Comunicar para Educar

A Tarde, Caderno Cultural, 10/05/2008, pag. 12

Comunicar para educar

NELSON PRETTO – nelson@pretto.info

Educação, comunicação e cultura, três palavras que podem parecer muito distantes, mas que se articulam de forma intensa, principalmente se pensarmos a partir da primeira: a educação.

A cultura e a educação já andaram muito mais próximas, sendo inclusive tratadas como coisa única em termos da administração pública federal, com o Ministério da Educação, Cultura e Saúde Pública, na década de 30 do século passado.

Com a comunicação, a aproximação é cada vez maior, mas não tão grande como alguns teóricos defendem, entre os quais, podemos citar o educador brasileiro Paulo Freire com o seu histórico Extensión y comunicación, publicado em 1969 pelo Instituto de Capacitação e Investigação em Reforma Agrária, no Chile.

Paulo Freire insiste que o ato de educar é um ato de comunicação.

Aprendi isso com ele desde menino quando, ainda no Colégio Antonio Vieira, com meus 15 ou 16 anos, saía do Garcia para alfabetizar adultos no, para nós distante, bairro de Cosme de Far ias.

O método que utilizávamos? O de Paulo Freire, claro. Era o exercício da comunicação levado ao extremo, a partir das famosas palavras geradoras, marca maior do seu método que encantava aqueles senhores e senhoras de 50, 60 e até 70 anos e, principalmente nós, jovens alunos do colegial, já atuando politicamente.

Foi um pouco a partir dessa experiência, que envolvia desde cedo a educação, a cultura e a comunicação, que fui construindo algumas reflexões em torno do ato de ensinar e da importância do professor.

Em todos os cursos e atividades que desenvolvia, defendia e ensinava aos meus alunos sobre a necessidade de atuarem de forma mais intensa na relação com os meios de comunicação, apropriandose dos seus mecanismos de funcionamento.

Imaginava – e continuo imaginando, hoje mais ainda! – que um professor deva ser, antes de tudo, uma liderança comunitária e intelectual, com possibilidade de intervenção mais efetiva na vida da sociedade.

VISÃO PLURAL – Diversos outros profissionais, de todas as áreas, deveriam intensificar o seu relacionamento com mídia.

As colunas de opinião dos jornais, como aqui em A TARDE, poderiam ser ampliadas para dar espaço para que mais gente pudesse escrever e ser lida, possibilitando aos leitores uma visão mais plural da sociedade.

Hoje, temos inúmeras outras alternativas entre as quais os blogs, que possibilitam a emergência de escritores de todos os matizes. Eles passam a ocupar a internet, convidando leitores e escritores que, de forma intensa, vão se apropriando da rede de tal forma que, para nós, internet não deve mais ser escrita com o “i” maiúsculo, como se fosse um substantivo próprio.

Com o passar do tempo, assim como, por exemplo, telefone e televisão não se escreve com maiúsculo, o mesmo já devia estar acontecendo com a internet.

Não importa, com maiúsculo ou minúsculo, o fato é que as redes chegaram e permitem a veloz circulação de informações, trazendo outras possibilidades de comunicação, com mais interatividade.

Fala-se muito do mundo de comunicação generalizada, mas comunicar-se é, antes de tudo, ter o desejo de estabelecer o diálogo, de buscar interlocutores, com a capacidade de ouvir e pensar sobre o ouvido, com sensibilidade para a escuta.

SOCIALIZAR INFORMAÇÃO – As tecnologias da comunicação, sem dúvida, em muito favorecem àqueles que desejam estabelecer esses vínculos comunicativos.

Mas, muito antes de termos toda parafernália eletrônica, já existiam pessoas e grupos que buscavam esse intenso comunicar.

Eram as pessoas que achavam importante socializar as informações, e a história da ciência está repleta de preciosidades extraídas da troca de correspondências entre grandes e desconhecidos pensadores. Cartas iam e vinham e, depois de algum tempo, essa significativa troca de correspondência poderia ser elucidativa para vários dos chamados mistérios das ciências.

Com o advento do telefone, parte dessa importante memória foi certamente perdida, pois cartas não eram mais escritas e, sim, conversava-se ao telefone. Seguramente, a história da humanidade ficou sem o registro desses diálogos, correspondendo a cerca de três ou quatro décadas.

Atualmente, com a internet, recuperamos o hábito de escrever, mas não sabemos se esses registros estão sendo guardados, de forma a constituir-se em precioso material para a escrita da nossa própria história.

Movido por esse desejo e necessidade de comunicação, ao longo dos últimos 20 anos, fui publicando alguns textos em jornais, escrevendo em blogs e, em outros momentos, deixando algumas idéias na memória, minha e do computador.

Hoje, essas ideias estão re-organizadas no livro Escritos sobre educação, comunicação e cultura , onde apresento reflexões feitas ao longo desses anos nos campos da educação, da comunicação, da ciência, da cultura e, claro, mais recentemente, na seara das tecnologias da informação e comunicação, em particular sobre a presença da internet em nosso cotidiano, na Bahia, no Brasil e no mundo.

IN(EVOLUÇÃO) – A publicação destes escritos tem dois propósitos fundamentais. De um lado, resgatar esta trajetória e com isso, possibilitar ao leitor acompanhar um pouco mais do meu percurso acadêmico e do nosso grupo de pesquisa, na Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia.

De outro, acompanhar, também, a (in)evolução dos temas que continuam a ser os mais fundamentais no mundo contemporâneo; é curioso ver a atualidade dos temas escritos há alguns anos e que, lamentavelmente, se fossem hoje escritos, seriam quase que da mesma forma, com os mesmos enfoques e críticas.

Esse movimento, que articula de forma intensa educação, comunicação e cultura, é um movimento acadêmico associado à uma perspectiva de divulgação científica que considero fundamental, pois nesse mundo de comunicação generalizada, é premente superar a única perspectiva que insistem em nos impor, que é a de sermos meros consumidores.

Aqui, e sempre, a idéia que nos move é que cada um de nós, na universidade, nas escolas, enfim, em toda a sociedade, precisa assumir de maneira mais contundente uma perspectiva de produtores de culturas e de conhecimentos.

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