{"id":136,"date":"2020-10-06T15:07:19","date_gmt":"2020-10-06T15:07:19","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.ufba.br\/memoriaeducacaobahia\/?page_id=136"},"modified":"2025-02-11T22:30:35","modified_gmt":"2025-02-12T01:30:35","slug":"iracy-picanco-transcricao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/iracy-picanco-transcricao\/","title":{"rendered":"Iracy Pican\u00e7o &#8211; transcri\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Gravado nos est\u00fadios do \u00c9duCANAL \u2013 Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFBA, em 21 de outubro de 2010<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Camila Calazans \u2013 Bom, professora. sabemos que em 1958 o papel da mulher na sociedade era voltado para vida do lar. Ainda assim, a senhora passou a lecionar. Que tabus e dificuldades enfrentou? A profiss\u00e3o j\u00e1 era tradicionalmente feminina na \u00e9poca? Como era a educa\u00e7\u00e3o daquele per\u00edodo? O profissional era valorizado ou n\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Iracy Pican\u00e7o: &#8211; Bom, precisa a gente voltar algumas coisas n\u00e9? Na verdade, mesmo no Brasil com todos os seus atrasos do ponto de vista da vida da mulher mas, a profiss\u00e3o de professora, sobretudo professora prim\u00e1ria era uma fun\u00e7\u00e3o feminina. N\u00e3o era tia, n\u00e9? De mais adiante. Mas era a professora, que era uma figura que ocupava inclusive um espa\u00e7o social, era uma marca \u2018A professora\u2019, nos munic\u00edpios menores ent\u00e3o! Mas era dominantemente a profiss\u00e3o feminina, quase que \u00fanica, ent\u00e3o, o destino das meninas, se queriam progredir, e pensar na vida profissional ela fazia em geral no n\u00edvel m\u00e9dio o curso normal. E muitas faziam isso \u2018pra\u2019 melhor criar seus filhos, porque teria melhores condi\u00e7\u00f5es \u2018pra\u2019 fazer isso. No meu caso em particular tem certas diferen\u00e7as. Primeiro que, eu n\u00e3o era uma menina de classe m\u00e9dia, eu era uma menina filha das camadas prolet\u00e1rias, o meu pai foi um comerciante, mas depois as coisas deram \u2018pra\u2019 tr\u00e1s e ele com quatro filhos \u00e0s v\u00e9speras de um quinto, ele tinha que sustentar e foi ser cobrador de bonde, que era o grande instrumento de transporte na cidade, nas cidades brasileiras todas. Aqui em Salvador era a companhia Linha Circular que na verdade era subsidiada da Light, um monop\u00f3lio quase que internacional &#8211; americano &#8211; de transportes urbanos e a\u00ed, meu pai se transforma num trabalhador mais simples que foi, na condi\u00e7\u00e3o, de comerciante que foi, pra criar os filhos. E minha m\u00e3e&#8230; ele teve muito pouca escolaridade, filho do interior aqui pr\u00f3ximo, mas naquela \u00e9poca Mata de S\u00e3o Jo\u00e3o era distante\u2026 hoje \u00e9 ali, Praia do Forte! \u00c9, mas ele era de um distrito de Mata de S\u00e3o Jo\u00e3o, \u00e1rea rural t\u00edpica de l\u00e1, que ele vem e os irm\u00e3os. Minha m\u00e3e j\u00e1 era urbana, pouca escolaridade tamb\u00e9m, mas, oriunda de uma fam\u00edlia de uma forma\u00e7\u00e3o intelectual mais forte, meu av\u00f4 era chefe de trem, tamb\u00e9m, mas era um intelectual por autoforma\u00e7\u00e3o, lia muito, e isso foi muito forte na minha forma\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de tudo ele era espirita, e ex-presidente da Uni\u00e3o Esp\u00edrita Bahia que era mais intelectualizada, sempre foi n\u00e9, nesse \u00e2mbito do espiritismo, e tinha uma biblioteca e sempre depositou em mim e em um irm\u00e3o meu os tipos dos projetos intelectuais dele, por isso me fez ler muito, ali\u00e1s li muita literatura esp\u00edrita. J\u00e1 sabia mais ou menos como era, o que se passava pela l\u00f3gica da religi\u00e3o t\u00edpica de volta, falece mas depois volta encarnado em outro, e eu mais ou menos come\u00e7ava a ler e j\u00e1 sabia, mas eu gostava de ler e lia. E minha m\u00e3e estudou at\u00e9 mais ou menos o segundo ou terceiro ano prim\u00e1rio mas, teve uma \u00fanica filha mulher e era uma mulher que buscava muito uma ideia de uma independ\u00eancia. Ent\u00e3o, ela me criou dizendo que eu ia ser professora, o que ela n\u00e3o foi e, eu acho que isso me dirigiu a um caminho e eu estudei desde cedo na antiga escola normal, hoje chamada ICEA no momento em que se instalava o primeiro jardim infantil entre n\u00f3s na Bahia, o segundo foi o Baroneira de Sau\u00edpe l\u00e1 em baixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nelson Pretto: &#8211; Que idade voc\u00ea tinha?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Iracy Pican\u00e7o: &#8211; Eu devia ter 4, 5 anos&#8230; eu tenho 71 pode imaginar n\u00e9, risos. E minha m\u00e3e queria a escolaridade dos filhos, ent\u00e3o quando se instalou a escola normal no pr\u00e9dio novo que foi Isa\u00edas Alves quando Secret\u00e1rio que construiu, ele fez a escola anexa que \u00e9 o Get\u00falio Vargas que at\u00e9 hoje tem a\u00ed com ensino fundamental, e o jardim infantil, que era no interior da escola normal mesmo, e a matricula teria que ser feita num determinado momento, que minha m\u00e3e levou a tentar a matricula dos filhos porque a Get\u00falio seria a melhor escola prim\u00e1ria da Bahia pois era ligada a escola normal, mas a vaga era dif\u00edcil tamb\u00e9m de encontrar, ai disseram a ela&#8230; e ela me levou&#8230; Ela disse: \u201cOlha, n\u00f3s n\u00e3o temos a vaga mas, s\u00f3 damos a vaga se a senhora matricular ela no infantil, porque ningu\u00e9m queria matricular\u2026 n\u00e3o era\u2026 um etos, coisa da Educa\u00e7\u00e3o Infantil. As m\u00e3es muito em casa criavam seus filhos, n\u00e3o \u00e9 como hoje que as mulheres precisam da creche porque a mulher t\u00e1 trabalhando, t\u00e1 buscando a sobreviv\u00eancia era bem diferente mesmo nas camadas populares. E o engra\u00e7ado que eu me lembro, um pouco, que ela contava, talvez mais porque ela contasse, e ela disse que olhou assim e disse: &#8211; \u201cMas ela \u00e9 t\u00e3o pequena\u201d; n\u00e3o era \u2018pra\u2019 ir pra escola n\u00e9, a\u00ed elas disseram: &#8211; \u201cMas a vaga, s\u00f3 dou porque t\u00e1 abrindo&#8230;\u201d a\u00ed ela n\u00e3o titubeou ela queria os filhos na Get\u00falio. A\u00ed disse: \u201ct\u00e1, matricule.\u201d Como eu ia, era uma hist\u00f3ria bem complicada, um levava outro levava, porque eu morava l\u00e1 na liberdade mas l\u00e1 no in\u00edcio da Pero Vaz, mas \u00edamos todos ficando. Ent\u00e3o, eu tive a oportunidade de fazer educa\u00e7\u00e3o infantil por isso que acho que ela \u00e9 essencial para o desenvolvimento da escolaridade. Eu fiz! Depois passei \u2018pra\u2019 Get\u00falio e da Get\u00falio fui pro gin\u00e1sio: Duque de Caxias. E, do Duque de Caxias depois eu falo um pouco nele quando eu falar sobre o An\u00edsio, eu vou pra escola normal, caminho natural. Muitos de n\u00f3s l\u00e1 do Duque de Caxias, minha gera\u00e7\u00e3o de gin\u00e1sio, alguns foram tentar o Col\u00e9gio da Bahia que tinha o \u00fanico cientifico ou cl\u00e1ssico aqui, porque n\u00f3s n\u00e3o pensamos em ir para o Viera ou Marista nem Dois de Julho que j\u00e1 existiam, n\u00e3o t\u00ednhamos condi\u00e7\u00f5es disso, eram meninos pobres mas que queriam estudar e alguns foram fazer cientifico, cl\u00e1ssico e outros normal como eu, ai fiz a escola normal e fui professora, n\u00e3o com a perspectiva de cuidar dos meninos, porque isso era das meninas casadoras, da classe media pra cima, era pra sobreviver, porque eu desde os 12 anos sou professora, eu alfabetizei meninos da minha rua, filhos de uma senhora que vendia banana no cesto, eu alfabetizei com 12 anos de idade e ela me pagava acho que era com 5 r\u00e9s o dinheiro da \u00e9poca, nem me lembro bem, mas eu me lembro que era cinco, e eu alfabetizei os dois, n\u00e3o esque\u00e7o nunca os nomes, e acho que a professora mesmo \u00e9 assim, nunca esquece. Quando eu entrei aqui hoje fiz isso: \u201coh! tudo meu aluno\u201d. E ent\u00e3o me bato com L\u00eddia e An\u00edbal muitos anos depois, eu j\u00e1 casada m\u00e3e de filhos, professora da UFBA, saio do meu pr\u00e9dio me bato com um carteiro quase 2 metros de altura, olhei \u2018pra\u2019 cara, parei e disse: \u201cvoc\u00ea se chama An\u00edbal?\u201d Ele disse: \u201c-chamo.\u201d Calad\u00e3o como ele era desde pequenininho. A\u00ed eu disse: \u201cMeu filho voc\u00ea foi meu aluno, eu lhe alfabetizei.\u201d Ele achava aquilo t\u00e3o incr\u00edvel porque ele era t\u00e3o pequenininho mesmo, ele devia ter uns 5, 6 anos e ele olhava&#8230; ela era muito mais livre do que ele. Ele me deu mais trabalho. E eu dizia menino, voc\u00ea foi meu primeiro aluno, que emo\u00e7\u00e3o e ele n\u00e3o tinha emo\u00e7\u00e3o nenhuma, era t\u00e3o engra\u00e7ado (risos) mas eu estava emocionad\u00edssima naquele encontro, ai eu contei a ele e ele me olhava assim balan\u00e7ava a cabe\u00e7a, e ficou aquilo, a\u00ed eu me despedi e fui embora, levei um dia inteiro aqui na faculdade falando sobre isso depois l\u00e1 em casa, minha m\u00e3e vivia comigo e ela dizia: \u201cMe lembro. An\u00edbal. Me lembro!\u201d E eu: \u201cAh, mas ele n\u00e3o teve emo\u00e7\u00e3o nenhuma.\u201d Eu achei muito engra\u00e7ado. Mas desde a\u00ed, isso que a gente aspeia muito, a gente pode dizer a voca\u00e7\u00e3o se desenvolveu, eu fui depois professora substituta de uma tia minha, professora leiga, eu at\u00e9 brinco eu fui professora de tudo, l\u00e1 da alfabetiza\u00e7\u00e3o, diurno, noturno, jovens adultos, meninos, e at\u00e9 a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o eu ensinei como substituta da professora, como professora leiga na escola Abrigo dos Filhos do Povo l\u00e1 na liberdade aquela \u00e9poca era uma escola do pai de Irma Dulce professor da faculdade de odontologia daqui da UFBA, foi at\u00e9 diretor da faculdade de odontologia, Augusto Lopes Pontes. Ele tinha essa escola como filantr\u00f3pica, ele e uma outra pessoa um s\u00f3cio que eu n\u00e3o lembro o nome dele, e esse s\u00f3cio, e ele viviam de verbas p\u00fablicas tanto que a gente levava um ano sem receber dinheiro, quase. Quando eles recebiam o dinheiro, a\u00ed ele pagava a gente. E eu ensinei l\u00e1 at\u00e9 entrar na Faculdade tornei-me professora, e continuei desenvolvendo no plano diurno \u2018pro\u2019 ensino e a noite continuava l\u00e1 at\u00e9 porque tinha muito amor, e a\u00ed tem um outro fato curioso. Na ditadura eu perdi o emprego duas vezes, me botaram pra fora. E na segunda vez, me abrigou porque&#8230; tem a ver com a pergunta da mulher trabalhadora, j\u00e1 m\u00e3e de filho, mulher de engenheiro, e tudo mais, era uma mulher trabalhadora sim. perdi o emprego e procurei Joaci G\u00f3es hoje \u00e9 at\u00e9 muito falado, escreve muitos livros, Joaci foi nosso contempor\u00e2neo da \u00e9poca da Universidade, era um rico do movimento estudantil de esquerda. Procurei e falei oh \u201cme botaram pra fora da CPER\u201d, na \u00e9poca eu trabalhava na Comiss\u00e3o de Planejamento Econ\u00f4mico do Estado, de \u201ce eu quero trabalhar.\u201d E ele: \u201cVenha \u2018pra\u2019 aqui\u201d, ele era dono de 14 empresas inclusive a tribuna da Bahia, e de uma grande construtora que foi do pai dele chamava construtora G\u00f3es, e tinha outra de G\u00f3es co-habita que constru\u00eda casa, naquela \u00e9poca era boom tamb\u00e9m do BNH enfim&#8230; A\u00ed ele vai ficar aqui, vai ser minha assistente, ai eu passei a tomar conta das empresas, ver se a tribuna saia na hora, enfim, fazia de tudo. E ele abriu uma empresa al\u00ed no Bon\u00f4co a Sanave que existe at\u00e9 hoje, vende carro, e hoje \u00e9 da fam\u00edlia de Nilo Coelho mas foi ele quem criou, ai ele voc\u00ea disse: \u201cVoc\u00ea vai \u2018pra\u2019 l\u00e1 tomar conta da organiza\u00e7\u00e3o\u201d, e eu tava gr\u00e1vida nessa \u00e9poca, de um dos meus filhos, e a\u00ed fui \u2018pra\u2019 l\u00e1, e ele brincava, entrava e dizia: \u201cCad\u00ea o homem dessa casa?\u201d O homem era eu, eu botava todo mundo nos eixos, descobria at\u00e9 roubo l\u00e1, fiz de tudo. Um dia n\u00f3s est\u00e1vamos fazendo os tabiques no escrit\u00f3rio, dois marceneiros um botando os tabiques e s\u00f3 me olhando e dando risinhos, eu fiquei intrigada meu Deus, que \u00e9 isso? Barrigudona, sa\u00ed fui \u2018pra\u2019 o diretor administrativo, e disse: &#8211; \u201cSeu Fernando aquele marceneiro s\u00f3 me olhando, s\u00f3 me olhando&#8230;\u201d Ai ele disse: \u201c-Venha trabalhar aqui na minha sala.\u201d Passou. No dia seguinte fui \u2018pra\u2019 minha sala pra trabalhar a\u00ed ele chega: &#8211; \u201cBom dia, Dona Iracy.\u201d e eu: &#8211; \u201cBom dia.\u201d E ele disse: \u201c-Professora, eu sou Luciano. Eu fui seu aluno\u2026\u201d isso me comove muito \u201c&#8230;eu fui seu aluno no abrigo de noite, at\u00e9 hoje minha m\u00e3e fala: &#8211; Gra\u00e7as a professora Iracy. E a\u00ed eu lhe reconheci, mas eu encontro todo dia no \u00f4nibus fulano de tal, que tamb\u00e9m foi seu aluno, n\u00e3o me lembro o nome, eu disse: sabe quem eu encontrei? Professora Iracy, l\u00e1 na Sanave e ele n\u00e3o foi pro trabalho veio comigo pra lhe ver.\u201d Talvez isso seja pra mim minha grande marca de professora. Nunca esqueci, An\u00edbal me disse que n\u00e3o lembra de mim, mas Luciano\u2026 Alfabetizei v\u00e1rios, me lembro de Raimundo, era um menino que trabalhava na feira de S\u00e3o Joaquim, acordava de madrugada, mas de noite o senhor que criava ele, e que explorava tanto o trabalho infantil dele botava ele na escola, vivo ativo, ele s\u00f3 ficava acordado se tivesse batucando, igual a meu neto, tenho um neto que \u00e9 assim, eu chamo ele de Olodum, batendo por tudo, s\u00f3 vive batucando, Raimundo tamb\u00e9m vivia batucando, como um bom baiano, naquela \u00e9poca n\u00e3o era t\u00e3o divulgado, fora disso ele dormia na carteira, e eu n\u00e3o acordava, a\u00ed eu dizia: \u201cMas eu vou acordar? O bichinho acorda de madrugada, eu tenho \u00e9 que levantar outra hora \u2018pra\u2019 ensinar a ele, porque essa \u00e9 imposs\u00edvel.\u201d E deixava Raimundo dormir. S\u00e3o marcas muito de uma mulher que possivelmente pelas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais das quais ela emerge, filha de prolet\u00e1rios, que a profiss\u00e3o n\u00e3o era de uma menina casadora, era menina \u2018pra\u2019 ser uma profissional, o que eu fui desde muito cedo por uma destina\u00e7\u00e3o de minha m\u00e3e: \u201c- Vai ser a professora que eu n\u00e3o fui!\u201d Que era o sonho dela e fui. E tive tamb\u00e9m a sorte de\u2026 desse momento de conclus\u00e3o da minha primeira titula\u00e7\u00e3o, que \u00e9 de professora, n\u00f3s est\u00e1vamos saindo daquela etapa dura da ditadura de Vargas e est\u00e1vamos j\u00e1 naquela recomposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica que o Brasil passou a viver, eu nasci com o come\u00e7o da guerra e tamb\u00e9m no Estado novo que \u00e9 37 e dois anos depois eu nasci, e l\u00e1 em casa tinha uma marca, se dizia assim, que eu nasci com a Guerra come\u00e7ando e meu irm\u00e3o, o \u00faltimo, nasceu a guerra terminando. A gente tinha marcas com a Guerra Mundial, n\u00e9? A segunda guerra mundial. E eu fui naquela \u00e9poca&#8230; 58, e termino acho que em 57, eu fui&#8230; era Balbino, Ant\u00f4nio Balbino o governador da Bahia\u2026 aquilo de interessante&#8230; Se voc\u00eas n\u00e3o sabem o que \u00e9 PSD eu sei um pouco, Nelson talvez, n\u00e9? Eu sou muito amarrada, porque eu acho que mesmo a minha condi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 minha \u201cPorqu\u00ea Iracy&#8230;\u201d n\u00e3o \u00e9 de ningu\u00e9m assim, \u00e9 por conjunturas concretas, econ\u00f4micas, sociais e pol\u00edticas que fazem a gente, n\u00e9? E a Bahia era governada por Balbino que era PSD, n\u00f3s t\u00ednhamos tido um governo muito interessante na Bahia que foi o de Ot\u00e1vio Mangabeira um grande intelectual modernista mas, ante a ditadura de Vargas, ante Estado Novo, foi quando An\u00edsio Teixeira foi secret\u00e1rio da educa\u00e7\u00e3o e Balbino acho que n\u00e3o sucede imediatamente, acho que teve antes o governo de Regis Pacheco depois Balbino, e Balbino&#8230; e aquela \u00e9poca concurso p\u00fablico era uma regularidade, n\u00e3o tinha REDA nem nada dessas coisas que a gente v\u00ea hoje que trata t\u00e3o mal o servi\u00e7o p\u00fablico, apesar de ench\u00ea-lo e ench\u00ea-lo como nesse governo de minist\u00e9rios e minist\u00e9rios e cargos convencionais mas n\u00e3o faz concurso \u2018pra\u2019 professor quando faz tai agora tr\u00eas mil e tantas vagas e n\u00e3o v\u00e3o chamar, desse jeito n\u00e3o! Naquela \u00e9poca n\u00e3o&#8230; frequentemente os concursos para professores existiam, e eu fiz o&#8230; logo depois que terminei, eu fiz concurso \u2018pra\u2019 professor prim\u00e1rio no Estado e a\u00ed tem uma curiosidade tamb\u00e9m que vale a pena gravar, eu era uma menina estudiosinha e fui fazer a prova cheia de impacto de que me sairia muito bem e quando\u2026 o pr\u00f3prio estado dava um curso pra preparar a gente pro concurso e aprova de portugu\u00eas era na base de reda\u00e7\u00e3o oficial mas onde se veria capacidade de reda\u00e7\u00e3o, gram\u00e1tica de saber redigir um texto oficial, e ent\u00e3o caiu na prova assim, fazer um requerimento para licen\u00e7as sem vencimentos. A regra era o seguinte, no cursinho que a gente teve, que licen\u00e7a sem vencimento voc\u00ea n\u00e3o precisa dizer porque, por que voc\u00ea n\u00e3o quer que separe ent\u00e3o voc\u00ea dizia s\u00f3 \u201cquero licen\u00e7a sem vencimento\u201d e dava entrada \u2018pra\u2019 caminhar, e ai eu fiz! Mas, eu dizia \u00e9 t\u00e3o pouco como \u00e9 que v\u00e3o me avaliar s\u00f3 em eu dizendo assim entre 2, 3 linhas? Eu ai fiz um \u201ccalhama\u00e7o\u201d pra mostrar que eu sabia escrever. Eu tive 7,0 na prova me tiraram 3,0 pontos, por isso, n\u00e3o fui 1\u00ba lugar no concurso. Dirlene que foi secret\u00e1ria de educa\u00e7\u00e3o esteve na minha frente e Edileuza Galdeze que foi diretora de Nutri\u00e7\u00e3o em 1\u00ba e eu fui a 3\u00aa porque escrevi demais a\u00ed n\u00e3o era pra escrever tanto e essa \u00e9 uma curiosidade s\u00f3, e fui nomeada ent\u00e3o, n\u00e3o tinha porque, quer dizer aquela pergunta, voltando a sua quest\u00e3o de que \u00e9 despeito daquela \u00e9poca a mulher ser destinada a vida do lar no geral, n\u00e9? Isso valia para uma parte dos seguimentos sociais, ou todos os seguimentos sociais, mas no que concernia o ser professora da escola fundamental hoje, prim\u00e1ria aquela \u00e9poca era uma fun\u00e7\u00e3o da mulher e eu caminhei por essa dire\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m, e nunca me propus, por exemplo, talvez pelo desempenho escolar que eu tinha, gostava de matem\u00e1tica e tal, podia ter feito o cientifico, mas, a dire\u00e7\u00e3o, quem sabe com a orienta\u00e7\u00e3o do sonho da minha m\u00e3e de ser professora, e ela s\u00f3 queria aquilo, prim\u00e1rio, e eu que fui ousando por modo pr\u00f3prio. Ent\u00e3o quer dizer, mesmo num contexto onde a domin\u00e2ncia era mulher n\u00e3o era nenhuma\u2026 dizer&#8230; como \u00e9 que eu diria? De uma caracter\u00edstica minha muito especifica \u00e9 que mesmo naquele contexto se eu quisesse sobreviver com alguma autonomia eu tinha que trabalhar mesmo, n\u00e9? E por isso caminhei \u2018pra\u2019 isso e algumas outras foram tamb\u00e9m, at\u00e9 porque esta fun\u00e7\u00e3o era fun\u00e7\u00e3o feminina na \u00e9poca e como n\u00f3s t\u00ednhamos um pa\u00eds em que o acesso a educa\u00e7\u00e3o era muito restrito, n\u00e3o era muitas que podiam at\u00e9 ocupar esses papeis, n\u00e9? Porque eram muito poucos os que estudavam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ant\u00f4nio Fernando: &#8211; Professora Iracy, a senhora podia nos contar sobre que educadoras a senhora destaca na hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o do Brasil?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Iracy Pican\u00e7o: &#8211; Do Brasil? Que eu estudei? Bom vou falar um pouco, inicialmente daqueles em torno de n\u00f3s e depois at\u00e9 nacionalmente, n\u00e9? E quem sabe at\u00e9 internacionalmente tamb\u00e9m, na minha forma\u00e7\u00e3o por exemplo, eu diria que sem contar as professoras prim\u00e1rias que at\u00e9 hoje me recordo de algumas que foram decisivas&#8230; as irm\u00e3s Leit\u00e3o era uma tradi\u00e7\u00e3o\u2026 era uma fam\u00edlia muito conhecida aqui na Bahia, elas eram tradicionalmente professoras l\u00e1 na escola Get\u00falio Vargas, uma marca, foram muitas de n\u00f3s que passaram por elas, por dona Ebonina, e dona nair, esqueci o nome, eram umas tr\u00eas. Mas na escola normal eu reputo uma professora, uma educadora que que pouco se fala na Bahia, m\u00e3e de uma ex-colega nossa que \u00e9 adorada por voc\u00eas como professora que \u00e9 Dona Ada Daltro Nascimento, ningu\u00e9m fala de Dona Ada, Dona Ada era pra mim\u2026 era professora de psicologia, um exemplo pela leveza de mulher no sentido de n\u00e3o ser amarrada aos padr\u00f5es t\u00edpicos femininos, m\u00e3e de Ana Cristina\u2026 N\u00e3o. Ana Cristina n\u00e3o. Ana Daltro Nascimento, Ana Carolina, brinca que ela anda dizendo que eu sou uma marca pra ela, n\u00e9? E, disse at\u00e9 ao meu filho num encontro agora a\u00ed, que ela teve, ele chegou em casa dizendo: \u201cConhece uma Ana Carolina minha m\u00e3e? Disse que voc\u00ea \u00e9 uma marca pra ela\u201d, A\u00ed eu, diga a ela que \u00e9 a m\u00e3e dela, porque a m\u00e3e dela pra mim era uma exemplo de uma mulher independente de leveza de cabe\u00e7a e eu levei, e posso at\u00e9 ter passado pra Ana, n\u00e9, quase n\u00e3o se fala em Dona Ada, mas realmente tinha uma vis\u00e3o de psicologia muito mais ampla que a \u00e9poca, n\u00e9? A escola normal tinha um dom\u00ednio do pensamento Skineriano na verdade, n\u00e9? As marcas de Isa\u00edas Alves aqui na Bahia, um educador conhecido, famoso dono de uma escola de uma tradi\u00e7\u00e3o, de fam\u00edlia pol\u00edtica, foi secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o se opunha a An\u00edsio Teixeira eraj duas oposi\u00e7\u00f5es claras na Bahia, Isa\u00edas e An\u00edsio. E, Dr. Isa\u00edas tinha a marca na escola normal, mas duas pessoas se distinguiam fugindo daquela marca Skineriana com raiz na pr\u00e1tica pol\u00edtica integralista, n\u00e9? O Dr. Isa\u00edas era ligado ao movimento integralista e Dona Ada n\u00e3o era, ent\u00e3o, eu me voltava muito pra ela porque a achava mais livre daquela vis\u00e3o marcante do comportamento, a quest\u00e3o do comportamento \u00e9 a chave e Raimundo Mata, que foi colega nosso aqui tamb\u00e9m, foi secret\u00e1rio de educa\u00e7\u00e3o, foi outro\u2026 a\u00ed \u00e9 educador, tamb\u00e9m que \u2018pra\u2019 mim, Mata me encantava por isso, pela leveza, pela n\u00e3o submiss\u00e3o \u00e0s regras t\u00e3o claras de como deve ser o professor, ele tinha a forma dele, ele tinha uma biblioteca no carro, depois quando tinha carro, Mata t\u00f4 precisando daquele livro, a\u00ed ele dizia: \u201c\u2018Pera\u00ea\u2019, vamos l\u00e1 no carro ele abria a mala do carro\u201d, ela tava cheia de livro e ele sempre tinha um livro pra te emprestar, um figura not\u00e1vel, ent\u00e3o eu acho que Mata me marcava, esses me marcavam muito, apesar de outros que tamb\u00e9m tiveram esse papel na forma\u00e7\u00e3o, acho que professor em geral, teve naquela conjetura sobretudo, hoje n\u00e3o sei se n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o marcante como era, mas, no passado era mesmo. J\u00e1 na faculdade, aqui na nossa \u00e9poca, eu acho que uma maior figura que eu vi no curso de pedagogia entre n\u00f3s \u00e9 tamb\u00e9m uma pessoa muito pouco falada que eu acho que n\u00f3s devemos ainda uma homenagem \u00e0 ela, que era outra fora dos padr\u00f5es, que mais me interessavam, era Alice Costa, professora de psicologia tamb\u00e9m, nunca ouviu falar, figura not\u00e1vel, tamb\u00e9m assim, me contaram eu n\u00e3o sabia, se eu n\u00e3o me engano foi Mata at\u00e9 que me contou essa hist\u00f3ria, Raimundo Mata, de que ela era filha de uma fam\u00edlia de elite, aqui na Bahia, n\u00e9? Fam\u00edlia de tradi\u00e7\u00e3o. Morava ali no largo da vit\u00f3ria, tinha filhos, mulheres e homens e ela aprendeu l\u00ednguas por exemplo, sozinha, \u00e0quela \u00e9poca, e Dona Alice conseguiu fazer pedagogia na primeira turma que existiu aqui entre n\u00f3s, e depois foi para Fran\u00e7a, quer dizer era uma soltura, estudou na Fran\u00e7a. Eu encontrei certa feita um titular de psicologia na USP, que&#8230; eu concorrendo, eu fiz um concurso na USP, acho que passei por causa de Dona Alice e na entrevista, l\u00e1 na conversa vi eles explorando um pouco minha vida, at\u00e9 porque eu tava l\u00e1 fugindo da ditadura e ousei, abriu um concurso na USP, fui fazer assim mesmo, e queriam saber quem eram os jovens que estavam correndo o pa\u00eds, correndo da ditadura, quem eram. E eu a\u00ed disse a eles que, se quisessem saber mais sobre mim procurassem Alice Costa, porque era uma mulher de uma vis\u00e3o aberta, livre e na UFBA na \u00e9poca n\u00e3o chamavam UFBA chamava Universidade da Bahia com quem eu trabalhei na faculdade, a\u00ed ele disse: \u201c- Alice Costa\u2026 mas voc\u00ea trabalhou com Alice Costa?\u201d A\u00ed eu: \u201c- Sim desde que entrei na faculdade, porque eu era como bolsista \/ monitora naquela \u00e9poca e Dona Alice criou o servi\u00e7o de orienta\u00e7\u00e3o educacional primeiro tamb\u00e9m entre n\u00f3s no col\u00e9gio de aplica\u00e7\u00e3o na UFBA, eu trabalhei com ela toda minha gradua\u00e7\u00e3o, e depois que eu deixei. E ele foi colega dela na Fran\u00e7a era psicologia a \u00e1rea tamb\u00e9m. A\u00ed ele exaltou Dona Alice como aquela mulher independente, livre, porque ela fugia de todo padr\u00e3o feminino, naquela \u00e9poca, imagine na Bahia, ent\u00e3o pra mim Alice foi uma marca na minha forma\u00e7\u00e3o, nesse concurso inclusive. No outro dia eu entrei em comunica\u00e7\u00e3o com minha m\u00e3e, naquela \u00e9poca, acho que nem era telefone, e pedi que procurasse Dona Alice que eu citei ela no concurso, e n\u00e3o seio que l\u00e1, e ela disse: \u201c- N\u00e3o vou! Vou escrever \u2018pra\u2019 ele, ela sabia quem era, \u2018pra\u2019 dizer quem \u00e9 Iracy\u201d E eu passei em primeiro lugar no concurso mas n\u00e3o assumi n\u00e3o, vim me embora que eu n\u00e3o queria morar em S\u00e3o Paulo. (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nelson Pretto: &#8211; Em que ano foi isso? Isso foi p\u00f3s-ditadura?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Iracy Pican\u00e7o: -Isso foi p\u00f3s-ditadura, em 64 foi no ano mesmo, porque em junho mais ou menos eu escapuli pra S\u00e3o Paulo pelas persegui\u00e7\u00f5es aqui, e a\u00ed devia ser \u2018pra\u2019 trabalhar em 65. Ent\u00e3o o ser mulher, e n\u00e3o \u00e9 nenhum ato de\u2026 sei l\u00e1, de&#8230; meu, da mulher que se lan\u00e7a\u2026 nada. Nas conjeturas concretas me fizeram isso pra sobreviver eu precisava ajudar o sustento da fam\u00edlia e o meu. Se eu queria mais eu teria que me lan\u00e7ar mais, e a\u00ed foi, e ser professora naquela \u00e9poca na Bahia e ir \u2018pra\u2019 onde eu fui nomeada era uma coisa muito singular tamb\u00e9m, primeiro que era muito pouco extenso o acesso dos pobres a escola, n\u00e9? Mas existiam algumas escolas voltadas para as camadas prolet\u00e1rias e nos bairros. E eu mesma fui nomeada primeiro \u2018pra\u2019 uma que era em brotas, onde tinha uma igrejinha, mas achei muito longe da liberdade, a\u00ed consegui que Mata, que era secret\u00e1rio de educa\u00e7\u00e3o na \u00e9poca me botassem na hoje chamada&#8230; aquela via que vai do largo do tanque at\u00e9 a r\u00f3tula do abacaxi ali, num \u00e9 barros reis \u00e9&#8230;? Esqueci o nome agora! Depois eu lembro. E era uma escola que era o comum da escola prim\u00e1ria da cidade, isso anos 58, n\u00e9? Era uma casa adaptada que o Estado alugava sem condi\u00e7\u00f5es nenhuma, as salas se comunicavam uma com a outra, n\u00e3o sei o que, mas adaptava-se pra ser uma escola e eu fui professora l\u00e1 por\u2026 talvez assim, uns 2 anos, n\u00e3o sei. Porque depois eu j\u00e1 na faculdade, ent\u00e3o, a secretaria me colocou e a Eliana Reinal que era nossa colega e que foi professora daqui da faculdade tamb\u00e9m, \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da universidade para trabalhar na constru\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, da orienta\u00e7\u00e3o educacional que era algo inovador na Escola baiana com Dona Alice, mas eu fiquei&#8230; Ant\u00f4nio Bahia, que chamava minha escola, e a rua era um nome parecido, eu me lembro depois, hoje tem uma escola substituindo ela que chama Rubens Bario, na San Martins. E ali eu trabalhei ensinando tamb\u00e9m quando aquilo era lama pura, mas eu fiquei conhecida, eu dava aula na sala da frente e quando os meninos pintavam muito nas outras salas, que n\u00e3o era muitas, as professoras botavam pra fora eles tinham que passar pela minha eu dizia: \u201c- N\u00e3o entre aqui.\u201d Porque menino n\u00e3o se botam pra fora da escola se bota pra dentro. E as m\u00e3es me adoravam por isso, porque se n\u00e3o eles iam tomar banho na lama que tinham l\u00e1 fora que ocupavam a rua inteira e ficavam doentes, ent\u00e3o eu n\u00e3o deixava podia ser 4\u00ba, 5\u00ba o que fosse de s\u00e9rie eu falava: \u201c- N\u00e3o, senta aqui!\u201d E eu acho que o castigo era maior do que botar eles pra fora. (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nelson Pretto: E como eram os meninos? Os alunos naquela \u00e9poca comparando com os de hoje?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Iracy Pican\u00e7o: Eu acho que nessa escola inicial, mais ou menos a mesma coisa, eram muito pobres, sem condi\u00e7\u00f5es, agora tinha uma coisa voc\u00ea era imbu\u00eddo professor, talvez quem sabe um idealismo maior e eu me lembro assim eu forrava os cadernos dos meninos e outras faziam tamb\u00e9m, para deixar posturas de organiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sei qu\u00ea, e hoje eu vejo meu neto que tem todas as condi\u00e7\u00f5es de ter um caderno que t\u00e1 chegando o final do ano, o caderno \u00e9 um lixo e eu digo a ele, mas como \u00e9 que voc\u00ea chega na escola? \u201cQue nada minha av\u00f3, t\u00e1 perto de terminar o ano, a\u00ed eu compro outro\u201d, ai eu dizia troque, os meus alunos eu forrava para ficar bonitinho at\u00e9 o fim do ano, o professor nunca deu nele um car\u00e3o para valer de um horror de um caderno daquele, quer dizer mudou muito o padr\u00e3o, ent\u00e3o a escola desenvolvia disciplina um tipo de comportamento e \u00e9 evidente, que eu me lembro, por exemplo, eu nunca esque\u00e7o de um menino que se chamava Valter, que ele tinha uma agressividade reprimida de meter medo, ele machucava os outros sabe? Ele furava o bra\u00e7o do que sentava do lado dele, com o l\u00e1pis. Arhh! Furava, e eu vivia intrigada com aquilo, eu n\u00e3o podia, tinha que dar um jeito&#8230; eu fui um dia atr\u00e1s da casa dele para ver onde \u00e9 que era&#8230; aquele idealismo do profissional da educa\u00e7\u00e3o, quem sabe do passado, n\u00e3o era escola de massa, \u00e9 verdade, mas ent\u00e3o eu fui atr\u00e1s para ver, esse menino morava em condi\u00e7\u00f5es t\u00e3o miser\u00e1veis, em uma casinha de madeira, era uma coisa triste a\u00ed eu dizia assim esse menino deve ser cheio de raiva mesmo, agora desconta nos bichinhos dos colegas e coisa\u2026 ent\u00e3o eu isolei Valter logo a\u00ed ele tinha que sentar na minha carteira porque se n\u00e3o ele machucava aos outros, eu acho que n\u00e3o era seu isso. Professor \u00e0quela \u00e9poca, num contexto muito diferente, tinha um plano do ser professor que eu tenho a impress\u00e3o que nos dias de hoje j\u00e1 n\u00e3o se deixa mais naqueles que terminam a Pedagogia nem o Magist\u00e9rio as condi\u00e7\u00f5es determinantes s\u00e3o outras e eu n\u00e3o diria&#8230; N\u00e3o tenho assim a forma do saudosismo do passado, eu acho que aquilo era a pr\u00e1tica do passado entendeu?, era t\u00edpico daquela conjuntura, daquele contexto o que \u00e9 o professor hoje, eu acho que a gente pode at\u00e9 discutir isso tamb\u00e9m, at\u00e9 porque levei muitos anos aqui formando professores tamb\u00e9m, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Luana Marinho: J\u00e1 que a senhora falou sobre mulheres livres n\u00e3o \u00e9? Que a senhora simpatiza muito com elas, como \u00e9 que a senhora analisa esse movimento feminista?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Iracy Pican\u00e7o: Bom isso \u00e9 um tema interessante, porque por exemplo eu nunca me caracterizei como feminista tenho uma certa talvez n\u00e3o cr\u00edtica, mas tenho uma posi\u00e7\u00e3o que eu acho que um feminismo mais exacerbado que a gente teve no Brasil, n\u00e3o \u00e9 o tempo nem de hoje, n\u00e9? Sob tudo as lideran\u00e7as achavam que o feminismo come\u00e7ou ontem, eu em 1963 fui ao I Congresso Mundial de Mulheres em Moscou eu participei da Delega\u00e7\u00e3o brasileira, \u00e9ramos 42 brasileiras e que compareceram como a Delega\u00e7\u00e3o brasileira para o I Congresso Mundial de Mulheres, foi quando a R\u00fassia naquela disputa na Guerra Fria com os Estados Unidos, a conquista do espa\u00e7o, mandou a primeira mulher ao espa\u00e7o que foi Valentina Tereshkova, eu tive com uma goiana tamb\u00e9m jovem como eu, fomos quem botamos o presente de n\u00f3s brasileira para Valentina Tereshkova que era uma tiara, que era uma forma de ser da luta feminina, mas quando o feminismo se desenvolve nos Estados Unidos primeiro, n\u00f3s copiamos assim, ipsis litteris, tirar os soutiens e n\u00e3o sei que l\u00e1, aquelas coisas todas, a luta da mulher j\u00e1 existia no concreto na pr\u00e1tica at\u00e9 por determin\u00e2ncia das condi\u00e7\u00f5es de vida ou por outras circunst\u00e2ncias e com formas evidentemente diferenciadas, mas n\u00e3o \u00e9 dizer que nasceu nesse momento mais recente ela j\u00e1 existia at\u00e9 porque, por exemplo os partidos comunistas todos tinham uma se\u00e7\u00e3o feminina, n\u00f3s tivemos grandes brasileiras, mulheres em lutas muito importantes no Brasil, n\u00e3o tanto o aborto, n\u00e3o sei qu\u00ea l\u00e1, mas pelo petr\u00f3leo, para que nossos filhos n\u00e3o fossem \u00e0 guerra, como Elisa Branco, como Elisa Tibiri\u00e7\u00e1 que era uma m\u00e9dica que morreu \u2018num\u2019 com\u00edcio pelo petr\u00f3leo, falando em nome das mulheres na luta que n\u00f3s t\u00ednhamos que quando os americanos diziam que n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos petr\u00f3leo e a gente dizia que tinha, n\u00e9? E conquistamos de algum modo, o avan\u00e7o nesse campo e Maria Augusta Tibiri\u00e7\u00e1, uma que talvez delas todas que esteja viva hoje a Clara Charf mulher de Mariguella que est\u00e1 hoje bastante velhinha, e todas faziam parte do movimento feminino em defesa da mulher e etc, mas depois quando nos Estados Unidos explode o movimento feminista l\u00e1, e no mundo inteiro a rigor a gente at\u00e9 copia, at\u00e9 parece que come\u00e7ou outro, mas na verdade esse movimento da mulher \u00e9 um movimento com determina\u00e7\u00f5es claras inclusive por condi\u00e7\u00f5es que parecem avan\u00e7ar na oferta de trabalho uma s\u00e9rie de circunst\u00e2ncias assim que permitem inclusive a mulher deixar a fam\u00edlia e buscar, e ela n\u00e3o \u00e9 atoa porque nessa rela\u00e7\u00e3o homem e mulher o homem sempre achou que era o mais forte, n\u00e9? E era melhor a mulher em casa lavando a roupa dele do que, como minha m\u00e3e fazia, meu pai era cobrador de bonde, mas ia todo engomado, todo arrumado e ela tinha que fazer isso mas eu n\u00e3o faria \u2018pro\u2019 meu porque ela dizia \u201cVai ser professora\u201d e de certa vez pagaria para algu\u00e9m fazer,pelo menos, porque tinha um sal\u00e1rio para fazer isso, ent\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es determinavam isso, eu por exemplo nunca me caracterizei como feminista stricto sensu mas por exemplo \u2018t\u00f4\u2019 na origem do movimento feminino no MDB, dentro das lutas todas que n\u00f3s tivemos aqui na ditadura, na derrota da ditadura, na redemocratiza\u00e7\u00e3o, e eu nunca me achei feminista, nunca foi da minha pr\u00e1tica, mas estava sempre nesse processo entendeu? Porque n\u00e3o sei porque eu tenho impress\u00e3o que talvez n\u00e3o seja nem tanto por ai, porqu\u00ea acho que esses movimentos nascem, crescem, morrem, tem um papel social seguramente, mas a luta da mulher vai ser constante, at\u00e9 porque a gente tem uma caracter\u00edstica que eles n\u00e3o tem, n\u00e9? Os meninos ficam aqui? (aponta para barriga) Ai n\u00e3o tem jeito isso j\u00e1 \u00e9 uma marca enorme que determina para n\u00f3s algumas coisas, mas n\u00e3o \u00e9 isso que a gente tem que mostrar aqui isso n\u00e3o \u00e9 \u00f3bice para nada, n\u00f3s somos t\u00e3o iguais quanto, e podemos ser e eu acho que nesse processo eu poderia dizer que eu participei do feminismo, mas n\u00e3o tanto e acho que ele tem um lugar como tem o movimento gay, como movimento sem terra, sem teto, todos s\u00e3o movimentos que d\u00e3o conta de certas e determinadas conjunturas, e determinados momentos tem seu papel, seu lugar e significado, agora eu particularmente nunca me situei assim, at\u00e9 porque eu gosto muito de trabalhar com os homens, sempre fui assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">D\u00e9bora Nascimento: Professora, continuando falando um pouco sobre o movimento, como \u00e9 que a senhora participou do movimento Estudantil? E como \u00e9 que a senhora v\u00ea o movimento estudantil de ontem, e o movimento estudantil de hoje?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Iracy Pican\u00e7o: Bom, eu tenho um elo com o movimento estudantil desde muito cedo tamb\u00e9m, tamb\u00e9m devido a meu pai, meu pai era um Getulista danado, era\u2026 o sindicato era tudo se voc\u00eas fizerem ideia, s\u00f3 quem n\u00e3o ia ao sindicato era eu, porque n\u00e3o era lugar de mulher, pelo machismo da \u00e9poca, n\u00e9? Mas meus irm\u00e3os, at\u00e9 cortar o cabelo s\u00f3 cortavam no sindicato, o sindicato era ali na Pra\u00e7a da S\u00e9, atr\u00e1s, e a companhia de bonde era na Pra\u00e7a da S\u00e9 ao lado da Cine Excelsior, aquela \u00e9poca e nem sei se tem hoje. Ele era sindicalista, amava o sindicato dele, ali\u00e1s \u00e9 uma marca daquela \u00e9poca, velhinho contava vit\u00f3ria numa greve deles que era me comover a me fazer ir contar para todos os netos saberem, e eles estavam na greve, n\u00e3o negociavam, \u2018os gringos\u2019 como ele dizia, n\u00e3o abriam m\u00e3o para negociar, eles lembraram que a limousine do gringo para ir para empresa, passava pela porta do sindicato, que era ali naquela rua ali atr\u00e1s no Liceu, que tinha o Cine Liceu, o sindicato era ali, ai eles lembraram, ai quando passava a limousine ai eles click (barulho para insinuar que eles pegaram o gringo), na verdade sequestraram o gringo, mas eles diziam que seguraram o gringo e disseram: \u201cS\u00f3 entregamos se negociar.\u201d Ganharam a greve, n\u00e9? Ent\u00e3o ele contava isso com maior orgulho, velhinho e dava risada e eu fazia contar pros netos, ver se continuavam e assumiam a heran\u00e7a n\u00e9? E portanto, desde ai eu vivi isso, quando eu tinha acho que 15 anos, mais ou menos foi quando Get\u00falio se suicidou. Eu estudava no col\u00e9gio Duque de Caxias. No intervalo, atr\u00e1s que tinha a casa do caseiro, que tomava conta, n\u00e9? O vigia da escola. E ele ouviu em um \u2018radinho\u2019 que tinha velhinho l\u00e1, que Get\u00falio se suicidou. Est\u00e1vamos todos jogando, e ele s\u00f3 chamou a mim e disse assim: \u201cGet\u00falio se suicidou. Venha ouvir!\u201d A\u00ed eu fui \u2018pro\u2019 r\u00e1dio com ele, a\u00ed Get\u00falio tinha se suicidado, meu pai era Getulista, ent\u00e3o eu fui para aula de portugu\u00eas em seguida. Professora Nevinha, a\u00ed cheguei na sala, cruzei os bra\u00e7os, atei em prantos, a\u00ed ela veio e me perguntou, professora Nevinha, \u201cO que foi? Por que que voc\u00ea est\u00e1 chorando?\u201d A\u00ed eu disse \u201cGet\u00falio se suicidou!\u201d A\u00ed ela perguntou: \u201cMas o que \u00e9 que voc\u00ea tem com isso?\u201d A\u00ed eu disse \u201cMeu pai disse que Get\u00falio \u00e9 bom para os trabalhadores, e meu pai gosta muito de Get\u00falio e eu tamb\u00e9m.\u201d A\u00ed huuuuu&#8230; (insinuando que come\u00e7ou a chorar de novo). A\u00ed sofri com meu pai a perda de Get\u00falio. E a\u00ed eu j\u00e1 tinha umas liga\u00e7\u00f5ezinhas com o Gr\u00eamio, naquela \u00e9poca n\u00e3o distinguia bem, tinha os Cincur\u00e1, que depois teve um deputado, era uma fam\u00edlia de pol\u00edticos aqui no corredor da vit\u00f3ria, por que n\u00f3s eramos do Duque de Caxias, um anexo do Col\u00e9gio da Bahia hoje, n\u00e9? Que chamava Col\u00e9gio Central. E ent\u00e3o eu j\u00e1 me metia no gr\u00eamio, n\u00e9? Que depois na escola normal eu tamb\u00e9m me metia no gr\u00eamio e tudo com Capinam, Capinam famoso compositor \u00e9 meu primo, aquela pe\u00e7a, ent\u00e3o, n\u00f3s viv\u00edamos, n\u00e9? E tinha tamb\u00e9m um que era de um trio famoso que cantava aqui, trio&#8230; n\u00e3o sei se era o Trio Iractan, era um nome assim, que era aqui da Bahia era Iractan? \u00c9, um deles tamb\u00e9m foi meu contempor\u00e2neo, ent\u00e3o a gente ficava fu\u00e7ando l\u00e1 para ir pro gr\u00eamio botamos Capinam numa chapa e tudo, eu sempre fui iniciada, na universidade meu pai, \u00e0s vezes dizia quando eu chegava tarde demais&#8230; \u201cJ\u00e1 viu mulher metida em pol\u00edtica? Chegar essa hora em casa!\u201d Mas quando ele \u2018tava\u2019 com raiva por causa do sal\u00e1rio ele dizia \u201cIracy \u00e9 que t\u00e1 certa com esse comunismo dela.\u201d Era o contr\u00e1rio, e j\u00e1 na universidade era bem diferente essa UFBA era de mil alunos se voc\u00eas imaginarem pedagogia tinham tr\u00eas, n\u00f3s fomos vinte e sete candidatos e passamos tr\u00eas na turma depois chegou uma outra transferida, mas quando a gente chegava na universidade, a JUC, que era a Juventude Universit\u00e1ria Cat\u00f3lica em geral procurava a gente para ir para a missa, tinha uma missa que eu acho que era s\u00e1bado, eu j\u00e1 nem me lembro direito, uma missa&#8230; eu nunca fui muito de missa, levei um tempo que at\u00e9 fui muito religiosa, ia muito a missa etc e tal, mas na minha fam\u00edlia a orienta\u00e7\u00e3o era esp\u00edrita, meu pai tinha f\u00e9 em Deus mas&#8230; e a\u00ed a JUC puxava a gente que era uma organiza\u00e7\u00e3o, a JUC foi um embri\u00e3o do AP, A\u00e7\u00e3o Popular, e da APLM que foi A\u00e7\u00e3o Popular Lenista Marxista, que Serra foi parte. A origem de Serra \u00e9 parecida com a minha nesse campo, e por isso que eu tenho muita simpatia por ele, pessoal. Mas Serra fez isso tamb\u00e9m eu nunca fui muito da cat\u00f3lica n\u00e3o era a missa do s\u00e1bado, depois vira a grande missa de S\u00e3o Bento, tinha hist\u00f3ria aqui, tinha um lugar, n\u00e9? A Missa de S\u00e3o Bento da juventude j\u00e1 com o tra\u00e7o pol\u00edtico bem mais pr\u00f3ximo, mas a JUC era&#8230; tinha um tipo de organiza\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica mas pol\u00edtica e disputava a rigor, ainda bastante conservador, mas disputava com o N\u00facleo da Juventude Comunista, ligada ao partido comunista brasileiro e eu na universidade entre a JUC e o PC, eu simpatizei mais com o PC e fui pra l\u00e1 e participei ativamente de um movimento estudantil, ativamente mesmo, e fui parte dele. O \u00faltimo congresso da UNE que eu participei eu fui secret\u00e1ria de organiza\u00e7\u00e3o do congresso e participei de momentos muito importantes na universidade \u00e0quela \u00e9poca, n\u00e9? Por exemplo, a greve contra o reitor Edgar Santos, que depois tive um pux\u00e3o de orelha de An\u00edsio Teixeira sobre isso, contra o doutor Edgar, n\u00f3s levamos seis meses de greve por que ele era o reitor a quinze anos na UFBA, foi quem fundou a UFBA, n\u00e9? Quinze anos de reitor era de mais, tinha aqui, tinha no Cear\u00e1 e tinha no Rio de Janeiro. Meu marido tamb\u00e9m participou da de l\u00e1 para tirar Pedro Calmon que era estudante de engenharia l\u00e1, s\u00f3 vim saber depois, a\u00ed n\u00f3s quer\u00edamos tirar esses reitores eternos, donos da universidade, a universidade era p\u00fablica. E a\u00ed fizemos greve aqui por seis meses. Agora realmente Edgar fez jus ao pux\u00e3o de orelha que depois eu conto a voc\u00eas, que An\u00edsio Teixeira me deu a respeito dele, n\u00f3s acampamos na reitoria al\u00ed fora, com as redes, n\u00f3s est\u00e1vamos com Geraldo S\u00e1 grande cineasta hoje, e Glauber passava pouco, n\u00e9? E essa gera\u00e7\u00e3o&#8230; menino que&#8230; Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro era da minha gera\u00e7\u00e3o todos eles n\u00f3s fomos estudantes juntos e Caoque que foi secret\u00e1rio de Brisola e deputado federal muitos e muitos deles hoje conhecidos, e a\u00ed n\u00f3s acampamos na reitoria, as meninas ficavam s\u00f3 de dia e os meninos dormiam nas redes e tudo naquelas colunas que tinham ali, ficavam as redes, de manh\u00e3 Doutor Edgar chegava para trabalhar, nunca fez o carro entrar para derrubar nossas redes, nem chamou a pol\u00edcia e, vou dizer de Calmon depois, l\u00e1 no Rio e ele chegava e dizia: \u201cBom dia meninos, posso entrar para trabalhar? N\u00e3o tinha quem mantivesse a rede ali, abria deixava entrar, a rede botava depois, mas doutor Edgar passava, e a gente em greve contra ele, e isso \u00e9 um educador pra mim, um dos maiores exemplos de educador que eu&#8230; depois n\u00f3s fizemos aqui na Bahia o I Semin\u00e1rio sobre Reforma Universit\u00e1ria que a UNE fez, e foi ali no Campo Grande onde era a antiga Assembleia Legislativa no ano seguinte n\u00f3s fizemos o II Semin\u00e1rio de Reforma Universit\u00e1ria no Paran\u00e1, na universidade do Paran\u00e1, \u00e9ramos seis delegados eu tinha, com Maria Helena Duarte hoje professora aposentada da UFRJ irm\u00e3 do de cineasta tamb\u00e9m, Roberto Duarte e n\u00f3s t\u00ednhamos uma tese sobre o sistema educacional brasileiro que fizemos as duas com gr\u00e1ficos e nanquim, e coisas, e ai como a gente vai? E quem dava para gente ir era a reitoria mesmo, eram seis mesmo com toda a briga e PC quem ia? mas n\u00f3s tiramos seis, eram Carlos Nelson Coutinho um dos grandes intelectuais brasileiros, era Coutinho, eu, Maria Helena, Paulo Duarte, Haroldo Lima, hoje da ANP e o sexto Juveniano disputou mas perdeu n\u00e3o ganhava nada com a gente, Juveniano que tinha uma tese enorme, para tudo ele fazia tese, mas n\u00e3o ganhou n\u00e3o, o sexto eu n\u00e3o me lembro quem foi mas Juveniano perdeu e ai as meninas foram pedir a doutor Edgar as passagens fomos eu e Maria Helena ao gabinete do reitor, Doutor Edgar, vai ter o II Semin\u00e1rio de Reforma Universit\u00e1ria l\u00e1 no Paran\u00e1, estamos numa delega\u00e7\u00e3o de seis n\u00f3s temos a tese sobre o sistema educacional brasileiro, ele disse: \u201cS\u00e3o seis? T\u00e1, vou dar as passagens e as di\u00e1rias.\u201d E a gente em greve contra ele, realmente era um educador, e n\u00f3s fomos para o Paran\u00e1 na delega\u00e7\u00e3o da Bahia e tivemos parte ativa, daquele tempo tem dois documentos a Carta de Salvador e voc\u00eas devem procurar conhecer, eu acho que tem at\u00e9 aqui na biblioteca e Carta do Paran\u00e1, que eram todos os nossos postulados, a\u00ed vem a diferen\u00e7a de hoje, no nosso postulado sobre a universidade que quer\u00edamos, depois a ditadura faz uma Reforma Universit\u00e1ria, e tinha at\u00e9 alguma coisa que a gente postulou, a gente por exemplo queria a Universidade por departamento que n\u00e3o era assim, e at\u00e9 algumas coisas ficaram introduzidas e quando a gente hoje v\u00ea de fora, mas a gente foi contra a reforma tamb\u00e9m da ditadura e&#8230; ent\u00e3o, o movimento estudantil era aquela \u00e9poca isso, na verdade a gente se politizava no movimento estudantil, eu acho que mais diretamente, eu particularmente creio que outros elementos como essa hist\u00f3ria do meu pai que era um empurr\u00e3o, etc&#8230; Mas a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nossa, \u00e9 no movimento estudantil quem d\u00e1. Que funcionava&#8230;. Faculdade de Filosofia que era onde era Pedagogia na \u00e9poca, era muito o reduto das meninas que era forma\u00e7\u00e3o de professores praticamente, com muita aliena\u00e7\u00e3o, mas alguns n\u00e3o, alguns como eu de ponta cabe\u00e7a e a\u00ed n\u00f3s t\u00ednhamos forma\u00e7\u00e3o mesmo, n\u00f3s promov\u00edamos cursos para n\u00f3s pr\u00f3prios, eu me lembro que doutor Milton Santos por exemplo, hoje t\u00e3o conhecido, doutor Milton era professor da gente, na Faculdade de Filosofia. Ali\u00e1s, ele tamb\u00e9m tem um caso a parte que merece ser gravado, ele dava aula ao lado da sala de Alto de Castro, um dos grandes professores de Filosofia na universidade eu tive o prazer de ver Milton recebendo o t\u00edtulo de doutor honoris causa aqui na Universidade quando eu fui abra\u00e7ar ele, ele disse \u201cIracy me d\u00ea not\u00edcias de Alto.\u201d Ele vivia numa fazenda, j\u00e1 \u2018tava\u2019 velhinho e eles davam aulas juntos, Alto era um grande professor dava Hist\u00f3ria da Filosofia eu, por exemplo, adorava e Milton do lado, dava&#8230; Nem me lembro qual era a mat\u00e9ria de Milton dava. Milton falava alto, aquele neg\u00e3o bonito&#8230; ent\u00e3o de repente n\u00f3s \u00e9ramos tr\u00eas, Alto \u2018tava\u2019 falando l\u00e1, sei l\u00e1 Santo Agostinho. Tom\u00e1s de Aquino, o que \u00e9 que fosse, e a gente \u2018tava\u2019 ouvindo era Milton, eles eram amic\u00edssimos, ai ele chegava assim: \u201c\u00d4, seu nego. Voc\u00ea fica ai falando e minhas alunas n\u00e3o prestam aten\u00e7\u00e3o a mim, fale baixo&#8230;\u201d Ai ele dizia: \u201cMas \u00e9 brilhante demais, voc\u00eas tem raz\u00e3o!\u201d Ent\u00e3o a gente vivia ao mesmo tempo ouvindo dois grandes caras, as aulas aquela \u00e9poca eram aulas expositivas mesmo, essas tecnologias todas n\u00e3o eram parte disso, n\u00e9? E a gente bebia daquelas aulas. E Milton&#8230; a gente terminou sendo aluna de Milton sem nunca ter no curso de Pedagogia, Milton Santos como professor, entendeu? E ent\u00e3o a vida estudantil, era essa, em geral, eram tr\u00eas grandes grupos o PC, o AP e o JUC primeiro, depois AP, e os Independentes, eu tinha um irm\u00e3o meu que foi at\u00e9 presidente do DCE ele era do Independente, n\u00e3o era de lado nenhum mas era de esquerda. E tinha aquela massa que circulava mais e tinha Direita organizada Edvaldo Brito candidato a Senador agora, Edvaldo era um dos l\u00edderes da Direita organizada, n\u00e3o foi daqueles que andou pegando em arma nada disso, at\u00e9 hoje a gente inclusive tem uma amizade pessoal porque tinha isso tamb\u00e9m, n\u00f3s bat\u00edamos o pau, mas havia um relacionamento pessoal de jovens, de, sei l\u00e1&#8230; do elo com a universidade, o elo com a universidade era outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ant\u00f4nio Fernando: Professora Iracy, fazendo refer\u00eancia a An\u00edsio Teixeira qual a import\u00e2ncia da obra de An\u00edsio Teixeira na forma\u00e7\u00e3o da senhora, e tamb\u00e9m a escola parque, como foi? como se desenvolveu? \u00c9 a escola parque no dia-a-dia da senhora? \u00c9 a escola parque essa de hoje, a idealizada por An\u00edsio Teixeira?<\/p>\n<p>Iracy Pican\u00e7o: Bom, \u00e9 engra\u00e7ado, \u00e9 comum se dizer isso, qual a import\u00e2ncia da obra de An\u00edsio. A obra no sentido da obra f\u00edsica de produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 mas em se tratando, sobretudo, da Bahia, os elos com An\u00edsio s\u00e3o v\u00e1rios para v\u00e1rias pessoas inclusive pra mim. O doutor An\u00edsio nunca foi professor na faculdade de filosofia, at\u00e9 porque a faculdade de filosofia era do dom\u00ednio de seu grande \u00e1lter ego, n\u00e9? Que era Isa\u00edas Alves, Dr. Isa\u00edas era t\u00e3o dono da faculdade de filosofia, mesmo j\u00e1 da UFBA, que anteriormente n\u00e3o era, n\u00e9? Mas quando se constitui a Ufba em 46, a lei no pa\u00eds diz que a universidade tem que ter uma faculdade de filosofia para forma\u00e7\u00e3o de professores, n\u00e9? Ent\u00e3o a UFBA incorpora no conjunto, odontologia, medicina direito, polit\u00e9cnica e a faculdade de filosofia que na \u00e9poca era&#8230; era da fam\u00edlia de Isa\u00edas Alves, mas ele sempre foi&#8230; ele j\u00e1 velhinho, ele tinha&#8230; ele teve um acidente vascular cerebral, mas se movia e ia toda tarde para faculdade de filosofia ficava l\u00e1 sentado no sagu\u00e3o, era ali onde \u00e9 o minist\u00e9rio p\u00fablico federal hoje, em Nazar\u00e9, sentado no sagu\u00e3o a cada um que passava pra sala ele chamava: \u201cComo \u00e9 seu nome? Como \u00e9 o nome do seu pai?\u201d E, bom, alguns eles eram amigos, ele conhecia as fam\u00edlias nobres todas da Bahia, e quando&#8230; \u201cComo \u00e9 seu nome?\u201d \u201cDr. Isa\u00edas, n\u00e3o adianta eu dizer porque o senhor n\u00e3o conhece o meu pai, \u00e9 um nome simples, Silva.\u201d Ele dizia: \u201cN\u00e3o, eu conhe\u00e7o muitos Silva&#8230;\u201d \u201cMeu pai \u00e9 cobrador de bonde, Dr. Isa\u00edas, o senhor n\u00e3o sabe&#8230;\u201d \u201cN\u00e3o, eu tamb\u00e9m conheci&#8230;\u201d Mas ele queria era se comunicar, n\u00e9? \u2018Tava\u2019 velhinho, tava&#8230; Mas esse terreno n\u00e3o era de An\u00edsio, mas&#8230; e mesmo assim, An\u00edsio j\u00e1 tinha algumas obras publicadas, mas nunca se passou embora Raimundo Mata sempre foi uma pessoa pr\u00f3xima de An\u00edsio, ele era professor na faculdade&#8230; era um af\u00e3 terrible porque ele era meio solto de normas, numa escola muito arrumadinha de normas, ele, Mata era mais solto e era pr\u00f3ximo de An\u00edsio tamb\u00e9m. Inclusive ele tem uma coisa escrita sobre An\u00edsio. Bom, mas eu pessoalmente tenho um elo com An\u00edsio Teixeira de v\u00e1rias formas, primeiro sou fruto da obra, mas obra n\u00e3o escrita, n\u00e9? Da a\u00e7\u00e3o de An\u00edsio Teixeira, ali\u00e1s ele dizia \u201cEu n\u00e3o sou um homem de pensamentos, eu sou um homem de a\u00e7\u00e3o.\u201d Mas isso era pra gente n\u00e3o pensar na obra sempre, n\u00e9? Pensar nele como um cara que pensou divulgou e pensou e agiu. Ele conseguiu associar concretamente o pensar e o agir nas v\u00e1rias oportunidades que teve \u2018pra\u2019 agir na educa\u00e7\u00e3o do Brasil e aqui na Bahia em particular quando ele duas vezes \u2018teve\u2019 \u00e0 frente na educa\u00e7\u00e3o a\u00ed por volta de 27 a 30 no in\u00edcio do s\u00e9culo, ele muito jovem, e posteriormente no governo de Mangabeira, a Bahia s\u00f3 tinha p\u00fablico um col\u00e9gio da Bahia em n\u00edvel m\u00e9dio, no chamado n\u00edvel m\u00e9dio hoje, n\u00e9? E, \u00e9 na gest\u00e3o do An\u00edsio, a com pleito de Mangabeira ele secret\u00e1rio de educa\u00e7\u00e3o e Ot\u00e1vio Mangabeira governador e pede a ele que queria fazer uma extens\u00e3o de escolaridade para a popula\u00e7\u00e3o mais pobre, e An\u00edsio a\u00ed gesta duas coisas que s\u00e3o fundamentais \u2018pra\u2019 educa\u00e7\u00e3o na Bahia e para o que a gente pode chamar o legado dele a n\u00f3s, inclusive educadores, n\u00e9? \u00c9 a extens\u00e3o do gin\u00e1sio, eu vou explicar como, e a cria\u00e7\u00e3o do Centro Educacional Carneiro Ribeiro no qual era contida a Escola Parque. Hoje, o que aparece e o que se fala \u00e9 a escola Parque que \u00e9 destorcido falar a escola Parque isoladamente, ela em si, n\u00e3o existiria se n\u00e3o compusesse e o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, e a\u00ed eu vou falar um pouco sobre os dois, mas meu elo com An\u00edsio vai de que eu fiz o gin\u00e1sio porque An\u00edsio Teixeira criou o gin\u00e1sio p\u00fablico na Liberdade, o col\u00e9gio Duque de Caxias foi constru\u00eddo como escola prim\u00e1ria e ele transfere, vira gin\u00e1sio e foi a primeira oportunidade dos meninos da Liberdade, poderem fazer gin\u00e1sio e eu fiz, alguns de n\u00f3s conseguiram avan\u00e7ar na escolaridade por for\u00e7a da vis\u00e3o de An\u00edsio e Mangabeira tamb\u00e9m, de extens\u00e3o da escolaridade para al\u00e9m do prim\u00e1rio para as camadas populares e ele cria, ele transforma o col\u00e9gio da Bahia, que era \u00fanico, hist\u00f3rico, conhecido, era escola normal, e Col\u00e9gio da Bahia, ele transforma o Col\u00e9gio da Bahia no chamado Col\u00e9gio Central com os seus anexos, o Duque de Caxias na Liberdade, bairro popular, de moradia de prolet\u00e1rios de trabalhadores das fam\u00edlias, trabalhadoras dominantemente em Salvador aquela \u00e9poca hoje n\u00e3o, a cidade t\u00e1 muito mais ampla h\u00e1 v\u00e1rios&#8230; extens\u00f5es, mas as camadas populares em Salvador viviam na Liberdade, ele criou o Duque de Caxias; o Jo\u00e3o Flor\u00eancio Gomes, l\u00e1 em Itapagipe; e o Severino Vieira, em Nazar\u00e9, que ainda era uma \u00e1rea de moradia de camadas m\u00e9dias, na verdade. Mas, meu primeiro elo com An\u00edsio porque ele me deu a chance de fazer o gin\u00e1sio p\u00fablico e de boa qualidade, ainda tem essa, e de boa qualidade, o que que era aquilo&#8230; Porque An\u00edsio al\u00e9m de expandir, ele&#8230; ele cuidava da qualidade como secret\u00e1rio e com certeza eu fui professora prim\u00e1ria e, os restos de An\u00edsio eu ainda peguei, porque eu j\u00e1 fui no governo Balbino, mas, por exemplo, naquela \u00e9poca hoje se fala tanto em avalia\u00e7\u00e3o, n\u00e9? Voc\u00eas ent\u00e3o, \u2018nestante\u2019 \u2018tava\u2019 vendo uma monografia, \u00e9 muito simples no final do ano para avalia\u00e7\u00e3o do trabalho do professor como do que ficou nos alunos, era uma coisa muito simples, troc\u00e1vamos. Por exemplo, n\u00f3s \u00edamos eu que ensinava na Ant\u00f4nio Bahia l\u00e1 na San Martin, n\u00f3s \u00edamos para a escola da Fazenda Grande e as professoras da Fazenda Grande iam \u2018pra\u2019 minha escola e l\u00e1 elas avaliavam os meninos e estavam tamb\u00e9m nos avaliando e dependendo dos resultados que os meninos obtivessem, n\u00f3s t\u00ednhamos progress\u00e3o por m\u00e9rito, por isso que eu n\u00e3o sou contra o que Serra t\u00e1 fazendo l\u00e1 em S\u00e3o Paulo, t\u00e1 todo mundo batendo o pau, mas eu n\u00e3o sou contra n\u00e3o, eu vivi isso, e era \u00f3timo porque era independente de voc\u00ea a avalia\u00e7\u00e3o das suas turmas, e a\u00ed, isso ia dizer de voc\u00ea e do progresso do menino e ent\u00e3o voc\u00ea, como n\u00e3o queria ser mal avaliada, voc\u00ea desempenhava para que os meninos tivessem sucesso no final do ano, simpl\u00edssimo. An\u00edsio instalou isso, e isso perdurou at\u00e9 algum tempo no sistema aqui na Bahia, depois desfizeram. E o gin\u00e1sio foi essa oportunidade que se deu num estado que at\u00e9 hoje os dados indicam, \u00e9 um estado que tem condi\u00e7\u00f5es de escolaridade ainda entre os piores estados do Brasil, ent\u00e3o imagine \u00e0quela \u00e9poca. E, a segunda coisa de An\u00edsio, al\u00e9m disso tem a ver com minha vida pessoal e o que ele significou para Bahia foi a capacidade dele pensar o Centro, ora, h\u00e1 uma certa desinforma\u00e7\u00e3o at\u00e9 em alguns textos a respeito disso a ideia de An\u00edsio era a cria\u00e7\u00e3o de 10 centros iniciais educacionais que a rigor eram centros de demonstra\u00e7\u00e3o, porque ali se continha at\u00e9 forma\u00e7\u00e3o continuada \u2018pros\u2019 professores da rede e ele ent\u00e3o o centro no caso, o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, ele instala na liberdade, n\u00e3o \u00e9 porque&#8230; at\u00e9 se chamar ali de Liberdade \u00e9 um equ\u00edvoco do ponto de vista da hist\u00f3ria da cidade, n\u00e9? Pau mi\u00fado n\u00e3o era Liberdade, como IAPI n\u00e3o era Liberdade e Caixa d&#8217;agua tamb\u00e9m n\u00e3o. Liberdade era \u2018pra\u2019 l\u00e1. Do Pero Vaz \u2018pra\u2019 l\u00e1, \u00e9 mais ali morava o proletariado da cidade ent\u00e3o era uma escola de absoluta qualidade desde f\u00edsica, at\u00e9 as a\u00e7\u00f5es. E, al\u00e9m de tudo, um centro que pudesse de fato ir al\u00e9m do que ele chamava de educa\u00e7\u00e3o intelectual de ensinar ler, escrever e contar, n\u00e3o \u00e9? Para al\u00e9m disso uma escola que pudesse de fato desenvolver educa\u00e7\u00e3o integral que n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa tamb\u00e9m que se disseminou, que era escola de tempo integral, tempo, nessa escola pensada por An\u00edsio \u00e9 consequ\u00eancia, s\u00f3 se faz educa\u00e7\u00e3o Integral se for em tempo integral, os meninos o dia todo na escola, porque educa\u00e7\u00e3o integral \u00e9 educa\u00e7\u00e3o intelectual ensinar a escrever, a ler, a contar a interpretar e etc e tal. Matem\u00e1tica, ci\u00eancias, o convencional da escola inicial, e ter tamb\u00e9m o desenvolvimento das outras esferas do homem, a arte, a educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica e o trabalho, ent\u00e3o isso \u00e9 o princ\u00edpio da educa\u00e7\u00e3o integral do trabalho com todas as esferas do homem dentro da escola, agora s\u00f3 uma escola nas propor\u00e7\u00f5es daquelas \u00e9 que podia proporcionar isso aos meninos, ent\u00e3o isso n\u00e3o podia ser talvez uma \u00fanica escola, ent\u00e3o o que ele faz ele tem essa parte da educa\u00e7\u00e3o intelectual na escola convencional, que s\u00e3o chamadas Escolas Classes. Uma foi instalada no Pero Vaz, a\u00ed vem meu elo com isso, eu fiz, como eu morava na Pero Vaz, eu fiz est\u00e1gio de escola normal na Escola Classe n\u00famero 1, no Pero Vaz nascendo, vi aquilo nascer, e a outra escola, a 2, era na conflu\u00eancia IAPI no Pau Mi\u00fado ali naquela entrada do IAPI, a terceira era na&#8230; l\u00e1 no Pau Mi\u00fado mesmo, depois do hospital Santa Terezinha, e a quarta era dentro e era ao lado da escola Parque no mesmo espa\u00e7o da escola Parque, e a escola Parque que era onde os meninos iam no outro turno. Eles tinham a escola cl\u00e1ssica intelectual, como ele denomina at\u00e9. E depois a escola Parque onde eles tinham educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, artes, artes em todos os sentidos: m\u00fasica, dan\u00e7a, teatro e etc. Uma escola com condi\u00e7\u00f5es, at\u00e9 um anfiteatro e um teatro fechado, uma biblioteca maravilhosa, que eu tive l\u00e1 a pouquinho tempo e perguntei: \u201c Por que voc\u00eas n\u00e3o abrem para a comunidade?\u201d E a biblioteca n\u00e3o tem um bibliotec\u00e1rio hoje, e tinha a socializa\u00e7\u00e3o que era uma das coisas fundamentais, como a educa\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria tamb\u00e9m, e ai se brinca \u201cA escola Parque tinha muito banheiro.\u201d Mas \u00e9, quando o menino chegava escovava o dente tomava banho, porque vinham de camadas populares \u00e1s vezes n\u00e3o tinham esse h\u00e1bito, ele era muito vinculado ao pensamento Deweyniano, John Dewey um fil\u00f3sofo e pensador da educa\u00e7\u00e3o americana, n\u00e9? Dewey tem inclusive um artigo que eles tinham uma experi\u00eancia em bairros populares em que o Patrick que foi um disc\u00edpulo de Dewey, onde eles mostravam como a educa\u00e7\u00e3o dos meninos gerava tamb\u00e9m a educa\u00e7\u00e3o na fam\u00edlia, ent\u00e3o os bons h\u00e1bitos que voc\u00ea desenvolvesse nos meninos na escola eles levavam pra casa, tipo, sei l\u00e1, lavar a m\u00e3o antes de fazer a refei\u00e7\u00e3o, ou outras coisas parecidas. Ent\u00e3o a escola parque era o centro dessas outras esferas, tamb\u00e9m inclusive da socializa\u00e7\u00e3o, \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o da cidadania. Os meninos, eles tinham prefeitos na escola, tinham elei\u00e7\u00e3o nas escolas que os meninos faziam, tinham um banco, naquela \u00e9poca n\u00f3s n\u00e3o viv\u00edamos nesse capitalismo financeiro est\u00fapido de hoje, n\u00e9? Mas o banco era uma coisinha que&#8230; o acesso at\u00e9 era pouco. Eu tenho uma xerox do cheque de l\u00e1, uma professora velhinha me deu, numa pesquisa, ela tinha um e eu tirei xerox \u2018pra\u2019 mim, tem no meu material sobre a Escola Parque. Ent\u00e3o a Escola Parque era escola de educa\u00e7\u00e3o integral, agora n\u00e3o d\u00e1 \u2018pra\u2019 fazer isso num turno s\u00f3 de 4:00 horas, muito menos de 3:00 que \u00e9 mais ou menos o que se vive hoje. Tamb\u00e9m tem outra coisa, o hoje, pensar hoje. Teria que ser&#8230; A ideia da educa\u00e7\u00e3o integral, o princ\u00edpio, esse n\u00e3o morre, e esse \u00e9 o grande legado de An\u00edsio Teixeira \u2018pra\u2019 educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, e que n\u00f3s precisamos retomar, que \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o, a escola tem que ser um instrumento da educa\u00e7\u00e3o integral e n\u00e3o apenas o instrumento, mesmo que seja bem feito, da educa\u00e7\u00e3o intelectual. Ela tem que ser mais, tanto que quando, anos depois, a poucos anos atr\u00e1s que eu me envolvi \u2018numa\u2019 pesquisa sobre o Centro Educacional Carneiro Ribeiro umas das minhas preocupa\u00e7\u00f5es era deixar a marca que \u00e9 o Centro, n\u00e3o \u00e9 a escola Parque, eu antes de ir a Escola Parque eu fui \u00e0 Escola Classe a do Pau Mi\u00fado, mas foi eu me bater&#8230; e n\u00e3o \u00e9, jamais a escola de An\u00edsio, 3 metros o muro, aqueles vidros e as malditas grades, se An\u00edsio visse isso&#8230; E como&#8230; n\u00e3o sei, sou uma afiliada a ele, eu diria assim, tenho um elo afetivo que em outros momentos da minha vida eu convivi com ele tamb\u00e9m, mas tenho muito respeito pelo o que ele deixou \u2018pra\u2019 educa\u00e7\u00e3o brasileira e acho que n\u00f3s n\u00e3o respeitamos essa heran\u00e7a e precisamos assumi-la. E quando vejo as grades e eu vi nas Escolas Classes, \u2018pra\u2019 mim as grades&#8230; Como \u00e9 que eu diria? Acostuma o menino com as grades de amanh\u00e3, n\u00e3o h\u00e1 coisa pior por mais que se fale da viol\u00eancia da cidade, da viol\u00eancia dos meninos nas escolas, o que puderem dizer, \u00e9 f\u00e1cil, que diriam alguns, eu dizer por que eu estou fora, mas eu sei que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, a gente lidar com os meninos hoje&#8230; eu sei, por que sou m\u00e3e, fui tia de muitos e sou av\u00f3, e tenho certeza que lidar com Jo\u00e3o, D\u00e9da e Kiko, n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa de lidar com Luizinho, Joca, \u00cdcaro, Alice e Valentim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Camila Calazans: Professora, a senhora conviveu tamb\u00e9m com Darcy Ribeiro? Tem alguma mem\u00f3ria para contar dele?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Iracy Pican\u00e7o: Pouco, muito pouco, s\u00f3 conheci enquanto intelectual que eu tenho o maior respeito, tamb\u00e9m, e que trabalhou com An\u00edsio muito, \u00e9 um fiel seguidor de An\u00edsio, buscou no Rio, quando Brizola era governador levar a experi\u00eancia de An\u00edsio para o sistema educacional do Rio de Janeiro no que ficou depois cunhado de Brizol\u00f5es, n\u00e9? Espelhado na experi\u00eancia de Bras\u00edlia que eles trabalharam juntos no projeto da educa\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, Juscelino chama e \u00e9 An\u00edsio que faz, e \u00e9 nos moldes das escolas dos Centros Educacionais tem a escola, a Escola Parque acho que chama at\u00e9 Escola Parque mesmo, e as escolas convencionais e Darcy fez isso e, do meu ponto de vista extremamente equivocadamente parcela significativa dos educadores brasileiros se op\u00f4s \u00e0quela experi\u00eancia eu acho que sem nem procurar avan\u00e7ar no seu significado, no que buscava, mas do ponto de vista pol\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o ao pensamento pol\u00edtico, eu diria a pr\u00e1tica pol\u00edtica de Brizola de quem&#8230; Darcy a \u00e9poca era pr\u00f3ximo, sei l\u00e1 companheiro e se op\u00f4s, eu me lembro, por exemplo, na nossa entidade a ANPED as cr\u00edticas que se faziam, eu nunca fiz at\u00e9 porque eu vi o que o que foi a experi\u00eancia do Centro Educacional Carneiro Ribeiro que infelizmente ele n\u00e3o p\u00f4de&#8230; a escola Parque ele nem p\u00f4de nem construir na \u00e9poca que era secret\u00e1rio, porque quando ele teve&#8230; An\u00edsio teve aqui uma oposi\u00e7\u00e3o muito grande da assembleia legislativa, ele quis fazer uma nova lei org\u00e2nica da educa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria fazer pelo&#8230; desde a queda do estado novo, da redemocratiza\u00e7\u00e3o no Brasil, e ele teve uma oposi\u00e7\u00e3o muito grande dentro da assembleia legislativa e achavam ele com ideias muitas avan\u00e7adas, e no fundo era esse o reacionarismo, conservadorismo, t\u00edpico da pol\u00edtica na Bahia, n\u00e9? E por isso que esse estado at\u00e9 hoje tem condi\u00e7\u00f5es educacionais t\u00e3o ruins, \u00e9 fruto disso, n\u00e9? E ele n\u00e3o pode ver a lei org\u00e2nica do ensino aprovada ele quis deixar inclusive, mas Mangabeira n\u00e3o deixou, mas ele n\u00e3o pode completar a constru\u00e7\u00e3o do centro. O centro que concerne a Escola Parque, vai construir depois quando ele, vai conclu\u00eddo, n\u00e9? Quando ele, j\u00e1 chamado pelo governo federal, ele vai pro CBPE, IMEP, CAPES, ele por vias, recursos federais ele faz. E tem uma coisa muito importante que eu acho que \u00e9 muito significativa no que foi a a\u00e7\u00e3o de An\u00edsio, \u00e9 que os professores da Escola Parque eram de tempo integral, ent\u00e3o n\u00e3o era esse pobre professor de hoje que vive correndo, de escola para escola, d\u00e1 duas aulas em col\u00e9gio tal, duas no Bomfim, depois vem \u2018pra\u2019 Brotas, \u2018pra\u2019 dar outra, \u2018pra\u2019 fazer um sal\u00e1rio razo\u00e1vel. O professor era de tempo integral no Centro Educacional, agora como ele consegue isso? Ele \u00e9 do estado, e ele por via federal ele contrata. Tanto que tem um epis\u00f3dio, eu s\u00f3 quero deixar registrado e ele muito bonito. Que depois do golpe, tem esses professores, ele contrata pelo INEP para ter tempo integral, porque realmente o professor que pode, quer dizer eu tenho dito isso sistematicamente, o que poder\u00e1 a vir resolver o problema da desqualifica\u00e7\u00e3o da escola b\u00e1sica entre n\u00f3s, ter\u00e1 que ser aquele professor de dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 escola em tempo integral, porque eu dou o exemplo, as Universidades s\u00f3 partiram para produ\u00e7\u00e3o de conhecimento no dia que instalou a dedica\u00e7\u00e3o exclusiva, e as escolas s\u00f3 melhoravam esse tempo. E, assim, ele tinha, e pensava e executava suas ideias, os professores eram federais e estaduais. Quando vem a ditadura, An\u00edsio foi considerado inimigo da ditadura pelo pensamento liberal dele, n\u00e3o era nenhum comunista, ali\u00e1s, eu digo que ele era um Marxista, e n\u00e3o assumia, e n\u00e3o sabia, mas ele era, porque s\u00f3 um Marxista poderia pensar a educa\u00e7\u00e3o \u2018pra\u2019 n\u00f3s, como ele. Mas ele n\u00e3o admitia isso, ao contr\u00e1rio, o partido comunista \u00e9 que fez uma campanha muito grande contra ele. Mas era&#8230; quem fala muito bem sobre isso \u00e9 o professor Lu\u00eds Henrique Dias Tavares que viveu a essa \u00e9poca. Mas ele, ent\u00e3o&#8230; ele consegue fazer o professor de s\u00f3 dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 escola, conhecia alguns, quando vem a ditadura, eles desmontam o centro educacional, n\u00e9? E simplesmente, os professores, eles deixam de pagar. Esses professores levaram uma luta bel\u00edssima&#8230; eu acho que quase uns 20 anos na justi\u00e7a, mas, ganharam, e foram reincorporados ao sistema federal e ganharam tudo o que eles tinham direito, porque lutando \u00e9 que a gente ganha, n\u00e9? Se n\u00e3o lutar, n\u00e3o leva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nelson Pretto: O Inep a esta \u00e9poca inclusive, era ali onde era filosofia, n\u00e3o \u00e9 n\u00e3o? Que INEP \u00e9 esse?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Iracy Pican\u00e7o: \u00c9, a\u00ed j\u00e1 era fruto de uma outra coisa. O INEP, que era o Instituto Nacional de Estudos Pedag\u00f3gicos, centro para estudar a educa\u00e7\u00e3o na verdade, que o governo constituiu. Eles&#8230; o INEP como An\u00edsio organiza, continha tamb\u00e9m um centro de pesquisa, nele chamado CBPE, Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais. Darcy, por exemplo, \u00e9 cria disso, Darcy desenvolve inclusive a antropologia toda dele no CBPE. E o INEP se organizava no Pa\u00eds em centros regionais, ent\u00e3o tinha na Bahia, tinha em Pernambuco, tinha no Rio Grande do Sul, tinha no Rio porque o centro do CBPE era l\u00e1 no Rio mesmo, porque era a capital da Rep\u00fablica inclusive, n\u00e9? E ent\u00e3o, o Centro regional de estudos do INEP, n\u00e9? De estudos de pesquisas educacionais. Era aqui, al\u00ed em S\u00e3o L\u00e1zaro, onde \u00e9 hoje a faculdade de filosofia que era das ursulinas, n\u00e9? Era um convento das Ursulinas, elas&#8230; n\u00e3o sei como negociou l\u00e1 com o governo ou com An\u00edsio e passam, mas o Inep era l\u00e1 e fazia pesquisas educacionais. Agora, tamb\u00e9m ali tinha uma escola que n\u00e3o era vinculada ao Centro Educacional Carneiro Ribeiro, mas era uma escola de aplica\u00e7\u00e3o para as pesquisas, como era o col\u00e9gio de aplica\u00e7\u00e3o para a universidade l\u00e1. Ali existiu&#8230; ele sempre vinculou a ideia do trabalho ligado a escola do professor, a educa\u00e7\u00e3o integral e a educa\u00e7\u00e3o continuada dos professores e \u00e9 An\u00edsio quem instala aqui, possivelmente, o primeiro curso, aqui na Bahia sim, e eu creio que no Brasil, o primeiro curso de forma\u00e7\u00e3o de supervisores. Porque, ele tinha uma preocupa\u00e7\u00e3o especial com a educa\u00e7\u00e3o rural, a educa\u00e7\u00e3o no campo porque ele entendia que pela diversidade entre campo e cidade a educa\u00e7\u00e3o no campo tinha caracter\u00edsticas suas, ele tinha at\u00e9 um modelo de escola, ele tinha um modelo arquitet\u00f4nico de escolas, chamadas de escolas agrupadas, que ele constr\u00f3i no campo. E ele forma o primeiro curso de supervisores, traz os professores do interior, acho que vinculado \u00e0s prefeituras, isso eu n\u00e3o lembro bem, mas isso em 63, e cerca de 20 e poucas jovens e eu fui professora nisso tamb\u00e9m. Foi o primeiro curso de supervis\u00e3o, creio que no Brasil. E um dia eu sou chamada por dona Carmem, vou passar a falar nela, era a irm\u00e3 dele, quem conduziu tudo isso aqui na Bahia, inclusive, pra mim, uma das maiores educadoras que a Bahia teve, muito esquecida. Que ela que dirigia tudo isso, dirigiu o CRINEP tamb\u00e9m. A\u00ed um dia eu recebo um recado que fui chamada \u2018pra\u2019 ir falar com Dona Carmem, l\u00e1 no INEP, ela disse: \u201cOlha, n\u00f3s vamos come\u00e7ar um curso aqui, e tem uma disciplina Teoria da Educa\u00e7\u00e3o, e An\u00edsio disse para lhe chamar para dar a voc\u00ea.\u201d A\u00ed eu falei \u201cT\u00e1, sim senhora.\u201d. Ai eu fui para casa, n\u00e9? Cheia de entusiasmo, meus sonhos e meus ideais, eu botei tudo aquilo ali. E naquela \u00e9poca, mais ou menos era recente o lan\u00e7amento do livro Sartre. Bom, vou antecipar uma coisa. Minha gera\u00e7\u00e3o consciente tinha um farol, como eu digo, como horizonte, pela vida social, e os anseios pelo nosso pa\u00eds, pela Am\u00e9rica Latina, pelos povos realmente sofridos do mundo, era Cuba. A revolu\u00e7\u00e3o cubana era assim, um farol para n\u00f3s. Paremos de fazer como o povo Cubano fez com a lideran\u00e7a de Fidel e Che Guevara. E n\u00f3s t\u00ednhamos isso. Aquela \u00e9poca, Sartre lan\u00e7ava seu livro chamado \u201cUm furac\u00e3o sobre Cuba\u201d, em defesa da revolu\u00e7\u00e3o cubana, ai eu fui l\u00e1 dar Teoria da Educa\u00e7\u00e3o para as meninas, e fiz todo mundo ler \u201cUm furac\u00e3o sobre Cuba\u201d. J\u00e1 pensaram? As meninas vindas do interior, aquela descoberta, tudo devia ser uma coisa horrorosa, \u201cComo assim?\u201d e n\u00e3o sei o que l\u00e1&#8230; Acabou tudo isso. Ai um dia eu fui entrando na diretoria l\u00e1 do CRINEP, sa\u00ed da aula era l\u00e1 em baixo naquele pavilh\u00e3o, vou entrando na sala, de Dona Carmem, a\u00ed ela t\u00e1 dizendo assim: \u201cN\u00e3o sei o que An\u00edsio v\u00ea nessa menina. T\u00e1 mandando as meninas ler o livro de Sartre \u201cFurac\u00e3o sobre Cuba\u201d\u201d. A\u00ed eu \u2018tava\u2019 entrando, a\u00ed nos batemos as duas, e eu n\u00e3o disse nada, nem ela falou mais nada, mas as meninas leram, pelo menos n\u00e3o ficaram t\u00e3o contra cuba como se fazia as meninas ficarem aqui nesse pa\u00eds. Eu nem terminei essa disciplina porque eu fui para o Congresso Mundial de Moscou, e passei a Solange Silvane que hoje \u00e9 esposa de Aroldo Lima que era colega nosso, estudava na Cat\u00f3lica, mas, era colega nosso nas lutas. Mas ali no CRINEP era isso e, l\u00e1 tinha a escola de demonstra\u00e7\u00e3o, mas que n\u00e3o era o mesmo do centro educacional, n\u00e9? Eles tinham caracter\u00edsticas diferentes, agora com os mesmos valores, e a mesma condu\u00e7\u00e3o, porque a condi\u00e7\u00e3o disso tudo era dona Carmem, uma professora normalista formada em Caitit\u00e9, irm\u00e3 dele e que tinha absoluta unidade de pensamento com ele, que conduziu tudo aquilo, eu tenho uma pesquisa que \u00e9 uma coisa not\u00e1vel ouvir. Meninos, bom, hoje j\u00e1 adultos e professores, funcion\u00e1rios que foram na \u00e9poca, a refer\u00eancia, tudo era dona Carmem, agora dizendo queria tudo perfeito, a\u00ed eu digo com a menina que trabalha comigo \u201cA senhora quer tudo perfeito n\u00e9, dona Iracy?\u201d, a\u00ed eu brinco, ela n\u00e3o sabe nem quem \u00e9: \u201c\u00c9 igual a dona Carmem\u201d, por causa da pesquisa. Tudo o que tiver, ent\u00e3o \u201cdona Carmem vem hoje\u201d. Mas, realmente teve um lugar na forma\u00e7\u00e3o deles, e a\u00ed brinco com minhas alunas de pedagogia tamb\u00e9m, n\u00e3o \u00e9? Que dizem assim \u201cela \u00e9 dura\u201d, mas, valeu. Ent\u00e3o dona Carmem foi isso a grande educadora dessa terra. E a gente n\u00e3o tem o preito que ela merece, eu vivo em cada lugar que passo falando que temos que reviver o que foi realmente a contribui\u00e7\u00e3o de dona Carmem, a educa\u00e7\u00e3o que deixou. At\u00e9 porque a ditadura quis apagar, ela quis destruir, entregou as escolas classes ao sistema comum, a Parque se acabou. N\u00f3s conseguimos, quando An\u00edsio fez o centen\u00e1rio, um esfor\u00e7o grande devido \u00e0 sua filha, Gabi Teixeira, buscando os pol\u00edticos baianos, inclusive Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es, que se constitu\u00edsse aqui uma comiss\u00e3o \u2018pro\u2019 centen\u00e1rio de An\u00edsio, e era o governador aqui na Bahia C\u00e9sar Borges, eu acho que a gente n\u00e3o pode esquecer disso, C\u00e9sar Borges constituiu uma comiss\u00e3o, inclusive com representa\u00e7\u00e3o das universidades, eu representei a UFBA, por designa\u00e7\u00e3o do reitor da UFBA, e n\u00f3s constru\u00edmos centen\u00e1rio de An\u00edsio. A gente brinca at\u00e9, eu e Gabi, que An\u00edsio passou a ser relembrado a\u00ed. O Brasil todo despertou pra An\u00edsio, \u00e9 um neg\u00f3cio incr\u00edvel. E eu acho que teve um lugar&#8230; o a\u00e7\u00e3o, do governador \u00e0 \u00e9poca com essa comiss\u00e3o. Nessa \u00e9poca, a Escola Parque era um elefante branco, l\u00e1 aquele imenso, aquelas depend\u00eancias not\u00e1veis, Darlene t\u00e1 a\u00ed trabalhou nisso, me lembrei agora. E ent\u00e3o, estava se fazendo uma recupera\u00e7\u00e3o f\u00edsica da Escola Parque, da Escola Parque, as classes nem se discute. Tanto que s\u00f3 se fala em Parque. Recupera\u00e7\u00e3o f\u00edsica, mas que quando n\u00f3s chegamos como comiss\u00e3o desvirtuaria tudo o que foi o sentido do complexo escolar que era aquilo ali. Tanto que at\u00e9 um campo de futebol, no pa\u00eds do futebol, de dimens\u00f5es oficiais foi coberto de paralelep\u00edpedos vindo de n\u00e3o sei aonde da Bahia, eu quase morro quando vi isso. Meu Deus, mas que loucura \u00e9 essa, acabar com este campo? \u2018Pra\u2019 que? Botaram 3 marcos de bandeira. Eu digo, os meninos v\u00e3o com esse sol, com essa quentura que \u00e9 paralelep\u00edpedo, t\u00e1 l\u00e1 at\u00e9 hoje os paralelep\u00edpedos, eu espero um dia ver voltar o campo de futebol dos meninos. E se falava a boca pequena, que talvez se transformasse num centro de educa\u00e7\u00e3o especial, isso nunca foi oficialmente posto, mas se diz isso pelo&#8230; a coordena\u00e7\u00e3o disso aqui. Mas isso n\u00f3s conseguimos sustar. E tentar recuperar o sentido do centro educacional, n\u00e9? Mas, a mem\u00f3ria da escola praticamente nessa reforma foi zerada. Sa\u00edam caminh\u00f5es, me diziam as funcion\u00e1rias antigas, sa\u00edram caminh\u00f5es levando toda a mem\u00f3ria da Escola Parque. Para que eu conseguisse reconstituir, reconstituir n\u00f3s conseguimos depois o diretor atual fez&#8230; como tem ali no audit\u00f3rio, os diretores. Mas foi um esfor\u00e7o de duas meninas de pedagogia, bolsistas minhas que eu mandei \u2018futucar\u2019 os poucos papeis que restavam, que algumas pessoas conseguiram guardar em arquivos, a gente encontrar assim, um of\u00edciozinho, uma coisa qualquer: diretor em baixo. Anota o nome, e coisa, e a data que era aquilo, \u2018pra\u2019 eu recompor o fio da dire\u00e7\u00e3o da escola. A mem\u00f3ria realmente n\u00e3o existe, \u00e9 uma pena. A UNEB, hoje est\u00e1 fazendo um esfor\u00e7o l\u00e1, a ao grupo de&#8230; \u2018pra\u2019 ver se recupera. Eu tenho at\u00e9 alguma coisa que eu consegui entrevistar e quem tinha&#8230; tem alguma coisa, e tir\u00e1vamos c\u00f3pia, e fizemos uma massa que \u00e9 a mem\u00f3ria da escola, mas essa praticamente acabou. E \u2018pra\u2019 mim, essa \u00e9 a experi\u00eancia mais leg\u00edtima do que pode ser a educa\u00e7\u00e3o que nossas crian\u00e7as merecem ter, porque a gente sabe das condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas desse pa\u00eds, a desigualdade que se instala, o que s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es dos meninos oriundos da pobreza. Ent\u00e3o a escola \u00e9 isso mesmo, mesmo que muitos educadores at\u00e9 dos anos 70, 80, \u201cescola n\u00e3o \u00e9 cantina\u201d, sei l\u00e1, \u201cn\u00e3o e \u2018pra\u2019 dar almo\u00e7o\u201d, \u00e9 \u2018pra\u2019 dar tamb\u00e9m, quando o pa\u00eds, requer que se d\u00ea. Onde o menino vai bem alimentado de casa sempre n\u00e3o precisa, mas \u2018num\u2019 pa\u00eds como o nosso, ela ser isso tudo. Inclusive dar os h\u00e1bitos e a\u00ed, concordo inteiramente com Dewey e com An\u00edsio, que fez nesse sentido, \u00e9 mesmo \u2018pra\u2019 ter muito banheiro \u2018pra\u2019 ele aprender higiene tamb\u00e9m. Como eles, aqueles, aprenderam at\u00e9 a manejar dinheiro com um banco interno deles, com gerente e tudo, porque eram os \u2018produtinhos\u2019 que eles faziam. Hoje, a escola est\u00e1 recuperada fisicamente, est\u00e1, bonito, mas, n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa, n\u00e9? Hoje os meninos se inscrevem em tipos de cursos mas, por exemplo, a biblioteca, eu vi l\u00e1, n\u00e3o tem muito sentido, recentemente eu \u2018tive\u2019 l\u00e1, e ela tinha um papel chave. O audit\u00f3rio, serve \u2018pra\u2019 ceder \u2018pra\u2019 fazer atos&#8230; tem hoje alguma coisa em arte mas n\u00e3o era o que tinha no passado, integrado a todas as outras \u00e1reas. E uma quest\u00e3o que fica, uma coisa era a cidade, as condi\u00e7\u00f5es do Pa\u00eds nos anos 50, hoje n\u00f3 vamos nos anos 2010. Seria uma escola de tempo integral da mesma forma? Esse \u00e9 um desafio para n\u00f3s educadores. Porque o princ\u00edpio existe a ideia de educar todas as esferas do homem tem que ser a chave da nossa luta por uma escola melhor. N\u00e3o adianta ficar gritando \u201cqualidade, qualidade\u201d, sem que isso se expresse no concretamente no que \u00e9. A qualidade da educa\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode realmente significar para ser uma escola de qualidade aquela que desenvolve todas as esferas do homem. Em condi\u00e7\u00f5es de hoje, de seguro n\u00e3o vai ser o que era a regi\u00e3o na \u00e9poca, h\u00e1 50 anos atr\u00e1s. Os meninos, por exemplo, que moravam l\u00e1 na&#8230; que eram da Escola Classe 1, na Pero Vaz, desciam a Avenida Peixe, subiam por tr\u00e1s, as vezes at\u00e9 malandramente porque s\u00f3 tinha um port\u00e3ozinho que queriam que entrasse pela frente. Eles a\u00ed burlavam. Descia a Avenida peixe, e subiam e entravam na Escola Parque. Hoje, quem vai deixar as suas meninas de 9, 10 ano se for o caso, descer a Avenida Peixe, um dos maiores centros de viol\u00eancia na cidade? Nem eu. Essas mudan\u00e7as, s\u00e3o reais e concretas envolvem cada um de n\u00f3s como a sociedade em um todo. Mas a escola de educa\u00e7\u00e3o integral \u00e9 a \u00fanica educa\u00e7\u00e3o de qualidade, que realmente pode ser de qualidade, o resto \u00e9 papo furado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nelson Pretto: Voc\u00ea tinha falado&#8230; quando come\u00e7ou a falar de An\u00edsio que ele foi um projeto na verdade cortado, n\u00e9? Quebrado a partir do regime militar, golpe militar, e ao mesmo tempo voc\u00ea colocou da hist\u00f3ria da universidade, dos departamentos, depois da reforma universit\u00e1ria, fala um pouquinho de sua vida entrando na universidade com a milit\u00e2ncia depois do golpe, como \u00e9 que isso foi \u2018pra\u2019 voc\u00ea, e como \u00e9 que voc\u00ea viu isso na universidade, voc\u00ea j\u00e1 era professora da Universidade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Iracy Pican\u00e7o: No golpe, n\u00e3o. 64 eu j\u00e1 tinha sa\u00eddo. Eu sa\u00ed em 62.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nelson Pretto: Como aluna?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Iracy Pican\u00e7o: \u00c9 como aluna. Mas a\u00ed&#8230; Ai logo depois, por exemplo, quando vem o golpe, eu estava trabalhando&#8230; Logo que eu me formo, eu vou pra SUDENE, fazer um curso, o primeiro curso de programa\u00e7\u00e3o em educa\u00e7\u00e3o do Brasil. Programa\u00e7\u00e3o no sentido macro econ\u00f4mico social. Na SUDENE, existia uns baianos, irm\u00e3o de Milton, o Nailton Santos; Ant\u00f4nio Cabral de Andrade, que coordenavam o campo social da SUDENE, e eles conseguem organizar o primeiro curso, e eu me candidatei, fiz a sele\u00e7\u00e3o, passei. Fui \u2018pra\u2019 Recife e isso no in\u00edcio de 63, fui \u2018pra\u2019 Recife fazer o curso, quando tive a oportunidade de ser aluna de Celso Furtado, Chico Oliveira e Paulo Freire, o t\u00e3o cantado&#8230; ainda \u00e9 cantado, mas naquela ocasi\u00e3o professor da universidade de Pernambuco, eu fui aluna de Paulo Freire. E quando volto, termino o curso, volto \u2018pra\u2019 c\u00e1, quase fico no governo de Arraias que era o grande exerc\u00edcio de democracia nesse Pa\u00eds, foi o governo de Miguel Arraias, av\u00f3 do Eduardo Campos de hoje, n\u00e9? Governador de Pernambuco. Quase fico l\u00e1, que eu fui chamada, mas quis voltar pra aqui \u2018pra\u2019 aqui, porque? Porque eu tinha um convite de um professor da universidade, Batista Neves que estava assumindo na Bahia a coordena\u00e7\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o do plano nacional de educa\u00e7\u00e3o. Jo\u00e3o Gullar, que fazem dele um monstro, e \u00e9 o contr\u00e1rio, n\u00e3o foi nada disto, n\u00e9? Jango chamou An\u00edsio&#8230; primeiro foi An\u00edsio, para elaborar um plano para a educa\u00e7\u00e3o no Brasil, e surge o plano nacional de educa\u00e7\u00e3o para 10 anos. Ao mesmo tempo, j\u00e1 ministro do planejamento, Celso Furtado, toma o plano decimal, e se faz o plano trienal de educa\u00e7\u00e3o para o Brasil. E esse plano passa a ser executado nos estados com pessoas nomeadas pelo governo federal. Aqui foi o Batista Neves, e eu chegava da SUDENE e fui trabalhar com eles em 63, e&#8230; na execu\u00e7\u00e3o do plano. Ai me pegou a ditadura, era ali&#8230; acho que n\u00e3o \u00e9 mais, o CEAFRO ainda \u00e9 ali no largo 2 de Julho? \u00c9, n\u00e9? Pois \u00e9, aquela casa era a delegacia do MEC, e a coordena\u00e7\u00e3o do plano, a execu\u00e7\u00e3o era l\u00e1 em cima. Engenheiros, arquitetos, do munic\u00edpios, que pela primeira vez viu escola mesmo constru\u00edda como escola com o plano trienal desse per\u00edodo, era um entusiasmo de n\u00f3s todos, Isabel Bittencourt, Marinho arquiteto, e Batista Neves. E o golpe nos pega a\u00ed. Eu tinha formado, mas no interior, eu j\u00e1 estava trabalhando. E eu, por exemplo, j\u00e1 \u2018tava\u2019 trabalhando, j\u00e1 estava aquele terror instalado, eu lembro o que foi solidariedade \u00e0quela \u00e9poca, n\u00e9? De repente eu encontrava todo mundo assustado, eu \u2018t\u00f4\u2019 no trabalho, a\u00ed sobe algu\u00e9m da delegacia do MEC e diz \u201cOlha, tem a\u00ed um Jipe do ex\u00e9rcito procurando Iracy\u201d. A\u00ed eu des\u00e7o com a irm\u00e3 do Machado neto, Machado neto n\u00e3o, a irm\u00e3 do Machado professor de economia, Machado filho de Machadinho. Tava l\u00e1 na hora, era muito amigo de Batista, e disse \u201cO que \u00e9 que Iracy vai fazer?\u201d Bom, por que s\u00f3 tinha uma descida a escada, e se eu descesse encontrava os \u2018milico\u2019, n\u00e9w E me levavam no Jipe. A\u00ed disseram \u201cS\u00f3 tem a escada aqui atr\u00e1s\u201d, era uma escadinha de ferro assim, t\u00edpica de&#8230; deve ter l\u00e1 at\u00e9 hoje, porque tinha sa\u00edda para a rua Carlos Gomes, de ferro, fininho assim mesmo, com a coisa do lado, e os tracinhos. Da\u00ed Hermano, era assim gordo, e disse \u201cIracy tem que sair daqui que t\u00e3o subindo\u201d. Isso era mais ou menos quinto andar, escada ali, tem v\u00e1rios andares. A\u00ed disseram \u201cDesce aqui\u201d e eu desci com Hermano, e ele disse \u201cVai l\u00e1 \u2018pra\u2019 casa\u201d. Solidariedade foi isso, n\u00e9? A\u00ed eu desci por tr\u00e1s da escada, entramos no carro dele que estava l\u00e1 na Carlos Gomes. Levei um pequeno tempo na casa dele para&#8230; fugindo da ditadura. A ditadura me pega a\u00ed no ponto de vista profissional. Depois eu vou para S\u00e3o Paulo, volto, a\u00ed quando volto \u00e9 que eu passo a&#8230; em 65 j\u00e1, eu passo&#8230;. no fim de 64, 65, ai \u2018t\u00e1\u2019 se instalando na UFBA o chamado ISP hoje, n\u00e9? Que era um centro na escola de administra\u00e7\u00e3o muito recente tamb\u00e9m, que estava assumindo a reforma administrativa do Estado da Bahia, era o governo Lomanto Junior financiada pelo ponto 4, porque&#8230; os americanos sabem fazer, n\u00e9? A CIA, sobretudo. Ent\u00e3o eles \u2018toliam\u2019 a gente de todos os empregos, eu fui demitida, por exemplo, mas fui buscar por anistia porque eu ganhei foi por concurso, aquele que eu falei que tive sete porque escrevi demais, mas eu fui buscar, nem exerci, mas tinha o direito que foi meu concurso. E ent\u00e3o eles constru\u00edram aqui na UFBA, e o ponto 4 j\u00e1 USAID financiou as reformas administrativas do estado do nordeste considerando que era uma estrutura muito atrasada, muito velhas&#8230; modernizar, enfim, e financiou o grupo que tinha na lideran\u00e7a o professor Jos\u00e9 Rodrigues de Sena que era da funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas mas que \u2018tava\u2019 aqui na Bahia na UFBA, na escola de administra\u00e7\u00e3o, e Ivan Facneite uma das figuras not\u00e1veis da Bahia, foi professor de administra\u00e7\u00e3o, era advogado e ent\u00e3o acolheu&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nelson Pretto: E onde era a faculdade de administra\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Iracy Pican\u00e7o: Era ali onde \u00e9 hoje a OAB, na piedade, e o ISP era ali dentro, depois passa a ser um pouco adiante, ali onde \u00e9 Nazar\u00e9. E ent\u00e3o o que \u00e9 que aconteceu? E isso, creio que deve ter acontecido no pa\u00eds quase todo eles fomentaram o golpe, pagaram, orientaram, fizeram tudo, destru\u00edram a juventude que queria fazer um pa\u00eds diferente menos diverso, menos desigual e etc. Depois botaram a gente para fazer reforma administrativa, e muitos de n\u00f3s que tinham perdido os empregos aquela \u00e9poca, fomos obsiados nesse processo, eu fui uma delas, e passei a trabalhar na&#8230; agora tinha uma coisa, eu n\u00e3o podia mexer com educa\u00e7\u00e3o. Porque eu era mal vista na educa\u00e7\u00e3o pelas minhas posi\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o a reforma da educa\u00e7\u00e3o, aquilo nem mudei mas assim mesmo teve aqui naquele per\u00edodo duas propostas, n\u00f3s conversamos com An\u00edsio&#8230; e duas propostas que buscavam uma estrutura de educa\u00e7\u00e3o semelhante a que An\u00edsio prop\u00f4s em 47, que era o lugar da autonomia da educa\u00e7\u00e3o, via o conselho estadual de educa\u00e7\u00e3o e a secretaria de educa\u00e7\u00e3o serem um mero executivo das decis\u00f5es colegiadas que o conselho tirasse. E isso foi uma proposta pra reforma, a outra era essa do executivo potente que submete inclusive os \u00f3rg\u00e3os colegiados que deviam estar sobre eles. E foram as duas correntes na reforma administrativa aqui tamb\u00e9m e o primeiro modelo era o modelo pensado a partir de An\u00edsio que foi o que ele prop\u00f4s tamb\u00e9m em 47, que n\u00e3o ganhou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">D\u00e9bora Nascimento: Professora, falando em reforma, \u2018pra\u2019 senhora, o que \u00e9 que foi a reforma universit\u00e1ria?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Iracy Pican\u00e7o: Isso, em 68&#8230; ent\u00e3o, bom, a velha universidade j\u00e1 n\u00e3o dava mais conta do Brasil, na verdade. N\u00f3s pleite\u00e1vamos, por exemplo, como estudantes uma reforma que diferenciava o modelo cl\u00e1ssico, n\u00e9? De&#8230; A\u00cd como vem a reforma universit\u00e1ria, sobre a l\u00f3gica da unidade chamada indissociabilidade entre o ensino, a pesquisa e a extens\u00e3o, a pesquisa na verdade na universidade cl\u00e1ssica n\u00e3o tinha essa dimens\u00e3o que ela passa a ter depois da reforma universit\u00e1ria. Era de um modo pr\u00f3prio, desejo de quem queria fazer, talvez as \u00e1reas m\u00e9dicas fossem mais intensas, mas na \u00e1rea humana, por exemplo, era muito mais Do \u00e2mbito da autonomia de quem queria pesquisar. Ent\u00e3o a reforma universit\u00e1ria pensada no modelo, tem muito espelho na universidade americana, o modelo era da universidade americana do que eles v\u00e3o chamar de indissociabilidade ensino, pesquisa e extens\u00e3o, quer dizer \u00e9 formar, produzir conhecimento e estender a comunidade e n\u00e3o duplicar os meios para o mesmo fim. Ent\u00e3o a ideia de departamento era por a\u00ed, e essa ideia, talvez a rigor tenha at\u00e9 tamb\u00e9m, o espelhamento do modelo da universidade americana porque \u00e9 tipicamente um modelo de uma universidade americana, que era a id\u00e9ia. Por exemplo, sociologia, vou falar um pouco do meu \u00e2mbito, voc\u00ea tinha sociologia na faculdade de filosofia, sociologia na faculdade de direito, entendeu? Nem sei se tinha medicina social com \u00e2mbito de sociologia por l\u00e1. Ent\u00e3o a ideia \u00e9 que se reunisse no mesmo lugar, o fazer filosofia, fosse ensinando, pesquisando ou estendendo a comunidade. Esse era o princ\u00edpio da reforma. Agora, nesta base, a\u00ed \u00e9 a quest\u00e3o, se tirou coisas fundamentais na universidade, por exemplo a quest\u00e3o da autonomia da universidade, a capacidade dela conduzir a sua a\u00e7\u00e3o deliberar sobre ela e ter recursos independentes livres \u2018pra\u2019 ela utilizar e usufruir, que antes era assim ela n\u00e3o dava conta. Os conselhos tinham mais autonomia, ent\u00e3o se estrutura a universidade, que talvez com princ\u00edpios que no meu entender&#8230; eu n\u00e3o os afrontaria, por exemplo, acho que a indissociabilidade entre o ensino, a pesquisa e extens\u00e3o \u00e9 uma coisa v\u00e1lida, que \u00e9 a n\u00e3o duplica\u00e7\u00e3o de meios para o mesmo fim, tamb\u00e9m \u00e9 v\u00e1lido. Mas, neste bojo [se professores perderam na \u00e1rea], porque n\u00e3o eram bem quistos do ponto de vista pol\u00edtico, assim se tirou a rigor a autonomia das universidades. Elas passaram a ser realmente um departamento do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o o recurso que que define \u00e9 l\u00e1, como usa o recurso, l\u00e1, e isso realmente foi uma trava na universidade no sentido da submiss\u00e3o e a n\u00e3o liberdade de pensar de ensinar de agir que a universidade deveria ter, e nisso a gente combateu sempre a reforma nesse sentido. Entendeu? E quando voc\u00ea faz a ideia de que, n\u00e3o repetir meios, voc\u00ea tamb\u00e9m tirava condi\u00e7\u00f5es de voc\u00ea fazer isso bem, ent\u00e3o n\u00e3o resolvia fazer, se n\u00e3o desse tamb\u00e9m os meios para fazer, por isso a juventude, e o meio universit\u00e1rio em geral se op\u00f4s a reforma nesse sentido, porque ela no bojo talvez de princ\u00edpios que eles chamavam os dois grandes princ\u00edpios que eram estes de ensino, pesquisa e extens\u00e3o, e n\u00e3o duplica\u00e7\u00e3o. De princ\u00edpios que podiam se dizer que eram interessantes, voc\u00ea fez a limpeza pol\u00edtica e fez o atrelamento, n\u00e9? E a submiss\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria ao executivo que ela praticamente n\u00e3o faz, porque sem recurso n\u00e3o se faz nada. Se eu n\u00e3o sei como eu uso o meu recurso, n\u00e3o tenho menos autonomia ainda \u2018pra\u2019 fazer. Ent\u00e3o n\u00f3s \u00e9ramos contra isso. Nessa \u00e9poca, em 68 eu j\u00e1 estava na universidade tomei muito g\u00e1s lacrimog\u00eanio brigando contra a reforma na universidade, inclusive ali na reitoria com passagens bel\u00edssimas quando uma vez os estudantes sofrendo da pol\u00edcia, invadiu-se a reitoria e ent\u00e3o eles jogavam bomba de g\u00e1s lacrimog\u00eanio e entrou todo mundo no gabinete do reitor, e s\u00f3 se podia jogar pedra. Ent\u00e3o o que \u00e9 que eles faziam? Se fez uma verdadeira linha de montagem do Hospital das Cl\u00ednicas \u2018pro\u2019 gabinete do reitor, quase um subindo no outro numas escadas pegando pedra, levando, levando, e a gente no gabinete de l\u00e1, jogando tamb\u00e9m na pol\u00edcia contra a bomba de g\u00e1s deles, mas atos bel\u00edssimos se viu da juventude. Aqui na Bahia teve um neg\u00f3cio lindo quando se conseguiu unir estudantes secundaristas e universit\u00e1rios sa\u00eddos daqui, eu t\u00f4 dizendo n\u00f3s, eu j\u00e1 era da universidade, n\u00e3o era professora, era t\u00e9cnica no ISP, n\u00e3o podia, tinha um ato institucional que dizia &#8220;Quem foi demitido de professor em qualquer condi\u00e7\u00e3o, ou jornalista n\u00e3o pode ensinar mais. E se tiver institui\u00e7\u00e3o privada que contrate vai ser punido.\u201d Isso era um ato da ditadura, ent\u00e3o eu n\u00e3o podia ensinar, eu era t\u00e9cnica na universidade, mas assim mesmo n\u00f3s est\u00e1vamos l\u00e1, quando no momento que a gente viu chegar os meninos do Garcia, Vieira, Edgar Santos j\u00e1 existia l\u00e1, de l\u00e1 de longe Col\u00e9gio da Bahia n\u00e3o sei o que l\u00e1, daqui da Universidade, da Cat\u00f3lica, n\u00e3o sei o que l\u00e1, e se encontraram esses meninos todos, meninos pequeno, todos n\u00f3s mais velhos com medo dos secundaristas, e eles se encontraram para dizer um n\u00e3o \u00e0 ditadura, e \u00e0 reforma dela. Uma das coisas mais belas do que era a juventude que passou uma pergunta ai, o que era a juventude naquele momento, a gente v\u00ea hoje? N\u00e3o sei. E essa \u00e9 uma quest\u00e3o s\u00e9ria a discuss\u00e3o sobre a juventude de hoje seus horizontes, seus desejos, e a capacidade de construir esses desejos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ant\u00f4nio Fernando: A senhora foi diretora em 95 a 99, ent\u00e3o assim, tratando de momentos marcantes, a senhora j\u00e1 citou um, inclusive cita at\u00e9 nas aulas, n\u00e9? Citou em muitas aulas da senhora como professora. Gostaria de saber, assim, qual momento foi mais marcante nesse per\u00edodo que a senhora foi diretora aqui<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Iracy Pican\u00e7o: Que eu fui diretora&#8230; deixe eu ver se eu me lembro&#8230; no in\u00edcio eu contei com uma oposi\u00e7\u00e3o muito pesada, porque realmente meu acesso a dire\u00e7\u00e3o, sofri um processo que na verdade, tentou-se at\u00e9 insinuar contra um colega nosso no passado, tem a\u00ed na internet agora, n\u00e3o tem nada a ver, n\u00e3o foi isso. Mas quando eu assumi o&#8230; a elei\u00e7\u00e3o aqui na escola, minha candidatura num ato quase pessoal. Nem me lembro quem era vice, ah, n\u00e3o, porque o diretor n\u00e3o era o mesmo tempo que elegia o vice, n\u00f3s t\u00ednhamos um diretor, uma das figuras not\u00e1veis de colegas que tivemos era Arapiraca, foi diretor dois anos e faleceu. E o vice diretor era o professor Menandro, que assumiu a condu\u00e7\u00e3o do processo at\u00e9 que se ajustasse de novo a nova dire\u00e7\u00e3o uma vez que o professor Arapiraca faleceu, e n\u00e3o tinha completado os dois anos de mandato e a norma da universidade dizia que assim teria nova elei\u00e7\u00e3o, Menandro assumiu, e abriu-se nova elei\u00e7\u00e3o. Menandro se candidatou e eu me candidatei tamb\u00e9m, adoro essas disputas, e a\u00ed me candidatei tamb\u00e9m a diretora, e fomos \u2018pro\u2019 embate e quando houve elei\u00e7\u00e3o, aconteceu um fato muito curioso&#8230; ganhei de lavada dos estudantes&#8230; perdi nos funcion\u00e1rios, acho que quase lavada, n\u00e3o chegou a ser, mas quase, nos professores n\u00f3s empatamos, \u00e9ramos 90 votantes, 45 a 45 &#8230; ai como \u00e9 que fica? Fomos para as normas eleitorais, e a\u00ed houve um pequeno problema porque qualquer regra eleitoral diz: \u201cdepois de computados os votos, e proclamados s\u00f3 o inqu\u00e9rito para mostrar que houve uma malversa\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d\u201d n\u00e3o sei o que l\u00e1, e retroagir. Depois de j\u00e1 proclamado, j\u00e1 \u00edamos saindo, houve um coment\u00e1rio de um membro da comiss\u00e3o eleitoral dizendo que tinha um voto que n\u00e3o tinha a assinatura dos tr\u00eas membros, a\u00ed como&#8230; \u201cj\u00e1 passou, j\u00e1 contou\u201d \u201cOlha aqui.\u201d A\u00ed realmente aberto, tinha um voto que s\u00f3 tinha doi assumidos, certamente esqueceu e ele viu e na hora chamou desautorizando o empate, e a\u00ed ficou \u201co que faz? O que faz?\u201d. A comiss\u00e3o eleitoral \u00e9 que vai dizer, a comiss\u00e3o, realmente por maioria, decidiu que seria tirado, e esse voto era meu porque o voto era no papel, se fosse eletr\u00f4nico n\u00e3o dava nem pra ver, esse voto era meu. A\u00ed disse \u201cN\u00e3o, tira o voto\u201d eu disse \u201cN\u00e3o admito\u201d a elei\u00e7\u00e3o depois de proclamada, e a vontade dos professores t\u00e1 ai &#8230; metade, metade empata. Eu entro com recurso caso isso seja culminado dessa forma, n\u00e9? Me retirando um voto depois de computado e divulgado. A comiss\u00e3o diz que sim, e eu entrei com um processo e correu legitimamente as inst\u00e2ncias e congrega\u00e7\u00e3o&#8230; perdi \u00e9 45 a 44, e eu vou l\u00e1 pra cima. Recorri ao conselho universit\u00e1rio, provei isso, que realmente \u00e9 uma regra, e demorou muito do conselho apreciar, a\u00ed os colegas aqui, fex um abaixo-assinado dos professores, uma maioria enorme, dizendo que os professores queriam que fosse feito outro escrut\u00ednio com eles, \u2018pra\u2019 acabar a d\u00favida, e como demorou muito, o processo foi um pouco chato, l\u00e1 no conselho, depois disso, diante disso, evidente mandou-se pra l\u00e1 e&#8230; os professores querem, de novo vamos fazer ou escrut\u00ednio, e o conselho ent\u00e3o, a comiss\u00e3o que via recursos no conselho universit\u00e1rio, dizia: \u201cA conclus\u00e3o \u00e9 outro escrut\u00ednio.\u201d A\u00ed, inverteu-se, eu tive muito mais votodo que o professor Menandro, \u00e9 bom que voc\u00eas saibam isso porque isso \u00e9 mem\u00f3ria da faculdade. N\u00e3o houve nenhum tipo de lisura, de mexerem com a lisura, foram acontecimentos pol\u00edticos, claros, evidentes. E pol\u00edtica \u00e9 isso mesmo, agora, limpo de todos os lados e eu fiquei diretora, mas os que n\u00e3o gostavam de mim&#8230; eu tinha uma congrega\u00e7\u00e3o contra mim. Ent\u00e3o, o come\u00e7o foi duro, sozinha. Tanto que larguei meu doutorado porque, era s\u00f3, mas acho que a gente atuou, e todo mundo reconhecia. Contei muito com uma professora que infelizmente a UFBA perdeu, t\u00e1 na UFRJ hoje, que pr\u00f3 reitora de planejamento, a professora Nicea Americano uma grande figura, ex-diretora do instituto de f\u00edsica, e era pr\u00f3 reitora de planejamento, que me ajudou muito, a gente melhorar a \u00e1rea f\u00edsica da escola. Os cont\u00ednuos 4 anos que eu dirigi a escola, meu esfor\u00e7o maior foi na sedimenta\u00e7\u00e3o da pesquisa na faculdade para al\u00e9m na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Eu tenho a satisfa\u00e7\u00e3o de ter sido a criadora do PIBIC, eu fui coordenadora central da pesquisa da p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o da UFBA na gest\u00e3o do reitor Augusto Mascarenhas, era a \u00e9poca de transi\u00e7\u00e3o entre a coordena\u00e7\u00e3o que n\u00e3o existia pr\u00f3 reitoria e tava se instalando as pr\u00f3-reitoras, o reitor ao tempo em que me nomeou coordenadora central da pesquisa de p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o ele nomeou um pr\u00f3 reitor \u2018pra\u2019 gente experimentar uma pr\u00e1tica que j\u00e1 tava acontecendo nas outras universidades das pr\u00f3 reitorias. Ent\u00e3o eu tinha mais o car\u00e1ter executivo, e a universidade tinha a pr\u00e1tica da monitoria para inclusive, n\u00e9? Um tipo de bolsa que existia, os professores solicitavam, e tinham os seus monitores. Mas, a pesquisa j\u00e1 vinha, sobretudo com a exist\u00eancia da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o j\u00e1 vinha se instalando, e se sentia a necessidade do professor, o mestrando, os doutorados, eram muito poucos entre n\u00f3s acho que s\u00f3 tinha um ou dois, tinha um de patologia, e tinha um outro que se criou, e ent\u00e3o, tamb\u00e9m, a forma\u00e7\u00e3o da pesquisa, do para al\u00e9m da monitoria, do estudante de gradua\u00e7\u00e3o para que a pesquisa n\u00e3o fosse apenas uma pr\u00e1tica de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, mas fosse uma pr\u00e1tica daquela ideia da indissociabilidade ensino e pesquisa, e ent\u00e3o com os recursos da pr\u00f3pria pr\u00f3-reitora eu criei o primeiro n\u00facleo do hoje PIBIC, n\u00e9? Bolsa de inicia\u00e7\u00e3o ao ensino cient\u00edfica para gradua\u00e7\u00e3o, com recursos da pr\u00f3pria universidade, que a professora Eliane Azevedo que foi reitora, e foi vice-reitora tamb\u00e9m da universidade e era uma pesquisadora na faculdade de medicina. Eliane se interessou muito pelo programa, e ela \u00e9 quem leva \u2018pro\u2019 CNPq, pedindo recursos ao CNPq para a universidade, para a gente poder desenvolver porque a gente desenvolvia com os recursos da universidade tanto que tende&#8230; as monitorias foram caindo, porque na verdade o fundo os recursos eram el\u00e1sticos e terminando que a monitoria sofreu um pouco mas a gente criou uma nova forma de formar e de preparar o estudante de gradua\u00e7\u00e3o com a inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, e a\u00ed o PIBIC nasce e se transforma depois em um programa nacional com o apoio do CNPq, e que passa a ser do CNPq, mas era nosso, e eu tenho a satisfa\u00e7\u00e3o de ter feito isso, porque eu sempre me envolvi com a pesquisa, e sempre desenvolvi pesquisa na universidade no tempo de t\u00e9cnica e no tempo de professor, quando eu come\u00e7o a ser professor depois que cai o ato institucional, que 78, que eu sei at\u00e9&#8230; que me impedia de ensinar porque tinha sido demitida da condi\u00e7\u00e3o de professor, eu ent\u00e3o&#8230; eu a\u00ed fa\u00e7o a sele\u00e7\u00e3o aqui na escola para professor substituto, que \u00e9 assim que eu retorno a minha atividade de ensino j\u00e1 aqui na universidade, n\u00e9? Embora a demiss\u00e3o foi de professor prim\u00e1rio, mas mesmo assim eu n\u00e3o podia ensinar mas em nada. E eu&#8230;, mas eu sempre me envolvi com a pesquisa, e por isso na dire\u00e7\u00e3o, acho que consegui dar um impulso na pesquisa para al\u00e9m do mestrado apenas que n\u00f3s t\u00ednhamos, um mestrado muito bem situado na CAPES, no processo de avalia\u00e7\u00e3o desses cursos j\u00e1 existiam. N\u00f3s \u00e9ramos um curso B+ que estava na boca de A, mas a pesquisa era centralizada na disserta\u00e7\u00e3o do estudante etc. e tal. E eu consegui recursos de&#8230; na verdade de projetos para que buscava um professor, outro \u2018pra\u2019 o desenvolvimento de pesquisa pelos departamentos, que \u00e9 uma defesa que eu tenho clara, a pesquisa n\u00e3o \u00e9 um problema de curso, \u00e9 um problema do departamento porque \u00e9 da atividade do professor e por isso ele forma o graduando, o p\u00f3s, e ele tamb\u00e9m faz pesquisa. Ent\u00e3o isso \u2018pra\u2019 mim foi uma das a\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m muito importantes. De outro lado foi tamb\u00e9m, alguns dizem a\u00ed, fomos os criadores do doutorado, mas o doutorado em educa\u00e7\u00e3o surge na minha gest\u00e3o e \u2018num\u2019 esfor\u00e7o grande, porque havia posi\u00e7\u00f5es diferentes na escola. Eu achava que n\u00f3s j\u00e1 pod\u00edamos d\u00e1 o salto \u2018pra\u2019 p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, outros achavam que n\u00e3o, que n\u00f3s \u00e9ramos mestres, os professores do mestrado eram mestres tamb\u00e9m, ent\u00e3o n\u00e3o podiam talvez ensinar na p\u00f3s. E eu brincava, por exemplo, vou criar o doutorado e eu vou ser aluna da primeira turma, e realmente fui aluna da primeira turma, e isso vem desde quando eu fui coordenadora da p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o, e se instala e eu entro, parece que mais ou menos no tempo em que entro na dire\u00e7\u00e3o eu entro no doutorado, e eu termino n\u00e3o concluindo meu doutorado, porque me dediquei noite e dia \u00e0 p\u00f3s e meu marido brincava que era uma bigamia, que ele vivia, que eu casei com ele e com a UFBA. Mas ele n\u00e3o se incomodava dessa bigamia minha n\u00e3o e, isso \u2018pra\u2019 mim \u00e9 uma coisa essencial, as condi\u00e7\u00f5es da escola f\u00edsica estavam muito ruins. Eu acho que devido a professora Nice, eu dei realmente uma efetividade ao curso de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica entre n\u00f3s que era uma coisa que vivia a latere da faculdade, veio \u2018pra\u2019 aqui porque foi um curso que se iniciou a partir da universidade ter um contingente de professores de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica grande, porque durante a ditadura se instalou a coisa da obrigatoriedade da educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica na universidade para todos os cursos. Ent\u00e3o, a universidade tinha um \u2018planteo\u2019 de professores de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica e depois isso vai se desmoronando, at\u00e9 porque realmente n\u00e3o tinha sentido, e havia professores demais e a ideia de um curso de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica dado que na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, a educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica existia, e n\u00f3s t\u00ednhamos professores, e s\u00f3 t\u00ednhamos na Bahia um curso na UCSAL. De educa\u00e7\u00e3o. Se cria um curso, mas o minist\u00e9rio da educa\u00e7\u00e3o age no sentido de que professor n\u00e3o pode ser lotado, esses professores eram lotados na superintend\u00eancia estudantil em \u00f3rg\u00e3os de administra\u00e7\u00e3o central, eles tem que estar numa unidade de ensino, n\u00e9? A\u00ed com isso educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica come\u00e7a a procurar uma unidade onde ela se instalar e o curso tamb\u00e9m se desenvolver de gradua\u00e7\u00e3o, n\u00e9? E no governo, no reitorado de Hermano Kobacof, era da nossa diretora a professora Jandira Sim\u00f5es, a oferta \u2018pro\u2019 curso vir \u2018pra\u2019 aqui e n\u00f3s fizemos na verdade uma barganha na ocasi\u00e3o, dissemos que \u201ctudo bem, que se conseguir abrir um sal\u00e3o pra Educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, se conseguir um novo audit\u00f3rio l\u00e1 embaixo, e mais um outro espa\u00e7o pra educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, a\u00ed realmente a educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica vem pra c\u00e1\u201d, foi o prometido, mas realmente isso s\u00f3 vai se efetivar em boa parte quando \u00e9 reitor da UFBA Felipe Serpa nosso colega que dirigiu a UFBA e teve como pr\u00f3-reitora de planejamento e administra\u00e7\u00e3o Nicea Americano da Costa, ex-diretora de f\u00edsica, que a\u00ed a gente consegue montar. Ent\u00e3o \u00c9 nesse per\u00edodo tamb\u00e9m que eu consigo na dire\u00e7\u00e3o, encaminhar a coisa de espa\u00e7o e tudo que Edvaldo Boaventura, por exemplo, brincava dizendo, \u201ct\u00e1 tudo t\u00e3o bonito, s\u00f3 mulher sabe dirigir\u201d, ele brincava dizendo porque estava tudo arrumadinho. Mas, o doutorado se instalou e ele vem de toda uma iniciativa que passa pela dire\u00e7\u00e3o na sua consolida\u00e7\u00e3o os primeiros passos vem ainda de quando eu \u2018tava\u2019 na coordena\u00e7\u00e3o da p\u00f3s, a pesquisa que eu acho que&#8230; e a amplia\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, e depois eu era uma diretora como eu at\u00e9 vejo algumas iniciativas da Professora Celi, de que eu ia \u00e0 reuni\u00e3o do meu departamento, e al\u00e9m de cobrar bastante se realmente as aulas aconteciam, se n\u00e3o, se terminavam realmente quando o semestre devia terminar, fiz um esfor\u00e7o muito grande nesse sentido; publicamos algumas coisas mas acho que dei o meu quinh\u00e3o como dire\u00e7\u00e3o, e diante disso, foi posteriormente a isso, j\u00e1 na gest\u00e3o de professor Nelson que aquele epis\u00f3dio que a gente conhece, como o de maio, n\u00e9? Dia 16 de maio, aqui no Campus Canela, quando os meninos queriam lavar o passeio do pr\u00e9dio de Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es, n\u00e9? Com vassouras e detergentes e um carro de som que anunciaram provavelmente desde Ondina, eu n\u00e3o sei bem, mas&#8230; e desceram na Reitoria que iam fazer a lavagem l\u00e1 e a pol\u00edcia se instalou fechando isso aqui em cima, n\u00e9? Eu estava trabalhando aqui no meu gabinete ou em aula, isso eu n\u00e3o me lembro bem, mas o certo \u00e9 que de repente, eu tomei conhecimento, \u2018tavam\u2019 as pessoas indo olhando do sagu\u00e3o e eu olhei, \u201cs\u00e3o os meninos!\u201d Ali, vi um carro de som e os meninos ali, depois chega at\u00e9 o ex deputado Pelegrino, ele chegou depois. E sai para ver em baixo, tinha um pelot\u00e3o de pol\u00edcia que n\u00e3o tinha mais tamanho, do lado de c\u00e1, fechando o lado de c\u00e1, e com a hist\u00f3ria da minha vida e meu elo com a juventude e tudo, eu n\u00e3o fiz outra coisa sen\u00e3o subir para tentar ver no que podia realmente ajudar aquela situa\u00e7\u00e3o que me parecia que ia ficar dif\u00edcil e como ficou efetivamente. Ent\u00e3o eu subi, e v\u00ed a gravidade tentei falar com o Oficial que comandava o Pelot\u00e3o e ele me prometeu que n\u00e3o ia avan\u00e7ar \u2018pros\u2019 meninos, mas era o contr\u00e1rio, eles todos coladinhos uns no outro faziam assim (faz gestos como se eles tivessem marchando bem devagar em dire\u00e7\u00e3o aos alunos), faziam, e eu via descendo, e os meninos percebendo tamb\u00e9m do outro lado do&#8230; da ponte n\u00e3o, do viaduto. Eu vi uma hora de um embate feio, e pesado, e grave porque em cima de um viaduto, n\u00e9? Ent\u00e3o eu liguei imediatamente para professora Nice, e dei a not\u00edcia a ela do que estava acontecendo e para o Reitor que estava viajando e ent\u00e3o eu falei com o Vice Reitor, o professor Oto Jambeiro, o reitor na \u00e9poca era Onir Rocha, ele estava em Bras\u00edlia. Ent\u00e3o Oto disse eu vou falar com o reitor e vou pedir, a\u00ed Nice j\u00e1 \u2018t\u00e1\u2019 descendo, Jailson Bitencourt que era o Pr\u00f3-reitor de pesquisa e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e ficamos tentando os tr\u00eas intermediar com o Oficial que fossem embora que os meninos n\u00e3o ia fazer nada, e n\u00e3o sei qu\u00ea, etc e tal. A\u00ed de repente quando estamos os tr\u00eas conversando, cai uma coisa e bate na cabe\u00e7a da professora Nice, fere inclusive, e cai no ch\u00e3o, entre n\u00f3s tr\u00eas foi jogado com quem sabia jogar e para onde queria jogar, quando n\u00f3s abaixamos, a Nice&#8230; porque ela estava com isso aqui cortado (mostra a testa), quando n\u00f3s abaixamos para ver o que era, recebemos o ar&#8230; a bomba de g\u00e1s lacrimog\u00eanio. Uma aspira\u00e7\u00e3o brutal, a\u00ed quando os meninos viram isso, acabou. Correram para socorrer a gente e eles vieram em cima, e foi aquele horror aqui no Campus Canela, n\u00e9? Mas muitos correram para a Escola de Administra\u00e7\u00e3o e aqui em Educa\u00e7\u00e3o e eles vieram primeiro para invadir Administra\u00e7\u00e3o, mas \u2018num\u2019 gesto muito significativo e bonito os professores e os funcion\u00e1rios deram os bra\u00e7os, e disseram \u201caqui n\u00e3o entram\u201d, e eles jogavam de fora mas n\u00e3o entraram, e n\u00f3s fizemos o mesmo aqui na nossa, e protegemos a nossa Universidade, porque esse Campus \u00e9 nosso. \u00c9 como Pedro Calmon aqui s\u00f3 entra com vestibular. E ent\u00e3o, fizemos a mesma coisa eles tiveram que ir embora, embora deixassem um saldo de machucados bastante, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">D\u00e9bora Nascimento: Professora, nesses 40 anos de FACED, tiveram muitas hist\u00f3rias, muitas personalidades passaram por aqui. Quais fatos, al\u00e9m desse de 2001, a senhora destacaria como importantes para a Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o? E \u2018pra\u2019 sua trajet\u00f3ria tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nelson Pretto: Eu posso aproveitar, indo nesse caminho, dizer que voc\u00ea est\u00e1 sentada numa cadeira do PROTAP, um projeto aqui da faculdade de forma\u00e7\u00e3o de professores de ci\u00eancias, ent\u00e3o aproveita enquanto voc\u00ea falar desses 40 anos, fala um pouco do passado, do presente e do futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Iracy Pican\u00e7o: Bom a Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 fruto da Reforma de 68, n\u00e9? As Faculdades de Filosofia tinham como um fim formar professores, os licenciados. Mas esses licenciados podendo ter uma variante, o que a gente pudesse chamar hoje de t\u00e9cnico ou bacharel, hoje essa modalidade ainda existe. Com a reforma tamb\u00e9m uma c\u00f3pia do modelo americano, se reserva uma unidade para&#8230; Aquela ideia de n\u00e3o duplicar meios para o mesmo fim. De que seria uma unidade de ensino voltada para Educa\u00e7\u00e3o a que corresponderia a forma\u00e7\u00e3o Pedag\u00f3gica dos licenciados, descolou das Faculdades de Filosofia. Ent\u00e3o, as Faculdades de Educa\u00e7\u00e3o passam a existir, e com as Universidades elaborando os seus projetos para praticar a Reforma, elas criam as Faculdades de Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o que acontece aqui conosco, n\u00e3o \u00e9? O Reitorado de professor Roberto Santos, ele constitui uma comiss\u00e3o com os professores Emilio Oschiman e professor Ant\u00f4nio Piton&#8230; Pinto, que foi nosso colega aqui, que foi meu professor inclusive, que dizia que os pais socialistas tinham a educa\u00e7\u00e3o\u2026 Como \u00e9 que eles diziam&#8230; Eu dizia que n\u00e3o era centralizada, e ele dizia que era uma coisa pejorativa, e levamos dois anos brigando por causa disso, que eu dizia \u201c\u00e9 centralizada\u201d e ele dizia \u201ceu n\u00e3o aceito \u00e9&#8230;\u201d, eu esque\u00e7o a express\u00e3o que ele usava, como n\u00e3o democr\u00e1tica, era esse&#8230; Mas o Doutor Ant\u00f4nio Piton, eles tentam elaborar um projeto, existe at\u00e9 uma publica\u00e7\u00e3o de um artigo de Emilio Oschiman em uma das revistas do INEP da \u00e9poca, sobre a ideia do projeto da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o aqui, mas n\u00e3o se viabiliza em fechar um projeto mesmo. E na \u00e9poca eu trabalhava como assessora do Reitor, e a\u00ed o Reitor me pediu para fazer esse projeto, e a\u00ed eu passei a pensar o projeto da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, existiam algumas a\u00e7\u00f5es na Universidade muito importantes no campo de forma\u00e7\u00e3o de professores, era o CECIBA, coordenado por dona L\u00eada, e no qual o Felipe S\u00earpa tinha uma atua\u00e7\u00e3o chave e eu me aproximei de Felipe, dobrando uns jornaizinhos que mandavam para os professores, era um programa de forma\u00e7\u00e3o de professores que ele desenvolveu um jornalzinho que ia para todos os professores da \u00e1rea de Ci\u00eancias na Bahia, professores da escola b\u00e1sica, e eu me lembro bem como se fosse hoje ele dobrando o jornalzinho que \u2018pro\u2019 correio, E esse \u00e9 um programa voltado para o ensino de Ci\u00eancias e a Forma\u00e7\u00e3o de professores na \u00e1rea de Ci\u00eancias, existia um programa de lingu\u00edstica aplicada mas que tinha como fim a forma\u00e7\u00e3o de professores de Portugu\u00eas sobretudo, a professora Joselice Macedo, existia um outro programa tamb\u00e9m que eu n\u00e3o estou me lembrando nesse momento. E eu imaginava que a Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia nascer do nada ela vinha do Projeto l\u00e1 da faculdade de Filosofia, desses programas que estavam em v\u00e1rios espa\u00e7os na Universidade e aqui se uniria tudo isso para se criar a Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, voltada s\u00f3 para forma\u00e7\u00e3o dos professores no sentido da parte Pedag\u00f3gica da forma\u00e7\u00e3o, de como se fazer Ensino na verdade. E assim, eu conclui o projeto da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, e Doutor Roberto nomeou Dona L\u00eada Jesu\u00edno, antiga professora da Faculdade de Filosofia da \u00e1rea de se n\u00e3o me engano, metodologia de Filosofia e Dona L\u00eada foi a primeira Diretora pro tempori. E a Faculdade de Filosofia era em Nazar\u00e9, ali onde \u00e9 o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal. E a Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, ali mesmo. Eram dois diretores, dona L\u00eada, e acho que era doutor Calazans \u00e0 \u00e9poca era filosofia. E aqui \u2018tava\u2019 sendo constru\u00eddo, para a faculdade de economia, no bojo da reforma universit\u00e1ria. E constru\u00edram administra\u00e7\u00e3o, que si de l\u00e1 de&#8230; depois direito j\u00e1 tinha sido constru\u00edda antes, que era l\u00e1 onde \u00e9 a OAB hoje, e veio para aqui. E depois administra\u00e7\u00e3o veio \u2018pra\u2019 l\u00e1, e economia. S\u00f3 que economia, alunos e professores n\u00e3o queriam vir \u2018pra\u2019 aqui, gostavam da barulheira l\u00e1 da Piedade, n\u00e3o era tanto como hoje, n\u00e9? Mas gostavam. E n\u00e3o quiseram vir. E essa aqui \u2018tava\u2019 vazia. Um dia, dona L\u00eada, \u2018ca\u00e7ou\u2019 n\u00e3o tinha espa\u00e7o. Um dia ela decide, com minha cumplicidade, que era assessora do reitor, mas me dizia assim \u201cIracy, vamos para economia, ningu\u00e9m quer ir, n\u00f3s vamos botar a Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o l\u00e1.\u201d E a escola foi ocupada, no Esp\u00edrito do MST e o MSLT, foi uma efetiva ocupa\u00e7\u00e3o. E eu subi, eu era assessora do Reitor, e eu disse \u201cDona L\u00eada vai ocupar l\u00e1 o pr\u00e9dio de Economia que ningu\u00e9m quer\u201d, a\u00ed ele riu a\u00ed disse \u201c\u00c9!\u201d, depois deu carteiras, n\u00e3o sei o que l\u00e1, e ent\u00e3o fomos, os invasores, e ocupamos esse espa\u00e7o aqui. Eu sou das que defende que n\u00f3s precisamos estar perto de onde est\u00e3o as bases das licenciaturas, eu acho que o nosso espa\u00e7o academicamente, mas n\u00e3o sei se diria correto, mas, que ajude a viabilidade de n\u00f3s de Educa\u00e7\u00e3o, onde est\u00e3o as fontes dos institutos que prov\u00e9m os alunos para forma\u00e7\u00e3o de licenciados. Sabendo que esse pa\u00eds vive um problema da maior gravidade, a forma\u00e7\u00e3o de professores n\u00e3o tem est\u00edmulo na verdade, pelas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de trabalho, pelo sal\u00e1rio dos professores, pela aus\u00eancia de uma pol\u00edtica realmente s\u00e9ria de Educa\u00e7\u00e3o Continuada dos professores, e na pol\u00edtica tamb\u00e9m de Constitui\u00e7\u00e3o da categoria porque a exist\u00eancia de REDAS e coisas semelhantes, \u00e9 realmente a falta de uma pol\u00edtica para um profissional que tenha uma vida organizada garantida e etc. Ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 est\u00edmulo para ningu\u00e9m fazer licenciatura e ser professor, com certeza que a mudan\u00e7a, por exemplo, da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o l\u00e1 para Ondina n\u00e3o vai resolver isso, o problema \u00e9 que ao meu ver \u00e9 estrutural desse pa\u00eds. Mas de todo modo, n\u00f3s estar\u00edamos mais pr\u00f3ximos de onde est\u00e3o os demandantes das atividades para a faculdade, e consequente de toda essa nega\u00e7\u00e3o de profissionaliza\u00e7\u00e3o mesmo do professor, consequente disso \u00e9 a desqualifica\u00e7\u00e3o. Somado ao que recentemente, por exemplo, a Folha de S\u00e3o Paulo diz que a cada dia 92 professores t\u00eam, em S\u00e3o Paulo, pedido licen\u00e7a por stress e por n\u00e3o sei que l\u00e1, e a gente sabe que \u00e9 isso mesmo. Profiss\u00e3o de professor n\u00e3o \u00e9 simples, hoje. Na medida em que uma sociedade em que a presen\u00e7a da viol\u00eancia, da falta de hierarquia, de respeito ao outro, \u00e9 demais, acentuada, n\u00e9? E a gente sabe que o professor fica na sala de aula a merc\u00ea as vezes, nos col\u00e9gios privados de elite ent\u00e3o&#8230; a merc\u00ea de \u201cSabe com quem t\u00e1 falando?\u201d, n\u00e9? Ou coisa parecida. Mas da viol\u00eancia dos meninos mesmo com rela\u00e7\u00e3o a eles mesmos, ou ao professor, e o professor sem saber o que faz. Ent\u00e3o, infelizmente o est\u00edmulo a profiss\u00e3o \u00e9 dos mais negativos, e isso \u00e9 terr\u00edvel, agora a Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o acompanhou historicamente todo esse processo, tem um contingente de professores que tem em seu modo de dedica\u00e7\u00e3o a atividade, mas seguramente n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa, dizemos n\u00f3s os velhos aposentados \u201cNo meu tempo&#8230;\u201d n\u00e3o \u00e9 bem isso, mas a gente percebe claramente alguns de n\u00f3s mais antigos ver isso de que o elo tamb\u00e9m do professor universit\u00e1rio \u00e0 universidade n\u00e3o \u00e9 o mesmo do que foi, por exemplo, uma parte significativa da minha vida na Universidade e de outros tantos. Onde, por exemplo, o professor de DE era o professor que todo dia que saia pela manh\u00e3 para vir para aqui, e voltava a noite, e seguramente isso n\u00e3o acontece nessa forma mais hoje e essas explica\u00e7\u00f5es a gente tem que buscar nos aspectos outros, mas tamb\u00e9m no meu entendimento tem muito de n\u00f3s pr\u00f3prios, de buscar essa dignidade da nossa forma\u00e7\u00e3o do nosso papel at\u00e9 pelo sentido que tem dessa profiss\u00e3o que \u00e9 o de formar, e formar s\u00f3 numa perspectiva de Educa\u00e7\u00e3o integral como dizia An\u00edsio at\u00e9, na p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o, na gradua\u00e7\u00e3o e nos pequenininhos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nelson Pretto: E no futuro?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Iracy Pican\u00e7o: Eu falei com Nelson, mas nesse momento da gente pensar conjunturalmente, e pensar quase no pr\u00f3prio umbigo, eu s\u00f3 penso na elei\u00e7\u00e3o. J\u00e1 fiz muita campanha, tenho uma hist\u00f3ria de bastante ch\u00e3o nisso, dentro da orienta\u00e7\u00e3o que assumi na minha vida de constru\u00e7\u00e3o de uma outra sociedade n\u00e3o desigual, n\u00e3o diversa, e democr\u00e1tica porque s\u00f3 uma n\u00e3o desigual e diversa que pode ser efetivamente democr\u00e1tica. De outra forma, ela n\u00e3o \u00e9, \u00e9 um arremedo sempre de democracia, e me preocupa muito hoje no avan\u00e7ar dos sete dec\u00eanios, n\u00e3o d\u00e1 mais para estar na rua distribuindo panfletos, mas acompanho ativamente o que est\u00e1 se processando hoje no Brasil. O que decorre tamb\u00e9m do que acontece no resto do mundo. A gente t\u00e1 vendo a\u00ed a Fran\u00e7a, esse momento n\u00e9? Na discuss\u00e3o da quest\u00e3o das aposentadorias, hoje j\u00e1 li tamb\u00e9m nos jornais de que a Inglaterra tamb\u00e9m vai investir nas aposentadorias aumentando o tempo e a idade, que s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que est\u00e3o a\u00ed emergindo de uma crise que assolou o mundo, acho que n\u00f3s fomos muito simplistas em chamar de Marolinha. Vi a candidata Dilma no at\u00e9 com muita \u00eanfase no \u00faltimo debate&#8230; dizer que isso, eu n\u00e3o creio, eu acho que ultrapassamos por condi\u00e7\u00f5es muito excepcionais, mas o que a gente sabe \u00e9 que hoje, n\u00f3s vivemos na base significativa em torno do capital especulativo internacional, inclusive. E isso \u2018t\u00e1\u2019 rendendo&#8230; mas sabemos que, por exemplo, nossa atividade industrial, sonho da minha gera\u00e7\u00e3o, de Juscelino, do brasileiro produtor de bens, mas n\u00e3o s\u00e3o bens prim\u00e1rios, bens transformados o que da marca ao capitalismo e o poder a alguns, a gente sabe que a atividade industrial no Brasil t\u00e1 quase estagnada, n\u00e9? Por for\u00e7a da competi\u00e7\u00e3o, por exemplo com pa\u00edses irm\u00e3os como a China, a \u00cdndia, e essa marca que somos grandes produtores de bens, mas vivemos&#8230; e eu penso assim, voltamos ao passado de exportador de bens prim\u00e1rios que isso n\u00e3o nos satisfazia, e porque hoje s\u00f3 temos gr\u00e3os, manga e n\u00e3o sei que, n\u00e9? Eu acho que o grande problema do presente \u00e9 a circunst\u00e2ncia, n\u00e9? A conjuntura, entre n\u00f3s hoje, no Brasil, uma conjuntura eleitoral cuja escolha \u2018pra\u2019 mim, se d\u00e1 entre dois candidatos efetivamente tem mais semelhan\u00e7as do que dissemelhan\u00e7as, apesar dos debates, mas ambos me d\u00e3o muita preocupa\u00e7\u00e3o, ambos! Eu horas me pergunto, se Serra for presidente, quem a gente vai ter no Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o? O retorno daquilo que a gente combateu enormemente, bom que a gente pode combater, que \u00e9 muito bom quando a gente sabe onde est\u00e1, mas se for Dilma, o qu\u00ea que significa mesmo Dilma? Eu confesso que, n\u00e3o sei, s\u00f3 sei que dizem, que \u00e9 muito dura, que dirige, que j\u00e1 fez meu querido Z\u00e9 S\u00e9rgio chorar, ele diz que \u00e9 mentira, mas que j\u00e1 disseram&#8230; Ent\u00e3o eu acho que essa conjuntura brasileira est\u00e1 inteiramente em aberto \u2018pra\u2019 mim, se for um ou outro que ven\u00e7a, n\u00e3o sei para onde vamos. Confesso que n\u00e3o gostaria de ver Z\u00e9 Dirceu, com todo respeito a hist\u00f3ria dele na juventude, ser o Gr\u00e3-vizir de novo, porque n\u00e3o certo outra vez, passamos para mensal\u00f5es, cuec\u00f5es e ent\u00e3o n\u00e3o me agrada, por outro lado teve&#8230; mas eu n\u00e3o voto nulo, e eu \u2018t\u00f4\u2019 optando, acho que essa \u00e9 a coisa central, lament\u00e1vel que a gente n\u00e3o v\u00ea a express\u00e3o mais clara porque a gente \u00e9 um mero assistente da elei\u00e7\u00e3o s\u00f3 no voto que a gente vota, o resto \u00e9 o debate, e a propaganda toda colorida todo dia, n\u00e9? Invadindo as nossas casas, mas a gente n\u00e3o v\u00ea at\u00e9 pouco tempo numa elei\u00e7\u00e3o de Lula&#8230; Eu me lembro que a aqui na&#8230; chamou aqui na faculdade a Helo\u00edsa Helena, que era uma ferrenha cr\u00edtica j\u00e1 a Lula, e eu assisti o debate ouvindo na r\u00e1dio Faced, l\u00e1 na sala de trabalho. \u2018Tava\u2019 ela, e o Senador Walter Pinheiro, ent\u00e3o ela dizia, era contra Lula. E eu me lembro naquela \u00e9poca, sa\u00ed da minha sala e pedir para falar, a\u00ed disse a ela que como professora com algu\u00e9m que viveu essas lutas por todos esses anos n\u00e3o podia deixar de me manifestar quando eu vi um acontecimento do maior equivoco que podia acontecer naquela conjuntura entre n\u00f3s, com a juventude toda aqui, n\u00e3o sei se ela j\u00e1 era Senadora, e disse a ela: \u201cNeste momento, estou pensando que voc\u00eas vem aqui para conclamar essa juventude a assumir o seu papel de constru\u00e7\u00e3o desse pa\u00eds que aponta para o seu futuro, voc\u00ea v\u00ea a briguinha interna dentro do seu partido, n\u00e3o! N\u00f3s queremos a juventude \u00e9 na rua \u00e9 isso que n\u00f3s temos que fazer para ganhar essa elei\u00e7\u00e3o.\u201d Infelizmente n\u00e3o posso fazer isso de novo por Lula, o que me assusta&#8230; A condu\u00e7\u00e3o que ele deu, ao comportamento dele \u00e9 o que eu poderia dizer e diante de um mundo que tamb\u00e9m \u00e9 incerto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Juliana Costa: Ent\u00e3o agora quais s\u00e3o as esperan\u00e7as que alimentam sua vida hoje?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Iracy Pican\u00e7o: Hoje eu brinco, digo aos meus filhos assim, \u201cEnt\u00e3o minha m\u00e3e, em Dezembro&#8230;\u201d n\u00e3o. N\u00e3o planejo nada nem a m\u00e9dio e nem a longo prazo, eu sou da gera\u00e7\u00e3o do planejamento, s\u00f3 planejo o imediato. E ent\u00e3o, agora eu tenho certeza que n\u00f3s vamos construir uma outra sociedade aquela que eu sonhei, que dei muito de mim, que sofri por ela, n\u00f3s vamos construir, a hist\u00f3ria \u00e9 isso mesmo, n\u00e9? Ela tem altos e baixos, agora a confian\u00e7a base \u00e9 na juventude, \u00e9 ela que \u00e9 desprendida. Meu marido me dizia muito isso, \u201ca juventude \u00e9 que faz\u201d e \u00e9 verdade, se algum dia eu descobrir que a juventude n\u00e3o faz mais, ai=\u00ed certamente&#8230; mas eu confesso a voc\u00eas que como Educadora, boto meus netos para ter consci\u00eancia, assistir com meu netinho de treze anos, chegou e eu estava assistindo um debate de Ivan Pinheiro na BCN ou uma dessas assim, que me mandaram at\u00e9 por e-mail, a\u00ed ele perguntou \u201cO que \u00e9?\u201d \u201cEu disse \u00e9 Ivan Pinheiro candidato do PCB do Partido Comunista Brasileiro a presidente\u201d. Ele a\u00ed ficou ouvindo um pouco e sentou e assistiu, foi realmente um excelente debate de Ivan. Ivan foi meu companheiro tamb\u00e9m de gera\u00e7\u00e3o, a\u00ed quando acabou ele disse \u201cAh! V\u00f3, j\u00e1 tenho um candidato pena que eu n\u00e3o voto. Se eu fosse, eu votava nele\u201d, \u00e9 esse o meu papel educar a juventude para que ela leve realmente o tim\u00e3o dessa constru\u00e7\u00e3o que eu tenho certeza que essa sociedade far\u00e1 porque sen\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 Marx, n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda, ou \u00e9 o Socialismo ou a Barb\u00e1rie, eu n\u00e3o quero a Barb\u00e1rie. Por isso quero meus netos t\u00e3o ativos e conscientes como eu fui no que pude hoje, n\u00e9? Hoje, n\u00e3o. Hoje eu s\u00f3 fa\u00e7o esse tipo de coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Camila Calazans: Estudante de pedagogia da Universidade Federal da Bahia, entrei aqui em 2008, pretendo sair em 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Juliana Costa: Ol\u00e1, eu sou Juliana Costa. Tamb\u00e9m estudante de pedagogia aqui pela Universidade Federal da Bahia, entrei em 2007, pretendo sair pr\u00f3ximo ano, e sendo orientando de Nelson Pretto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Simone Pinto: Simone Pinto, estudante de pedagogia Universidade Federal da Bahia, entrei em 2008, e pretendo sair em 2011, finalzinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ant\u00f4nio Fernando: Meu nome \u00e9 Ant\u00f4nio Fernando, eu estou no s\u00e9timo semestre de pedagogia, aqui da universidade, da Faced. Fui estudante, fui aluno da professora Iracy Pican\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Debora Nascimento: Eu sou Debora Nascimento, estudante do oitavo semestre de pedagogia, fui aluna tamb\u00e9m da professora Iracy Pican\u00e7o. Tive a oportunidade de experimentar um pouco do grande conhecimento dela, e fico feliz por estar fazendo essa&#8230; tendo a oportunidade de estar fazendo essa grava\u00e7\u00e3o hoje \u2018pra\u2019 trazer, e guardar um pouco da hist\u00f3ria da professora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Revis\u00e3o final da transcri\u00e7\u00e3o de Isamara Ellen, aluna de pedagogia e monitora de EDC61 \u2013 Mem\u00f3ria em V\u00eddeo da Educa\u00e7\u00e3o na Bahia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gravado nos est\u00fadios do \u00c9duCANAL \u2013 Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFBA, em 21 de outubro de 2010 Camila Calazans \u2013 Bom, professora. sabemos que em 1958 o papel da mulher na sociedade era voltado para vida do lar. Ainda assim, a senhora passou a lecionar. Que tabus e dificuldades enfrentou? A profiss\u00e3o j\u00e1 era tradicionalmente feminina na \u00e9poca? Como era a educa\u00e7\u00e3o daquele per\u00edodo? O profissional era valorizado ou n\u00e3o? Iracy Pican\u00e7o: &#8211; Bom, precisa a gente voltar algumas coisas n\u00e9? Na verdade, mesmo no Brasil com todos os seus atrasos do ponto de vista da vida da mulher mas, a profiss\u00e3o de professora, sobretudo professora prim\u00e1ria era uma fun\u00e7\u00e3o feminina. N\u00e3o era tia, n\u00e9? De mais adiante. Mas era a professora, que era uma figura que ocupava inclusive um espa\u00e7o social, era uma marca \u2018A professora\u2019, nos munic\u00edpios menores ent\u00e3o! Mas era dominantemente a profiss\u00e3o feminina, quase que \u00fanica, ent\u00e3o, o destino das meninas, se queriam progredir, e pensar na vida profissional ela fazia em geral no n\u00edvel m\u00e9dio o curso normal. E muitas faziam isso \u2018pra\u2019 melhor criar seus filhos, porque teria melhores condi\u00e7\u00f5es \u2018pra\u2019 fazer isso. No meu caso em particular tem certas diferen\u00e7as. Primeiro que, eu n\u00e3o era uma menina de classe m\u00e9dia, eu era uma menina filha das camadas prolet\u00e1rias, o meu pai foi um comerciante, mas depois as coisas deram \u2018pra\u2019 tr\u00e1s e ele com quatro filhos \u00e0s v\u00e9speras de um quinto, ele tinha que sustentar e foi ser cobrador de bonde, que era o grande instrumento de transporte na cidade, nas cidades brasileiras todas. Aqui em Salvador era a companhia Linha Circular que na verdade era subsidiada da Light, um monop\u00f3lio quase que internacional &#8211; americano &#8211; de transportes urbanos e a\u00ed, meu pai se transforma num trabalhador mais simples que foi, na condi\u00e7\u00e3o, de comerciante que foi, pra criar os filhos. E minha m\u00e3e&#8230; ele teve muito pouca escolaridade, filho do interior aqui pr\u00f3ximo, mas naquela \u00e9poca Mata de S\u00e3o Jo\u00e3o era distante\u2026 hoje \u00e9 ali, Praia do Forte! \u00c9, mas ele era de um distrito de Mata de S\u00e3o Jo\u00e3o, \u00e1rea rural t\u00edpica de l\u00e1, que ele vem e os irm\u00e3os. Minha m\u00e3e j\u00e1 era urbana, pouca escolaridade tamb\u00e9m, mas, oriunda de uma fam\u00edlia de uma forma\u00e7\u00e3o intelectual mais forte, meu av\u00f4 era chefe de trem, tamb\u00e9m, mas era um intelectual por autoforma\u00e7\u00e3o, lia muito, e isso foi muito forte na minha forma\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de tudo ele era espirita, e ex-presidente da Uni\u00e3o Esp\u00edrita Bahia que era mais intelectualizada, sempre foi n\u00e9, nesse \u00e2mbito do espiritismo, e tinha uma biblioteca e sempre depositou em mim e em um irm\u00e3o meu os tipos dos projetos intelectuais dele, por isso me fez ler muito, ali\u00e1s li muita literatura esp\u00edrita. J\u00e1 sabia mais ou menos como era, o que se passava pela l\u00f3gica da religi\u00e3o t\u00edpica de volta, falece mas depois volta encarnado em outro, e eu mais ou menos come\u00e7ava a ler e j\u00e1 sabia, mas eu gostava de ler e lia. E minha m\u00e3e estudou at\u00e9 mais ou menos o segundo ou terceiro ano prim\u00e1rio mas, teve uma \u00fanica filha mulher e era uma mulher que buscava muito uma ideia de uma independ\u00eancia. Ent\u00e3o, ela me criou dizendo que eu ia ser professora, o que ela n\u00e3o foi e, eu acho que isso me dirigiu a um caminho e eu estudei desde cedo na antiga escola normal, hoje chamada ICEA no momento em que se instalava o primeiro jardim infantil entre n\u00f3s na Bahia, o segundo foi o Baroneira de Sau\u00edpe l\u00e1 em baixo. Nelson Pretto: &#8211; Que idade voc\u00ea tinha? Iracy Pican\u00e7o: &#8211; Eu devia ter 4, 5 anos&#8230; eu tenho 71 pode imaginar n\u00e9, risos. E minha m\u00e3e queria a escolaridade dos filhos, ent\u00e3o quando se instalou a escola normal no pr\u00e9dio novo que foi Isa\u00edas Alves quando Secret\u00e1rio que construiu, ele fez a escola anexa que \u00e9 o Get\u00falio Vargas que at\u00e9 hoje tem a\u00ed com ensino fundamental, e o jardim infantil, que era no interior da escola normal mesmo, e a matricula teria que ser feita num determinado momento, que minha m\u00e3e levou a tentar a matricula dos filhos porque a Get\u00falio seria a melhor escola prim\u00e1ria da Bahia pois era ligada a escola normal, mas a vaga era dif\u00edcil tamb\u00e9m de encontrar, ai disseram a ela&#8230; e ela me levou&#8230; Ela disse: \u201cOlha, n\u00f3s n\u00e3o temos a vaga mas, s\u00f3 damos a vaga se a senhora matricular ela no infantil, porque ningu\u00e9m queria matricular\u2026 n\u00e3o era\u2026 um etos, coisa da Educa\u00e7\u00e3o Infantil. As m\u00e3es muito em casa criavam seus filhos, n\u00e3o \u00e9 como hoje que as mulheres precisam da creche porque a mulher t\u00e1 trabalhando, t\u00e1 buscando a sobreviv\u00eancia era bem diferente mesmo nas camadas populares. E o engra\u00e7ado que eu me lembro, um pouco, que ela contava, talvez mais porque ela contasse, e ela disse que olhou assim e disse: &#8211; \u201cMas ela \u00e9 t\u00e3o pequena\u201d; n\u00e3o era \u2018pra\u2019 ir pra escola n\u00e9, a\u00ed elas disseram: &#8211; \u201cMas a vaga, s\u00f3 dou porque t\u00e1 abrindo&#8230;\u201d a\u00ed ela n\u00e3o titubeou ela queria os filhos na Get\u00falio. A\u00ed disse: \u201ct\u00e1, matricule.\u201d Como eu ia, era uma hist\u00f3ria bem complicada, um levava outro levava, porque eu morava l\u00e1 na liberdade mas l\u00e1 no in\u00edcio da Pero Vaz, mas \u00edamos todos ficando. Ent\u00e3o, eu tive a oportunidade de fazer educa\u00e7\u00e3o infantil por isso que acho que ela \u00e9 essencial para o desenvolvimento da escolaridade. Eu fiz! Depois passei \u2018pra\u2019 Get\u00falio e da Get\u00falio fui pro gin\u00e1sio: Duque de Caxias. E, do Duque de Caxias depois eu falo um pouco nele quando eu falar sobre o An\u00edsio, eu vou pra escola normal, caminho natural. Muitos de n\u00f3s l\u00e1 do Duque de Caxias, minha gera\u00e7\u00e3o de gin\u00e1sio, alguns foram tentar o Col\u00e9gio da Bahia que tinha o \u00fanico cientifico ou cl\u00e1ssico aqui, porque n\u00f3s n\u00e3o pensamos em ir para o Viera ou Marista nem Dois de Julho que j\u00e1 existiam, n\u00e3o t\u00ednhamos condi\u00e7\u00f5es disso, eram meninos pobres mas que queriam estudar<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":50,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"single.php","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-136","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-transcricoes"],"featured_image_src":null,"featured_image_src_square":null,"author_info":{"display_name":"bsglinux2","author_link":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/author\/bsglinux2\/"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/136"}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=136"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/136\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":966,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/136\/revisions\/966"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=136"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=136"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/webmemoriaeducacaobahia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=136"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}