{"id":3278,"date":"2020-03-16T13:19:20","date_gmt":"2020-03-16T13:19:20","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.ufba.br\/gec\/?p=3278"},"modified":"2020-03-16T13:19:20","modified_gmt":"2020-03-16T13:19:20","slug":"armes-invisibles-als-ulls","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufba.br\/webgec\/2020\/03\/16\/armes-invisibles-als-ulls\/","title":{"rendered":"Armes invisibles als ulls"},"content":{"rendered":"<p>Iniciei este texto sob forte emo\u00e7\u00e3o, ao som de palmas, gritos, jogos de luzes forjados pelas l\u00e2mpadas das varandas vizinhas e fogos de artif\u00edcio que ecoavam do alto da montanha de Tibidabo. Pela segunda noite, Barcelona aplaude aos profissionais que est\u00e3o nos hospitais, nos laborat\u00f3rios, nas ruas, trabalhando para frear o avan\u00e7o do Covid-19. S\u00e3o mais de 7.700 infectados na Espanha e 288 mortes em consequ\u00eancia do cont\u00e1gio (at\u00e9 o momento de fechar este texto).<br \/>\nTodo esse cen\u00e1rio devastador, como j\u00e1 propagado pela m\u00eddia internacional, tomou propor\u00e7\u00f5es inimagin\u00e1veis h\u00e1 cerca de quatro dias, quando o estado de emerg\u00eancia nacional foi anunciado pelo presidente do Governo da Espanha, Pedro S\u00e1nchez, cuja esposa tamb\u00e9m contraiu o v\u00edrus. Desde ent\u00e3o, universidades, escolas, bibliotecas, \u00f3rg\u00e3os de atendimento p\u00fablico, centros esportivos, museus come\u00e7aram a fechar suas portas.<br \/>\nComo em um efeito em cadeia, neg\u00f3cios, espa\u00e7os p\u00fablicos e privados de lazer, jardins, bares, boates e pontos tur\u00edsticos se transformaram em loca\u00e7\u00f5es para The Walking Dead. H\u00e1 uma semana, n\u00e3o poderia imaginar ser poss\u00edvel atender o pedido da prefeita Ada Colau de &#8220;bajar el ritmo&#8221; de Barcelona.<br \/>\nEu, que achava que tinha vindo para capital da Catalunha viver a experi\u00eancia in\u00e9dita de um doutorado sandu\u00edche na Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UB, descobri que o que vim buscar est\u00e1 impregnado na cultura, na educa\u00e7\u00e3o e na postura de corresponsabiliza\u00e7\u00e3o pelo que \u00e9 o bem comum. O que tenho encontrado nos detalhes \u00e9 poesia e beleza que emergem do caos. Em um conto viralizado recentemente em catal\u00e3o, uma voz doce narra como as crian\u00e7as juntas decidiram lutar contra o corona v\u00edrus: ficando em casa porque eles sabiam que eram as suas pernas. Em uma refer\u00eancia direta ao Pequeno Pr\u00edncipe, o conto finaliza propagando que as batalhas s\u00e3o ganhas de verdade por <span style=\"font-size: medium\"><i><span style=\"font-weight: normal\">a<\/span><\/i><\/span><span style=\"font-size: medium\"><i><span style=\"font-weight: normal\">rmes invisibles als ulls<\/span><\/i><\/span><span style=\"font-size: medium\"><i><span style=\"font-weight: normal\">, <\/span><\/i><\/span><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"font-weight: normal\">do catal\u00e3o, armas invis\u00edveis aos olhos<\/span><\/span><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"font-weight: normal\">.<\/span><\/span> <span style=\"font-size: large\"><span style=\"font-weight: normal\">E assim tem sido aqui.<\/span><\/span><br \/>\n<span style=\"font-weight: normal\">As pesso<\/span>as sa\u00edram das ruas, mas criaram redes de trocas, como por exemplo a de dicas de atividades l\u00fadicas para fazer com as crian\u00e7as nesses pr\u00f3ximos 15 dias de confinamento; muitas empresas dispensaram seus funcion\u00e1rios e garantiram que n\u00e3o v\u00e3o fazer demiss\u00f5es; outras, criaram condi\u00e7\u00f5es para o homeoffice; as universidades est\u00e3o fomentando seus ambientes virtuais; hospitais privados se colocaram \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica. E com isso, aos poucos, vou descobrindo o que estou fazendo aqui. O caos pessoal gerado pelo contexto incluiu o retorno precoce de minha filha, de 4 anos, e meu companheiro para o Brasil. T\u00ednhamos ainda duas semanas pela frente, viagens marcadas, tickets comprados, a festa de despedida da escola que ela frequentou nos \u00faltimos dois meses, Escuela Gaia. Ter\u00edamos bolo de cenoura com uma aguardada calda de chocolate. Entretanto, quando esse texto for publicado, Lulu ter\u00e1 chegado ao Brasil, com seu \u00e1lcool gel no bolsinho. Eles v\u00e3o direto para um autoconfinamento, que a prop\u00f3sito n\u00e3o tem sido tema nem de orienta\u00e7\u00e3o no aeroporto de Salvador. Na sequ\u00eancia, far\u00e3o exame para detectar se contra\u00edram o v\u00edrus durante a viagem. Em 48 horas, esperamos que eles possam voltar \u00e0 casa.<br \/>\nEu, daqui da janela, bato palma para todas as pessoas que est\u00e3o envolvidas nessa grande rede de conten\u00e7\u00e3o, hero\u00ednas e her\u00f3is do cotidiano, com suas armas invis\u00edveis, disposto a enfrentar a coroa.<\/p>\n<p style=\"color: #333333\"><em>Por\u00a0Carla Arag\u00e3o\u00a0| Doutoranda em Educa\u00e7\u00e3o \u2013 GEC\/FACED\/UFBA\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"color: #333333\"><em>Atualmente Carla realiza est\u00e1gio sandu\u00edche em Barcelona, Espanha.<\/em><\/p>\n<p style=\"color: #333333\"><em><span style=\"color: #333333\">Este texto fui publicado originalmente na vers\u00e3o impressa do Jornal A Tarde, 16\/03\/2020, p\u00e1g. A8.<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Iniciei este texto sob forte emo\u00e7\u00e3o, ao som de palmas, gritos, jogos de luzes forjados pelas l\u00e2mpadas das varandas vizinhas e fogos de artif\u00edcio que ecoavam do alto da montanha de Tibidabo. Pela segunda noite, Barcelona aplaude aos profissionais que est\u00e3o nos hospitais, nos laborat\u00f3rios, nas ruas, trabalhando para frear o avan\u00e7o do Covid-19. S\u00e3o mais de 7.700 infectados na Espanha e 288 mortes em consequ\u00eancia do cont\u00e1gio (at\u00e9 o momento de fechar este texto). Todo esse cen\u00e1rio devastador, como j\u00e1 propagado pela m\u00eddia internacional, tomou propor\u00e7\u00f5es inimagin\u00e1veis h\u00e1 cerca de quatro dias, quando o estado de emerg\u00eancia nacional foi anunciado pelo presidente do Governo da Espanha, Pedro S\u00e1nchez, cuja esposa tamb\u00e9m contraiu o v\u00edrus. Desde ent\u00e3o, universidades, escolas, bibliotecas, \u00f3rg\u00e3os de atendimento p\u00fablico, centros esportivos, museus come\u00e7aram a fechar suas portas. Como em um efeito em cadeia, neg\u00f3cios, espa\u00e7os p\u00fablicos e privados de lazer, jardins, bares, boates e pontos tur\u00edsticos se transformaram em loca\u00e7\u00f5es para The Walking Dead. H\u00e1 uma semana, n\u00e3o poderia imaginar ser poss\u00edvel atender o pedido da prefeita Ada Colau de &#8220;bajar el ritmo&#8221; de Barcelona. Eu, que achava que tinha vindo para capital da Catalunha viver a experi\u00eancia in\u00e9dita de um doutorado sandu\u00edche na Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UB, descobri que o que vim buscar est\u00e1 impregnado na cultura, na educa\u00e7\u00e3o e na postura de corresponsabiliza\u00e7\u00e3o pelo que \u00e9 o bem comum. O que tenho encontrado nos detalhes \u00e9 poesia e beleza que emergem do caos. Em um conto viralizado recentemente em catal\u00e3o, uma voz doce narra como as crian\u00e7as juntas decidiram lutar contra o corona v\u00edrus: ficando em casa porque eles sabiam que eram as suas pernas. Em uma refer\u00eancia direta ao Pequeno Pr\u00edncipe, o conto finaliza propagando que as batalhas s\u00e3o ganhas de verdade por armes invisibles als ulls, do catal\u00e3o, armas invis\u00edveis aos olhos. E assim tem sido aqui. As pessoas sa\u00edram das ruas, mas criaram redes de trocas, como por exemplo a de dicas de atividades l\u00fadicas para fazer com as crian\u00e7as nesses pr\u00f3ximos 15 dias de confinamento; muitas empresas dispensaram seus funcion\u00e1rios e garantiram que n\u00e3o v\u00e3o fazer demiss\u00f5es; outras, criaram condi\u00e7\u00f5es para o homeoffice; as universidades est\u00e3o fomentando seus ambientes virtuais; hospitais privados se colocaram \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da sa\u00fade p\u00fablica. E com isso, aos poucos, vou descobrindo o que estou fazendo aqui. O caos pessoal gerado pelo contexto incluiu o retorno precoce de minha filha, de 4 anos, e meu companheiro para o Brasil. T\u00ednhamos ainda duas semanas pela frente, viagens marcadas, tickets comprados, a festa de despedida da escola que ela frequentou nos \u00faltimos dois meses, Escuela Gaia. Ter\u00edamos bolo de cenoura com uma aguardada calda de chocolate. Entretanto, quando esse texto for publicado, Lulu ter\u00e1 chegado ao Brasil, com seu \u00e1lcool gel no bolsinho. Eles v\u00e3o direto para um autoconfinamento, que a prop\u00f3sito n\u00e3o tem sido tema nem de orienta\u00e7\u00e3o no aeroporto de Salvador. Na sequ\u00eancia, far\u00e3o exame para detectar se contra\u00edram o v\u00edrus durante a viagem. Em 48 horas, esperamos que eles possam voltar \u00e0 casa. Eu, daqui da janela, bato palma para todas as pessoas que est\u00e3o envolvidas nessa grande rede de conten\u00e7\u00e3o, hero\u00ednas e her\u00f3is do cotidiano, com suas armas invis\u00edveis, disposto a enfrentar a coroa. Por\u00a0Carla Arag\u00e3o\u00a0| Doutoranda em Educa\u00e7\u00e3o \u2013 GEC\/FACED\/UFBA\u00a0 Atualmente Carla realiza est\u00e1gio sandu\u00edche em Barcelona, Espanha. Este texto fui publicado originalmente na vers\u00e3o impressa do Jornal A Tarde, 16\/03\/2020, p\u00e1g. 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