o pessoal come\u00e7ou a falar de m\u00e9todo, e a criar aqueles\u2026 Como \u00e9 que eu poderia dizer assim? aquelas formas de medi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tinha nada a ver com a ideia original do construtivismo e passou a ter planilha para poder voc\u00ea medir, para voc\u00ea preencher e dizer o que \u00e9 que o aluno estava fazendo. Virou realmente um m\u00e9todo e n\u00e3o uma pr\u00e1tica educativa. Acho que uma pr\u00e1tica educativa eu me lembro que eu tinha feito algo que na \u00e9poca era muito comum mas \u00e9 ilegal. Que era voc\u00ea ficar de substituto de um professor sem estar legalmente estabelecido. E quando eu fiz esse curso de construtivismo que foi o qu\u00ea? Uma semana, 15 dias, uma coisa assim que a gente teve. Teve aula de hist\u00f3ria da Bahia com o professor Ubiratan. Eu n\u00e3o me lembro quem teve a discuss\u00e3o sobre a geopol\u00edtica de Salvador, a parte de Milton Santos, toda essa parte. Mas isso a\u00ed para mim j\u00e1 era mais comum. O que me encantou mesmo foi a discuss\u00e3o na \u00e9poca do construtivismo. E quando eu vi aquilo, eu me lembro que eu senti uma dor muito profunda, porque eu j\u00e1 tinha dado aula antes e aqueles garranchos dos meninos a gente achava que era burrice. A gente n\u00e3o ia nunca imaginar que aquilo ali\u2026 A\u00ed eu perguntei assim, mas voc\u00eas n\u00e3o deram Piaget? Demos, n\u00e9? Ai, que aula chata de psicologia, esse neg\u00f3cio chato, que porre Era nesse n\u00edvel que a gente fazia. Ent\u00e3o voc\u00ea v\u00ea aquilo dali, das etapas de Piaget, na pr\u00e1tica, e voc\u00ea via realmente, quando eu fui pra sala de aula, eu fui designada pra uma escola na capelinha, era uma escola, a Capelinha \u00e9 um alto, n\u00e9? A\u00ed voc\u00ea descia, no fim de linha da Capelinha, eram as escadinhas de madeira que voc\u00ea, minha m\u00e3e foi comigo, a\u00ed a gente descia, chegou l\u00e1 na escola, a diretora disse a vaga j\u00e1 t\u00e1 ocupada, eu disse, meu Deus do c\u00e9u, que maravilha, subi as escadinhas de novo, a\u00ed voltei para a Secretaria da Educa\u00e7\u00e3o de l\u00e1 do, \u00e9 l\u00e1 no na Boa Vista de Brotas cheguei l\u00e1, me mandaram de novo para outra escola com aquela coisa, tomara que tenha vaga, viu sem paci\u00eancia, n\u00e9, a\u00ed fui para Marechal Rondon, Campinas de Piraj\u00e1, as duas escolas eram escolas de conv\u00eanio, n\u00e9 e tinham as professoras que eram todas ligadas aos vereadores, ao vereador n\u00e3o, que l\u00e1 era um presidente de associa\u00e7\u00e3o dedo duro de vereador a\u00ed quando a gente chegou, uma pra de manh\u00e3 uma pra de tarde ele n\u00e3o gostou, \u00e9 claro ele se intrometia em tudo na escola tinha uma mulher dele que era uma merendeira pense num ser humano detest\u00e1vel mas eu cheguei e comecei a dar a aula e tal e quando tentando usar o m\u00e9todo e quando voc\u00ea v\u00ea, quando voc\u00ea diz a uma crian\u00e7a, ah, isso aqui voc\u00ea queria falar tal coisa, a\u00ed voc\u00ea d\u00e1 um chute que ele diz \u00e9 isso e se sente feliz porque aquele garrancho dele estou usando o termo que a gente usava est\u00e1 sendo interpretado \u00e9 realmente uma hip\u00f3tese de silaba\u00e7\u00e3o e de compreens\u00e3o do universo, eu estou vendo isso agora com esse meu sobrinho neto que ele est\u00e1 na fase de perguntar isso, quem foi sua professora, voc\u00ea estudou e agora tudo ele pergunta assim, voc\u00ea pega, fala alguma coisa, ele diz, que palavra \u00e9 que come\u00e7a? Ele ainda n\u00e3o sabe distinguir palavra de letra, mas ele sabe que alguma coisa come\u00e7a, n\u00e9? Ent\u00e3o voc\u00ea v\u00ea que isso \u00e9 uma realidade, e a\u00ed a gente fica pensando assim, quantas crian\u00e7as n\u00e3o foram expulsas como burra, isso, aquilo tudo que se dizia, me lembro daquele livro, n\u00e9? Burros e iletrados, tal, do o Marco C\u00e9sar de Freitas, que trabalha r\u00fasticos, burros, iletrados, sobre essas quest\u00f5es disso a\u00ed. Mas na hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, tinha dado um tempo, tinha tido interesse, mas a antropologia me pegou de jeito. E l\u00e1, eu, muito influenciada pela discuss\u00e3o do\u2026 Na \u00e9poca, n\u00e3o era g\u00eanero. Na \u00e9poca, a gente dizia a quest\u00e3o da mulher. Da quest\u00e3o da mulher, Eu comecei um projeto que era em antropologia da sa\u00fade m\u00e9dica sobre atendimento ginecol\u00f3gico. N\u00e3o foi uma experi\u00eancia muito boa pela orienta\u00e7\u00e3o, vamos passar para cima. E foi quando eu terminei, j\u00e1 estava trabalhando, dava aula na prefeitura, pela manh\u00e3 dava aula no estado \u00e0 noite. E a\u00ed, uma colega que tinha sido minha colega de gradua\u00e7\u00e3o, me chamou para fazer uma sele\u00e7\u00e3o na Cat\u00f3lica, em 1996, para uma disciplina de cultura na \u00e1rea de antropologia. Eu fiz e depois disso surgiu tamb\u00e9m a oportunidade de eu fazer a sele\u00e7\u00e3o da UFES. Eu fiz a sele\u00e7\u00e3o da UFES para antropologia, fiquei como substituta dois, tr\u00eas anos. Depois j\u00e1 surgiu o concurso para professor auxiliar, na \u00e9poca ainda tinha o concurso para auxiliar. eu fiz o concurso para auxiliar e quase na mesma \u00e9poca eu j\u00e1 estava na Cat\u00f3lica ent\u00e3o a Cat\u00f3lica fez um um PROCAD como se chamava na \u00e9poca com a PUC de S\u00e3o Paulo era a Cat\u00f3lica, UNEB uma Universidade de Minas Gerais eu acho que era a Federal de Uberl\u00e2ndia Uberaba, uma das duas e a Cat\u00f3lica sobre a lideran\u00e7a do professor Jos\u00e9 Carlos de Almeida e eu entrei nessa sele\u00e7\u00e3o fui aprovada e fui pra PUC de S\u00e3o Paulo enfim fui pra S\u00e3o Paulo sempre quis fui pra S\u00e3o Paulo levei uma mala desse tamanho parecendo que ia levar Salvador inteira.<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: Mas antes de ir pra S\u00e3o Paulo eu queria voltar duas coisas primeiro, tudo em termos de ambi\u00eancia como era a ambi\u00eancia na escola t\u00e9cnica porque passou muito r\u00e1pido a escola t\u00e9cnica que a escola t\u00e9cnica era sempre uma refer\u00eancia, ainda hoje. Como era uma mulher na escola t\u00e9cnica? Eram muitas, n\u00e3o eram?<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: A minha turma foi muito engra\u00e7ada. Eu fiz um curso que hoje acho que \u00e9 o top da escola t\u00e9cnica, que \u00e9 automa\u00e7\u00e3o. Eu fiz instrumenta\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca a gente chamava de instrumenta\u00e7\u00e3o industrial. Eu, na verdade, n\u00e3o fa\u00e7a essa cara n\u00e3o. Eu n\u00e3o queria fazer instrumenta\u00e7\u00e3o. Eu queria fazer mec\u00e2nica. Que eu tinha na cabe\u00e7a que eu ia ser engenheira mec\u00e2nica.<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: Na plataforma.<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: Na plataforma, pra ganhar dinheiro, n\u00e9? Pra ganhar dinheiro. Mas minha m\u00e3e me disse que se eu fizesse mec\u00e2nica, ela n\u00e3o deixava eu estudar. Ent\u00e3o, minha m\u00e3e n\u00e3o era brincadeira, n\u00e9? Minha m\u00e3e era leonina, feito eu. Muito mais leonina de que eu, que ela \u00e9 segundo decanato, ent\u00e3o muito pior. Minha m\u00e3e n\u00e3o era brincadeira. Ent\u00e3o, ela disse que eu n\u00e3o ia estudar e eu sabia que ela n\u00e3o ia deixar eu sair pra estudar. Ent\u00e3o, eu fiz um acordo, n\u00e9? Eu peguei, eles davam assim uma apostila, como \u00e9 que chama? Eu vou usar o termo da \u00e9poca, n\u00e9? Apostila. que viam os cursos e as atribui\u00e7\u00f5es. A\u00ed eu olhei. Qu\u00edmica eu n\u00e3o gostava. Estradas tamb\u00e9m n\u00e3o. Edifica\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m n\u00e3o. A\u00ed eu olhei. Metalurgia, eletrot\u00e9cnica e mec\u00e2nica. A\u00ed eu disse, eletrot\u00e9cnica\u2026 Rapaz, o neg\u00f3cio de ficar metendo o dedo em tomadas, esses neg\u00f3cios, n\u00e3o vai dar certo. Metalurgia \u00e9 muito pesado. Ent\u00e3o eu vou pegar isso aqui, que tem uma cara de comando, n\u00e3o sei o qu\u00ea, processos de comando petroqu\u00edmico, tem essas coisas assim. Isso eu vou fazer \u00e9 esse. E mais 16 mo\u00e7as pensaram a mesma coisa. Ent\u00e3o, o coordenador do curso, na \u00e9poca, reinventou de mudar a cor do guarda-p\u00f3. O guarda-p\u00f3 era verde, que era o guarda-p\u00f3 da \u00e1rea de el\u00e9tricas. Ent\u00e3o, era e tal. Mudou, acho que foi de eletr\u00f4nica, que passou a ser eletr\u00f4nica, aquela telecomunica\u00e7\u00f5es, passou a ser eletr\u00f4nica, lembro bem. E o nosso, ele botou um bege. A\u00ed voc\u00ea imagine, aquele monte de mo\u00e7a, coisa rara, n\u00e9? Uma turma tem 16 mulheres, um monte de mo\u00e7a saindo no primeiro dia do laborat\u00f3rio, voc\u00ea tem um p\u00e1tio da t\u00e9cnica, o da gente era bem ali, onde hoje \u00e9 parte administrativa, o nosso laborat\u00f3rio era bem ali. A\u00ed saia a turma toda vestida de guarda-p\u00f3 bege qual foi a goza\u00e7\u00e3o? pombo-correio pronto, a\u00ed pronto. Bom, pegou o nome da gente era pombo-correio, n\u00e9? Mas a\u00ed eu fiz o primeiro semestre, que era o terceiro e tive a experi\u00eancia muito desagrad\u00e1vel, n\u00e9? De um professor pegar no p\u00e9 e tamb\u00e9m a fragilidade da gente, que n\u00e3o tinha feito o b\u00e1sico l\u00e1 n\u00e3o tinha feito o passo, aquela coisa toda, eu perdi vim pra outra turma que foi a turma com que eu fiz meu curso quase todo, mas engra\u00e7ado n\u00e3o tive contato com todo mundo, ent\u00e3o eu tenho dois grupos de whatsapp, um das meninas, somos seis ou oito da primeira turma e um outro que \u00e9 da turma com que eu me formei em 82 eu me dou bem com todos eles felizmente, me dou at\u00e9 melhor do que o pessoal do gin\u00e1sio mas l\u00e1 era uma coisa muito s\u00fatil isso de ser mulher os professores da parte base da parte te\u00f3rica eram menos incisivos nisso, mas os professores da parte pr\u00e1tica que eram pi\u00e3o do polo estou usando o termo pi\u00e3o do polo eram muito enf\u00e1ticos de dizer a gente que a gente n\u00e3o ia arranjar emprego era assim algo declarado ent\u00e3o eu estava l\u00e1 eu entrei em 79 80, 81 fui at\u00e9 82 e eu lembro de um professor que era um cara desagrad\u00e1vel eles quase todos eram da Petrobras e aquele pessoal que aprendeu instrumenta\u00e7\u00e3o na tora no campo no ch\u00e3o de f\u00e1brica versus os professores da parte mais te\u00f3rica que eram alunos de f\u00edsica alunos de matem\u00e1tica ent\u00e3o era um pessoal vamos dizer assim, mais cuidadoso com a gente eu sinto assim tem uns 4 ou 5 anos que morreu um professor desse da \u00e1rea de eletricidade que n\u00f3s alunas ador\u00e1vamos ele, porque ele era um cara muito legal, sala de aula, e tinha uma qualidade, para mim, maravilhosa. Ele n\u00e3o dava em cima da gente. E a\u00ed eu comentando com um amigo, que foi um pouco mais de uma turma um pouco ap\u00f3s a minha, que foi da Petrobras, aquele cara todo, a gente, eu comentando, n\u00e3o sei quem morreu, ele fez, n\u00e3o gostava daquele cara n\u00e3o, mam\u00e3o, n\u00e3o sei o que. A gente chegou depois na Petrobras, e o que ele ensinava, n\u00e3o dava nem para come\u00e7ar. Eu disse, ah, eu gostava muito dele, porque eu usava duas balizas. Primeiro, para mim, o que ele estava ensinando ali estava legal. E esse outro lado era contado nos dedos, ele estava entre os contados nos dedos, que n\u00e3o aprontava pro lado da gente, n\u00e9? Ent\u00e3o, para mim, como pessoa, e depois ligada \u00e0 quest\u00e3o feminista tal, era uma qualidade muito importante nesse que j\u00e1 partiu. Mas era\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: Era muito r\u00edgido?<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: N\u00e3o sei lhe dizer se r\u00edgido, n\u00e9? Porque, assim, a escola t\u00e9cnica, voc\u00ea tem que saber matem\u00e1tica, n\u00e9? Voc\u00ea tem que saber bem matem\u00e1tica para dar conta daquelas disciplinas iniciais. Tanto que, n\u00e3o sei hoje como \u00e9, mas o \u00edndice de reprova\u00e7\u00e3o era entre o b\u00e1sico, que era o primeiro e o segundo semestre, e o terceiro e o quarto semestre, que era muito o enfoque naquelas disciplinas, volto a dizer, mais te\u00f3ricas, na minha \u00e1rea, era a \u00e1rea das quest\u00f5es de eletricidade, ent\u00e3o a gente dava eletrot\u00e9cnica, a gente dava eletrot\u00e9cnica, eletrot\u00e9cnica 1, eletrot\u00e9cnica 2, quase tudo em cima de c\u00e1lculo matem\u00e1tico, de desdobramento de f\u00f3rmulas. Eu me lembrei agora, tinha um outro professor, este eu achava ele muito simp\u00e1tico, n\u00e9? Ele era, obviamente, bem mais velho, mas naquela \u00e9poca a gente achava mais velho o qu\u00ea? A gente tinha 16 anos, quem tinha 25 pra gente j\u00e1 era, pelo menos pra mim, j\u00e1 era bisav\u00f4, n\u00e9? Que \u00e9 o caso. E eu tive tr\u00eas professores que eram assim, mais ou menos isso, que eu, dois eu me dou at\u00e9 hoje, n\u00e9? Inclusive ele foi pra festa, gente muito boa, Anibal, Navarro, eu quase que ia falando o nome do desafeto, Navarro e Edinaldo. E esse Edinaldo era muito engra\u00e7ado, ele era assim, forte, babudo e tal. E ele, a gente na prova, ele era eletrot\u00e9cnica 1. E eu me lembro que todo mundo, deixa eu fazer aqui o gesto para voc\u00eas verem, aqui debaixo da perna, n\u00e9? A sanfona. Sabe o que \u00e9 a sanfona, n\u00e9? A pesca com essa f\u00f3rmula. Era f\u00f3rmula, que era um horror de f\u00f3rmula. Ent\u00e3o, todo mundo com a sanfona aqui debaixo da perna, com a sanfona para discretamente botar aqui, n\u00e9? E olha, ele entrou, olhou para a cara da gente, deu uma risadinha, chegou no quadro, botou todas as f\u00f3rmulas m\u00e3e. A\u00ed todo mundo olhou para a cara dele e disse, a\u00ed ele disse, voc\u00eas acham que eu sou o qu\u00ea? Eu n\u00e3o fui aluno, n\u00e3o. Eu sei que est\u00e1 todo mundo com a pesca aqui. Olha, est\u00e1 aqui a f\u00f3rmula, \u00e9 s\u00f3 voc\u00eas desdobrarem. E a gente olhou assim, porque disse, o cara botou a gente no chinelo, no chinelo, n\u00e9? Mas era assim, tinha essas quest\u00f5es, n\u00e9? Ent\u00e3o, quem vinha de escola particular e entrava na escola t\u00e9cnica, o que foi mais longe de n\u00f3s, da minha turma, foram dois que fizeram engenharia el\u00e9trica, um fez aqui, na UFBA mesmo, Kleber. Kleber era um monstro de matem\u00e1tica, n\u00e9? E foi chefe da Petrobras, est\u00e1 agora aposentado, Kleber Luiz. E o outro era o menininho, o Paulistinha, filho de papai, que era Edgar. Imagine voc\u00ea vindo do Largo do Tanque, tem um coleguinha que mora na Gra\u00e7a. Essa cara mesmo E Edgar voltou para morar em S\u00e3o Paulo com o pai. A \u00faltima vez que eu conversei com ele, ele era executivo na Embraer, Aquela coisa toda fez engenharia el\u00e9trica l\u00e1 em\u2026 Como \u00e9 que chama aquela cidade de S\u00e3o Paulo que tem a escola? S\u00e3o Bernardo. S\u00e3o Bernardo, n\u00e9? Ent\u00e3o, assim, a escola t\u00e9cnica teve muito isso para mim, assim, de um choque de classe. Porque eu vinha daquilo dali, do Largo do Tanque, S\u00e3o Caetano, tinha uns coleguinhas que tinham uma vida melhorzinha, tinha uns que estavam pior, o meu, a minha m\u00e3e era m\u00e9dio, n\u00e9? Porque era professora, atrasava sal\u00e1rio, aquela coisa toda, mas dava para levar. e a escola t\u00e9cnica teve tamb\u00e9m pra mim pessoalmente, teve muito esse impacto de diferen\u00e7a de de classe quanto a quest\u00e3o de ser feminino, de mulher al\u00e9m desses um um foi diretamente comigo n\u00e9 e outro foi com uma amiga, que essa amiga eu tive que ir l\u00e1, como ele era pra resolver, porque \u00e9 aquela coisa eu vou lhe dar a nota por \u00faltimo, pra poder constranger, tinha essas coisas. Agora, tinham as meninas tamb\u00e9m que eram mais atiradas, n\u00e9? Porque tinham os professores, como eu digo, que eram simp\u00e1ticos, n\u00e9? Eu lembro mesmo desse Edinaldo, eu achava ele bem simp\u00e1tico, n\u00e9? Mas eu era muito mais boba do que ele. Mas tinham colegas que a coisa rolava mais. Agora, dessas festas que est\u00e3o tendo, a\u00ed que eu vejo a professora que era o qu\u00ea? Seis anos mais velha do que a gente? Pelo amor de Deus, n\u00e9? Voc\u00ea com 18, o professor com 25, \u00e9 covardia, n\u00e9? A\u00ed a gente conversa, agora todo mundo est\u00e1 na mesma faixa, e a gente conversando, e a\u00ed um deles soltou, e eu disse, bem que eu soube, que eu sempre sabia que voc\u00ea n\u00e3o brincava em servi\u00e7o e tal, mas era uma coisa assim meio\u2026 Tinha os colegas que gostavam de se\u2026 Como \u00e9 que eu poderia, de se vangloriar, n\u00e9? Mas em termos de prova, essas coisas, eu nunca percebi, assim, nenhum tipo de privil\u00e9gio. Eu tinha facilidade nas disciplinas da \u00e1rea de humanas, da \u00e1rea de portugu\u00eas tamb\u00e9m, e eu tinha, assim, uma facilidade de pegar a parte pr\u00e1tica. Ent\u00e3o, eu tinha uma v\u00e1lvula, voc\u00ea tinha que montar a v\u00e1lvula, o professor desmontava ela toda em cima da bancada, bagun\u00e7ava aquilo tudo para poder, porque eles estavam sabendo que a gente estava ali decorando a ordem da desmontagem. A\u00ed eles bagun\u00e7avam para poder a gente montar. Eu tinha facilidade de montar aquilo, eu me metia por debaixo da v\u00e1lvula, eu n\u00e3o tinha problema nenhum, eu nunca fui ter unha grande, ent\u00e3o eu me metia ali debaixo, tal coisa, montava. Na \u00e1rea de eletricidade tamb\u00e9m, eu tinha uma professora que eu gostava muito, depois foi diretora, foi a primeira diretora mulher e negra Do IFBA, que j\u00e1 era IFBA Aurina Pessoa did\u00e1tica, excelente Pessoa maravilhosa A Aurina a gente fazia de Aurina, a gente fazia bagun\u00e7a Eu e Edgar, a gente brigava Era criado, eu irei todo na sala Com a Aurina, eu tinha facilidade Eu montava aquilo tudo, aquela parte el\u00e9trica Meu problema era na hora de botar Na tomada Porque eu tinha, eu dizia que esse neg\u00f3cio estoura Mas eu pessoalmente nunca tive Dificuldade n\u00e3o agora eu e os colegas uma coisa que eu desde aquela \u00e9poca reparava, eu e os colegas que t\u00ednhamos vindo de escola p\u00fablica t\u00ednhamos um d\u00e9ficit na hora da matem\u00e1tica na hora do desdobramento da f\u00f3rmula at\u00e9 entrar na equa\u00e7\u00e3o tanto que uma vez eu acabei perdendo em matem\u00e1tica indo pra final essa coisa toda, recupera\u00e7\u00e3o e tal mas assim, eu acho que o da escola t\u00e9cnica, o que eu mais guardei foi essa responsabilidade que voc\u00ea tem de estudar. N\u00e3o tem esse neg\u00f3cio de conselho de classe, de professor lhe dar ponto. N\u00e3o existia nada disso. Pelo menos a n\u00edvel do que a gente conhecia, n\u00e3o existia. Se l\u00e1 nos bastidores rolava, eu realmente n\u00e3o sei. Mas voc\u00ea era\u2026 Voc\u00ea tinha que imbuir que voc\u00ea estava ali, que aquilo era um privil\u00e9gio, porque a gente tinha essa consci\u00eancia de que a nossa escola era melhor em termos de profissionais e do que poderia te dar no futuro. Ent\u00e3o foi assim, muito impactante quando chegou a crise. Que crise? A crise do governo Figueiredo, de 82. Foi exatamente o ano que eu sa\u00ed. Ent\u00e3o, quando\u2026 Que era assim, tinha col\u00e9gio, eu me lembro de uns rapazes, uns caras que eram dois ou tr\u00eas semestres acima da gente, que escolhiam emprego no polo. Ah, n\u00e3o quero ir para os oceanatos n\u00e3o, porque os oceanatos, os passarinhos morrem ali, \u00e9 dif\u00edcil, n\u00e9? Ah, eu n\u00e3o quero ir para n\u00e3o sei onde. Eu n\u00e3o quero ir para Petrobras n\u00e3o, n\u00e9? N\u00e3o quero ir para Petrobras n\u00e3o, porque Petrobras est\u00e1 pagando pouco. Imagina que loucura, n\u00e9? Porque, realmente, quando o polo come\u00e7ou a funcionar, quando em 78, por a\u00ed, os sal\u00e1rios, e era n\u00edvel t\u00e9cnico, sal\u00e1rios eram altos, n\u00e9? Tinha gente que tinha ido pra aqueles projetos doidos na Amaz\u00f4nia, ent\u00e3o tinha ganho por empreitada, ganhando muito dinheiro. O bairro, como o Nelson falou, o contexto, a Pituba, quando a Pituba come\u00e7ou a abrir aquelas ruas, era o pessoal do polo que comprava, n\u00e9? Os que tinham n\u00edvel t\u00e9cnico, quem tinha n\u00edvel n\u00e3o t\u00e9cnico, pessoal que era\u2026 E a\u00ed tinha uma hierarquia muito grande, n\u00e9? Quem trabalhava no polo, mas n\u00e3o tinha escola t\u00e9cnica. ent\u00e3o ganhava menos, e foi quem povoou ali aquela regi\u00e3o de hoje, de Pau da Lima, aqueles pr\u00e9dios dali, eu falo que tive muito colega que foi morar ali, porque n\u00f3s pegamos as vacas magras, n\u00f3s pegamos as vacas magras.<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: A\u00ed, pulando ent\u00e3o da escola t\u00e9cnica, na universidade, como era, tanto como aluna e depois como professor, a ambi\u00eancia, como \u00e9 que voc\u00ea via? Porque voc\u00ea foi da Cat\u00f3lica,<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: fui da cat\u00f3lica, fui, sou cat\u00f3lica mesmo, n\u00e9, todos os, fiz a gradua\u00e7\u00e3o, fui professora, fiz a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o toda numa PUC. A cat\u00f3lica daqui, quando eu entrei, como eu digo, eu fiz sele\u00e7\u00e3o pra substituta, n\u00e9, foi uma colega que era professora de l\u00e1, uma pessoa, n\u00e9, que n\u00e3o era daqui, acho que ela era carioca, paulista, n\u00e3o me lembro. Ela tinha tido uma gravidez de alto risco, n\u00e9, e precisava urgentemente de uma substituta, porque ela n\u00e3o podia dar disciplina. E eu fiz a sele\u00e7\u00e3o, aquela sele\u00e7\u00e3o simples de curr\u00edculo, de aula, dei uma aula, fui aprovada, ela estava no meio do semestre, eu entrei, essa pessoa tinha feito concurso para a UFBA, para a \u00e1rea de antropologia, e teve os tr\u00eas beb\u00eas, acho que eram quatro, a coisa que perde um e fica n\u00e3o sei quantos, e ela n\u00e3o p\u00f4de voltar, inclusive porque foi quando a UFBA implantou o regime ou DE ou 20. N\u00e3o pode ficar naquela coisa. E a\u00ed ela preferiu ficar com DE, ficou com DE, e a\u00ed a vaga eu fiquei. Tanto que na cat\u00f3lica depois eu fiz concurso interno, j\u00e1 n\u00e3o fiz concurso p\u00fablico. E eu era, pra mim, era o auge. Imagina voc\u00ea vir de uma fam\u00edlia de professoras prim\u00e1rias e voc\u00ea chegar a dar aula, come\u00e7ar a dar aula na universidade. Logo depois, teve tamb\u00e9m sele\u00e7\u00e3o na UFES, eu fiz a sele\u00e7\u00e3o na UFES, tamb\u00e9m para a \u00e1rea de antropologia, ent\u00e3o, para mim, estava tudo, teve uma \u00e9poca que eu estava deslumbrada, n\u00e3o nego n\u00e3o, eu estava completamente deslumbrada, achando que tinha chegado na lua, igual a Yuri Gargari, n\u00e9? Estava completamente deslumbrada. Ent\u00e3o, quando eu fiz o concurso na UFES, Fui aprovada em 97, em mar\u00e7o de 97, e a\u00ed foi que eu vim ter a percep\u00e7\u00e3o, para mim, de onde eu estava. Por qu\u00ea? Quando eu fiz concurso, foi um concurso imenso na UEFS, v\u00e1rias \u00e1reas fizeram concurso, e tinham colegas de outras \u00e1reas, principalmente da \u00e1rea de Biologia, onde eu tenho alguns amigos ainda hoje, e da \u00e1rea de Letras, que os sobrenomes eram sobrenomes altissonantes. Eu vou citar aqui um diretamente, porque eu sei que n\u00e3o vai dar problema, o filho de professor Pedro Augustinho. Pedro Augustinho foi meu professor em antropologia, em antropologia ind\u00edgena. Excelente professor, n\u00e3o tenho nem o que falar. E Olavo estava fazendo concurso comigo, arrancando esse cabelo para passar em biologia, que ele \u00e9 da \u00e1rea de biologia, ele deve estar para se aposentar agora. Eu disse, gente, eu estou aqui junto com Olavo, Filho de Pedro Agostinho e de Rosa, cheguei longe. Cheguei realmente a um lugar que eu n\u00e3o imaginava que eu chegaria. Porque da trajet\u00f3ria de onde eu vi, eu chegaria a professor de n\u00edvel m\u00e9dio. \u00c9 onde quase todos os meus colegas que fizeram a Cat\u00f3lica comigo chegaram. A n\u00edvel superior, a ser professor universit\u00e1rio da minha turma mesmo, da Cat\u00f3lica, s\u00f3 eu e Cec\u00edlia Soares, n\u00e3o, \u00e9 interessante, n\u00e9, duas mulheres negras, uma preta e uma parda, n\u00e9, chegamos \u00e0 professora na mesma \u00e9poca, trabalhamos na UEFS, trabalhamos na Cat\u00f3lica, tal coisa, ent\u00e3o, eu sinto, a gente sente essa coisa muito inter, n\u00e9, interpessoal, n\u00e9, em rela\u00e7\u00e3o ao feminino, em rela\u00e7\u00e3o a voc\u00ea ser uma pessoa negra, tal, como se voc\u00ea n\u00e3o fosse bem o seu lugar. N\u00e3o fosse bem o seu lugar. Eu me lembro de uma vez, uma conversa, inclusive, com Cec\u00edlia, ela falou sobre isso, que eu n\u00e3o sabia o que era isso, pela diferen\u00e7a que \u00e9 algo meio complicado. A gera\u00e7\u00e3o de hoje, todo mundo \u00e9 negro, mas a gente cresceu tendo sub-hierarquias, sub-lugares, entre voc\u00ea ser preto, voc\u00ea ser, como \u00e9 que chamava, meu Deus do c\u00e9u, cabo verde, que era uma pessoa de pele bem pigmentada, com cabelo cacheado, entre voc\u00ea ser, ainda usavam o termo mulata, morena, morena era, como me disse uma vez um aluno na UEFS, na \u00e1rea de antropologia, discutindo essas quest\u00f5es raciais, ele me disse mas professora onde eu trabalho, era uma empresa de recursos humanos, ele me disse se l\u00e1 a gente usar o termo negro n\u00e3o pode o chefe, a estrutura l\u00e1, o supervisor orienta a gente a usar o termo moreno, porque se chamar de negro pode ofender, e isso eu estou falando de 95, 96 eu entrei na UEFS 94 estou falando de 96, 97, 98. Ent\u00e3o, parece muito tempo, mas n\u00e3o \u00e9. \u00c9 pouco tempo em termos de mudan\u00e7as sociais. Eu, na verdade, vim sentir mais a incid\u00eancia sobre o ser mulher e o ser negra nos \u00faltimos anos que eu estive na UEFS. Quando chegaram alguns colegas l\u00e1, o caldo entornou um pouco. E quando eu fui gest\u00e3o, foram as duas coisas ao mesmo tempo. Eu entrei no mestrado, para dar aula no mestrado, em 2008. Acho que foi 2008 que eu terminei o doutorado, em 2006. Est\u00e1 fazendo agora 20 anos, em agosto de 2006. a\u00ed foi quando o mestrado da UFES foi implantado de hist\u00f3ria o PGH e eu fui contactada se eu tinha interesse hoje voc\u00eas j\u00e1 s\u00e3o orientados para fazer publica\u00e7\u00e3o durante o mestrado, no nosso caso era diferente voc\u00ea fazia e depois que voc\u00ea come\u00e7ava a publicar, porque tamb\u00e9m n\u00e3o tinha tantas revistas e outras coisas ent\u00e3o eu comecei a publicar de forma bem t\u00edmida e a\u00ed foi quando me chamaram para fazer parte do mestrado. Eu entrei como professora, me lembro que peguei a primeira turma de metodologia da pesquisa, que voc\u00ea j\u00e1 entrava assim, ela \u00e9 culturalista e n\u00f3s somos marxistas. Isso em 2007, 2008, gente, ainda tinha essas coisas. Ent\u00e3o, tinha uns alunos l\u00e1 que j\u00e1 foram assim de garras para meter em mim. S\u00f3 que eles n\u00e3o sabiam que a minha era pior. Ent\u00e3o, era p\u00e1, p\u00e1, p\u00e1, p\u00e1. E a coisa rodou, foi a primeira turma. E a\u00ed, eu fui vendo, eu acho que muito em fun\u00e7\u00e3o disso, certas pequenas, m\u00ednimas hostilidades, micropoderes de hostilidades. E depois que mudou um pouco a afei\u00e7\u00e3o da universidade, Kelly vai me desculpar, mas muita gente que veio de S\u00e3o Paulo, aquela coisa toda, n\u00e9, e as rinhas de l\u00e1 de S\u00e3o Paulo da PUC, USP e unicamp essa coisa toda, voc\u00ea sente mais assim, eu comecei a sentir mais e quando eu virei gest\u00e3o, foi em 2011 que eu fui vice-coordenadora com o professor Eulino Coelho, colega muito querido, marxista, ele l\u00e1 como eles me chamam de culturalista mas a gente sentou e fez um plano de trabalho que interessava a ela trabalhar e trabalhamos muito bem. Ent\u00e3o, eu comecei a sentir de alguns colegas, n\u00e9, homens, essa rela\u00e7\u00e3o, tipo assim, de querer tutelar. E uma coisa que eu aprendi na minha vida \u00e9 que tutela eu s\u00f3 tive de uma pessoa. A senhora minha m\u00e3e, e me bastou. De minha m\u00e3e, me bastou, e eu n\u00e3o ia ser tutelada por colega, tipo ah, venha c\u00e1 que eu vou fazer isso pra voc\u00ea, acho que a gente at\u00e9 leva isso, aquela coisa de fazer sempre o mais do que o melhor, exatamente pra demonstrar que voc\u00ea \u00e9 competente, e a\u00ed come\u00e7amos at\u00e9 algumas, algumas rinhas, n\u00e9, que foi at\u00e9 o per\u00edodo que eu terminei eu passei tr\u00eas anos, dois anos de vice, mais tr\u00eas anos como coordena\u00e7\u00e3o, sa\u00ed em 2016, e a\u00ed tinha alguns problemas, mas foi quando tamb\u00e9m eu tive algumas quest\u00f5es pessoais de doen\u00e7a em fam\u00edlia tal, e que eu n\u00e3o queria, que realmente eu nunca quis, mas eu pedi transfer\u00eancia para a UNEB, e a\u00ed essa transfer\u00eancia n\u00e3o saiu, foi o tempo que foi levando tamb\u00e9m, minha m\u00e3e faleceu, que era o motivo de eu pedir transfer\u00eancia, E chegou o momento do Covid e tal. E a\u00ed eu resolvi pegar tamb\u00e9m a aposentadoria pelo medo tamb\u00e9m do contexto nacional, de perder os direitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: A\u00ed ent\u00e3o voc\u00ea terminou se aposentando.<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: \u00c9, me aposentando. Mas antes da aposentadoria, como a Eduarda quer saber, como \u00e9 que eu acabei ficando mesmo na hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o? Eu estava na Cat\u00f3lica e o professor Jos\u00e9 Carlos era muito din\u00e2mico nisso de forma\u00e7\u00e3o, de capacita\u00e7\u00e3o de professores. E se gestou, junto com o professor Jurandir Oliveira, que era o diretor do Instituto de Ci\u00eancias, Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Cat\u00f3lica, esse PROCAD. Eu era a substituta, mas fiz a sele\u00e7\u00e3o, tive uma boa coloca\u00e7\u00e3o e foi exatamente quando eu passei no concurso da UFES, a diretora do meu departamento teve muita sensibilidade, me liberou exatamente os tr\u00eas meses de eu fazer as disciplinas na PUC, quando voltei estava aquele monte de coisa para eu fazer, mas tudo bem, Raquel Vale teve essa extrema sensibilidade, eu fui e l\u00e1 a primeira pesquisa que eu fiz foi um projeto que eu j\u00e1 tinha levado da especializa\u00e7\u00e3o, que eu fiz aquela pr\u00e9pice com a PUC de Minas Gerais. Sempre a PUC, n\u00e9? Meu caminho \u00e9 a PUC. E eu tinha feito um projeto muito inspirada, tanto na vida de minha m\u00e3e, como num filme que chamava Anjos do Arrabalde, que era sobre professoras. E o meu primeiro projeto, ent\u00e3o, era sobre trabalhar com mem\u00f3rias de professoras prim\u00e1rias, como a gente chamava, que trabalhassem em periferia, que \u00e9 algo completamente diferente das professoras que trabalhavam nas escolas, vamos dizer assim, o pessoal da UNEB usa muito esse termo, as escolas \u00edcones do centro da cidade. Quais s\u00e3o as escolas \u00edcones do centro da cidade? A antiga Get\u00falio Vargas, a Visconde de Cairu, que fica bem na Avenida Central de Brotas, tinha uma aqui na Mouraria, que eu esque\u00e7o o nome, eram essas escolas consideradas \u00edcones, que o povo brigava para poder ficar e que, a gente sabe, por debaixo do pano, rolava toda uma rela\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio, quem era filha, sobrinha, parenta de quem, para poder alocar. Eu queria trabalhar com aquelas que pegavam o \u00f4nibus e iam dar aula em S\u00e3o Caetano, Capelinha, tal, essa coisa toda. Eu fiz esse projeto na especializa\u00e7\u00e3o, foi quando eu estava na UEFS e a\u00ed surgiu a oportunidade de fazer esse PROCAD eu peguei esse projeto e adaptei \u00e0 escola normal de Feira de Santana. Eu conto na minha disserta\u00e7\u00e3o como foi que eu descobri que a Feira de Santana tinha tido uma escola normal. Eu tinha passado na rua, vi um pr\u00e9dio antigo, Feira de Santana n\u00e3o tem pr\u00e9dios t\u00e3o antigos como Salvador, e eu perguntei a um colega, meu colega de \u00e1rea, Vicente, o que era aquilo. A\u00ed ele me disse que era a antiga faculdade de pedagogia de feira, que \u00e9 a base da UEFS A UFES nasce de uma uni\u00e3o de faculdades isoladas, a de odonto, a de pedagogia, e tem uma outra que eu n\u00e3o me lembro. Eu me lembro de odonto e de pedagogia. E ele me deu uma documenta\u00e7\u00e3o do IPAC, que ele estava trabalhando nessa \u00e9poca, dando consultoria no IPAC, que era para transformar esse pr\u00e9dio, que estava abandonado, tinha planta caindo e o que ele \u00e9 hoje, que \u00e9 o Cuca, que \u00e9 o Centro de Cultura e Arte de Feira de Santana. Eu fiquei apaixonada pelo pr\u00e9dio, pela hist\u00f3ria da coisa, fui procurar, fui para a Biblioteca Geral Municipal de Feira de Santana, peguei esse material que ele me deu do IPAC, que tinha um levantamento hist\u00f3rico, e preparei um projeto para o mestrado, fui aprovada e \u00e9 o primeiro, a disserta\u00e7\u00e3o, que \u00e9 sobre a escola normal de Feira de Santana, a quest\u00e3o das normalistas, a\u00ed eu desci mesmo, desci no sentido de verticalizar nessa discuss\u00e3o sobre as normalistas, lia o material daqui da professora Isabel Vilela, daqui e fiz um levantamento, naquela \u00e9poca a gente n\u00e3o tinha internet assim t\u00e3o f\u00e1cil para fazer levantamento, voc\u00ea tinha que mandar bilhetinho para colega pedindo material, vim aqui na biblioteca para poder tirar xerox, ent\u00e3o o trabalho da professora Concei\u00e7\u00e3o Barbosa tamb\u00e9m, esse pessoal todo, eu fiz essa leitura toda, que \u00e9 o primeiro livro, que \u00e9 Deusas Fardadas, Garotas Tricolores, Deusas Fardadas, que est\u00e1 esgotado, mas no ano que vem a gente vai fazer e-book aberto, porque s\u00e3o os 100 anos da escola normal, ent\u00e3o a gente j\u00e1 est\u00e1 organizando isso l\u00e1 com alguns ex-alunos e a Secretaria Municipal de Feira de Santana eu vou liberar os direitos autorais para comemorar os 100 anos da escola. Mas a\u00ed nesse decorrer, eu tinha que ler o An\u00edsio Teixeira, o relat\u00f3rio e me chamava muita aten\u00e7\u00e3o que ele reclamava sempre porque o passado, porque as crian\u00e7as n\u00e3o aprendem, toda aquela reclama\u00e7\u00e3o, reclama\u00e7\u00e3o e a\u00ed duas coisas se tornaram muito diretas na minha cabe\u00e7a. Um, aquele an\u00edsio que eu estava lendo n\u00e3o era o An\u00edsio de educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio, era outra pessoa. Era um tanto pessoal do grupo da Uneb, que eu fa\u00e7o parte hoje, da risada que diz assim, voc\u00eas disseram, o mo\u00e7o An\u00edsio \u00e9 outra pessoa, n\u00e3o \u00e9 An\u00edsio de educa\u00e7\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio, n\u00e3o \u00e9 isso que eu estou falando. E me deu a vontade de descer para o s\u00e9culo XIX para compreender de onde tanta reclama\u00e7\u00e3o daquele momento em que ele estava escrevendo, que era entre 1925 e 1928, porque eu tinha uma leitura, e a\u00ed, na verdade, uma experi\u00eancia de vida, de escolas na periferia que os alunos continuavam saindo sem alfabetizados. Ent\u00e3o, de onde aquela reclama\u00e7\u00e3o em 1925 t\u00e3o grande? A\u00ed eu fui aprofundando as leituras. A gente tem uma car\u00eancia muito grande na Bahia de uma hist\u00f3ria pol\u00edtica. Primeiro porque a hist\u00f3ria pol\u00edtica foi aleijada durante muito tempo, n\u00e3o \u00e9 coisa s\u00f3 de biografia, de privilegiado, aquela coisa. Agora que a gente est\u00e1 tendo uma nova hist\u00f3ria pol\u00edtica, mas que est\u00e1 voltando a pegar esse per\u00edodo do final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Ent\u00e3o, fui me cercar do livro da professora Consuelo Novaes Sampaio, dos partidos pol\u00edticos na Bahia, aquela coisa toda, e constru\u00ed, e fui procurar a documenta\u00e7\u00e3o. E a\u00ed a primeira coisa que me chamou a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o dava para voc\u00ea falar daquele per\u00edodo sem tamb\u00e9m tocar nas quest\u00f5es fundamentais do final do s\u00e9culo XIX. Quais? A aboli\u00e7\u00e3o e a emerg\u00eancia da rep\u00fablica. E o primeiro projeto que eu apresentei \u00e9 de 1870, mais ou menos, com a Lei do Ventre Livre, at\u00e9 1920. Ent\u00e3o, cobria 50 anos do que a gente chama de p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o, eu j\u00e1 usava esse termo, pela amizade que eu tenho com dois professores que pesquisaram, acho que foram os inaugurais sobre a p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o professor Walter Fraga e o professor Alberto Her\u00e1clito, foram meus contempor\u00e2neos, Alberto foi meu colega, e Walter foi meu contempor\u00e2neo na Federal e tal, a gente \u00e9 amigo at\u00e9 hoje. Ent\u00e3o eu pegava em 1870, a\u00ed o que foi a Lei do Vento Livre, eu sabia que tinha existido a Lei do Vento Livre, mas n\u00e3o tinha ainda, tamb\u00e9m era algo que n\u00e3o era pesquisado aqui. Aquela ideia de que a Lei do Vento Livre n\u00e3o pegou, ent\u00e3o n\u00e3o precisa pesquisar. Fui, fui aprovada, comecei a pesquisar, voltei, eu fui para a documenta\u00e7\u00e3o, eu fui com uma documenta\u00e7\u00e3o basicamente jornal\u00edstica, de peri\u00f3dico, e a\u00ed eu fui para o arquivo p\u00fablico. Um adendo que eu amo o arquivo p\u00fablico. Se eu pudesse, eu ia para l\u00e1 todo dia, mas n\u00e3o d\u00e1. A\u00ed eu fui para o arquivo p\u00fablico. Quando eu cheguei no arquivo p\u00fablico, eu segui a regra historiogr\u00e1fica de voc\u00ea com documenta\u00e7\u00e3o. Ma\u00e7os e mais ma\u00e7os, eram 100 ma\u00e7os de documenta\u00e7\u00e3o, cobrindo de 1835 a 1890, de instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica, que era o ma\u00e7o b\u00e1sico, a documenta\u00e7\u00e3o matriz. Eu comecei a trabalhar de 70. E a\u00ed eu tinha que come\u00e7ar ou de tr\u00e1s, da frente para tr\u00e1s, ou de tr\u00e1s para frente. Eu comecei da frente para tr\u00e1s. Quando eu vi, n\u00e3o dava para ir at\u00e9 1920. Era muita coisa e tinha algo fundamental, que era a aboli\u00e7\u00e3o e a rep\u00fablica e a mudan\u00e7a de discurso, pelo menos no sentido dos conceitos, melhor dizendo, das categorias mesmo de \u00e9poca, a partir da aboli\u00e7\u00e3o e da rep\u00fablica. Uma das coisas fundamentais para mim foi que eu deixei de encontrar a preocupa\u00e7\u00e3o com um termo que eu n\u00e3o sabia o que era. Confesso que eu n\u00e3o me lembrava o que era, que era o termo ing\u00eanuo. Como eu tenho o h\u00e1bito, quando eu n\u00e3o sei de uma coisa, imitando o Kate Thomas, eu vou perguntar quem sabe, eu a\u00ed fui perguntar a Afonso Florence Bandeira, que era meu colega na \u00e9poca, na Cat\u00f3lica , hoje \u00e9 deputado e tal, mas Afonso era meu colega de \u00e1rea, de metodologia da pesquisa. A\u00ed eu perguntei a ele e ele me disse, eu disse, olha Afonso, eu acho que eu j\u00e1 li esse termo em alguma coisa de Dona C\u00e1tia. E ele disse isso, mas eu n\u00e3o estou compreendendo. A\u00ed ele me disse, v\u00e1 ler Eduardo Pena. Pena, n\u00e9? P\u00e1ginas da Casa Imperial, que a\u00ed voc\u00ea vai entender o que est\u00e1 se falando. Eu a\u00ed n\u00e3o tinha, naquela \u00e9poca, a gente n\u00e3o tinha os livros da Unicamp aqui. Fui procurar tese, baixar, todo esse processo que a gente fazia, e a\u00ed consegui configurar os ing\u00eanuos. Ent\u00e3o, n\u00e3o era, eu confesso claramente, n\u00e3o era meu interesse primordial pesquisar a educa\u00e7\u00e3o de negros, mas eles vieram assim por porta-travessa. E a\u00ed uma quest\u00e3o conceitual, terminol\u00f3gica. Por que voc\u00ea n\u00e3o usou negros na sua tese? Porque eu n\u00e3o encontro esse termo referente a essas crian\u00e7as em momento algum. e l\u00e1 na PUC isso era muito voc\u00ea n\u00e3o podia inventar ah, eu quero dizer que eu estou pesquisando a educa\u00e7\u00e3o de negros n\u00e3o, foi um debate na banca, a minha banca era para ser a professora Estef\u00e2nia Cangu\u00e7u, que \u00e9 uma especialista em quest\u00f5es de escravid\u00e3o e acabou sendo a Cida Bento porque a professora Estef\u00e2nia teve um problema de sa\u00fade e a Cida Bento foi o que me deu ainda mais nervoso. Eu disse: ave maria, vamos bater com a militante, \u00e9 agora que eu estou afundada. Daqui da Bahia foi Walter Fraga, que era quem trabalhava com essa quest\u00e3o de inf\u00e2ncia, mendic\u00e2ncia, tal coisa. De l\u00e1 de S\u00e3o Paulo, foi um professor que eu mesmo escolhi para a banca, que eu gosto muito do trabalho dele, que \u00e9 o professor Jos\u00e9 Carlos Barreiro. Ele trabalha com um uso muito interessante das categorias do Thompson e principalmente um olhar muito para a quest\u00e3o do popular. E de inf\u00e2ncia, literalmente, uma professora, esqueci o nome dela, Olga Brits, que discute inf\u00e2ncia, revistas infantis, essa coisa toda. Ent\u00e3o foi uma banca assim pensada pela minha orientadora, a professora Antonieta Antonacci, foi minha orientadora da disserta\u00e7\u00e3o e, como deu certo, do doutorado, com a influ\u00eancia muito grande de professora Maria Odila, que pensou essas vertentes que acabaram acontecendo na tese pelo contato direto com a fonte. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o sabia que tinha tido uma escola de presos. Eu descobri isso a partir do manuseio das fontes. Eu n\u00e3o sabia que tinha tido essas experi\u00eancias de educa\u00e7\u00e3o de ing\u00eanuos, diretor de instru\u00e7\u00e3o se metendo, padre sendo diretor de instru\u00e7\u00e3o e se metendo na conversa, tudo isso foi realmente de di\u00e1logo com a fonte. Eu trabalhei com toda a documenta\u00e7\u00e3o da instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica de 1870 at\u00e9 1892. Por que eu fui at\u00e9 1892? Exatamente por causa dos ing\u00eanuos, eu fui encontrando a continuidade do uso do trabalho for\u00e7ado deles. E a\u00ed \u00e9 essa vertente que eu tenho, para al\u00e9m da hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o, que eu tenho uns dois ou tr\u00eas artigos diretamente sobre a vida dos ing\u00eanuos. Porque quando eu fui fazer a qualifica\u00e7\u00e3o, bem tardia, j\u00e1 na boca do desespero, e eu tinha ido na Unicamp buscar esse material, esses livros que tinham l\u00e1, da Regina Xavier e tal, que voc\u00ea tinha que ir l\u00e1 buscar, ou ter algu\u00e9m l\u00e1 que lhe mandasse. Como eu tinha ido fazer a qualifica\u00e7\u00e3o, eu fui at\u00e9 o Unicamp. E a\u00ed um professor amigo meu estava l\u00e1 e a gente encontrou o professor Slenis. E a\u00ed fomos tomar um chopp, aquela coisa toda da sociabilidade, n\u00e9? Eu olhando para o Slenis, o \u00eddolo, um dos \u00eddolos. E a\u00ed ele conversou muito, muito simp\u00e1tico sempre. A\u00ed conversou e me disse, voc\u00ea faz pesquisa tal, tal. A\u00ed eu falei, ele disse, e voc\u00ea est\u00e1 fazendo o que com esses ing\u00eanuos? eu disse, n\u00e3o sei ainda acabei de descobrir isso a\u00ed, n\u00e3o sei ele disse, posso lhe dar um conselho? Eu disse, claro eu agrade\u00e7o, guarde se voc\u00ea for fazer o p\u00f3s-doc, que eu acabei n\u00e3o indo, mas porque peguei a gest\u00e3o e acabei n\u00e3o indo, mas fiz um artigo sobre isso, sobre os ing\u00eanuos que \u00e9 o artigo que est\u00e1 no livro comemorativo um dos muitos, n\u00e9, comemorativos dos 150 anos da lei do ventre livre.<\/p>\n\n\n\n<p>Giovani: Professora, uma quest\u00e3o. Diversas vezes no seu relato, at\u00e9 por participar da sua pr\u00f3pria experi\u00eancia de vida, a senhora fala tanto das quest\u00f5es de g\u00eanero como das quest\u00f5es de ra\u00e7a. Na sua percep\u00e7\u00e3o, o que mudou, at\u00e9 puxando pro lado da hist\u00f3ria das ci\u00eancias sociais que a senhora tamb\u00e9m estudou, o que mudou do in\u00edcio da sua vida para c\u00e1 e o que ainda precisa ser mudado?<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: De qu\u00ea? De g\u00eanero e de ra\u00e7a? Primeira coisa para mim muito impactante foi quando eu descobri que eu era uma mulher negra. Eu cresci numa fam\u00edlia mesti\u00e7a, de negros, obviamente, em que se voc\u00ea tem\u2026 \u00c9 a fam\u00edlia extensa, viu? N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a casa da minha m\u00e3e, n\u00e3o. A extensa, em que a diferen\u00e7a do tom da pele era tamb\u00e9m notado. Ent\u00e3o, isso para mim foi impactante quando eu entrei na Cat\u00f3lica. Porque at\u00e9 a Escola T\u00e9cnica, a Escola T\u00e9cnica sempre teve um contingente muito grande de alunos pretos. sempre foi uma escola de forma\u00e7\u00e3o de oper\u00e1rios. Acho que foi na minha \u00e9poca que come\u00e7ou um pouco a mudar isso, com a cria\u00e7\u00e3o do polo, com esse aumento do sal\u00e1rio e tal. Come\u00e7ou a atrair uma classe m\u00e9dia, que na Bahia \u00e9 sin\u00f4nimo de\u2026 De n\u00e3o branco nem n\u00e3o preto. De algo intermedi\u00e1rio, essa coisa. Ent\u00e3o, o primeiro impacto foi quando eu cortei o cabelo. Eu usava cabelo alisado, de ferro e chapinha. Depois voc\u00ea cacheava ele para que ele fizesse esse caimento do cacheado. N\u00e3o era para ter cabelo crespo. Eu me lembro quando eu inventei de cortar o cabelo e deixei encrespar. Deixei encrespar assim mesmo, botando nos cachinhos. Minha m\u00e3e e minha tia s\u00f3 faltaram morrer do cora\u00e7\u00e3o. Minha m\u00e3e me disse, pedi tanto a Deus para voc\u00ea sair mais clara, porque s\u00e3o pessoas que tiveram essa experi\u00eancia de vida. Estou falando isso porque s\u00e3o pessoas que tiveram essa experi\u00eancia de vida. Quem \u00e9 mais claro, quem tem o cabelo mais, como \u00e9 que a gente dizia, cresce para baixo ou cresce para cima. Ent\u00e3o n\u00e3o foi algo muito f\u00e1cil, n\u00e3o, voc\u00ea assumir isso. E para mim mesmo, at\u00e9 hoje, eu vejo, eu nunca faria parte de uma banca de heteroidentifica\u00e7\u00e3o, porque minha r\u00e9gua ia ser l\u00e1 em cima, sabe? Porque para mim \u00e9 estranho, pessoas, que aqui na Bahia, de uma forma geral, e eu estou sendo muito franca aqui, a gente n\u00e3o chama de branco, porque n\u00e3o s\u00e3o brancos, branco \u00e9 o professor Pretto. Sendo bem, o trocadilho \u00e9 \u00f3timo, n\u00e3o \u00e9? O trocadilho \u00e9 \u00f3timo. Branco \u00e9 professor Pretto. Mas tamb\u00e9m s\u00e3o pessoas que n\u00e3o s\u00e3o, no dia a dia, elas n\u00e3o s\u00e3o vistas como o negro na Bahia, que \u00e9 uma pessoa mais preta. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o seria uma pessoa adequada para uma banca de heterodentifica\u00e7\u00e3o, porque os pardos de bege claro comigo iam ter que provar, por v\u00e1rias coisas, suas experi\u00eancias, tal coisa, eu seria muito dura. Ent\u00e3o, eu nunca me propus a fazer esse tipo de trabalho. Ent\u00e3o, assim, eu vejo hoje, j\u00e1 que voc\u00ea me perguntou isso, vou ser bem direta, essa problem\u00e1tica de indicar uma mulher negra para o Supremo. Mulher negra no Supremo, a gente j\u00e1 teve. Elas se assumiam como negras? N\u00e3o. Quando me mandam alguma coisa, uma peti\u00e7\u00e3o dessa, eu digo assim, me mande uma preta. eu quero que bote uma preta, n\u00e3o uma negra, porque negra, como a gente adotou o crit\u00e9rio de classifica\u00e7\u00e3o racial norte-americano, ent\u00e3o cabe muita coisa nesse bojo. Se voc\u00eas me mandarem uma preta\u2026 Outro dia estava a\u00ed de novo essa agonia, a\u00ed descobriram realmente uma senhora j\u00e1, que, para mim, para os meus crit\u00e9rios, corresponderiam a uma preta. E isso, para mim, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 goza\u00e7\u00e3o. Eu fa\u00e7o assim meio de brincadeira, mas \u00e9 porque voc\u00ea n\u00e3o tem uma pessoa, principalmente uma mulher preta, na magistratura brasileira, que a gente sabe, \u00e9 um funil, funil daquele, daquela, daquele, como \u00e9 que chama, aquele filtro de de coalhada, aquele filtro que \u00e9 de seda, n\u00e3o \u00e9 nem de filozinho, que passa, n\u00e3o \u00e9 de seda mesmo, que \u00e9 mais dif\u00edcil de passar. Ent\u00e3o, eu acho que a gente tem que, ainda vai esperar muito para colocar. Ah, mas se for uma pessoa, uma negra parda, como tem X, Y, Z, t\u00e1, na dividida como eu estou hoje, n\u00e9? Entre Espanha e Argentina, eu n\u00e3o torceria para nenhuma das duas. Mas entre Espanha e Argentina, \u00e9 como um jogo entre Corinthians e o Bahia, n\u00e9? Contra o Bahia vale tudo. Contra a Argentina vale tudo. Ent\u00e3o, eu sou Espanha. N\u00e3o sou Espanha. Eu sou contra a Argentina. Eu n\u00e3o sou nada, mas sou contra o Bahia. Ent\u00e3o, \u00e9 nesse\u2026 Estou brincando, mas os crit\u00e9rios, n\u00e9? Que voc\u00eas disseram que podia deixar bem tranquilo. Ent\u00e3o, assim, \u00e9 \u00f3bvio que \u00e9 melhor uma mulher negra parda do que nada. Agora, eu tamb\u00e9m acho que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por ser mulher. porque n\u00e3o vou precisar teorizar sobre interseccionalidade de g\u00eanero, ra\u00e7a, classe, que a gente est\u00e1 aqui j\u00e1 sabendo disso, mas n\u00e3o \u00e9 apenas uma mulher, pelo biol\u00f3gico, pelo essencialismo biol\u00f3gico, que vai dar conta das quest\u00f5es de ra\u00e7a e de classe. E eu acho que uma coisa que, nos \u00faltimos anos, n\u00e3o vou entrar nesse vespeiro dos identarismos, mas algo que ficou assim no cantinho, E eu pergunto por que a interseccionalidade n\u00e3o fala tanto dela que o termo de classe. \u00c9 como se g\u00eanero, as quest\u00f5es de g\u00eanero, as quest\u00f5es de ra\u00e7a fossem dar conta de estruturas de classe. E o que a gente v\u00ea \u00e9 que s\u00e3o realmente interseccionalizadas. Ent\u00e3o, nesse sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>Maria Eduarda: E os seus estudos do mestrado, que foram relacionados \u00e0s normalistas, tamb\u00e9m traziam essas reflex\u00f5es?<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: Olha, eu me lembro bem que naquele tempo, bote a\u00ed, trinta e tantos anos, trinta anos, foi noventa e\u2026 eu terminei em noventa e nove, ent\u00e3o, era algo bem mais distante, n\u00e9? Mas, interessante, eu n\u00e3o sou um\u2026 eu tive dois depoentes s\u00f3, que o pessoal j\u00e1 estava\u2026 fundador da escola normal j\u00e1 estava morto, n\u00e9? Um que foi um diretor, que era contempor\u00e2neo de An\u00edsio Teixeira, eu acho que ele era dois ou tr\u00eas anos mais novo do que An\u00edsio, de l\u00e1 de que l\u00e1 de Caetit\u00e9, e o sobrinho dele foi professor daqui, Menandro Ramos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: Continua [Ione] Continua, Menandro?<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: \u00c9, o tio de Menandro, doutor P\u00e9ricles, que era pediatra e que foi convidado por An\u00edsio, quando An\u00edsio voltou na redemocratiza\u00e7\u00e3o para ser diretor da escola normal, para ser professor l\u00e1 e diretor. Ele me deu entrevista, eu acho que eu vou at\u00e9 mandar essa entrevista para voc\u00eas, transcrita, viu? Acho que ainda tenho, que a fita \u00e9 assim, a fita \u00e9 as cassetes, se voc\u00eas conseguirem recuperar, beleza. E a outra, que foi a professora Josenita Neri, que \u00e9 uma figura l\u00e1 de Feira de Santana, ela faleceu tamb\u00e9m, me recebeu na casa, e ela tinha muito orgulho de dizer que ela foi a primeira mulher diretora, ela tinha essa consci\u00eancia, no final, na d\u00e9cada de 70, que ela tinha sido a primeira mulher, foi a que fez a comemora\u00e7\u00e3o dos 50 anos de funda\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o ela foi diretora em 75, 76, 77, era professora normalista, tinha feito aqueles cursos, logos, aquelas coisas todas, e tinha se especializado em psicologia educacional. Ent\u00e3o ela n\u00e3o era psic\u00f3loga, n\u00e3o era pedagoga, era professora normalista prim\u00e1ria, mas tinha feito aqueles cursos que eram dados para o interior para formar quadros, porque quem tinha o n\u00edvel superior, naquela \u00e9poca, n\u00e3o queria ir pro interior, nem para Feira n\u00e3o queria. Ent\u00e3o, ela tinha essa\u2026 E a\u00ed, um dia, ela me disse, n\u00e9, a gente d\u00e1 entrevista, eu acho que fiz duas ou tr\u00eas, tr\u00eas ou quatro sess\u00f5es de entrevista com ela, e ela me disse, eu vou lhe falar de uma coisa agora, mas eu n\u00e3o quero que voc\u00ea grave. N\u00e9? Eu que j\u00e1 tinha uma certa verniz de hist\u00f3ria oral l\u00e1 na PUC com o professor, agora sim, a Khoury, n\u00e9, disse ela, tudo bem, antrop\u00f3logo guarda na cabe\u00e7a E a\u00ed ela me disse Desligue o gravador Era aquele gravador que era o da moda Era desse tamanhinho com a fita Desse tamanhinho, eu tinha aquele dali A\u00ed eu desliguei o gravador e ela me disse \u00c9, porque eu quero lhe falar assim Voc\u00ea est\u00e1 vendo essa foto daqui A gente l\u00e1 Tinha isso, tinha aquelas mo\u00e7as Que tinham o cabelo Liso e que implicavam com a gente que tinha o cabelo crespo, o cabelo que alisava. Elas chamavam a gente de navio emplumado, ainda fez assim o gesto do navio emplumado. A coisa, muita gente cortava o cabelo e dava aqueles cachos grandes, ficava assim aquela coisa, voc\u00ea v\u00ea nas fotos, assim aquela coisa armada, bem parecendo as norte-americanas e tal coisa. E ela me falou disso, e ela me deu o nome de mais duas colegas, inclusive de uma fam\u00edlia famosa l\u00e1 de Feira, que \u00e9 uma fam\u00edlia, aquelas fam\u00edlias que tem v\u00e1rios ramos, n\u00e9? E tem os ramos das m\u00faltiplas fam\u00edlias, ent\u00e3o tem essa diferen\u00e7a. E ela me disse, eu e mais n\u00e3o sei quem, n\u00e3o sei quem, que eu n\u00e3o posso dizer o nome, eu s\u00f3 posso dizer o dela, que ela me deu o direito de usar a fala dela. A gente passou, a gente sofria e tal, e tinha outras mo\u00e7as que as m\u00e3es eram\u2026 A\u00ed ela juntou com classe, as m\u00e3es eram lavadeiras, tinha que pedir atestado de pobreza. Quem sempre ainda me disse, quem sempre dava o atestado de pobreza era Padre M\u00e1rio. Quem era Padre M\u00e1rio? M\u00e1rio Baiense Pessoa da Silva, que o pai tamb\u00e9m foi inspetor escolar no in\u00edcio do s\u00e9culo e tal, que foi nomeado, porque a Escola Normal de Feira foi toda aberta com nomea\u00e7\u00f5es. n\u00e3o teve nenhum concurso, as pessoas eram nomeadas e as professoras que j\u00e1 ensinavam l\u00e1 no grupo escolar automaticamente foram transferidas para dar aula no curso inicial, eu agora esqueci o nome, mas \u00e9 o curso inicial, o complementar, que \u00e9 o que faz a liga\u00e7\u00e3o entre o curso prim\u00e1rio e o curso m\u00e9dio, seria o curso profissional, que era da escola. Ent\u00e3o tinha o curso complementar, que era uma esp\u00e9cie de preparat\u00f3rio. Elas foram para o complementar e os que vieram de Salvador foram dar aula no curso normal, em conjunto com alguns l\u00e1 que j\u00e1 tinham renome, principalmente os m\u00e9dicos que foram dar aula de higiene, puricultura, essa coisa toda. O que deu rusgas, eu apresento isso no meu livro, na disserta\u00e7\u00e3o. E ent\u00e3o, M\u00e1rio era padre, foi nomeado como professor de franc\u00eas. Obviamente, pelas liga\u00e7\u00f5es que o pai tinha como inspetor escolar, que famoso se encontra. O pai dele \u00e9 nome de uma rua aqui na Federa\u00e7\u00e3o. Aquela rua do Ceparh. Daqui a pouco a gente lembra.<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: Severo Pessoa?<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: Severo Pessoa. Severo Pessoa. O pai de Padre M\u00e1rio. E ela disse que Padre M\u00e1rio tinha por essa rela\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica nele. foi capel\u00e3o, foi capel\u00e3o do col\u00e9gio Boa Ventura, ele \u00e9 que intermediava a entrada dessas mo\u00e7as mais pobres na escola normal. Eu a\u00ed j\u00e1 voltei para a documenta\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica com outro olho. Se ela me falou isso, deixa eu ver se eu achava. E tinha v\u00e1rios pedidos dele no livro, pedindo para que aceitasse, n\u00e3o sei quem, n\u00e3o sei quem, porque tinha uma cota de alunas, desde o s\u00e9culo XIX, com varia\u00e7\u00f5es, uma cota de alunas para serem aceitas como alunas gratuitas. Isso j\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escola normal l\u00e1 na d\u00e9cada de 70, 1870, por a\u00ed, quando o Francisco Gon\u00e7alves Martins delimitou que s\u00f3 poderiam ser 12 alunas gratuitas na escola normal feminina. Porque a\u00ed a gente tem uma mo\u00e7a que est\u00e1 terminando, est\u00e1 preparando a tese agora, Tiane, e eu converso muito com ela, eu digo, imagine o avalanche de mulheres pedindo matr\u00edcula gratuita na escola normal, porque foi uma explos\u00e3o exatamente na d\u00e9cada de 70, de 1870, a presen\u00e7a feminina. Ent\u00e3o, naquele momento, eu tinha essa discuss\u00e3o. Mas quando eu fui para o doutorado, eu n\u00e3o estava preocupada com isso, Eu estava preocupada com a constitui\u00e7\u00e3o da cultura escolar, sendo at\u00e9 redundante, da escolariza\u00e7\u00e3o baiana no final do s\u00e9culo XIX. S\u00f3 que eu fui pega pelo p\u00e9 com esses tr\u00eas sujeitos, que tinham outros. Mas diante daquela documenta\u00e7\u00e3o, e eu peguei os ma\u00e7os mais robustos, porque \u00e9 vis\u00edvel que os ma\u00e7os v\u00e3o aumentando de tamanho a partir de 1870. documenta. Eles v\u00e3o aumentando de tamanho, em termos de documenta\u00e7\u00e3o, chegam a essa altura. E ali dentro voc\u00ea acha todo tipo de documento. Desde a documenta\u00e7\u00e3o que eu agora estou preocupada em pesquisar, que \u00e9 a documenta\u00e7\u00e3o relativa \u00e0 materialidade escolar, ent\u00e3o s\u00e3o prefeituras, munic\u00edpios, munic\u00edpios que mandam of\u00edcio dizendo que a C\u00e2mara de Vereadores vai se responsabilizar pela constru\u00e7\u00e3o da mob\u00edlia da escola e tal coisa, est\u00e1 muito influenciada por aquela ideia norte-americana dos condados, se, eu j\u00e1 vou dar um spoiler aqui, viu? Dos condados serem respons\u00e1veis at\u00e9 a documenta\u00e7\u00e3o, para voc\u00ea imaginar, \u00e9 uma professora pedindo, um professor avisando que n\u00e3o vai dar aula. Ent\u00e3o, eu escolhi esses tr\u00eas porque eu estava muito interessada em fazer essa liga\u00e7\u00e3o com o contexto da sociedade baiana do final do s\u00e9culo XIX, que era uma quest\u00e3o do abolicionismo tal. Mas \u00e9 uma documenta\u00e7\u00e3o que lhe abre v\u00e1rias coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: Meio que fechando, eu queria lhe pedir para, ent\u00e3o, Nesse momento que a gente vai j\u00e1 celebrando os 200 anos da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, quais seriam as grandes quest\u00f5es que poderiam estar presentes para a gente olhar esses 200 anos?<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: Eu acho que o que nos falta hoje \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima com a pol\u00edtica baiana. A pol\u00edtica como? Quem eram esses diretores de instru\u00e7\u00e3o? retomar um olhar sobre as reformas, \u00e9 algo que me encanta, me encanta pessoalmente a releitura das reformas de instru\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sobre um olhar do que vinha da Corte, mas das adapta\u00e7\u00f5es que foram feitas aqui. Ent\u00e3o, um sujeito que eu sou profundamente apaixonada, que Antonieta Nunes aqui dizia que era uma peste, \u00e9 o ACM do s\u00e9culo XIX, por isso mesmo que eu gosto, me interessa como \u00e9 que ele era, que \u00e9 o Francisco Gon\u00e7alves Martins, que era um escravocrata, senhor de engenhos, foi presidente da prov\u00edncia acho que duas ou tr\u00eas vezes, foi senador do imp\u00e9rio, e que a gente tem pouca coisa sobre ele. O \u00fanico texto espec\u00edfico sobre ele que tem agora \u00e9 um cap\u00edtulo do livro Os Ganhadores, do professor Jo\u00e3o Reis, que d\u00e1 umas pinceladas sobre ele. mas que foi o homem que fez a reforma da instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica de 1870, retomar a reforma de 60 do Jo\u00e3o Barbosa de Oliveira, e a\u00ed sim fazer uma leitura compartilhada com o que Antonieta Nunes fez, mas n\u00e3o apenas de comparar uma reforma com a outra, acho que ainda \u00e9 mais dif\u00edcil ainda, um reforma as proposi\u00e7\u00f5es, se S\u00e1tiro fez a mesma coisa que a reforma Buc\u00e3o, que ela chama de reforma Buc\u00e3o, mas que n\u00e3o \u00e9 de Buc\u00e3o, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, aquela reforma voc\u00ea lendo ela \u00e9 como dizer assim gestada pelos dois diretores de instru\u00e7\u00e3o que foram padres, que tem alguma coisa escrita aqui, \u00e9 veja o que \u00e9 a vida a escola onde eu estudei Em\u00edlio Lobo, onde minha m\u00e3e foi lotada, \u00e9 o nome do primeiro padre, que \u00e9 o padre Em\u00edlio Lobo. O dia que eu li, eu disse que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. E o padre Romualdo Maria de Seixas Barroso. Voc\u00ea v\u00ea ali a m\u00e3o, a transi\u00e7\u00e3o entre eles dois. N\u00e3o por acaso, dois padres, dois \u00fanicos padres, que o Luiz Anselmo da Fonseca, o Em\u00edlio, ele nem chama muita aten\u00e7\u00e3o, mas o Romualdo \u00e9 o que ele disse que foi o \u00fanico que foi abolicionista. fazia e escreveu serm\u00f5es, vendia esses serm\u00f5es estou chamando ele de santo mas assim, como sujeito ent\u00e3o acho que essa imbrica\u00e7\u00e3o entre a hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o a cultura escolar no sentido dos artefatos da escola das pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas como a Rejane que est\u00e1 aqui agora pesquisando l\u00e1 na Casa Pia de S\u00e3o Joaquim ela tem um documento maravilhoso de um professor dizendo como \u00e9 que ele estava dando aula, eu digo a ela: criatura, voc\u00ea tem que explorar isso, n\u00e9, porque \u00e9 um dos poucos registros que a gente tem diretamente do punho do professor, ela \u00e9 orientanda sua?<\/p>\n\n\n\n<p>Kelly: \u00e9 de Carol.<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: Ela tem esse documento, n\u00e9, que ela apresentou no mestrado, e que eu digo, voc\u00ea tem que explorar mais isso, porque ele diz assim, \u00f3, eu t\u00f4 fazendo isso, isso, isso, eu t\u00f4 fazendo aquilo, aquilo, outro, ent\u00e3o \u00e9 uma pr\u00e1tica educativa em funcionamento, que \u00e9 a mesma coisa que uma menina que fez na disserta\u00e7\u00e3o dela do mestrado no PGEDUC que \u00e9 da UNEB, C\u00e2ndida e que eu me lembro quando eu fui para a banca, ela queria fazer uma trajet\u00f3ria de Cissinato Franca, eu disse a ela, mas voc\u00ea vai voltar a reescrever escrever, apresentar coisas que est\u00e3o, espa\u00e7o que eu fiz, que o Jac\u00f3 fez, que o Walter falou, quando voc\u00ea est\u00e1 com a documenta\u00e7\u00e3o do grupo escolar Rio Branco, o primeiro grupo escolar na cidade de Salvador em que ele vai dizendo, ele era professor, mas era encarregado, n\u00e3o existia o cargo de diretor, e eu vou dizer, vou fazer isso, tal professor vai fazer aquilo. Ele inventou o cargo de diretor na pr\u00e1tica. E se voc\u00eas s\u00e3o oriundas da pedagogia, no caso de C\u00e2ndida, e est\u00e1 interessada na pr\u00e1tica, eu acho que a pr\u00e1tica est\u00e1 aqui na sua m\u00e3o. Ent\u00e3o, para mim, hoje, nos 200 anos, o que me interessaria muito era ver isso. essa constitui\u00e7\u00e3o dessa escola, como o Beto disse, se na escola prim\u00e1ria republicana isso j\u00e1 \u00e9 mais vis\u00edvel pelo trabalho das colegas, volto a dizer Concei\u00e7\u00e3o e o pessoal todo que vem depois, L\u00facia Franca, que tamb\u00e9m tem sobre aqui a coisa, para o s\u00e9culo XIX eu gostaria muito de ver isso, esse entrela\u00e7amento entre o contexto da sociedade baiana, como eu consegui explicitar um pouco em rela\u00e7\u00e3o a essa figura tenebrosa, amea\u00e7adora, que era a crian\u00e7a nascida livre, que era uma coisa esquisita, uma anomalia, como eles mesmos colocam, e esses sujeitos pol\u00edticos. E como eu digo, eu fecho a minha tese, eu digo isso. Naquele momento eu estava meio rom\u00e2ntica, hoje eu estou mais pr\u00e1tica, Mas naquele momento eu deixei no livro exatamente para marcar aquele entusiasmo que eu tive. Daquelas m\u00e3es que brigavam para botar o filho na escola. Onde \u00e9 que a gente imaginar que uma m\u00e3e, uma mulher de cor, ia brigar com o professor, bater boca com o professor para que o filho dela fosse para a escola? Ela botou o professor na gazeta. \u00c9 como se voc\u00ea fosse hoje para o Instagram dizer, \u00f3, o professor tal n\u00e3o deixou meu filho ir pra aula, o que \u00e9 que eu fa\u00e7o com ele? Ela botou ele na Gazeta, na Gazeta de Maragojipe, veio parar na m\u00e3o do diretor de instru\u00e7\u00e3o. Cad\u00ea o livro? Pega ali, cad\u00ea? Quando eu fui fazer o livro, n\u00e9, eu tive o apoio de uma profissional muito competente, muito sens\u00edvel de l\u00e1 da UEFS, a Jacinete que era a profissional daqui, n\u00e9, como \u00e9 que chama? Design, n\u00e9? Gr\u00e1fica. E a\u00ed eu tinha mandado pra ela, me disse, manda algumas fotos de algumas coisas. A\u00ed eu tinha mandado pra ela essa foto daqui, que eu peguei nesse processo do professor respondendo, porque \u00e9 que ele botou o rapazinho, j\u00e1 tinha 14, 15 anos, pra fora, da sala dele l\u00e1 em S\u00e3o Felipe, no Rec\u00f4ncavo. A\u00ed ele bota, que o menino ficava desenhando, tinha figurinha de soldado, ficava bagun\u00e7ando, batia nos colegas, fazia desordem, n\u00e9? E ele botou o rapaz para fora e a m\u00e3e foi brigar porque ela queria o filho dela na escola. E a\u00ed, quando a gente foi, ela me disse, vem c\u00e1, porque teve v\u00e1rias figuras que a gente prop\u00f4s. Ela disse, por que voc\u00ea n\u00e3o pega isso aqui, que \u00e9 isso aqui, e bota? Eu disse, Jaci, p\u00f4, voc\u00ea conseguiu captar, n\u00e9? Porque tem v\u00e1rios sujeitos, mas o principal sujeito \u00e9 essa crian\u00e7a que vai para a escola. Ou que n\u00e3o quisesse, mas a m\u00e3e dele queria que ele fosse. Eu acredito at\u00e9 que ele n\u00e3o queria, mas a m\u00e3e dele queria porque ela vislumbrava o que era aprender a ler e escrever, a gente tem aquele livro mais cl\u00e1ssico do Jos\u00e9 Ant\u00f4nio de Almeida Jos\u00e9 Ant\u00f4nio de Almeida, aquele A Instru\u00e7\u00e3o no Imp\u00e9rio do Jos\u00e9 Ant\u00f4nio de Almeida, em que ele disse, foi um livro que me impactou muito que \u00e9 uma fonte, mais do que um livro \u00e9 uma fonte, \u00e9 que ele disse que os estrangeirinhos, o termo que ele diz assim dos portuguesinhos, chegavam e em seis meses j\u00e1 sabiam fazer conta e o rudimento da escrita. E por que os alunos nas escolas levavam tr\u00eas, quatro, cinco anos para aprender a ler? E a\u00ed vem toda a quest\u00e3o da pr\u00e1tica pedag\u00f3gica, que era aquele m\u00e9todo primeiro m\u00fatuo, depois aquela coisa de\u2026 aquilo tudo. Isso me chamou muito a aten\u00e7\u00e3o, porque um tipo de of\u00edcio que eu gosto muito \u00e9 dos pais, os professores dizendo que os pais, os alunos mal aprendem o rudimento da escrita e da leitura, da contabilidade, que \u00e9 ler, escrever e contar. Eles tiram os filhos da escola para botar no com\u00e9rcio. E a\u00ed eu ficava pensando, mas trabalhar no com\u00e9rcio versus trabalhar na ro\u00e7a, Trabalhar no com\u00e9rcio versus trabalhar nas casas como copeiro e cacheiro era um patamar acima, n\u00e9? E quando eu encontrei, s\u00f3 vou pedir mais cinco minutos para contar esse caso, quando eu encontrei a lista desse Cincinato Franca, me lembro que foi uma quinta-feira, a gente estava em uma maresia, a\u00ed o mar\u00e7o de 88, j\u00e1 no final do per\u00edodo, n\u00e9? E eu estava com o rapaz que era meu assistente de pesquisa, que era um aluno da Cat\u00f3lica, hoje \u00e9 professor da UNEB, \u00c9 o mais novo pleno, mais novo, porque \u00e9 o mais novo mesmo, tem s\u00f3 40\u2026 Foi pleno aos 40 anos, que \u00e9 Francisco Cancela. E eu estava com o Francisco no arquivo, e a\u00ed de repente eu achei uma lista, n\u00e9? Uma lista de um professor dizendo que ali os alunos eram aqueles que tinham sa\u00eddo da escurid\u00e3o no ano anterior. A\u00ed a gente foi procurar o of\u00edcio do homem, s\u00f3 achou os outros of\u00edcios, que era a Escola Noturna de Cachoeira, que hoje \u00e9 famosa. Quando a gente achou a Escola Noturna de Cachoeira, a\u00ed ele fazia o qu\u00ea? Discriminava um a um cada aluno com as profiss\u00f5es. Tanueiro, n\u00e3o sei o qu\u00ea, pedreiro, copeiro, e alguns que j\u00e1 estavam na modernidade da \u00e9poca, que j\u00e1 era trabalhador da estrada de ferro. Ent\u00e3o \u00e9 outra coisa que eu acho, essa rela\u00e7\u00e3o entre essa escolariza\u00e7\u00e3o e os usos que a popula\u00e7\u00e3o pobre fez, n\u00e3o estou dizendo que todo mundo foi para a escola, que todo negro conseguiu entrar na escola, foi uma coisa dif\u00edcil, continua sendo e foi. As meninas eram tiradas da escola mais cedo, eu at\u00e9 hoje n\u00e3o encontrei nos mapas de escolariza\u00e7\u00e3o da d\u00e9cada de 70, nenhuma menina classificada como crioula, nem como preta, eu encontro parda, ent\u00e3o eu me pergunto, e as pretas e crioulas e cabras, que eram as categorias de cores de pele mais escura, onde \u00e9 que estavam? O que \u00e9 que eu estou chamando de parda? Porque tamb\u00e9m tem professores das aldeias ind\u00edgenas que diziam que os alunos dele, ele estava classificando de parda, mas ele sabia que era mameluca, ent\u00e3o entra todo esse rolo. Mas assim, s\u00e3o quest\u00f5es que eu acho que a gente deve retomar, mas principalmente essa articula\u00e7\u00e3o entre quem estava em cima, que estava legislando, e quem estava embaixo, no r\u00e9s do ch\u00e3o, tentando se utilizar daqueles poucos anos que podia manter um filho na escola, uma filha, porque muita menina tamb\u00e9m nas escolas, o que eles fizeram com isso? Porque \u00e9 esse pessoal que, Thales de Azevedo encontrou na d\u00e9cada de 50, nas pesquisas dele, desde a d\u00e9cada de 30, que ele escreve e lan\u00e7a na d\u00e9cada de 50, sobre o que ele chama de uma classe m\u00e9dia baiana, formada por pessoas de cor, que trabalhavam nos escrit\u00f3rios, nos escrit\u00f3rios de navega\u00e7\u00e3o, no servi\u00e7o p\u00fablico, m\u00e9dicos, professoras prim\u00e1rias, oficiais de baixa patente da pol\u00edcia. S\u00e3o essas pessoas que v\u00eam do s\u00e9culo XIX, como a professora Adriana Reis, minha querida colega da UEFS Lembra? Os libertos estavam no foco desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, final do s\u00e9culo XVIII e in\u00edcio do s\u00e9culo XIX. E a gente encontra, a pesquisa do pessoal de escravid\u00e3o, o quanto o n\u00famero de libertos aqui na Bahia, em S\u00e3o Paulo, que a S\u00falia pesquisou, em Minas Gerais, que o querido Marcos tamb\u00e9m pesquisou, a Alessandra no Rio de Janeiro e a Marileia l\u00e1 no Maranh\u00e3o. e a gente vai subindo o Itamar em Pernambuco, todo esse pessoal encontrou, pessoal de l\u00e1 ligado a Paulo Roberto l\u00e1 no sul \u00e9 a Gisele com os orientandos dela no Paran\u00e1 todo esse pessoal lembrando isso essa articula\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o acho que um pouco mais de articula\u00e7\u00e3o com as outras \u00e1reas, n\u00e3o deixar a hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o separada tanto quando algum pessoal diz assim voc\u00ea estuda educa\u00e7\u00e3o? N\u00e3o n\u00e3o, n\u00e3o, estudo hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o eu respeito os estudos em educa\u00e7\u00e3o no tempo presente, mas eu fa\u00e7o hist\u00f3ria, porque a minha forma\u00e7\u00e3o \u00e9 de hist\u00f3ria eu sou historiadora ent\u00e3o eu articulo com a hist\u00f3ria, como eu poderia ter estudado movimentos sociais qualquer outra coisa, eu preferiria estudar a hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o por essa trajet\u00f3ria de fam\u00edlia a incid\u00eancia mas assim eu n\u00e3o gosto quando colocam a hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o como uma coisa estranha. N\u00e3o, \u00e9 tanta hist\u00f3ria como qualquer outra. Ningu\u00e9m diz a algu\u00e9m que estuda movimento social que isso \u00e9 de pol\u00edtica. N\u00e3o. Isso \u00e9 da hist\u00f3ria. Ent\u00e3o, por que a hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o vai para o lado de c\u00e1? Ela est\u00e1 aqui no meio mesmo, incomodando muita gente. E a gente gosta de incomodar. Eu gosto de incomodar. Voc\u00eas viram, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: Muit\u00edssimo, obrigado. Filha da professora Didi.<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: A filha da professora Didi. Ela agora ela estaria fazendo 95 anos n\u00e9, agora<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: seria uma \u00f3tima entrevistada tamb\u00e9m<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: e eu estou doando meus livros para o CEAS e l\u00e1 n\u00f3s j\u00e1 come\u00e7amos j\u00e1 tem uma, a cole\u00e7\u00e3o \u00e9 o nome dela<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: que coisa boa<\/p>\n\n\n\n<p>Ione Souza: eu botei no status do s\u00f3 tem o whatsapp e a\u00ed meu irm\u00e3o do meio, que \u00e9 muito calado o canceriano ele a\u00ed disse, onde \u00e9 que est\u00e1 isso? eu disse, l\u00e1 no CEAS a\u00ed ele botou, parab\u00e9ns porque ele \u00e9 o mais calado mas era o mais ligado a ela era o amor da vida dela e a\u00ed a gente fez isso<\/p>\n\n\n\n<p>Nelson Pretto: muito bom<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[In\u00edcio da Entrevista] (M\u00fasica instrumental) Ione Souza: Eu sou Ione Celeste Jesus de Sousa, sou nascida em Salvador, em uma noite muito fria desse m\u00eas de julho, a \u00faltima noite do m\u00eas de julho, em 1963. Sou filha de uma professora prim\u00e1ria, formada pelo Instituto Normal da Bahia, e acho que desde que eu me conhe\u00e7o, eu me lembro dentro de uma escola, de uma sala de aula, porque eu acompanhava minha m\u00e3e em quase todas as atividades. Eu era mais velha, depois vieram naquela famosa escadinha de antigamente, que era um filho a cada ano, ent\u00e3o um em junho, outro em julho e outro em agosto. E eu tinha um irm\u00e3o pequeno que era um pouco mimado e n\u00e3o podia deixar eu e ele junto dentro de casa porque um tocava fogo no outro, ent\u00e3o eu acompanhava muito minha m\u00e3e nessas coisas. E volto a dizer, sempre me lembro de estar em algum lugar referente \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estou querendo ser assim meio tautol\u00f3gica, mas \u00e9 porque as minhas lembran\u00e7as realmente est\u00e3o quase todas referentes \u00e0 sala de aula, \u00e0 atividade de minha m\u00e3e. Outro dia eu estava conversando com uma amiga e ela \u00e9 assim muito ansiosa, est\u00e1 no doutorado e muito agoniada e a gente conversando com outra pessoa, eu disse a ela, mas tal pessoa \u00e9 filha \u00fanica de professora, isso eu entendo. Voc\u00ea \u00e9 realmente cobrado o tempo todo dentro da sua pr\u00f3pria casa. Ent\u00e3o as brincadeiras, al\u00e9m das brincadeiras comuns de menina da minha \u00e9poca, que era brincar de boneca, brincar de casinha, aquela coisa toda, era muito focado em voc\u00ea brincar com coisas de escola. Hoje, passados todos esses anos, eu vejo que isso incidiu de forma muito forte nas minhas escolhas depois, referente \u00e0s minhas coleguinhas, \u00e0s primas, a essas coisas todas. Mas naquela \u00e9poca j\u00e1 tinha isso e tinha uma coisa mais interessante. Como muitas das professoras da \u00e9poca dela, minha m\u00e3e formou em 1957, j\u00e1 um pouco madura, porque n\u00e3o estudou durante a fase de 13 a 14 anos, por quest\u00f5es de fam\u00edlia, ela trabalhava em casa. Ent\u00e3o ela fez concurso para o Estado, foi trabalhar \u00e0 noite, no que hoje a gente consideraria um EJA, mas na \u00e9poca n\u00e3o era EJA, n\u00e3o tinha esse nome, n\u00e3o existia nada disso, era a educa\u00e7\u00e3o de adultos, e durante o dia ela ficava em casa. E a\u00ed foi engra\u00e7ado, um dia que ela foi dar uma entrevista a uma aluna minha de Feira de Santana, quando eu j\u00e1 estava l\u00e1, ent\u00e3o j\u00e1 bem mais velha, e ela falando, a mo\u00e7a foi me levar o que foi gravado e tal, e a\u00ed eu n\u00e3o sabia se eu ria ou se eu chorava, porque ela dizendo que quando a menina dela fez 6 para 7 anos, ela a\u00ed fez um outro concurso, que foi para a prefeitura. E que a menina ficou muito zangada, porque ela ia trabalhar durante o dia, arrumou uma trouxa e disse que ia embora para S\u00e3o Paulo. E eu li muito, porque eu me lembrava desse epis\u00f3dio, n\u00e9? De eu zangada, arrumando minhas coisinhas l\u00e1, vou-me embora, n\u00e3o quero mais morar nessa casa, n\u00e3o gosto mais de voc\u00ea, essas coisas que existem. Nelson Pretto: Como \u00e9 o nome de sua m\u00e3e? Ione Souza: Minha m\u00e3e \u00e9 professora Iraildes Ribeiro de Jesus. Nelson Pretto: E voc\u00ea lembra onde \u00e9 que ela ensinava? Ione Souza: Ela ensinava\u2026 fora de casa. A gente morava no Largo do Tanque. N\u00f3s sempre moramos ali naquela regi\u00e3o da Liberdade, Largo do Tanque, S\u00e3o Caetano, aquele entorno dali. Quando eu nasci mesmo, n\u00e3o v\u00e3o dar risada, mas eu nasci dentro do Curuzu. Mas com tr\u00eas meses de idade eu fui morar no Largo do Tanque, mais perto da irm\u00e3 mais velha, a \u00fanica irm\u00e3 que ela tinha, parte de m\u00e3e, como se chama, n\u00e9? porque nas fam\u00edlias, n\u00e3o sei se voc\u00eas\u2026 \u00c9 muita coisa de\u2026 \u00c9 do casal, \u00e9 da m\u00e3e, \u00e9 do pai. Ent\u00e3o, ela tinha irm\u00e3s por parte de m\u00e3e. E n\u00f3s fomos morar no Largo do Tanque, voltando, porque tamb\u00e9m era muito perto da escola onde ela ensinava, que \u00e9 uma escola que a estupidez da gest\u00e3o municipal acabou de destruir. E tem uma outra que est\u00e1 a pouco de ser tamb\u00e9m destru\u00edda, a edifica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a escola Em\u00edlio Lopes Freiro e Lobo, que ficava na subida de S\u00e3o Caetano, quem vai ali no Largo do Tanque, e tem uma que fica no Largo do Largo do Tanque, bem no Largo mesmo, subindo S\u00e3o Louren\u00e7o, que \u00e9 a Manuel Florencio dos Santos. S\u00e3o duas escolas bem interessantes, porque eram casas. Uma era, porque acabou de ser destru\u00edda, tem uns dois ou tr\u00eas anos, e a outra, a \u00faltima vez que eu passei por l\u00e1, tem uns tr\u00eas meses, ainda estava em p\u00e9. aluga-se ou vende-se e tal. \u00c9 uma casa mesmo de moradia com aquele alpendre, com aquela coisa toda, que eram adaptadas para ser escola. Ent\u00e3o, minha m\u00e3e trabalhou o maior parte da vida dela naquela escola, pelo Estado, \u00e0 noite. E depois ela passou a trabalhar na prefeitura, eu devia ter uns sete, oito anos, num lugar que chama Alto do Peru, que \u00e9 l\u00e1 tamb\u00e9m entre a Fazenda Grande e o Largo do Tanque. Ent\u00e3o a vida da gente foi muito ali pr\u00f3xima. Nelson Pretto: E como era essa vida ali? J\u00e1 tinha o picol\u00e9 capelinha? Ione Souza: Tinha picol\u00e9 capelinha, tinha o cine S\u00e3o Caetano, que era onde a gente ia para o cinema. Eu me lembro da primeira mem\u00f3ria que eu tenho de cinema, eu devia ter uns quatro anos e fiquei muito traumatizada, porque fui assistir aquele filme dos Meios Mandamentos de Mois\u00e9s com o Charleston Heston, hoje eu sei quem \u00e9 o Charleston Heston, na \u00e9poca eu n\u00e3o sabia quem era, era algum ator. 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