Ione Sousa – transcrição
[Início da Entrevista]
(Música instrumental)
Ione Souza: Eu sou Ione Celeste Jesus de Sousa, sou nascida em Salvador, em uma noite muito fria desse mês de julho, a última noite do mês de julho, em 1963. Sou filha de uma professora primária, formada pelo Instituto Normal da Bahia, e acho que desde que eu me conheço, eu me lembro dentro de uma escola, de uma sala de aula, porque eu acompanhava minha mãe em quase todas as atividades. Eu era mais velha, depois vieram naquela famosa escadinha de antigamente, que era um filho a cada ano, então um em junho, outro em julho e outro em agosto. E eu tinha um irmão pequeno que era um pouco mimado e não podia deixar eu e ele junto dentro de casa porque um tocava fogo no outro, então eu acompanhava muito minha mãe nessas coisas. E volto a dizer, sempre me lembro de estar em algum lugar referente à educação. Não estou querendo ser assim meio tautológica, mas é porque as minhas lembranças realmente estão quase todas referentes à sala de aula, à atividade de minha mãe. Outro dia eu estava conversando com uma amiga e ela é assim muito ansiosa, está no doutorado e muito agoniada e a gente conversando com outra pessoa, eu disse a ela, mas tal pessoa é filha única de professora, isso eu entendo. Você é realmente cobrado o tempo todo dentro da sua própria casa. Então as brincadeiras, além das brincadeiras comuns de menina da minha época, que era brincar de boneca, brincar de casinha, aquela coisa toda, era muito focado em você brincar com coisas de escola. Hoje, passados todos esses anos, eu vejo que isso incidiu de forma muito forte nas minhas escolhas depois, referente às minhas coleguinhas, às primas, a essas coisas todas. Mas naquela época já tinha isso e tinha uma coisa mais interessante. Como muitas das professoras da época dela, minha mãe formou em 1957, já um pouco madura, porque não estudou durante a fase de 13 a 14 anos, por questões de família, ela trabalhava em casa. Então ela fez concurso para o Estado, foi trabalhar à noite, no que hoje a gente consideraria um EJA, mas na época não era EJA, não tinha esse nome, não existia nada disso, era a educação de adultos, e durante o dia ela ficava em casa. E aí foi engraçado, um dia que ela foi dar uma entrevista a uma aluna minha de Feira de Santana, quando eu já estava lá, então já bem mais velha, e ela falando, a moça foi me levar o que foi gravado e tal, e aí eu não sabia se eu ria ou se eu chorava, porque ela dizendo que quando a menina dela fez 6 para 7 anos, ela aí fez um outro concurso, que foi para a prefeitura. E que a menina ficou muito zangada, porque ela ia trabalhar durante o dia, arrumou uma trouxa e disse que ia embora para São Paulo. E eu li muito, porque eu me lembrava desse episódio, né? De eu zangada, arrumando minhas coisinhas lá, vou-me embora, não quero mais morar nessa casa, não gosto mais de você, essas coisas que existem.
Nelson Pretto: Como é o nome de sua mãe?
Ione Souza: Minha mãe é professora Iraildes Ribeiro de Jesus.
Nelson Pretto: E você lembra onde é que ela ensinava?
Ione Souza: Ela ensinava… fora de casa. A gente morava no Largo do Tanque. Nós sempre moramos ali naquela região da Liberdade, Largo do Tanque, São Caetano, aquele entorno dali. Quando eu nasci mesmo, não vão dar risada, mas eu nasci dentro do Curuzu. Mas com três meses de idade eu fui morar no Largo do Tanque, mais perto da irmã mais velha, a única irmã que ela tinha, parte de mãe, como se chama, né? porque nas famílias, não sei se vocês… É muita coisa de… É do casal, é da mãe, é do pai. Então, ela tinha irmãs por parte de mãe. E nós fomos morar no Largo do Tanque, voltando, porque também era muito perto da escola onde ela ensinava, que é uma escola que a estupidez da gestão municipal acabou de destruir. E tem uma outra que está a pouco de ser também destruída, a edificação, que é a escola Emílio Lopes Freiro e Lobo, que ficava na subida de São Caetano, quem vai ali no Largo do Tanque, e tem uma que fica no Largo do Largo do Tanque, bem no Largo mesmo, subindo São Lourenço, que é a Manuel Florencio dos Santos. São duas escolas bem interessantes, porque eram casas. Uma era, porque acabou de ser destruída, tem uns dois ou três anos, e a outra, a última vez que eu passei por lá, tem uns três meses, ainda estava em pé. aluga-se ou vende-se e tal. É uma casa mesmo de moradia com aquele alpendre, com aquela coisa toda, que eram adaptadas para ser escola. Então, minha mãe trabalhou o maior parte da vida dela naquela escola, pelo Estado, à noite. E depois ela passou a trabalhar na prefeitura, eu devia ter uns sete, oito anos, num lugar que chama Alto do Peru, que é lá também entre a Fazenda Grande e o Largo do Tanque. Então a vida da gente foi muito ali próxima.
Nelson Pretto: E como era essa vida ali? Já tinha o picolé capelinha?
Ione Souza: Tinha picolé capelinha, tinha o cine São Caetano, que era onde a gente ia para o cinema. Eu me lembro da primeira memória que eu tenho de cinema, eu devia ter uns quatro anos e fiquei muito traumatizada, porque fui assistir aquele filme dos Meios Mandamentos de Moisés com o Charleston Heston, hoje eu sei quem é o Charleston Heston, na época eu não sabia quem era, era algum ator. E aquela imagem, duas imagens que ficaram muito gravadas, uma da morte do filho do faraó, que eu morri de pena do menino pequeno, a pobre da criança, me identifiquei com ele morrendo. E a outra, aquela imagem do mar se abrindo, e Moisés passando com a turma dele, que eu não vou chamar de hebreu, porque eu não sabia o que era hebreu, então Moisés com a turma dele, E a água vindo e derrotando também, afogando o faraó com a sua turma. Eu fiquei também com pena do faraó. Não consegui fazer essa ligação de ódio de nenhum dos dois. Eu fiquei com pena de que morria, porque era muito difícil. Me lembro também desse cinema, um outro filme aí, que esse você conhece. “Dio, como ti amo”, que tinha aquela música, eu adorava aquela música. E tinha uma cena também que me chamava muito a atenção, era a cena da despedida, a moça chorando, então eu tenho boas memórias do Sim, São Caetano, tinha Baleiro, tinha aquela coisa toda, você podia ir, atravessar só a ruazinha, que eu morava bem de fronte, uma rua assim, lateral, que é bem de fronte do antigo cinema, hoje ele é uma espécie de clínica médica, dessas clínicas populares, e minha mãe era muito conhecida ali, porque elas cresceram ali também, naquela região dali, então tanto que o nome dela era Iraildes, mas o pessoal já chamava ela de professora Didi ela morreu sendo chamada assim, de professora Didi, e na nossa casa então ela passou a trabalhar dois turnos, mas ainda tinha um turno que ela dava a famosa banca em casa, tanto ela quanto minha tia, que era leiga minha tia era alguns anos mais velha que ela, 8, 10 anos mais velha mas tinha feito o ensino primário quase completo e então ela era artesã não é bem artesã que chama, quem trabalha na fábrica que trabalha com o tear Tecelã e já casou, mais velha e o marido naquela coisa era militar, você não trabalha tinha ciúme porque minha tia era muito bonita então tinha muito ciúme ela ficou em casa, mas aí dava a famosa banca e aí eu vou falar um pouco, aí já não é mais só eu relembrando, mas já de uma reflexão profissional que eu acho que é difícil a gente separar se você trabalha com história da educação das lembranças que você tem, acaba entrando em uma região de fronteira que era assim, minha tia pegava as crianças menores naquele beabá, eu aprendi assim, com aquela um pedaço de papel, uma folha de papel que fazia assim, um buraco no meio, você primeiro aprendia o alfabeto todo, A, B, C e tal, depois vinha o salteado que você ia botando aquele papel em cima e ia salteando as letras pra ver se a criança tinha realmente decorado aprendido, né, as letras e os números, então minha tia era craque nisso aí, e minha mãe ia pegando as crianças mais velhas, hoje eu vejo que era uma forma de arrumação interna entre elas duas, entre a que fez o curso de normalista e a que não fez mas naquele momento o que eu sabia é que eu aprendia com minha tia, e é interessante que a gente também aprendia a escrever cobrindo a letra de alguém a minha letra é igualzinha a de minha tia não tem outro jeito não tem outro jeito, eu me percebi isso quando ela estava já bem mais velha que eu fui assinar algumas coisas em conjunto com ela, porque eu fui curadora essa coisa toda, e aí quando eu olhava a letra com algumas características mais pessoais eu tenho algumas letras que são mais arredondadas mas o tale, como se diz é igualzinho ao dela e eu lembro muito dela ensinando dessas brincadeiras todas e aí eu vou contar uma coisa que tinha na banca, tinha bolo bolo palmatória castigo físico então uma das coisas que fazia a diferença do pessoal gostar que minha mãe desse aula para os filhos é exatamente esse aspecto disciplinar, tinha bolo, os pais procuravam quando eu comecei a ficar adolescente eu dizia esse povo é louco, briga para vir botar esses meninos porque ela fechou a escola, ficou ficando mais velha e pegou um cargo de direção na rede pública E aí o pessoal ia procurar ela Ah, mas Didi, você vai fechar a escola? Quem vai ensinar esses meninos? Ah, eu tenho um menino muito retado em casa E eu preciso que você bote ele na linha E eu ficava olhando assim e dizia O povo é louco, né? Tem um dos últimos alunos Que agora está com 82 anos, Oswaldo Oswaldo, ele me encontra em alguns lugares a gente frequenta os mesmos locais espiritualistas e ele me disse, ah eu lembro tanto de sua mãe porque ele tem uma perna cortada, ele perdeu uma perna em um acidente de como é que trem né, que passava ali perto onde hoje agora o VLT e ele disse que minha mãe ele dizia: mas professora, a senhora depois de adulto, a senhora não descontava em mim né, eu ser perneta, não porque o mundo não ia ser diferente pra você assim, dura e na hora não tinha conversa, e quem também foi aluno de minha mãe, foi alguém que não foi professor daqui mas que interagiu muito com vocês Manuel de Almeida Cruz da pedagogia interécnica, foram os dois alunos de minha mãe, e eram os dois chamados de insubordinados, porque eram muito, eu acho que hoje, depois que eu cresci e conheci Manuel nas lidas da Vida, eu vi que ele não ia se adaptar àquele mundo de ficar A, B, B, B, A, era muito mais, né? E aí a palmatória gemia. Eu até lembrei disso, eram três palmatórias, uma dos meninos, que era Zorro, uma das meninas, que era Mimosa, e tinha uma outra pequena que ficava assim penduradazinha, né, tal. Depois elas pararam de trabalhar tanto, né, porque tinha todas as regras, mas elas ficavam lá de lembrança dessa época. Eu só tomei bolo duas vezes.
Nelson Pretto: Doía?
Ione Souza: Doía na mão e doía na alma. Na alma, acho que ainda doía mais porque os colegas estavam fazendo gozação, né? E eu ainda tinha a questão de ser filha da professora. Então, tomar bolo, pra eles, era nunca colega me deu. Que eu nunca dei, como é que eu dizia assim? Eu não era aquele tipo de aluno que errava muito, né? E tinha tal da sabatina, então na sabatina eu não dava bobeira pra colega me dar bolo, que eu não ia cair nessa. Mas ela própria me deu bolo duas vezes, né? Porque eu errei e numa coisa de matemática que eu acabei tomando bolo e eu sabia que as colegas, boa parte, estavam rindo naquele momento. Então doía no corpo, doía na alma. Quando os colegas tomavam, que era algum colega que eu gostava mais, minha prima, aí eu também chorava, mas depois…
Nelson Pretto: Mas então não era por disciplina, era também como um sistema de aprendizado. Os dois lados.
Ione Souza: Os dois lados. Se você errava, tinha dia de ter tabuado, eu me lembro bem dessa tabuada e de sabatina de uma forma geral. E era chamado assim mesmo, sabatina. Eu não sei porquê esse nome, sabatina, lá depois eu fiquei sabendo nas pesquisas é porque era dia de sábado que tinha essas atividades, né, nada coisa, mas lá já não tinha mais aula dia de sábado, era dia de segunda a sexta mas tinha a sabatina, a de matemática a de geografia, a de história e a de português, né, eu tomei boa numa de matemática e numa de geografia.
Nelson Pretto: Muito bem, aí entrou depois dessa formação em casa foi pra escola formal?
Ione Souza: Fui pra escola bem pequena. Fui pra escola bem pequena em termos formais. Eu me alfabetizei, minha mãe sempre falou que eu me alfabetizei, ninguém sabe como com tanta gente, tanta brincadeira de desenho, de escola, de faça letra e ficava ouvindo os alunos falando, soletrando o tempo todo ali sentada eu aprendi muito cedo e me lembro de ter alfabetizado meu irmão que é o colado em mim então tudo que eu aprendi eu ensinava a ele foram os dois quase ao mesmo tempo mais ou menos entre os cinco anos eu já sabia algumas coisas e tinha muito livro em casa, livro de história é isso que eu digo que é uma coisa que é muito diferencial para mim em termos das outras pessoas que eu conheço, porque sempre existiu esse estímulo ao uso de livros em casa. Minha mãe era aquela típica professora, que podia faltar alguma coisa, mas livro ela comprava. Então, tanto em romances como livros infantis, eu, quando eu fiz um ano, minha mãe comprou a hora da criança, que ainda está lá em casa, ninguém toca, ninguém pega. Está lá em casa, agora só meu sobrinho neto que eu mostro a ele as coisas. Mas assim, com cinco anos eu fui para a escola, já de infância. Era uma escola particular, que a gente fazia nesse circuito das coisas que existiam ali. Tem o Colégio Duque de Caxias, bem da franca do Colégio Duque de Caxias, tem uma rua larga, que o nome é o nome de algum político baiano, E ali tinha uma escola de um dono de várias escolas que tinha ali, que se chamava Almir Araújo, que foi político, era um cara enrolado, donado, um horror. A escola parou no meio do ano porque ele não pagou a professora. E a gente chorou muito, eu e meu irmão, que estávamos juntos, e eu fui para lá. E eu vou lembrar o nome dela porque esse meu sobrinho neto, que fez agora cinco anos, eu ganhei um quadro de um ex-aluno lá de Feira, retratando a escola normal, com duas figuras de normalistas, uma comum e uma outra uma mulher negra que ele fez para me homenagear. E meu sobrinho fica me perguntando, o que é aquilo ali? É uma escola. E aquela é sua professora? Eu digo não. E como é o nome da sua professora? Como era o nome da sua professora quando você era pequena? E aí eu fui lembrar, parei para poder contar a Jorge o nome das minhas professoras, aí lembrei. A minha primeira professora era a professora Sônia. Era uma moça baixinha, gordinha, lourinha com uma paciência com a gente terrível aí depois a gente saiu dessa escola essa escola fechou por causa desse rolo do diretor, do dono e nós fomos, foi quando minha mãe entrou na prefeitura e nós fomos estudar nessa Escola União e Progresso que era a escola da prefeitura conveniada como muitas das escolas daquela época e nós ficamos estudando lá e eu não consigo me lembrar o nome da minha professora Alzenita, que é muito engraçado, porque depois, quando eu dei aula na Católica, que eu assinei na Católica há muitos anos, o filho dela, Emmanuel, foi meu aluno. Então, foi bem engraçado, ele fez a história lá. Eu lembro mais de uma professora que meu irmão tinha, porque eu a admirava muito, era uma mulher negra clara, alta, Falava bem e tal Professora Antônia Me lembro muito de Antônia Depois de adulta, a encontrei na APLB Por ali Eu admirava muito ela quando eu era pequena Porque ela tinha postura Ela tinha assim, aquela coisa Me lembro das irmãs Melo Que depois foram pra Dirigentes da PLB Chamava elas de Irmãs Melo Que tá ainda hoje Acho que é da APLB me lembro de professora Didma, que hoje há muitos anos é professora da Uneb e tinha uma outra professora que chamava Alba e tinha uma que eu não gostava dela porque, Vera porque ela só gostava de meu irmão então eu não gostava dela ela era irmã de Antônia, me lembro bem dessas professoras, a gente ficou lá até o terceiro ano e aí minha mãe trabalhava lá, minha mãe chegou a ser diretora de lá, da escola, tinha muito aqueles, eu me lembro muito daqueles encontros de formação docente que a gente tinha, eu me lembro de um projeto que chama, acho que era Logos, uma coisa dessa, que tinha, que minha mãe sempre levava para acompanhar porque era eu não me lembro em que lugar da cidade é que era dado, mas era algum lugar que ficava ali no centro histórico, então era aquela prática de levar, não sair sozinha para ir para aquela região da rua do Bispo, aquela região dali toda. E eu me lembro muito dessas questões todas. Aí depois eu fui para estudar na Emílio Lobo durante o dia que era para poder tirar o quarto ano, o quinto ano primário, que eu ainda peguei aquela fase de você estudar para pegar o quinto ano primário. Então as escolas do governo você tirava e era, as pessoas achavam que seria mais fácil você passar no exame de admissão. Aí minha mãe me botou lá na escola Emílio Lobo onde ela trabalhava à noite. E essas duas professoras eu lembro muito. Era a professora Zilda que ensinava português, geografia e a professora Ruth Gifoni que ensinava matemática e ciências. Zilda eu não me lembro do sobrenome dela. Ruth eu me lembro porque depois de adulta eu a encontrei várias vezes e eu tinha muito medo dela. Tinha muito medo porque ela era muito rígida. Eu vindo da minha mãe, eu tinha medo de Ruth. Imagina a rigidez dela, né? Ela era muito rígida, era uma mulher de classe média. Então, a gente sentia aquela diferença em relação a ela. Agora, ela é uma excelente professora. E eu me preparando para fazer o curso de admissão, estudando naquele livrão que tinha de admissão, né? me botaram para estudar aquilo quando chegou no fim do ano eu me preparando pra ir pro quinto ano e fazer o exame de admissão passou a 5692 e me livrou daquele terror, né, porque eu já tava na zona do terror, né eu tenho que passar, senão minha mãe me mata e isso, aquilo, aquela coisa toda veio a 5692, que eu nunca esqueço o nome, o número porque foi a que me livrou de todo aquele horror, e aí eu passei da quarta série pra a quinta série mas continuei naquele entorno a escola tinha aquelas linhas, né, cada escola mandava pra uma escola de, como a gente usava o termo ginásio aí eu fui pra Celina Pinho no fim de linha do do Curuzu e aí era massa porque eu podia andar na rua sozinha subia a turma descia a turma, passava naquele Paes mendonça que tinha ali na entrada do Curuzu, comprava biscoito recheado, dizia fazendo gozação com a cara de todo mundo pela ladeira de pedra, era massa. Mas aí por algumas resoluções de minha mãe, com o excelentíssimo seu meu pai, que até agora não apareceu, vai aparecer aqui agora, meu pai era um homem da época dele, ele era funcionário público do INSS, na época não era, tinha um outro nome do INSS, era… Inampes. Inampes, isso. Era do Inampes, exatamente. Que ficava ali no Centro Histórico, na Rua do Tesouro. E era aquele tipo foguete, né? Ele aparecia, desaparecia, ele aparecia, porque na verdade ele tinha uma outra família, né? E… ele era tão safo que uma família morava na Liberdade, a outra morava no Largo do Tanque. Era uma… Depois que eu fiquei adulta, bem adulta já, depois que ele morreu, ele morreu e tinha quarenta e poucos anos, eu vim conhecer a viúva e ela me disse a mesma coisa que minha mãe dizia, que o terror delas, que aí canta tanto uma quanto outra, não é um terror em conjunto não, cada um do seu lado, mas o terror delas era que os filhos se conhecessem naquelas festinhas, na discoteca que tinha. Aí eu vim entender porque minha mãe nunca me deixou ir na discoteca. Eu nunca fui pra discoteca, quem pagou o pato fui eu, nunca fui pra discoteca não podia ir nas festas, porque lá tinha um irmão homem e três mulheres cá na casa de minha mãe era uma mulher com dois homens, então se juntasse tudo podia sair alguma tragédia e aí a coisa existiu então eles resolveram, foi uma das voltas deles e a gente foi morar no São Caetano ali pé não sei se vocês conhecem um lugar que se chama Formiga de São Caetano você conhece? você sabe aquela parte que tem a Formiga pra cá a rua de São Caetano a Formiga é pro lado de lá há uma rua que tem assim embaixo que se chama Conjunto Miguel Calmon que são de casas, nós fomos morar ali foi uma época que eu gostei muito, que era uma casa grande com quintal, com varanda com essas coisas todas e minha mãe, pra ficar mais perto se transferiu pra escola Francisco Mangabeira que fica bem no Largo da Geral aí eu fui estudar ali no Edson Carneiro fiz a sexta série ali no Edson Carneiro depois a gente, era o sistema Pinto de Carvalho um pode adjetivar?
Nelson Pretto: Pode.
Ione Souza: o famigerado sistema de ligação entre prefeito e vereador na época da ditadura, aquela coisa toda a gente não sabia nada de ditadura mas sabia que a coisa era fechada, né, você era a escola pra você os pais adoravam, né porque era assim, diretor tinha todo o direito de sobre o aluno abrir bolsa, né futucar sacola tal, e no Pinto de Carvalho tinha uma coisa bem interessante, que era um diretor que até hoje é visto como um grande cidadão, um grande herói, não vou entrar nos méritos, mas é uma lembrança que ele já não era mais diretor oficial, mas ele tinha esse direito de entrar, de disciplinar alunos, né, tal, e vira e mexe, um dia na semana ele aparecia nas salas de aula pra fazer essa vistoria, era um dia de terror, porque tinha aquelas colegas mais espertas, né, que fumavam, aquela coisa toda, e aí quando ele chegava, Guedes chegou, Guedes chegou, e aí era aquela loucura pra esconder carteira de cigarro, botava dentro da minha sacola, Porque eu não fumava, eu era quietinha. Então, na minha bolsa, ninguém ia bolir Então, eu era tão… Eu digo assim, a minha rebeldia era para dentro. Eu não fazia, mas eu ajudava quem fazia. Então, elas botavam dentro da minha bolsa. Aí, quando chegava aquela vistoria, não, essa daqui não, não sei quem não, Iara e Ione não, elas são pequenas. E a gente era pequenininha, né? Em relação às outras. Então, deixavam a gente mais ou menos em paz. E foi um período muito bom.
Nelson Pretto: E você estava mais ou menos com…
Ione Souza: Tinha 12, 13 anos. Com 14 anos eu terminei o primeiro grau.
Nelson Pretto: Isso aí era, então, ainda um período duro da ditadura. Esse clima aparecia na escola? Quer dizer, fora o Guedes.
Ione Souza: Fora o Guedes. Tinha aquela coisa, uma lembrança que eu tenho muito, que na época que eu gostava de ir, era quando tinha a inauguração de escolas. Então, foi um período que hoje eu vejo, eu sei, Inclusive tem a Raizete que pesquisa isso. A gente tem uma interlocução muito boa, porque ela pesquisou exatamente o Pinto de Carvalho, que é onde eu estudei, e foi lá, conheceu a secretária que vem mais ou menos dessa época, acabou de falecer, tem um ano, dona Edna, de infarto. Mas a gente ia para as inaugurações das escolas. Eu me lembro quando inaugurou duas escolas na Fazenda Grande. onde minha mãe depois foi vice-diretora noturna, que é a Dom Avelar, e a Bento alguma coisa, que fica bem no começo da Fazenda Grande, não sei se ainda existe, porque muitas escolas foram fechadas, mas era uma escola grande que a gente foi e tinha que ficar lá perfilado, aquela coisa de cantar o hino nacional. No Pinto de Carvalho tinha muito aquele controle disciplinar da sexualidade, então tinha turma que ia para o fundo do colégio para fumar, para namorar essa coisa toda aí vocês vão perguntar: você ia? não, porque o povo todo da escola era amigo de minha mãe minha mãe fazia parte do sistema dessas escolas a Anitta Nobre que foi diretora e que foi colega dela do Instituto Normal, no ICEIA foi que conseguiu para ela o cargo Então a gente era muito vigiado mesmo, né? Assim, de saber que se aprontasse antes de chegar em casa, o peru, o dedo duro, já tinha ido contar. Ou depois ia contar. Então eu era muito medrosa nessa coisa. Mas isso era muito presente, de controle, né? Eu me lembro que tinha um centro estudantil que vira e mexe, tinha algum problema lá, mas era assim, uma coisa meio distante da gente, né? Eu que lembro muito de lá do Pinto, com os colegas. Alguns agora criaram um grupo de WhatsApp. Eu entrei no grupo do WhatsApp, mas não aguentei muito essa coisa de Ah, por quê? Que saudade de Guedes, que saudade de Ana Maria. Não combina muito comigo, né? Então eu aguentei, saí uma vez, me botaram de novo. Quando foi agora, eu saí porque não dava. Me desculpem, mas não combina, não dá. não vou ficar sendo hipócrita e me aborrecendo, tem uma professora que era o terror da escola toda, e que uma colega, que até fez história também comigo, me disse, ah, mas a gente tem que compreender que ela era uma professora, como é que se dizia assim, do tempo antigo e tal, não, aquilo não era do tempo antigo, porque as outras eram do tempo antigo, e não eram tão cruéis, não eram tão autoritárias, ali era ela mesmo e fizeram uma grande festa aí, nós estamos em 2026, em 2024, fizeram uma festa com homenagem para o professor, com placa, tal, eu em cima da hora não fui, porque eu disse, eu não vou dar placa para a Ema Venera, não vai ter santo sobre a terra que me faça fazer isso, e aí eu não fui, então lá, mas vai ter no ano que vem, vai ter a festa dos 50 anos que terminamos a oitava série, aí eu vou tentar ir, como vai ter muita gente, né? Eu vou me perder na multidão e devo ir também. E tem uma professora que eu gostava muito, que era professora de… Como é que a gente chama hoje? Ciências Naturais. Professora Ieda, né? Ainda está viva, com seus 90 anos. Então, eu quero ir ver a professora Ieda. Mas eu lembro muito do professor de português que formou gerações na Bahia, Petrônio Oliveira, que era professor de latim. lembro muito dele, ele pegava no pé da gente, mas a gente gostava, gostava porque ele era muito assim, parecendo um paizão, aquele pai que dizia, você não fez isso, aquilo e tal, e me lembro muito, além dessa matemática que é pra lá, dos lados de cá do coração, tem Petrônio, que é de português, tem uma outra que era um casal, que ele era de história, e ela era de português, Rosélia Robélia, uma coisa dessa, Clarizio, que era muito conhecido e um professor que eu gostava muito dele que era o professor de história que era o professor Emilcon esse professor me chamou muito a atenção a vez que ele fez uma coisa muito engraçada quem tirasse mais de 70 pontos se quisesse dar dois pontos para algum colega que estivesse na beirada isso me chamou muito a atenção eu digo que esse cara é legal e assim, ele dava aula de história e aí eu vou entrar porque é história Clarizio eu gostava dele, mas ele dava história contemporânea eu nunca gostei de história contemporânea nunca gostei dessas coisas mas Emilcon dava história antiga então ele fazia uns livrinhos de história antiga que ele mesmo publicava e mandava a gente, quem que pudesse comprar, ia comprar ali no, não sei se você conhece ali na rua Chile o edifício Sulamérica, porque o Sulacap todo mundo conhece, que é o da frente. O Sulamérica fica escondido, né? Aí a gente ia ali no Sulamérica comprar. E foi uma briga lá em casa, porque o meu livrinho, meu irmão mais novo, queria ficar pra dono. Eu fui lá na casa de minha mãe buscar o meu livrinho que trata da Ásia e dos hebreus. Ou seja, era um cara que tinha feito história realmente na católica, naquela coisa de quando era história com geografia junto, era um cara que tinha o conhecimento e ele dava aulas maravilhosas. Nas aulas dele você se via no Nilo, andando no camelo junto das pirâmides, né? A forma que… Agora, era um terror, porque era o dia todo fumando. Ele tanto dava aula, quanto fumava. Tanto dava aula, como fumava. Você tinha que engolir aquele cigarro nele. Mas as aulas dele eram eu, com 13 anos, não achava fantásticas. E a professora Ieda tinha duas coisas. Primeiro, ela era preta. Era não, é preta. E segundo, ela também levava elementos de ciências, passavam, e ela levou esqueleto. Então, a gente pôde pegar no esqueleto, bulir no esqueleto. Essas coisas eram muito legais. Então, eu me lembro. Daí, eu terminei o primeiro grau e tinha que escolher o que fazer. E aí, na época, todo mundo, a maior parte das pessoas queriam fazer escola técnica. Porque era do polo ganhar dinheiro, a ideia de que você ia ganhar dinheiro no polo. E eu entrei nessa conversa. Tanto eu quanto meus irmãos, quanto meu irmão colado em mim, fizemos escola técnica. Eu já entrei no segundo, terceiro semestre, e ele entrou como mais neófito, mais coisa mesmo. E foi um período muito interessante para mim na escola técnica. Aprendi muito, aprendi muito disciplina de você ter que estudar por si mesmo, porque o professor não passava a mão pela sua cabeça. Tinha um diabo de passo, que eu não fiz passo, mas meu irmão fez. E o namoradinho da época também fazia passo, me ensinava para quando eu fizesse o vestibular, porque eu não fiz logo no início, quando eu saí, eu não ter dificuldade de física e de química. Eu terminei a oitava série, fiz um ano no ICEIA, porque minha mãe atormentou minha cabeça para eu ir fazer magistério, eu fui sem querer, fiz um ano no ICEA, e durante a noite eu estudava para fazer a escola técnica. Passei e fiz três anos de escola técnica. Mas aí foi exatamente no ano de… Aí eu já tinha uma visão política um pouco maior. Por quê? Porque lá na escola técnica tinha um cidadão, tem um cidadão que ainda está vivo, que era do PC do B. E andava com aquela ruma de jornal debaixo do braço. O pessoal queria ver o diabo na frente, mas não queria ver Iglesias Lá vem aquele cara do PC do B. Mas eu achava ele muito bonitinho. E aí dava ouvido às maluquices dele, que na época a gente dizia que era maluquice, de vez em quando pegava um jornal para ler. Outro dia a gente deu tanta risada, porque a escola técnica de dois em dois anos faz o encontro agora, tem mais ou menos dez anos, vai para o quinto agora. E esse último, do ano passado, ele estava aí me acabando de rir, a gente rindo, eu digo, Iglesias, você faz parte da minha consciência política, porque você vinha com aquele jornal, e eu li o jornal, interessada em conversar com ele, é óbvio, né? Mas começou a abrir um pouco mais a minha consciência política. E o outro lado, assim, foi quando minha mãe era muito, pegava muito no pé. Então, uma das válvulas de escape que eu criei era ir para a biblioteca central. Eu ia muito para a biblioteca central pegar romance, livro para ler. E um dia, você precisa me perguntar como é que eu fui lá a primeira vez, eu não sei lhe dizer, na biblioteca do ICBA, daqui da Vitória. Eu não sei como é a primeira vez, eu sei que eu me vi lá. E aí eu ia para a biblioteca do ICBA e eu era bem novinha, tinha 16, 17 anos, eu sempre fui baixinha, era mais magra ainda, imagine o belisquinho que eu era. E um dia eu estava lá e chegou um cara, um senhor com aquela barba grande, e aí conversou comigo, bateu papo, me disse que achava engraçado eu sempre pegar a área de humanas, né, pra ler eu sempre gostei dessa coisa de como a gente chamava antigamente folclore, né, essa coisa e aí ele ficou conversando e me perguntou onde é que eu morava aquela coisa toda, naquele tempo a gente não tinha tanto medo de conversar com as pessoas, né e era Manuel de Almeida Cruz, e aí a gente foi trocando informação, ele descobriu que eu era filha de professora DIdi e eu cheguei em casa, conversei com minha mãe Ela disse, é esse mesmo, filho de seu Leandro, tal coisa e tal. E aí foi engraçado, porque eu comecei a ir muito no ICBA, mas ao mesmo tempo eu queria fazer engenharia, porque eu queria ganhar dinheiro. Eu queria fazer engenharia mecânica para ir para a plataforma e ganhar dinheiro. Só que eu não sabia que no Brasil, de 1982, mulher não ia para a plataforma. não era coisa de mulher, eu não ia ganhar esse dinheiro todo. E por cima ainda veio a crise, que aí a gente já tinha consciência da crise. A crise, na minha turma, tanto homens quanto mulheres tiveram muita dificuldade de arranjar emprego. Nós mulheres, obviamente, bem mais. E aí eu entrei numa certa espécie de, hoje eu vejo que foi uma mini depressão, você terminar o curso, e aí minha mãe “está vendo que você não fez magistério, e disse que você fosse ser professora porque quem é pobre é de cor”, porque ela não usava preta nem negra, usava de cor. Que é como a gente tem que ser professora e essa coisa toda na cabeça. E aí você com 19 anos olha para um lado, olha para o outro, formada e sem arranjar emprego. E eu aí cedi, fui fazer, terminar o curso do magistério. Entrei de novo, de novo para fazer.
Nelson Pretto: No ICEIA?
Ione Souza: não, não fui mais para o ICEIA fui para uma escola que tem ali na Pero Vaz, eu não sei o nome dela ela fica na esquina, quando você termina de ir pela Pero Vaz e você pega a Pero Vaz e pega para o Pau Miúdo, eu já tinha começado a fazer o curso de história na Católica, porque eu ia fazer cursinho para fazer engenharia aí eu pensei, eu vou gastar meu tempo fazendo engenharia agora, melhor fazer o que minha mãe está falando e fazer alguma licenciatura. Aí fiz o vestibular da católica, passei em boa posição, né? Você vindo da escola técnica, você sempre passava em boa posição. Passei em boa posição. A segunda opção que minha mãe me fez botar, eu não queria passar, me perdoem, mas eu não queria fazer pedagogia. Mas a língua paga, né? Eu fiz história e lá conheci uma professora tornou minha amiga desde aquela época hoje, depois a gente fez até o mestrado junto, ela foi fazer o mestrado já bem mais coroa quando eu fiz e ela era secretária, tinha algum cargo lá nessa escola e ela me disse por que você não faz o magistério de segundo grau? Porque quando sai concurso, geralmente é no magistério de segundo grau é mais difícil de que você na verdade não tinha concurso para professor de nível fundamental 2, ensino médio. Era por contrato, aquela coisa toda. Ela me disse, você faz o curso que quando tiver concurso, você faz o concurso. E aí eu segui o conselho de Jane, junto com toda a cultura familiar. Então, eu fazia na católica e fazia esse curso na rede pública. Como eu já tinha mais ou menos, acho que um ano ou dois, vindo de outro lugar, um ano mais, Eu sei que foi mais rápido. Então, eu tirei o magistério já fazendo história. Eu fiz história o curso todo na católica, licenciatura. No meio do curso, eu fui assistir uma palestra, um conjunto de palestras lá na UFBA Foi quando um monte de gente voltou do doutorado. Eu me lembro bem de Rosário. de Maria Inês e de Albergaria. E aí eu fiquei encantada com Albergaria, com as maluquices de Albergaria, com as loucuras de albergaria, e resolvi fazer antropologia, porque eu queria fazer uma pesquisa sobre vida urbana como a Albergaria tinha feito. Mas ele não me quis nem ninguém como orientadora. O Albergaria não orientou ninguém. Ninguém, ninguém, ninguém, ninguém. E aí eu fiz o meu curso, terminei o curso de História. Eu gosto muito de História, depois optei até por ficar mais em História. O mês passado eu estava lembrando, o Ginzburg morreu, e eu lembrando como foi que eu tive contato com a primeira obra do Ginzburg, Queijos Vermes, com o professor Argolo. Não foi, engraçado que não foi em metodologia, foi em América. em América 1, América 2, acho que América 2, que a gente leu, não, minto não, me engano, Moderna, foi História Moderna. A gente foi ler o Queijos Vernes como parte de História Moderna. Depois é que eu fui ler como metodologia. Eu já estava na especialização, no mestrado e outros espaços. E como é que a história da educação entrou na minha vida? Bem, ela nunca saiu, né? Ela sempre esteve. Nunca consegui me livrar. E quando eu estava na Católica, no… Aí eu vou ter dúvida, não sei foi no segundo ou no terceiro semestre, eu tive uma professora, Maria Lia, que era pedagoga, e ela dava aquelas disciplinas da área de educação, se não me engano eram fundamentos de educação, alguma coisa assim, estrutura de educação, uma coisa dessa. E aí ela perguntava a gente, como quase todos os professores do início, Eu me lembrei da professora de introdução aos estudos históricos, que foi sempre minha ídola, a Yara Khoury. A Yara Bandeira de Ataíde. A Khoury veio depois. A Yara Bandeira de Ataíde, que foi minha professora de introdução aos estudos históricos. Eu sempre gostei muito de teoria. E lia que, sabendo da minha relação familiar, ela perguntou o que cada um queria, aquela coisa toda. minha relação familiar e acho que do desempenho que eu tive em sala de aula, eu tinha feito fazendo magistério, então tinha uma leitura mais coisa, ela me deu um livro que pra mim foi fundamental que foi o livro da Liana Teixeira Marta, História da Educação, aquele pequenininho branquinho, desse tamanho acho que é da Ática, né? Ela me deu aquele livro e me disse, lê esse livro que você vai gostar, você vai mudar a sua cabeça em relação a ser professora, porque eu tava fazendo, mas eu não queria, eu estava fazendo porque tinha que fazer e realmente, eu um livro que me que guardei me serviu muito de reflexão sobre a trajetória de minha mãe, sobre essa coisa dela considerar que se você nasce preto, pobre, periférico, você deve primeiro fazer magistério, fazer concurso e se estabelecer para depois fazer outros sonhos, o sonho dela foi assim mesmo, mas trazer outros sonhos e tal, mas aí foi quando eu me envolvi em ciências sociais em antropologia e conheci a discussão de gênero com a Cecília Sardenberg e nunca fiz parte do NEIM assim oficialmente, porque eu já tinha feito o concurso para a prefeitura, eu terminei logo o curso de história e realmente teve concurso os acasos da vida foi quando o Mário Kertz brigou com ACM e pra se vingar de ACM fez concurso. Aí a gente vai perguntar assim, por que o concurso foi uma vingança contra o ACM? Aí eu acho que Pretto sabe mais. Aquele sistema que eu falei das escolas de ter um vereador, de ter… Era uma capilaridade danada, né? Porque tinha o líder de rua, né? Que era geralmente chefe de uma associação de bairro, que era ligado ao vereador, que era ligado ao prefeito, tal. E os cargos das escolas, desde a pessoa que limpava o chão até a merendeira, e passando pelas professoras e pela direção, era tudo ligado nessa hierarquia. E aí eu não sei qual foi o tchan que deu na cabeça de Mário Kertz, mas ele percebeu isso e ele quebrou, realmente ele quebrou em boa parte, quando fez concurso. Botou um monte de gente que não tinha ligação com esses vereadores nas escolas. E nesse bolo eu entrei. Entrou eu e a diretora daqui, Nanci. Nós entramos no mesmo concurso. Fomos colegas de curso de ciências sociais e entramos no mesmo concurso. Então, as escolas receberam um monte de gente nova. Eu tinha 25 anos. Tinha gente mais nova, com 20 anos, como Nanci. Eu tinha 25 anos, cheia de gás, cheia de teoria na cabeça, cheia de vontade de fazer alguma coisa. Foi uma experiência muito legal, porque nós fomos preparadas, capacitadas, com a direção da secretária de Educação, que era a Eliana Kertz, que você também lembra, foi quem deu força para que a discussão sobre o construtivismo chegasse na Bahia. Então, nós tivemos um curso de preparação comm, como é o nome da mulher? Celeste alguma coisa, que era aluna, tinha sido orientanda de Emília Ferreiro, então a gente teve, na época a gente chamava de apostilas, e quem quis aprender, aprendeu. Claro que a rede como um todo, que depois virou coisa da rede, e eu acho que foi a pior parte, porque o pessoal começou a falar de método, e a criar aqueles… Como é que eu poderia dizer assim? aquelas formas de medição que não tinha nada a ver com a ideia original do construtivismo e passou a ter planilha para poder você medir, para você preencher e dizer o que é que o aluno estava fazendo. Virou realmente um método e não uma prática educativa. Acho que uma prática educativa eu me lembro que eu tinha feito algo que na época era muito comum mas é ilegal. Que era você ficar de substituto de um professor sem estar legalmente estabelecido. E quando eu fiz esse curso de construtivismo que foi o quê? Uma semana, 15 dias, uma coisa assim que a gente teve. Teve aula de história da Bahia com o professor Ubiratan. Eu não me lembro quem teve a discussão sobre a geopolítica de Salvador, a parte de Milton Santos, toda essa parte. Mas isso aí para mim já era mais comum. O que me encantou mesmo foi a discussão na época do construtivismo. E quando eu vi aquilo, eu me lembro que eu senti uma dor muito profunda, porque eu já tinha dado aula antes e aqueles garranchos dos meninos a gente achava que era burrice. A gente não ia nunca imaginar que aquilo ali… Aí eu perguntei assim, mas vocês não deram Piaget? Demos, né? Ai, que aula chata de psicologia, esse negócio chato, que porre Era nesse nível que a gente fazia. Então você vê aquilo dali, das etapas de Piaget, na prática, e você via realmente, quando eu fui pra sala de aula, eu fui designada pra uma escola na capelinha, era uma escola, a Capelinha é um alto, né? Aí você descia, no fim de linha da Capelinha, eram as escadinhas de madeira que você, minha mãe foi comigo, aí a gente descia, chegou lá na escola, a diretora disse a vaga já tá ocupada, eu disse, meu Deus do céu, que maravilha, subi as escadinhas de novo, aí voltei para a Secretaria da Educação de lá do, é lá no na Boa Vista de Brotas cheguei lá, me mandaram de novo para outra escola com aquela coisa, tomara que tenha vaga, viu sem paciência, né, aí fui para Marechal Rondon, Campinas de Pirajá, as duas escolas eram escolas de convênio, né e tinham as professoras que eram todas ligadas aos vereadores, ao vereador não, que lá era um presidente de associação dedo duro de vereador aí quando a gente chegou, uma pra de manhã uma pra de tarde ele não gostou, é claro ele se intrometia em tudo na escola tinha uma mulher dele que era uma merendeira pense num ser humano detestável mas eu cheguei e comecei a dar a aula e tal e quando tentando usar o método e quando você vê, quando você diz a uma criança, ah, isso aqui você queria falar tal coisa, aí você dá um chute que ele diz é isso e se sente feliz porque aquele garrancho dele estou usando o termo que a gente usava está sendo interpretado é realmente uma hipótese de silabação e de compreensão do universo, eu estou vendo isso agora com esse meu sobrinho neto que ele está na fase de perguntar isso, quem foi sua professora, você estudou e agora tudo ele pergunta assim, você pega, fala alguma coisa, ele diz, que palavra é que começa? Ele ainda não sabe distinguir palavra de letra, mas ele sabe que alguma coisa começa, né? Então você vê que isso é uma realidade, e aí a gente fica pensando assim, quantas crianças não foram expulsas como burra, isso, aquilo tudo que se dizia, me lembro daquele livro, né? Burros e iletrados, tal, do o Marco César de Freitas, que trabalha rústicos, burros, iletrados, sobre essas questões disso aí. Mas na história da educação, então, tinha dado um tempo, tinha tido interesse, mas a antropologia me pegou de jeito. E lá, eu, muito influenciada pela discussão do… Na época, não era gênero. Na época, a gente dizia a questão da mulher. Da questão da mulher, Eu comecei um projeto que era em antropologia da saúde médica sobre atendimento ginecológico. Não foi uma experiência muito boa pela orientação, vamos passar para cima. E foi quando eu terminei, já estava trabalhando, dava aula na prefeitura, pela manhã dava aula no estado à noite. E aí, uma colega que tinha sido minha colega de graduação, me chamou para fazer uma seleção na Católica, em 1996, para uma disciplina de cultura na área de antropologia. Eu fiz e depois disso surgiu também a oportunidade de eu fazer a seleção da UFES. Eu fiz a seleção da UFES para antropologia, fiquei como substituta dois, três anos. Depois já surgiu o concurso para professor auxiliar, na época ainda tinha o concurso para auxiliar. eu fiz o concurso para auxiliar e quase na mesma época eu já estava na Católica então a Católica fez um um PROCAD como se chamava na época com a PUC de São Paulo era a Católica, UNEB uma Universidade de Minas Gerais eu acho que era a Federal de Uberlândia Uberaba, uma das duas e a Católica sobre a liderança do professor José Carlos de Almeida e eu entrei nessa seleção fui aprovada e fui pra PUC de São Paulo enfim fui pra São Paulo sempre quis fui pra São Paulo levei uma mala desse tamanho parecendo que ia levar Salvador inteira.
Nelson Pretto: Mas antes de ir pra São Paulo eu queria voltar duas coisas primeiro, tudo em termos de ambiência como era a ambiência na escola técnica porque passou muito rápido a escola técnica que a escola técnica era sempre uma referência, ainda hoje. Como era uma mulher na escola técnica? Eram muitas, não eram?
Ione Souza: A minha turma foi muito engraçada. Eu fiz um curso que hoje acho que é o top da escola técnica, que é automação. Eu fiz instrumentação. Na época a gente chamava de instrumentação industrial. Eu, na verdade, não faça essa cara não. Eu não queria fazer instrumentação. Eu queria fazer mecânica. Que eu tinha na cabeça que eu ia ser engenheira mecânica.
Nelson Pretto: Na plataforma.
Ione Souza: Na plataforma, pra ganhar dinheiro, né? Pra ganhar dinheiro. Mas minha mãe me disse que se eu fizesse mecânica, ela não deixava eu estudar. Então, minha mãe não era brincadeira, né? Minha mãe era leonina, feito eu. Muito mais leonina de que eu, que ela é segundo decanato, então muito pior. Minha mãe não era brincadeira. Então, ela disse que eu não ia estudar e eu sabia que ela não ia deixar eu sair pra estudar. Então, eu fiz um acordo, né? Eu peguei, eles davam assim uma apostila, como é que chama? Eu vou usar o termo da época, né? Apostila. que viam os cursos e as atribuições. Aí eu olhei. Química eu não gostava. Estradas também não. Edificações também não. Aí eu olhei. Metalurgia, eletrotécnica e mecânica. Aí eu disse, eletrotécnica… Rapaz, o negócio de ficar metendo o dedo em tomadas, esses negócios, não vai dar certo. Metalurgia é muito pesado. Então eu vou pegar isso aqui, que tem uma cara de comando, não sei o quê, processos de comando petroquímico, tem essas coisas assim. Isso eu vou fazer é esse. E mais 16 moças pensaram a mesma coisa. Então, o coordenador do curso, na época, reinventou de mudar a cor do guarda-pó. O guarda-pó era verde, que era o guarda-pó da área de elétricas. Então, era e tal. Mudou, acho que foi de eletrônica, que passou a ser eletrônica, aquela telecomunicações, passou a ser eletrônica, lembro bem. E o nosso, ele botou um bege. Aí você imagine, aquele monte de moça, coisa rara, né? Uma turma tem 16 mulheres, um monte de moça saindo no primeiro dia do laboratório, você tem um pátio da técnica, o da gente era bem ali, onde hoje é parte administrativa, o nosso laboratório era bem ali. Aí saia a turma toda vestida de guarda-pó bege qual foi a gozação? pombo-correio pronto, aí pronto. Bom, pegou o nome da gente era pombo-correio, né? Mas aí eu fiz o primeiro semestre, que era o terceiro e tive a experiência muito desagradável, né? De um professor pegar no pé e também a fragilidade da gente, que não tinha feito o básico lá não tinha feito o passo, aquela coisa toda, eu perdi vim pra outra turma que foi a turma com que eu fiz meu curso quase todo, mas engraçado não tive contato com todo mundo, então eu tenho dois grupos de whatsapp, um das meninas, somos seis ou oito da primeira turma e um outro que é da turma com que eu me formei em 82 eu me dou bem com todos eles felizmente, me dou até melhor do que o pessoal do ginásio mas lá era uma coisa muito sútil isso de ser mulher os professores da parte base da parte teórica eram menos incisivos nisso, mas os professores da parte prática que eram pião do polo estou usando o termo pião do polo eram muito enfáticos de dizer a gente que a gente não ia arranjar emprego era assim algo declarado então eu estava lá eu entrei em 79 80, 81 fui até 82 e eu lembro de um professor que era um cara desagradável eles quase todos eram da Petrobras e aquele pessoal que aprendeu instrumentação na tora no campo no chão de fábrica versus os professores da parte mais teórica que eram alunos de física alunos de matemática então era um pessoal vamos dizer assim, mais cuidadoso com a gente eu sinto assim tem uns 4 ou 5 anos que morreu um professor desse da área de eletricidade que nós alunas adorávamos ele, porque ele era um cara muito legal, sala de aula, e tinha uma qualidade, para mim, maravilhosa. Ele não dava em cima da gente. E aí eu comentando com um amigo, que foi um pouco mais de uma turma um pouco após a minha, que foi da Petrobras, aquele cara todo, a gente, eu comentando, não sei quem morreu, ele fez, não gostava daquele cara não, mamão, não sei o que. A gente chegou depois na Petrobras, e o que ele ensinava, não dava nem para começar. Eu disse, ah, eu gostava muito dele, porque eu usava duas balizas. Primeiro, para mim, o que ele estava ensinando ali estava legal. E esse outro lado era contado nos dedos, ele estava entre os contados nos dedos, que não aprontava pro lado da gente, né? Então, para mim, como pessoa, e depois ligada à questão feminista tal, era uma qualidade muito importante nesse que já partiu. Mas era…
Nelson Pretto: Era muito rígido?
Ione Souza: Não sei lhe dizer se rígido, né? Porque, assim, a escola técnica, você tem que saber matemática, né? Você tem que saber bem matemática para dar conta daquelas disciplinas iniciais. Tanto que, não sei hoje como é, mas o índice de reprovação era entre o básico, que era o primeiro e o segundo semestre, e o terceiro e o quarto semestre, que era muito o enfoque naquelas disciplinas, volto a dizer, mais teóricas, na minha área, era a área das questões de eletricidade, então a gente dava eletrotécnica, a gente dava eletrotécnica, eletrotécnica 1, eletrotécnica 2, quase tudo em cima de cálculo matemático, de desdobramento de fórmulas. Eu me lembrei agora, tinha um outro professor, este eu achava ele muito simpático, né? Ele era, obviamente, bem mais velho, mas naquela época a gente achava mais velho o quê? A gente tinha 16 anos, quem tinha 25 pra gente já era, pelo menos pra mim, já era bisavô, né? Que é o caso. E eu tive três professores que eram assim, mais ou menos isso, que eu, dois eu me dou até hoje, né? Inclusive ele foi pra festa, gente muito boa, Anibal, Navarro, eu quase que ia falando o nome do desafeto, Navarro e Edinaldo. E esse Edinaldo era muito engraçado, ele era assim, forte, babudo e tal. E ele, a gente na prova, ele era eletrotécnica 1. E eu me lembro que todo mundo, deixa eu fazer aqui o gesto para vocês verem, aqui debaixo da perna, né? A sanfona. Sabe o que é a sanfona, né? A pesca com essa fórmula. Era fórmula, que era um horror de fórmula. Então, todo mundo com a sanfona aqui debaixo da perna, com a sanfona para discretamente botar aqui, né? E olha, ele entrou, olhou para a cara da gente, deu uma risadinha, chegou no quadro, botou todas as fórmulas mãe. Aí todo mundo olhou para a cara dele e disse, aí ele disse, vocês acham que eu sou o quê? Eu não fui aluno, não. Eu sei que está todo mundo com a pesca aqui. Olha, está aqui a fórmula, é só vocês desdobrarem. E a gente olhou assim, porque disse, o cara botou a gente no chinelo, no chinelo, né? Mas era assim, tinha essas questões, né? Então, quem vinha de escola particular e entrava na escola técnica, o que foi mais longe de nós, da minha turma, foram dois que fizeram engenharia elétrica, um fez aqui, na UFBA mesmo, Kleber. Kleber era um monstro de matemática, né? E foi chefe da Petrobras, está agora aposentado, Kleber Luiz. E o outro era o menininho, o Paulistinha, filho de papai, que era Edgar. Imagine você vindo do Largo do Tanque, tem um coleguinha que mora na Graça. Essa cara mesmo E Edgar voltou para morar em São Paulo com o pai. A última vez que eu conversei com ele, ele era executivo na Embraer, Aquela coisa toda fez engenharia elétrica lá em… Como é que chama aquela cidade de São Paulo que tem a escola? São Bernardo. São Bernardo, né? Então, assim, a escola técnica teve muito isso para mim, assim, de um choque de classe. Porque eu vinha daquilo dali, do Largo do Tanque, São Caetano, tinha uns coleguinhas que tinham uma vida melhorzinha, tinha uns que estavam pior, o meu, a minha mãe era médio, né? Porque era professora, atrasava salário, aquela coisa toda, mas dava para levar. e a escola técnica teve também pra mim pessoalmente, teve muito esse impacto de diferença de de classe quanto a questão de ser feminino, de mulher além desses um um foi diretamente comigo né e outro foi com uma amiga, que essa amiga eu tive que ir lá, como ele era pra resolver, porque é aquela coisa eu vou lhe dar a nota por último, pra poder constranger, tinha essas coisas. Agora, tinham as meninas também que eram mais atiradas, né? Porque tinham os professores, como eu digo, que eram simpáticos, né? Eu lembro mesmo desse Edinaldo, eu achava ele bem simpático, né? Mas eu era muito mais boba do que ele. Mas tinham colegas que a coisa rolava mais. Agora, dessas festas que estão tendo, aí que eu vejo a professora que era o quê? Seis anos mais velha do que a gente? Pelo amor de Deus, né? Você com 18, o professor com 25, é covardia, né? Aí a gente conversa, agora todo mundo está na mesma faixa, e a gente conversando, e aí um deles soltou, e eu disse, bem que eu soube, que eu sempre sabia que você não brincava em serviço e tal, mas era uma coisa assim meio… Tinha os colegas que gostavam de se… Como é que eu poderia, de se vangloriar, né? Mas em termos de prova, essas coisas, eu nunca percebi, assim, nenhum tipo de privilégio. Eu tinha facilidade nas disciplinas da área de humanas, da área de português também, e eu tinha, assim, uma facilidade de pegar a parte prática. Então, eu tinha uma válvula, você tinha que montar a válvula, o professor desmontava ela toda em cima da bancada, bagunçava aquilo tudo para poder, porque eles estavam sabendo que a gente estava ali decorando a ordem da desmontagem. Aí eles bagunçavam para poder a gente montar. Eu tinha facilidade de montar aquilo, eu me metia por debaixo da válvula, eu não tinha problema nenhum, eu nunca fui ter unha grande, então eu me metia ali debaixo, tal coisa, montava. Na área de eletricidade também, eu tinha uma professora que eu gostava muito, depois foi diretora, foi a primeira diretora mulher e negra Do IFBA, que já era IFBA Aurina Pessoa didática, excelente Pessoa maravilhosa A Aurina a gente fazia de Aurina, a gente fazia bagunça Eu e Edgar, a gente brigava Era criado, eu irei todo na sala Com a Aurina, eu tinha facilidade Eu montava aquilo tudo, aquela parte elétrica Meu problema era na hora de botar Na tomada Porque eu tinha, eu dizia que esse negócio estoura Mas eu pessoalmente nunca tive Dificuldade não agora eu e os colegas uma coisa que eu desde aquela época reparava, eu e os colegas que tínhamos vindo de escola pública tínhamos um déficit na hora da matemática na hora do desdobramento da fórmula até entrar na equação tanto que uma vez eu acabei perdendo em matemática indo pra final essa coisa toda, recuperação e tal mas assim, eu acho que o da escola técnica, o que eu mais guardei foi essa responsabilidade que você tem de estudar. Não tem esse negócio de conselho de classe, de professor lhe dar ponto. Não existia nada disso. Pelo menos a nível do que a gente conhecia, não existia. Se lá nos bastidores rolava, eu realmente não sei. Mas você era… Você tinha que imbuir que você estava ali, que aquilo era um privilégio, porque a gente tinha essa consciência de que a nossa escola era melhor em termos de profissionais e do que poderia te dar no futuro. Então foi assim, muito impactante quando chegou a crise. Que crise? A crise do governo Figueiredo, de 82. Foi exatamente o ano que eu saí. Então, quando… Que era assim, tinha colégio, eu me lembro de uns rapazes, uns caras que eram dois ou três semestres acima da gente, que escolhiam emprego no polo. Ah, não quero ir para os oceanatos não, porque os oceanatos, os passarinhos morrem ali, é difícil, né? Ah, eu não quero ir para não sei onde. Eu não quero ir para Petrobras não, né? Não quero ir para Petrobras não, porque Petrobras está pagando pouco. Imagina que loucura, né? Porque, realmente, quando o polo começou a funcionar, quando em 78, por aí, os salários, e era nível técnico, salários eram altos, né? Tinha gente que tinha ido pra aqueles projetos doidos na Amazônia, então tinha ganho por empreitada, ganhando muito dinheiro. O bairro, como o Nelson falou, o contexto, a Pituba, quando a Pituba começou a abrir aquelas ruas, era o pessoal do polo que comprava, né? Os que tinham nível técnico, quem tinha nível não técnico, pessoal que era… E aí tinha uma hierarquia muito grande, né? Quem trabalhava no polo, mas não tinha escola técnica. então ganhava menos, e foi quem povoou ali aquela região de hoje, de Pau da Lima, aqueles prédios dali, eu falo que tive muito colega que foi morar ali, porque nós pegamos as vacas magras, nós pegamos as vacas magras.
Nelson Pretto: Aí, pulando então da escola técnica, na universidade, como era, tanto como aluna e depois como professor, a ambiência, como é que você via? Porque você foi da Católica,
Ione Souza: fui da católica, fui, sou católica mesmo, né, todos os, fiz a graduação, fui professora, fiz a pós-graduação toda numa PUC. A católica daqui, quando eu entrei, como eu digo, eu fiz seleção pra substituta, né, foi uma colega que era professora de lá, uma pessoa, né, que não era daqui, acho que ela era carioca, paulista, não me lembro. Ela tinha tido uma gravidez de alto risco, né, e precisava urgentemente de uma substituta, porque ela não podia dar disciplina. E eu fiz a seleção, aquela seleção simples de currículo, de aula, dei uma aula, fui aprovada, ela estava no meio do semestre, eu entrei, essa pessoa tinha feito concurso para a UFBA, para a área de antropologia, e teve os três bebês, acho que eram quatro, a coisa que perde um e fica não sei quantos, e ela não pôde voltar, inclusive porque foi quando a UFBA implantou o regime ou DE ou 20. Não pode ficar naquela coisa. E aí ela preferiu ficar com DE, ficou com DE, e aí a vaga eu fiquei. Tanto que na católica depois eu fiz concurso interno, já não fiz concurso público. E eu era, pra mim, era o auge. Imagina você vir de uma família de professoras primárias e você chegar a dar aula, começar a dar aula na universidade. Logo depois, teve também seleção na UFES, eu fiz a seleção na UFES, também para a área de antropologia, então, para mim, estava tudo, teve uma época que eu estava deslumbrada, não nego não, eu estava completamente deslumbrada, achando que tinha chegado na lua, igual a Yuri Gargari, né? Estava completamente deslumbrada. Então, quando eu fiz o concurso na UFES, Fui aprovada em 97, em março de 97, e aí foi que eu vim ter a percepção, para mim, de onde eu estava. Por quê? Quando eu fiz concurso, foi um concurso imenso na UEFS, várias áreas fizeram concurso, e tinham colegas de outras áreas, principalmente da área de Biologia, onde eu tenho alguns amigos ainda hoje, e da área de Letras, que os sobrenomes eram sobrenomes altissonantes. Eu vou citar aqui um diretamente, porque eu sei que não vai dar problema, o filho de professor Pedro Augustinho. Pedro Augustinho foi meu professor em antropologia, em antropologia indígena. Excelente professor, não tenho nem o que falar. E Olavo estava fazendo concurso comigo, arrancando esse cabelo para passar em biologia, que ele é da área de biologia, ele deve estar para se aposentar agora. Eu disse, gente, eu estou aqui junto com Olavo, Filho de Pedro Agostinho e de Rosa, cheguei longe. Cheguei realmente a um lugar que eu não imaginava que eu chegaria. Porque da trajetória de onde eu vi, eu chegaria a professor de nível médio. É onde quase todos os meus colegas que fizeram a Católica comigo chegaram. A nível superior, a ser professor universitário da minha turma mesmo, da Católica, só eu e Cecília Soares, não, é interessante, né, duas mulheres negras, uma preta e uma parda, né, chegamos à professora na mesma época, trabalhamos na UEFS, trabalhamos na Católica, tal coisa, então, eu sinto, a gente sente essa coisa muito inter, né, interpessoal, né, em relação ao feminino, em relação a você ser uma pessoa negra, tal, como se você não fosse bem o seu lugar. Não fosse bem o seu lugar. Eu me lembro de uma vez, uma conversa, inclusive, com Cecília, ela falou sobre isso, que eu não sabia o que era isso, pela diferença que é algo meio complicado. A geração de hoje, todo mundo é negro, mas a gente cresceu tendo sub-hierarquias, sub-lugares, entre você ser preto, você ser, como é que chamava, meu Deus do céu, cabo verde, que era uma pessoa de pele bem pigmentada, com cabelo cacheado, entre você ser, ainda usavam o termo mulata, morena, morena era, como me disse uma vez um aluno na UEFS, na área de antropologia, discutindo essas questões raciais, ele me disse mas professora onde eu trabalho, era uma empresa de recursos humanos, ele me disse se lá a gente usar o termo negro não pode o chefe, a estrutura lá, o supervisor orienta a gente a usar o termo moreno, porque se chamar de negro pode ofender, e isso eu estou falando de 95, 96 eu entrei na UEFS 94 estou falando de 96, 97, 98. Então, parece muito tempo, mas não é. É pouco tempo em termos de mudanças sociais. Eu, na verdade, vim sentir mais a incidência sobre o ser mulher e o ser negra nos últimos anos que eu estive na UEFS. Quando chegaram alguns colegas lá, o caldo entornou um pouco. E quando eu fui gestão, foram as duas coisas ao mesmo tempo. Eu entrei no mestrado, para dar aula no mestrado, em 2008. Acho que foi 2008 que eu terminei o doutorado, em 2006. Está fazendo agora 20 anos, em agosto de 2006. aí foi quando o mestrado da UFES foi implantado de história o PGH e eu fui contactada se eu tinha interesse hoje vocês já são orientados para fazer publicação durante o mestrado, no nosso caso era diferente você fazia e depois que você começava a publicar, porque também não tinha tantas revistas e outras coisas então eu comecei a publicar de forma bem tímida e aí foi quando me chamaram para fazer parte do mestrado. Eu entrei como professora, me lembro que peguei a primeira turma de metodologia da pesquisa, que você já entrava assim, ela é culturalista e nós somos marxistas. Isso em 2007, 2008, gente, ainda tinha essas coisas. Então, tinha uns alunos lá que já foram assim de garras para meter em mim. Só que eles não sabiam que a minha era pior. Então, era pá, pá, pá, pá. E a coisa rodou, foi a primeira turma. E aí, eu fui vendo, eu acho que muito em função disso, certas pequenas, mínimas hostilidades, micropoderes de hostilidades. E depois que mudou um pouco a afeição da universidade, Kelly vai me desculpar, mas muita gente que veio de São Paulo, aquela coisa toda, né, e as rinhas de lá de São Paulo da PUC, USP e unicamp essa coisa toda, você sente mais assim, eu comecei a sentir mais e quando eu virei gestão, foi em 2011 que eu fui vice-coordenadora com o professor Eulino Coelho, colega muito querido, marxista, ele lá como eles me chamam de culturalista mas a gente sentou e fez um plano de trabalho que interessava a ela trabalhar e trabalhamos muito bem. Então, eu comecei a sentir de alguns colegas, né, homens, essa relação, tipo assim, de querer tutelar. E uma coisa que eu aprendi na minha vida é que tutela eu só tive de uma pessoa. A senhora minha mãe, e me bastou. De minha mãe, me bastou, e eu não ia ser tutelada por colega, tipo ah, venha cá que eu vou fazer isso pra você, acho que a gente até leva isso, aquela coisa de fazer sempre o mais do que o melhor, exatamente pra demonstrar que você é competente, e aí começamos até algumas, algumas rinhas, né, que foi até o período que eu terminei eu passei três anos, dois anos de vice, mais três anos como coordenação, saí em 2016, e aí tinha alguns problemas, mas foi quando também eu tive algumas questões pessoais de doença em família tal, e que eu não queria, que realmente eu nunca quis, mas eu pedi transferência para a UNEB, e aí essa transferência não saiu, foi o tempo que foi levando também, minha mãe faleceu, que era o motivo de eu pedir transferência, E chegou o momento do Covid e tal. E aí eu resolvi pegar também a aposentadoria pelo medo também do contexto nacional, de perder os direitos.
Nelson Pretto: Aí então você terminou se aposentando.
Ione Souza: É, me aposentando. Mas antes da aposentadoria, como a Eduarda quer saber, como é que eu acabei ficando mesmo na história da educação? Eu estava na Católica e o professor José Carlos era muito dinâmico nisso de formação, de capacitação de professores. E se gestou, junto com o professor Jurandir Oliveira, que era o diretor do Instituto de Ciências, Filosofia e Ciências Humanas da Católica, esse PROCAD. Eu era a substituta, mas fiz a seleção, tive uma boa colocação e foi exatamente quando eu passei no concurso da UFES, a diretora do meu departamento teve muita sensibilidade, me liberou exatamente os três meses de eu fazer as disciplinas na PUC, quando voltei estava aquele monte de coisa para eu fazer, mas tudo bem, Raquel Vale teve essa extrema sensibilidade, eu fui e lá a primeira pesquisa que eu fiz foi um projeto que eu já tinha levado da especialização, que eu fiz aquela prépice com a PUC de Minas Gerais. Sempre a PUC, né? Meu caminho é a PUC. E eu tinha feito um projeto muito inspirada, tanto na vida de minha mãe, como num filme que chamava Anjos do Arrabalde, que era sobre professoras. E o meu primeiro projeto, então, era sobre trabalhar com memórias de professoras primárias, como a gente chamava, que trabalhassem em periferia, que é algo completamente diferente das professoras que trabalhavam nas escolas, vamos dizer assim, o pessoal da UNEB usa muito esse termo, as escolas ícones do centro da cidade. Quais são as escolas ícones do centro da cidade? A antiga Getúlio Vargas, a Visconde de Cairu, que fica bem na Avenida Central de Brotas, tinha uma aqui na Mouraria, que eu esqueço o nome, eram essas escolas consideradas ícones, que o povo brigava para poder ficar e que, a gente sabe, por debaixo do pano, rolava toda uma relação de privilégio, quem era filha, sobrinha, parenta de quem, para poder alocar. Eu queria trabalhar com aquelas que pegavam o ônibus e iam dar aula em São Caetano, Capelinha, tal, essa coisa toda. Eu fiz esse projeto na especialização, foi quando eu estava na UEFS e aí surgiu a oportunidade de fazer esse PROCAD eu peguei esse projeto e adaptei à escola normal de Feira de Santana. Eu conto na minha dissertação como foi que eu descobri que a Feira de Santana tinha tido uma escola normal. Eu tinha passado na rua, vi um prédio antigo, Feira de Santana não tem prédios tão antigos como Salvador, e eu perguntei a um colega, meu colega de área, Vicente, o que era aquilo. Aí ele me disse que era a antiga faculdade de pedagogia de feira, que é a base da UEFS A UFES nasce de uma união de faculdades isoladas, a de odonto, a de pedagogia, e tem uma outra que eu não me lembro. Eu me lembro de odonto e de pedagogia. E ele me deu uma documentação do IPAC, que ele estava trabalhando nessa época, dando consultoria no IPAC, que era para transformar esse prédio, que estava abandonado, tinha planta caindo e o que ele é hoje, que é o Cuca, que é o Centro de Cultura e Arte de Feira de Santana. Eu fiquei apaixonada pelo prédio, pela história da coisa, fui procurar, fui para a Biblioteca Geral Municipal de Feira de Santana, peguei esse material que ele me deu do IPAC, que tinha um levantamento histórico, e preparei um projeto para o mestrado, fui aprovada e é o primeiro, a dissertação, que é sobre a escola normal de Feira de Santana, a questão das normalistas, aí eu desci mesmo, desci no sentido de verticalizar nessa discussão sobre as normalistas, lia o material daqui da professora Isabel Vilela, daqui e fiz um levantamento, naquela época a gente não tinha internet assim tão fácil para fazer levantamento, você tinha que mandar bilhetinho para colega pedindo material, vim aqui na biblioteca para poder tirar xerox, então o trabalho da professora Conceição Barbosa também, esse pessoal todo, eu fiz essa leitura toda, que é o primeiro livro, que é Deusas Fardadas, Garotas Tricolores, Deusas Fardadas, que está esgotado, mas no ano que vem a gente vai fazer e-book aberto, porque são os 100 anos da escola normal, então a gente já está organizando isso lá com alguns ex-alunos e a Secretaria Municipal de Feira de Santana eu vou liberar os direitos autorais para comemorar os 100 anos da escola. Mas aí nesse decorrer, eu tinha que ler o Anísio Teixeira, o relatório e me chamava muita atenção que ele reclamava sempre porque o passado, porque as crianças não aprendem, toda aquela reclamação, reclamação e aí duas coisas se tornaram muito diretas na minha cabeça. Um, aquele anísio que eu estava lendo não era o Anísio de educação não é privilégio, era outra pessoa. Era um tanto pessoal do grupo da Uneb, que eu faço parte hoje, da risada que diz assim, vocês disseram, o moço Anísio é outra pessoa, não é Anísio de educação é privilégio, não é isso que eu estou falando. E me deu a vontade de descer para o século XIX para compreender de onde tanta reclamação daquele momento em que ele estava escrevendo, que era entre 1925 e 1928, porque eu tinha uma leitura, e aí, na verdade, uma experiência de vida, de escolas na periferia que os alunos continuavam saindo sem alfabetizados. Então, de onde aquela reclamação em 1925 tão grande? Aí eu fui aprofundando as leituras. A gente tem uma carência muito grande na Bahia de uma história política. Primeiro porque a história política foi aleijada durante muito tempo, não é coisa só de biografia, de privilegiado, aquela coisa. Agora que a gente está tendo uma nova história política, mas que está voltando a pegar esse período do final do século XIX e início do século XX. Então, fui me cercar do livro da professora Consuelo Novaes Sampaio, dos partidos políticos na Bahia, aquela coisa toda, e construí, e fui procurar a documentação. E aí a primeira coisa que me chamou a atenção é que não dava para você falar daquele período sem também tocar nas questões fundamentais do final do século XIX. Quais? A abolição e a emergência da república. E o primeiro projeto que eu apresentei é de 1870, mais ou menos, com a Lei do Ventre Livre, até 1920. Então, cobria 50 anos do que a gente chama de pós-abolição, eu já usava esse termo, pela amizade que eu tenho com dois professores que pesquisaram, acho que foram os inaugurais sobre a pós-abolição, que é o professor Walter Fraga e o professor Alberto Heráclito, foram meus contemporâneos, Alberto foi meu colega, e Walter foi meu contemporâneo na Federal e tal, a gente é amigo até hoje. Então eu pegava em 1870, aí o que foi a Lei do Vento Livre, eu sabia que tinha existido a Lei do Vento Livre, mas não tinha ainda, também era algo que não era pesquisado aqui. Aquela ideia de que a Lei do Vento Livre não pegou, então não precisa pesquisar. Fui, fui aprovada, comecei a pesquisar, voltei, eu fui para a documentação, eu fui com uma documentação basicamente jornalística, de periódico, e aí eu fui para o arquivo público. Um adendo que eu amo o arquivo público. Se eu pudesse, eu ia para lá todo dia, mas não dá. Aí eu fui para o arquivo público. Quando eu cheguei no arquivo público, eu segui a regra historiográfica de você com documentação. Maços e mais maços, eram 100 maços de documentação, cobrindo de 1835 a 1890, de instrução pública, que era o maço básico, a documentação matriz. Eu comecei a trabalhar de 70. E aí eu tinha que começar ou de trás, da frente para trás, ou de trás para frente. Eu comecei da frente para trás. Quando eu vi, não dava para ir até 1920. Era muita coisa e tinha algo fundamental, que era a abolição e a república e a mudança de discurso, pelo menos no sentido dos conceitos, melhor dizendo, das categorias mesmo de época, a partir da abolição e da república. Uma das coisas fundamentais para mim foi que eu deixei de encontrar a preocupação com um termo que eu não sabia o que era. Confesso que eu não me lembrava o que era, que era o termo ingênuo. Como eu tenho o hábito, quando eu não sei de uma coisa, imitando o Kate Thomas, eu vou perguntar quem sabe, eu aí fui perguntar a Afonso Florence Bandeira, que era meu colega na época, na Católica , hoje é deputado e tal, mas Afonso era meu colega de área, de metodologia da pesquisa. Aí eu perguntei a ele e ele me disse, eu disse, olha Afonso, eu acho que eu já li esse termo em alguma coisa de Dona Cátia. E ele disse isso, mas eu não estou compreendendo. Aí ele me disse, vá ler Eduardo Pena. Pena, né? Páginas da Casa Imperial, que aí você vai entender o que está se falando. Eu aí não tinha, naquela época, a gente não tinha os livros da Unicamp aqui. Fui procurar tese, baixar, todo esse processo que a gente fazia, e aí consegui configurar os ingênuos. Então, não era, eu confesso claramente, não era meu interesse primordial pesquisar a educação de negros, mas eles vieram assim por porta-travessa. E aí uma questão conceitual, terminológica. Por que você não usou negros na sua tese? Porque eu não encontro esse termo referente a essas crianças em momento algum. e lá na PUC isso era muito você não podia inventar ah, eu quero dizer que eu estou pesquisando a educação de negros não, foi um debate na banca, a minha banca era para ser a professora Estefânia Canguçu, que é uma especialista em questões de escravidão e acabou sendo a Cida Bento porque a professora Estefânia teve um problema de saúde e a Cida Bento foi o que me deu ainda mais nervoso. Eu disse: ave maria, vamos bater com a militante, é agora que eu estou afundada. Daqui da Bahia foi Walter Fraga, que era quem trabalhava com essa questão de infância, mendicância, tal coisa. De lá de São Paulo, foi um professor que eu mesmo escolhi para a banca, que eu gosto muito do trabalho dele, que é o professor José Carlos Barreiro. Ele trabalha com um uso muito interessante das categorias do Thompson e principalmente um olhar muito para a questão do popular. E de infância, literalmente, uma professora, esqueci o nome dela, Olga Brits, que discute infância, revistas infantis, essa coisa toda. Então foi uma banca assim pensada pela minha orientadora, a professora Antonieta Antonacci, foi minha orientadora da dissertação e, como deu certo, do doutorado, com a influência muito grande de professora Maria Odila, que pensou essas vertentes que acabaram acontecendo na tese pelo contato direto com a fonte. Então, eu não sabia que tinha tido uma escola de presos. Eu descobri isso a partir do manuseio das fontes. Eu não sabia que tinha tido essas experiências de educação de ingênuos, diretor de instrução se metendo, padre sendo diretor de instrução e se metendo na conversa, tudo isso foi realmente de diálogo com a fonte. Eu trabalhei com toda a documentação da instrução pública de 1870 até 1892. Por que eu fui até 1892? Exatamente por causa dos ingênuos, eu fui encontrando a continuidade do uso do trabalho forçado deles. E aí é essa vertente que eu tenho, para além da história da educação, que eu tenho uns dois ou três artigos diretamente sobre a vida dos ingênuos. Porque quando eu fui fazer a qualificação, bem tardia, já na boca do desespero, e eu tinha ido na Unicamp buscar esse material, esses livros que tinham lá, da Regina Xavier e tal, que você tinha que ir lá buscar, ou ter alguém lá que lhe mandasse. Como eu tinha ido fazer a qualificação, eu fui até o Unicamp. E aí um professor amigo meu estava lá e a gente encontrou o professor Slenis. E aí fomos tomar um chopp, aquela coisa toda da sociabilidade, né? Eu olhando para o Slenis, o ídolo, um dos ídolos. E aí ele conversou muito, muito simpático sempre. Aí conversou e me disse, você faz pesquisa tal, tal. Aí eu falei, ele disse, e você está fazendo o que com esses ingênuos? eu disse, não sei ainda acabei de descobrir isso aí, não sei ele disse, posso lhe dar um conselho? Eu disse, claro eu agradeço, guarde se você for fazer o pós-doc, que eu acabei não indo, mas porque peguei a gestão e acabei não indo, mas fiz um artigo sobre isso, sobre os ingênuos que é o artigo que está no livro comemorativo um dos muitos, né, comemorativos dos 150 anos da lei do ventre livre.
Giovani: Professora, uma questão. Diversas vezes no seu relato, até por participar da sua própria experiência de vida, a senhora fala tanto das questões de gênero como das questões de raça. Na sua percepção, o que mudou, até puxando pro lado da história das ciências sociais que a senhora também estudou, o que mudou do início da sua vida para cá e o que ainda precisa ser mudado?
Ione Souza: De quê? De gênero e de raça? Primeira coisa para mim muito impactante foi quando eu descobri que eu era uma mulher negra. Eu cresci numa família mestiça, de negros, obviamente, em que se você tem… É a família extensa, viu? Não é só a casa da minha mãe, não. A extensa, em que a diferença do tom da pele era também notado. Então, isso para mim foi impactante quando eu entrei na Católica. Porque até a Escola Técnica, a Escola Técnica sempre teve um contingente muito grande de alunos pretos. sempre foi uma escola de formação de operários. Acho que foi na minha época que começou um pouco a mudar isso, com a criação do polo, com esse aumento do salário e tal. Começou a atrair uma classe média, que na Bahia é sinônimo de… De não branco nem não preto. De algo intermediário, essa coisa. Então, o primeiro impacto foi quando eu cortei o cabelo. Eu usava cabelo alisado, de ferro e chapinha. Depois você cacheava ele para que ele fizesse esse caimento do cacheado. Não era para ter cabelo crespo. Eu me lembro quando eu inventei de cortar o cabelo e deixei encrespar. Deixei encrespar assim mesmo, botando nos cachinhos. Minha mãe e minha tia só faltaram morrer do coração. Minha mãe me disse, pedi tanto a Deus para você sair mais clara, porque são pessoas que tiveram essa experiência de vida. Estou falando isso porque são pessoas que tiveram essa experiência de vida. Quem é mais claro, quem tem o cabelo mais, como é que a gente dizia, cresce para baixo ou cresce para cima. Então não foi algo muito fácil, não, você assumir isso. E para mim mesmo, até hoje, eu vejo, eu nunca faria parte de uma banca de heteroidentificação, porque minha régua ia ser lá em cima, sabe? Porque para mim é estranho, pessoas, que aqui na Bahia, de uma forma geral, e eu estou sendo muito franca aqui, a gente não chama de branco, porque não são brancos, branco é o professor Pretto. Sendo bem, o trocadilho é ótimo, não é? O trocadilho é ótimo. Branco é professor Pretto. Mas também são pessoas que não são, no dia a dia, elas não são vistas como o negro na Bahia, que é uma pessoa mais preta. Então, eu não seria uma pessoa adequada para uma banca de heterodentificação, porque os pardos de bege claro comigo iam ter que provar, por várias coisas, suas experiências, tal coisa, eu seria muito dura. Então, eu nunca me propus a fazer esse tipo de trabalho. Então, assim, eu vejo hoje, já que você me perguntou isso, vou ser bem direta, essa problemática de indicar uma mulher negra para o Supremo. Mulher negra no Supremo, a gente já teve. Elas se assumiam como negras? Não. Quando me mandam alguma coisa, uma petição dessa, eu digo assim, me mande uma preta. eu quero que bote uma preta, não uma negra, porque negra, como a gente adotou o critério de classificação racial norte-americano, então cabe muita coisa nesse bojo. Se vocês me mandarem uma preta… Outro dia estava aí de novo essa agonia, aí descobriram realmente uma senhora já, que, para mim, para os meus critérios, corresponderiam a uma preta. E isso, para mim, não é só gozação. Eu faço assim meio de brincadeira, mas é porque você não tem uma pessoa, principalmente uma mulher preta, na magistratura brasileira, que a gente sabe, é um funil, funil daquele, daquela, daquele, como é que chama, aquele filtro de de coalhada, aquele filtro que é de seda, não é nem de filozinho, que passa, não é de seda mesmo, que é mais difícil de passar. Então, eu acho que a gente tem que, ainda vai esperar muito para colocar. Ah, mas se for uma pessoa, uma negra parda, como tem X, Y, Z, tá, na dividida como eu estou hoje, né? Entre Espanha e Argentina, eu não torceria para nenhuma das duas. Mas entre Espanha e Argentina, é como um jogo entre Corinthians e o Bahia, né? Contra o Bahia vale tudo. Contra a Argentina vale tudo. Então, eu sou Espanha. Não sou Espanha. Eu sou contra a Argentina. Eu não sou nada, mas sou contra o Bahia. Então, é nesse… Estou brincando, mas os critérios, né? Que vocês disseram que podia deixar bem tranquilo. Então, assim, é óbvio que é melhor uma mulher negra parda do que nada. Agora, eu também acho que não é só por ser mulher. porque não vou precisar teorizar sobre interseccionalidade de gênero, raça, classe, que a gente está aqui já sabendo disso, mas não é apenas uma mulher, pelo biológico, pelo essencialismo biológico, que vai dar conta das questões de raça e de classe. E eu acho que uma coisa que, nos últimos anos, não vou entrar nesse vespeiro dos identarismos, mas algo que ficou assim no cantinho, E eu pergunto por que a interseccionalidade não fala tanto dela que o termo de classe. É como se gênero, as questões de gênero, as questões de raça fossem dar conta de estruturas de classe. E o que a gente vê é que são realmente interseccionalizadas. Então, nesse sentido.
Maria Eduarda: E os seus estudos do mestrado, que foram relacionados às normalistas, também traziam essas reflexões?
Ione Souza: Olha, eu me lembro bem que naquele tempo, bote aí, trinta e tantos anos, trinta anos, foi noventa e… eu terminei em noventa e nove, então, era algo bem mais distante, né? Mas, interessante, eu não sou um… eu tive dois depoentes só, que o pessoal já estava… fundador da escola normal já estava morto, né? Um que foi um diretor, que era contemporâneo de Anísio Teixeira, eu acho que ele era dois ou três anos mais novo do que Anísio, de lá de que lá de Caetité, e o sobrinho dele foi professor daqui, Menandro Ramos.
Nelson Pretto: Continua [Ione] Continua, Menandro?
Ione Souza: É, o tio de Menandro, doutor Péricles, que era pediatra e que foi convidado por Anísio, quando Anísio voltou na redemocratização para ser diretor da escola normal, para ser professor lá e diretor. Ele me deu entrevista, eu acho que eu vou até mandar essa entrevista para vocês, transcrita, viu? Acho que ainda tenho, que a fita é assim, a fita é as cassetes, se vocês conseguirem recuperar, beleza. E a outra, que foi a professora Josenita Neri, que é uma figura lá de Feira de Santana, ela faleceu também, me recebeu na casa, e ela tinha muito orgulho de dizer que ela foi a primeira mulher diretora, ela tinha essa consciência, no final, na década de 70, que ela tinha sido a primeira mulher, foi a que fez a comemoração dos 50 anos de fundação, então ela foi diretora em 75, 76, 77, era professora normalista, tinha feito aqueles cursos, logos, aquelas coisas todas, e tinha se especializado em psicologia educacional. Então ela não era psicóloga, não era pedagoga, era professora normalista primária, mas tinha feito aqueles cursos que eram dados para o interior para formar quadros, porque quem tinha o nível superior, naquela época, não queria ir pro interior, nem para Feira não queria. Então, ela tinha essa… E aí, um dia, ela me disse, né, a gente dá entrevista, eu acho que fiz duas ou três, três ou quatro sessões de entrevista com ela, e ela me disse, eu vou lhe falar de uma coisa agora, mas eu não quero que você grave. Né? Eu que já tinha uma certa verniz de história oral lá na PUC com o professor, agora sim, a Khoury, né, disse ela, tudo bem, antropólogo guarda na cabeça E aí ela me disse Desligue o gravador Era aquele gravador que era o da moda Era desse tamanhinho com a fita Desse tamanhinho, eu tinha aquele dali Aí eu desliguei o gravador e ela me disse É, porque eu quero lhe falar assim Você está vendo essa foto daqui A gente lá Tinha isso, tinha aquelas moças Que tinham o cabelo Liso e que implicavam com a gente que tinha o cabelo crespo, o cabelo que alisava. Elas chamavam a gente de navio emplumado, ainda fez assim o gesto do navio emplumado. A coisa, muita gente cortava o cabelo e dava aqueles cachos grandes, ficava assim aquela coisa, você vê nas fotos, assim aquela coisa armada, bem parecendo as norte-americanas e tal coisa. E ela me falou disso, e ela me deu o nome de mais duas colegas, inclusive de uma família famosa lá de Feira, que é uma família, aquelas famílias que tem vários ramos, né? E tem os ramos das múltiplas famílias, então tem essa diferença. E ela me disse, eu e mais não sei quem, não sei quem, que eu não posso dizer o nome, eu só posso dizer o dela, que ela me deu o direito de usar a fala dela. A gente passou, a gente sofria e tal, e tinha outras moças que as mães eram… Aí ela juntou com classe, as mães eram lavadeiras, tinha que pedir atestado de pobreza. Quem sempre ainda me disse, quem sempre dava o atestado de pobreza era Padre Mário. Quem era Padre Mário? Mário Baiense Pessoa da Silva, que o pai também foi inspetor escolar no início do século e tal, que foi nomeado, porque a Escola Normal de Feira foi toda aberta com nomeações. não teve nenhum concurso, as pessoas eram nomeadas e as professoras que já ensinavam lá no grupo escolar automaticamente foram transferidas para dar aula no curso inicial, eu agora esqueci o nome, mas é o curso inicial, o complementar, que é o que faz a ligação entre o curso primário e o curso médio, seria o curso profissional, que era da escola. Então tinha o curso complementar, que era uma espécie de preparatório. Elas foram para o complementar e os que vieram de Salvador foram dar aula no curso normal, em conjunto com alguns lá que já tinham renome, principalmente os médicos que foram dar aula de higiene, puricultura, essa coisa toda. O que deu rusgas, eu apresento isso no meu livro, na dissertação. E então, Mário era padre, foi nomeado como professor de francês. Obviamente, pelas ligações que o pai tinha como inspetor escolar, que famoso se encontra. O pai dele é nome de uma rua aqui na Federação. Aquela rua do Ceparh. Daqui a pouco a gente lembra.
Nelson Pretto: Severo Pessoa?
Ione Souza: Severo Pessoa. Severo Pessoa. O pai de Padre Mário. E ela disse que Padre Mário tinha por essa relação católica nele. foi capelão, foi capelão do colégio Boa Ventura, ele é que intermediava a entrada dessas moças mais pobres na escola normal. Eu aí já voltei para a documentação burocrática com outro olho. Se ela me falou isso, deixa eu ver se eu achava. E tinha vários pedidos dele no livro, pedindo para que aceitasse, não sei quem, não sei quem, porque tinha uma cota de alunas, desde o século XIX, com variações, uma cota de alunas para serem aceitas como alunas gratuitas. Isso já em relação à escola normal lá na década de 70, 1870, por aí, quando o Francisco Gonçalves Martins delimitou que só poderiam ser 12 alunas gratuitas na escola normal feminina. Porque aí a gente tem uma moça que está terminando, está preparando a tese agora, Tiane, e eu converso muito com ela, eu digo, imagine o avalanche de mulheres pedindo matrícula gratuita na escola normal, porque foi uma explosão exatamente na década de 70, de 1870, a presença feminina. Então, naquele momento, eu tinha essa discussão. Mas quando eu fui para o doutorado, eu não estava preocupada com isso, Eu estava preocupada com a constituição da cultura escolar, sendo até redundante, da escolarização baiana no final do século XIX. Só que eu fui pega pelo pé com esses três sujeitos, que tinham outros. Mas diante daquela documentação, e eu peguei os maços mais robustos, porque é visível que os maços vão aumentando de tamanho a partir de 1870. documenta. Eles vão aumentando de tamanho, em termos de documentação, chegam a essa altura. E ali dentro você acha todo tipo de documento. Desde a documentação que eu agora estou preocupada em pesquisar, que é a documentação relativa à materialidade escolar, então são prefeituras, municípios, municípios que mandam ofício dizendo que a Câmara de Vereadores vai se responsabilizar pela construção da mobília da escola e tal coisa, está muito influenciada por aquela ideia norte-americana dos condados, se, eu já vou dar um spoiler aqui, viu? Dos condados serem responsáveis até a documentação, para você imaginar, é uma professora pedindo, um professor avisando que não vai dar aula. Então, eu escolhi esses três porque eu estava muito interessada em fazer essa ligação com o contexto da sociedade baiana do final do século XIX, que era uma questão do abolicionismo tal. Mas é uma documentação que lhe abre várias coisas.
Nelson Pretto: Meio que fechando, eu queria lhe pedir para, então, Nesse momento que a gente vai já celebrando os 200 anos da educação pública, quais seriam as grandes questões que poderiam estar presentes para a gente olhar esses 200 anos?
Ione Souza: Eu acho que o que nos falta hoje é uma relação mais próxima com a política baiana. A política como? Quem eram esses diretores de instrução? retomar um olhar sobre as reformas, é algo que me encanta, me encanta pessoalmente a releitura das reformas de instrução, não sobre um olhar do que vinha da Corte, mas das adaptações que foram feitas aqui. Então, um sujeito que eu sou profundamente apaixonada, que Antonieta Nunes aqui dizia que era uma peste, é o ACM do século XIX, por isso mesmo que eu gosto, me interessa como é que ele era, que é o Francisco Gonçalves Martins, que era um escravocrata, senhor de engenhos, foi presidente da província acho que duas ou três vezes, foi senador do império, e que a gente tem pouca coisa sobre ele. O único texto específico sobre ele que tem agora é um capítulo do livro Os Ganhadores, do professor João Reis, que dá umas pinceladas sobre ele. mas que foi o homem que fez a reforma da instrução pública de 1870, retomar a reforma de 60 do João Barbosa de Oliveira, e aí sim fazer uma leitura compartilhada com o que Antonieta Nunes fez, mas não apenas de comparar uma reforma com a outra, acho que ainda é mais difícil ainda, um reforma as proposições, se Sátiro fez a mesma coisa que a reforma Bucão, que ela chama de reforma Bucão, mas que não é de Bucão, por incrível que pareça, aquela reforma você lendo ela é como dizer assim gestada pelos dois diretores de instrução que foram padres, que tem alguma coisa escrita aqui, é veja o que é a vida a escola onde eu estudei Emílio Lobo, onde minha mãe foi lotada, é o nome do primeiro padre, que é o padre Emílio Lobo. O dia que eu li, eu disse que não é possível. E o padre Romualdo Maria de Seixas Barroso. Você vê ali a mão, a transição entre eles dois. Não por acaso, dois padres, dois únicos padres, que o Luiz Anselmo da Fonseca, o Emílio, ele nem chama muita atenção, mas o Romualdo é o que ele disse que foi o único que foi abolicionista. fazia e escreveu sermões, vendia esses sermões estou chamando ele de santo mas assim, como sujeito então acho que essa imbricação entre a história da educação a cultura escolar no sentido dos artefatos da escola das práticas pedagógicas como a Rejane que está aqui agora pesquisando lá na Casa Pia de São Joaquim ela tem um documento maravilhoso de um professor dizendo como é que ele estava dando aula, eu digo a ela: criatura, você tem que explorar isso, né, porque é um dos poucos registros que a gente tem diretamente do punho do professor, ela é orientanda sua?
Kelly: é de Carol.
Ione Souza: Ela tem esse documento, né, que ela apresentou no mestrado, e que eu digo, você tem que explorar mais isso, porque ele diz assim, ó, eu tô fazendo isso, isso, isso, eu tô fazendo aquilo, aquilo, outro, então é uma prática educativa em funcionamento, que é a mesma coisa que uma menina que fez na dissertação dela do mestrado no PGEDUC que é da UNEB, Cândida e que eu me lembro quando eu fui para a banca, ela queria fazer uma trajetória de Cissinato Franca, eu disse a ela, mas você vai voltar a reescrever escrever, apresentar coisas que estão, espaço que eu fiz, que o Jacó fez, que o Walter falou, quando você está com a documentação do grupo escolar Rio Branco, o primeiro grupo escolar na cidade de Salvador em que ele vai dizendo, ele era professor, mas era encarregado, não existia o cargo de diretor, e eu vou dizer, vou fazer isso, tal professor vai fazer aquilo. Ele inventou o cargo de diretor na prática. E se vocês são oriundas da pedagogia, no caso de Cândida, e está interessada na prática, eu acho que a prática está aqui na sua mão. Então, para mim, hoje, nos 200 anos, o que me interessaria muito era ver isso. essa constituição dessa escola, como o Beto disse, se na escola primária republicana isso já é mais visível pelo trabalho das colegas, volto a dizer Conceição e o pessoal todo que vem depois, Lúcia Franca, que também tem sobre aqui a coisa, para o século XIX eu gostaria muito de ver isso, esse entrelaçamento entre o contexto da sociedade baiana, como eu consegui explicitar um pouco em relação a essa figura tenebrosa, ameaçadora, que era a criança nascida livre, que era uma coisa esquisita, uma anomalia, como eles mesmos colocam, e esses sujeitos políticos. E como eu digo, eu fecho a minha tese, eu digo isso. Naquele momento eu estava meio romântica, hoje eu estou mais prática, Mas naquele momento eu deixei no livro exatamente para marcar aquele entusiasmo que eu tive. Daquelas mães que brigavam para botar o filho na escola. Onde é que a gente imaginar que uma mãe, uma mulher de cor, ia brigar com o professor, bater boca com o professor para que o filho dela fosse para a escola? Ela botou o professor na gazeta. É como se você fosse hoje para o Instagram dizer, ó, o professor tal não deixou meu filho ir pra aula, o que é que eu faço com ele? Ela botou ele na Gazeta, na Gazeta de Maragojipe, veio parar na mão do diretor de instrução. Cadê o livro? Pega ali, cadê? Quando eu fui fazer o livro, né, eu tive o apoio de uma profissional muito competente, muito sensível de lá da UEFS, a Jacinete que era a profissional daqui, né, como é que chama? Design, né? Gráfica. E aí eu tinha mandado pra ela, me disse, manda algumas fotos de algumas coisas. Aí eu tinha mandado pra ela essa foto daqui, que eu peguei nesse processo do professor respondendo, porque é que ele botou o rapazinho, já tinha 14, 15 anos, pra fora, da sala dele lá em São Felipe, no Recôncavo. Aí ele bota, que o menino ficava desenhando, tinha figurinha de soldado, ficava bagunçando, batia nos colegas, fazia desordem, né? E ele botou o rapaz para fora e a mãe foi brigar porque ela queria o filho dela na escola. E aí, quando a gente foi, ela me disse, vem cá, porque teve várias figuras que a gente propôs. Ela disse, por que você não pega isso aqui, que é isso aqui, e bota? Eu disse, Jaci, pô, você conseguiu captar, né? Porque tem vários sujeitos, mas o principal sujeito é essa criança que vai para a escola. Ou que não quisesse, mas a mãe dele queria que ele fosse. Eu acredito até que ele não queria, mas a mãe dele queria porque ela vislumbrava o que era aprender a ler e escrever, a gente tem aquele livro mais clássico do José Antônio de Almeida José Antônio de Almeida, aquele A Instrução no Império do José Antônio de Almeida, em que ele disse, foi um livro que me impactou muito que é uma fonte, mais do que um livro é uma fonte, é que ele disse que os estrangeirinhos, o termo que ele diz assim dos portuguesinhos, chegavam e em seis meses já sabiam fazer conta e o rudimento da escrita. E por que os alunos nas escolas levavam três, quatro, cinco anos para aprender a ler? E aí vem toda a questão da prática pedagógica, que era aquele método primeiro mútuo, depois aquela coisa de… aquilo tudo. Isso me chamou muito a atenção, porque um tipo de ofício que eu gosto muito é dos pais, os professores dizendo que os pais, os alunos mal aprendem o rudimento da escrita e da leitura, da contabilidade, que é ler, escrever e contar. Eles tiram os filhos da escola para botar no comércio. E aí eu ficava pensando, mas trabalhar no comércio versus trabalhar na roça, Trabalhar no comércio versus trabalhar nas casas como copeiro e cacheiro era um patamar acima, né? E quando eu encontrei, só vou pedir mais cinco minutos para contar esse caso, quando eu encontrei a lista desse Cincinato Franca, me lembro que foi uma quinta-feira, a gente estava em uma maresia, aí o março de 88, já no final do período, né? E eu estava com o rapaz que era meu assistente de pesquisa, que era um aluno da Católica, hoje é professor da UNEB, É o mais novo pleno, mais novo, porque é o mais novo mesmo, tem só 40… Foi pleno aos 40 anos, que é Francisco Cancela. E eu estava com o Francisco no arquivo, e aí de repente eu achei uma lista, né? Uma lista de um professor dizendo que ali os alunos eram aqueles que tinham saído da escuridão no ano anterior. Aí a gente foi procurar o ofício do homem, só achou os outros ofícios, que era a Escola Noturna de Cachoeira, que hoje é famosa. Quando a gente achou a Escola Noturna de Cachoeira, aí ele fazia o quê? Discriminava um a um cada aluno com as profissões. Tanueiro, não sei o quê, pedreiro, copeiro, e alguns que já estavam na modernidade da época, que já era trabalhador da estrada de ferro. Então é outra coisa que eu acho, essa relação entre essa escolarização e os usos que a população pobre fez, não estou dizendo que todo mundo foi para a escola, que todo negro conseguiu entrar na escola, foi uma coisa difícil, continua sendo e foi. As meninas eram tiradas da escola mais cedo, eu até hoje não encontrei nos mapas de escolarização da década de 70, nenhuma menina classificada como crioula, nem como preta, eu encontro parda, então eu me pergunto, e as pretas e crioulas e cabras, que eram as categorias de cores de pele mais escura, onde é que estavam? O que é que eu estou chamando de parda? Porque também tem professores das aldeias indígenas que diziam que os alunos dele, ele estava classificando de parda, mas ele sabia que era mameluca, então entra todo esse rolo. Mas assim, são questões que eu acho que a gente deve retomar, mas principalmente essa articulação entre quem estava em cima, que estava legislando, e quem estava embaixo, no rés do chão, tentando se utilizar daqueles poucos anos que podia manter um filho na escola, uma filha, porque muita menina também nas escolas, o que eles fizeram com isso? Porque é esse pessoal que, Thales de Azevedo encontrou na década de 50, nas pesquisas dele, desde a década de 30, que ele escreve e lança na década de 50, sobre o que ele chama de uma classe média baiana, formada por pessoas de cor, que trabalhavam nos escritórios, nos escritórios de navegação, no serviço público, médicos, professoras primárias, oficiais de baixa patente da polícia. São essas pessoas que vêm do século XIX, como a professora Adriana Reis, minha querida colega da UEFS Lembra? Os libertos estavam no foco desde o início do século XIX, final do século XVIII e início do século XIX. E a gente encontra, a pesquisa do pessoal de escravidão, o quanto o número de libertos aqui na Bahia, em São Paulo, que a Súlia pesquisou, em Minas Gerais, que o querido Marcos também pesquisou, a Alessandra no Rio de Janeiro e a Marileia lá no Maranhão. e a gente vai subindo o Itamar em Pernambuco, todo esse pessoal encontrou, pessoal de lá ligado a Paulo Roberto lá no sul é a Gisele com os orientandos dela no Paraná todo esse pessoal lembrando isso essa articulação, então acho que um pouco mais de articulação com as outras áreas, não deixar a história da educação separada tanto quando algum pessoal diz assim você estuda educação? Não não, não, estudo história da educação eu respeito os estudos em educação no tempo presente, mas eu faço história, porque a minha formação é de história eu sou historiadora então eu articulo com a história, como eu poderia ter estudado movimentos sociais qualquer outra coisa, eu preferiria estudar a história da educação por essa trajetória de família a incidência mas assim eu não gosto quando colocam a história da educação como uma coisa estranha. Não, é tanta história como qualquer outra. Ninguém diz a alguém que estuda movimento social que isso é de política. Não. Isso é da história. Então, por que a história da educação vai para o lado de cá? Ela está aqui no meio mesmo, incomodando muita gente. E a gente gosta de incomodar. Eu gosto de incomodar. Vocês viram, né?
Nelson Pretto: Muitíssimo, obrigado. Filha da professora Didi.
Ione Souza: A filha da professora Didi. Ela agora ela estaria fazendo 95 anos né, agora
Nelson Pretto: seria uma ótima entrevistada também
Ione Souza: e eu estou doando meus livros para o CEAS e lá nós já começamos já tem uma, a coleção é o nome dela
Nelson Pretto: que coisa boa
Ione Souza: eu botei no status do só tem o whatsapp e aí meu irmão do meio, que é muito calado o canceriano ele aí disse, onde é que está isso? eu disse, lá no CEAS aí ele botou, parabéns porque ele é o mais calado mas era o mais ligado a ela era o amor da vida dela e aí a gente fez isso
Nelson Pretto: muito bom