Discurso de Posse de Nelson Pretto como Diretor da FACEC em 2000.

CONstRUINndo UMa esCOLA sem RUmo.

assumindo o desafio


por Nelson Pretto

 

procuro também enfatizar a ambigüidade essencial de todos os conceitos, imagens e noções que pressupõem mudança. Sem ambigüidade não há mudança, nunca.

paul feyerabend. matando o tempo

 

 

Desde o começo de minha vida profissional sempre estive envolvido com as questões da educação. Comecei alfabetizando adultos com o método Paulo Freire, em Cosme de Farias, quando tinha cerca de 15 anos de idade. Depois, como professor de física do segundo grau em diversos colégios de Salvador, ainda estudante de graduação no Instituto que, mais tarde, me acolheu como professor. Na licenciatura, a aproximação com a Faculdade de Educação e, especialmente, com um professor que sempre foi meu mestre e hoje é meu colega de Departamento: Luiz Felippe Serpa. Dele fui assessor durante sua gestão aqui nesse palácio. Numa de nossas cotidianas conversas bem recentemente – coisa que achamos fundamental para a vida universitária! – recordamos um autor e um livro: Carlos Rodrigues Brandão e A questão política da educação popular. Ambos muito famosos na década passada entre os educadores. Vivíamos o boom da educação popular. Na introdução, Brandão, usou a fala do lavrador Antônio Cícero de Souza, ou simplesmente Ciço, que na conversa com Felippe, chegamos a suspeitar não ter existido. A frase existe e, se esse lavrador, existiu ou foi um constructo de Brandão, pouco importa. Galileu também montou um projeto de mundo em cima de experiências que, dizem, nunca foram feitas. Pouco importa novamente. São essas criações que sustentam algumas teorias e que são fruto de imaginações – ou não! – que fazem do ato de pensar e produzir conhecimento a coisa mais rica que temos. E Ciço falava sobre educação e dizia com todas as letras:

ôô moço, como vô esquecê… as coisas tão tudo igual… continuamos tendo a sua educação. Só que agora, os home ainda pede prá gente fazê prova na saída prá vê se aprendeu a sê iguá a ocês…é um tal de ser A que não consigo entende!

O senhor me faz a pergunta com jeito de quem já sabe a resposta. Mas eu explico assim. A educação que chega pro senhor é a sua, é pros usos do seu mundo. Agora, a minha educação é a sua. Ela tem saber de sua gente e ela serve pra que mundo? Não é assim mesmo? [conclui Ciço]

Pois vejam o que aconteceu ontem a noite: encontrei o Ciço navegando na Internet e com ele dialoguei numchat. Perguntando se se lembrava o que tinha dito naquela época sobre educação fui surpreendido com a atualização de seu comentário.

 

É num contexto como o esboçado por Ciço que assumimos a direção da Faculdade de Educação de uma Universidade como a Federal da Bahia.

A história dessa Faculdade tem muito a ver com o ensino das ciências, minha origem. Mas ela vai muito além. Desde o seu inicio, como parte da Faculdade de Filosofia, em Nazaré – e já se vão 30 anos – até os atuais dias de hoje, muita coisa mudou. Muita coisa está mudando. E, por isso mesmo, a mudança de direção que agora acontece, não pretende ser uma simples alternância de poder mas a disposição de coordenar o processamento coletivo de rumos. Em outras palavras, é a tentativa de introduzir uma nova direção – não um novo diretor! – mas, uma nova direção, sem rumo. E isso não cabe somente a nós, e agora aqui o plural é muito mais plural, porque essa tarefa não é somente minha e de Mary Arapiraca, a vice diretora, mas de todos os professores, professoras, servidores, servidoras e estudantes, que acreditaram na possibilidade de uma faculdade com um concurso de rumos. A idéia – proclamada em todos os nossos papeis e bits – é a de buscar definir para a Faculdade um programa mais amplo do que o de uma gestão. É a construção de um projeto maior que seja fundado no singular e no plural, e que suspeite das tradicionais pedagogias da assimilação. Um projeto que se encaminhe para a formação de profissionais ligados simultaneamente às realidades planetárias e locais. Um projeto que esteja olhando para as diferenças e os diferentes sem a preocupação de nivelá-los. Em síntese, um projeto estimulador de atuações sociais, de rebeldias.

Nossa Faculdade merece uma inserção maior no cenário nacional. A experiência de formar professores para quase todas as áreas tem nos dado e possivelmente continuará a nos dar, fôlego para uma participação mais vigorosa contra esse governo que insiste em tirar das Universidade Públicas a responsabilidade de formar os professores dos níveis iniciais e introduz os Cursos Normais Superiores, criticados por muitos mas que tem dentro da própria Faculdade os seus defensores. Isso é bom, o debate pode e deve começar internamente mesmo, como forma de fortalecimento da participação da sua diretoria nos fóruns locais e nacionais. Essa diferença deve ser o estímulo para que acertemos o passo com as outras universidades que são atuantes nesse embate.

Ao mesmo tempo, precisamos estar mais articulados com as questões da Educação em nosso Estado e na nossa própria Universidade. A problemática dos Cursos Normais Superiores, por exemplo, é mais abrangente do que se possa imaginar e diz respeito à todas as licenciaturas. Ultrapassa, portanto, os muros da Faculdade de Educação. O Enem e o provão estão aí, gerando conflitos, introduzindo um novo elemento na discussão sobre a qualidade da educação. Nossa Universidade vai as ruas propalando um curso nota A através do uso ousado e correto da mídia com os outdoors. Tem sentido entrarmos nesse jogo? O que significa Direito em um ano ser E e, no seguinte, ser A? Apenas a presença dos alunos às provas? E isso é motivo de orgulho para uma administração? Onde está a Faculdade que pesquisa, atua na sociedade e ensina esse campo chamado educação e mais particularmente a avaliação? Nossa postura é ainda muito tímida. Não por culpa de pessoas ou administrações. Mas por falta de uma atuação nossa mais agressiva. Nós que atuamos na área e que precisamos apresentar para a sociedade – mesmo que estejamos aqui a se referir apenas internamente à Universidade – outras possíveis leituras sobre cada uma das questões que estão sendo pautadas na mídia para a nossa área. No particular da avaliação das universidades, com o conhecido provão, creio que vale a citação, retirada de um importante meio de ligação do nosso sistema público de pesquisa e ensino que é o Jornal Eletrônico da Ciência, mantido pela SBPC, na qual a professora Angela de Siqueira, da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), não esperou e, em tom afirmativo, tocou em questões fundamentais. Ela interpretou o sentimento de muitos de nós, especialmente quando afirma:

(…) acreditar que é um teste capaz de avaliar esta rede de relações complexas, toda diversidade de conhecimentos, experiências, historias de vida, interesses, objetivos, é no mínimo também ingenuidade, miopia acadêmico-burocratica ou funcionalismo oportunista.
Tal visão, retira a responsabilidade sobre o processo como um todo — que é social, político, cultural — e “culpa” as partes: alunos, professores, projeto pedagógico etc. pelo insucesso no teste, visto como capaz de avaliar o “produto”. [Jornal da Ciência, JC E-Mail 1446, de 20/12/99]

Usar as palavras de uma colega de outra Universidade tem um duplo significado nesse momento. De um lado, reforçar a idéia de uma postura crítica e atuante que precisamos ter em relação às temáticas que são próprias de nossa área e que estão sendo usadas e propaladas como salvadoras de um sistema que, em verdade, não está preocupado com a sua melhoria. De outro, reforçar a necessidade de uma forte articulação com a mídia, seja ela a grande mídia, seja aquela que nasce como fruto da presença das novas tecnologias da comunicação e informação, criando novos espaços de produção simbólica. Área importante de pesquisa no campo educacional, a presença das tecnologias está sendo considerada por nós como elemento fundante dessa nova etapa para a Faculdade – uma faculdade de e-educação - com essa letra [é] de eletrônico, como já vem sendo usada e visto por todos em outras áreas. Isso não será apenas um recurso de linguagem. É a idéia de que essas tecnologias passem a ser efetivamente esse elemento fundante dos processos educacionais. Com isso, imaginamos passar a ter um uso intensificado dessas tecnologias na Faculdade – talvez até tardiamente! – e como conseqüência quase que natural, estaremos nos engajando – espero! – de forma mais intensa nos programas de educação a distância que a UFBA está tentando implantar. Ao tempo, passaremos a definir internamente uma política agressiva que articule a educação com as novas tecnologias. Isso passa pela imediata disponibilização dos nossos cursos na WEB, na execução de cursos semi-presenciais e a distância, de graduação, extensão e pós-graduação. Mas, ao fazer isso, não estamos pensando em simplesmente reproduzir o que por lá já temos. Precisaremos ter uma forte articulação entre o que se pesquisa na área e o ensino e entre tudo isso e as grandes questões nacionais e, até, globais. Ter mais ousadia não nos fará mal! Referimo-nos aqui, mais especificamente, ao projeto de Sociedade da Informação, lançado em dezembro no ano passado pelo Presidente da República, projeto esse que tem no desenvolvimento científico e tecnológico um de seus pilares básicos tendo na educação, uma das áreas mais privilegiadas em termos de aplicações. Como estaremos nos inserindo num programa como esse? Será que isso não nos diz respeito?!

Internamente, buscaremos intensificar a postura de colaboração e interação com as demais unidades e com a administração central, sem que isso signifique uma participação passiva. A presença da Faculdade nos Conselhos Superiores e nas relações com as demais unidades e administração central, deverá se encaminhar para a qualificada defesa desse patrimônio público que é a nossa Universidade Federal da Bahia. Patrimônio construído ao longo dos 50 últimos anos, que teve na figura de Edgar Santos o seu grande baluarte.

O momento é de crise. Mas o ano que se inicia é o ano do Dragão. Um símbolo que representa o dinâmico, o criativo, no horóscopo chinês. Momentos de crise me fazem sempre lembrar das possibilidades de superar as dificuldades. Isso me leva a buscar em Nildão, um dos grandes cartunistas baiano, a melhor definição para este momento.

Ôba!

Temos pela frente, nessa teia de relações que estarão sendo criadas, uma oportunidade singular: fortalecendo cada nó, fortalecendo cada indivíduo ou grupo, estaremos fortalecendo o todo, mas não um todo uníssono. Estaremos fortalecendo um conjunto de elementos singulares, que na dinâmica das interações estarão transformando e se transformando, fortalecendo identidades – individuais e/ou coletivas – a partir das semelhanças e diferenças. Em última instância, perseguiremos fortalecer iniciativas e estimular rebeldias.

Uma Faculdade sem rumo. Quer dizer, com muitos rumos. Com todos os rumos. Uma Faculdade viva, alegre, intensa, que atue de forma simultânea no distante e no próximo, no depois e até mesmo no antes, tudo, ao mesmo tempo, aqui e agora, como dizem os Titãs. Convocados estamos, convocando também, para, com as nossas mãos fazer uma Faculdade onde todos e cada um de nós viva intensamente o seu cotidiano, montando um grande espaço acontecimental de aprendizagem.

Lembro de todos os outros espaços não tradicionais de aprendizagem, como tantos que temos nessa Bahia tão rica. Lembro também de outros, fora da Bahia, como a Escola de Samba de Mangueira, que está construindo um grande banco de dados para trabalhar a sua memória. Na contra capa do belíssimo Chico Buarque de Mangueira, um disco que inaugura oficialmente o tão sonhado Centro de Memória da Estação Primeira, Hermínio Bello de Carvalho é categórico: “escavucar a memória, provocar registros, buscar documentação. Aprender a Mangueira, para ensiná-la depois. Escola foi feita para isso.”

Escola foi feita pra isso. E para muito mais. E será. Por quê não?!

Que Oxóssi me proteja.

Que o Senhor do Bonfim, proteja a todos nós, nessa São Salvador da Bahia, de todos os santos e orixás.

Muito obrigado.

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