Prefácio de Pier Cesar Rivoltella

PREFÁCIO

rivoltella

Pier Cesare Rivoltella

Professor da Università Cattólica de Milano, Itália.


A condição do pesquisador, de professor universitário, é hoje bastante estranha. Vale para aquele que publica de preferência em inglês, em alguma revista internacional e que quase ninguém lerá. Não vale para aquele que publica em sua língua e que passa por alguns canais – como um blog – que, com certeza, muitos vão lê-lo. Muitas vezes, a publicação em revistas internacionais pouco interessa: de fato, não é ele que escolhe o que publicar, mas o main stream das revistas é quem decide o que é aceitável e o que não é. Não só. Esse main stream das revistas decide também qual a forma que deve ter um artigo: se ele abre com um estado da arte, prossegue identificando o problema de pesquisa e, então, descreve como abordou essas questões, indicando os resultados e as perspectivas. Se quero descrever uma ideia de pesquisa, apresentar um novo paradigma, ter inspiração a partir de um filme, fazer reflexões pedagógicas, eu já sei que a minha proposta não será aceita. Se, no entanto, eu usar um questionário internacionalmente validado, traduzi-lo para o português ou italiano, contribuindo dessa forma para o seu processo de padronização, é muito provável que a contribuição seja aceita. O problema é que o que me interessa é comunicar meus pensamentos e não validar questionários!

A importância deste belo livro de Nelson Pretto, que tenho a honra de prefaciar, é, em grande parte, isso. Entrar no mérito do que significa fazer comunicação científica hoje, assumindo uma posição inevitavelmente política e diz respeito à liberdade do pesquisador e da sua capacidade de chegar ao seu público.

A liberdade de investigação tem a ver com a capacidade de escrever o que se quer, no idioma e no formato que deseja e de ser avaliado pelo que escreve e não porque escreve em inglês, em um formato padrão aceito por todos, em revista indexada. O risco é que você troca a forma pelo conteúdo.

Mas está em jogo também a capacidade do pesquisador de realmente chegar ao seu público. Se eu trabalho com a comunicação ou com a educação, o meu público são os profissionais da mídia, os professores e os educadores. Nenhum deles jamais lerá os resultados da minha pesquisa em uma revista escrita em inglês e, quem sabe, nem mesmo de acesso aberto. E, assim, o risco é que eu seja lido por alguns colegas no mundo e não por aqueles a quem eu poderia ajudar em seu trabalho com minhas reflexões. Essencialmente, se cria dois circuitos de comunicação impermeáveis: o circuito da pesquisa para os especialistas; o circuito da divulgação para todos outros.

Entendemos que, nestes termos, o problema é equivocado. Ao fazer pesquisa em educação, comunicar os resultados da pesquisa aos professores não é divulgação, mas o próprio sentido da pesquisa. Nelson entra no mérito da questão e a resolve, como em outras vezes já o fez de forma eficaz, dando a forma de livro para o curso ininterrupto de suas reflexões. O que emerge, então, é um pensamento que se distende temporalmente, originário das ocasiões, atribuindo uma pontuação para o que acontece ao seu redor. A sensação é de estar em diálogo com ele, de experimentar uma reflexão que cresce sobre si mesmo, se expande, fornece pistas. É uma escrita generativa. É generativa a comunicação que se recusa a se fechar em um a roteiro. E os roteiros são os formatos, tudo indica, que nossa comunicação hoje já condenou. Você preenche um campo, depois pensa na aplicação e formata o seu texto. Se há algum ganho pela facilidade de uso desse método, no entanto, você termina escrevendo tudo da mesma forma. É generativo quando você sai do roteiro, quando você não aceita que os outros atribuam um formato para você estar incluído. É uma lição que não vale somente pela comunicação científica: é uma forte referência ao direito de pensar e fazê-lo a seu próprio modo.

Lendo o livro para escrever estas linhas, encontrei-o cheio de inspirações, ideias e aberturas: é o que eu esperaria de um estudioso e, muitas vezes, não encontro nas revistas “científicas”.

Milão/Itália, julho de 2017.

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