Apresentação de Carlos Roberto Jamil Cury

Apresentação por Carlos Roberto Jamil Curry

 

11-04-12_jose_cury

 

 

 

 

Professor Titular (aposentado) e Emérito da Faculdade de Educação da UFMG, Professor Adjunto da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Vice-presidente da SBPC.


 

Para um livro repleto de experiências vividas, tornadas conscientes e criticamente analisadas, como este com que nos brinda o professor Nelson Pretto, da Universidade Federal da Bahia, não é tarefa fácil fazer sua apresentação. Apresentar é, antes de tudo, dar a conhecer, colocar de modo público perante um público e também colocar à disposição algo para alguém.

E é isto que este livro, generosamente, nos traz, debaixo de uma temática recorrente, um verdadeiro estribilho, ao longo de suas páginas, cujo trecho ouso transcrever:

Necessitamos de alunos e professores conectados, com condições de produzirem culturas, de modo a não serem transformados em meros consumidores de informações distribuídas por portais ou app instaladas de forma fechada nos equipamentos fornecidos as escolas. A escola pública precisa de tudo: computadores potentes, portáteis, tabuletas, televisões, câmeras de vídeo, gravadores, rádios web, bibliotecas com livros (além de uma política para a produção de eBooks, claro!) e muito, muito mais… Mas, essencialmente, é necessário um professor fortalecido. (p. 25)

O autor sabe que nossos professores e nossos alunos têm largo potencial para se tornarem presentes (outro sentido de apresentação) no mundo contemporâneo. São tão inteligentes como qualquer outra criança ou adolescente do mundo. Um potencial se define pelo seu vir a ser que ainda-não teve as melhores condições de ser. Daí porque a insistência de reivindicar, reclamar, seja nos primeiros capítulos, de modo mais orgânico, seja nos demais, em que aparece a pena do periodista de jornal, uma política contemporânea e democrática para a educação. Democrática, porque aberta a todos, e contemporânea porque uma política assim não será se não contar com o uso consciente e pedagógico das tecnologias digitais da informação e da comunicação.

Essas tecnologias são, hoje, a nova forma de constituição e socialização de bens culturais e de conhecimentos na medida em que abrem espaços e tempos para, como diz o autor, uma escola como espaço de criação. Sem revogar o que a escola sempre fez e talvez retomando o velho brocardo medieval as coisas antigas crescem quando recebidas pelas novas, almeja que ela seja esse espaço de criação de conteúdos, de ciência, de cultura, de tecnologia e de arte. Não é à toa que o ilustre baiano, Anísio Teixeira, é chamado à cena em tempos em que o cinema, a televisão e a rapidez da telefonia fixa representam a contemporaneidade existente. E deles a escola não poderia ignorar e deixar de interagir de modo consciente.

Mas como fazê-lo? Aos poucos, pela leitura conjunta dos capítulos, vai se delineando uma política educacional.

De um lado, a formação inicial e continuada dos docentes, capaz de ser o elo profissional de uma carreira atraente, tendo uma base salarial à altura do trabalho docente. Eis aqui um ponto importante: sair do potencial para a efetivação real. Ora, isto exige uma política de Estado que, no terreno público, invista na infraestrutura das escolas e não permita a privatização dos meios digitais de informação e de comunicação de vez que tal via conduz à privatização do conhecimento como apanágio de poucos. Por isso, cabe ao Estado propiciar para todo o território nacional, com especial ênfase nos rincões longínquos, a chegada desta contemporaneidade, pela banda larga, pelos softwares livres e pelo uso coletivo desses meios.

De outro lado, há o potencial dos estudantes que, estimulados pela direção docente, ao se apropriarem das tecnologias digitais, tornam-se autores de cultura, criadores de conhecimento, já que passarão a dispor de um elenco infindo de informações.

Aqui, então, valoriza-se a qualidade do professor. Nem sempre tem ele as informações que os estudantes trazem, dado o universo quase infinito do que nos propicia a rede mundial dos computadores. Mas com formação inicial sólida e contemporânea, seguida, no exercício da docência, de formação continuada e com a devida valorização da carreira, ele não precisa deter todas as informações. O que ele necessita é de articulá-las entre si, estabelecer conexões entre elas e, sobretudo, propiciar a busca de sentidos para os achados e para os conteúdos. Eis uma tarefa profissional que faz do docente um profissional indispensável à cidadania.

A cidadania é a capacidade do sujeito de participar, de modo cada vez mais amplo, das decisões concernentes à vida de sua comunidade. Fechar a escola apenas nas coisas antigas é condená-la a não respeitar o princípio constitucional do preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Ao longo dos textos, o autor, professor, cidadão, de mais de 40 anos de exercício da docência, denuncia o risco de os meios digitais tornarem-se apenas veículos de consumo de informações, oferece bibliografia aos interessados para se inteirarem das coisas novas, reflete sobre uma ética que deve prevalecer no uso crítico de tais recursos, exibe experiências próprias bem sucedidas e oferece boas indicações tanto de entendimento quanto de apropriação compreensiva de expressões de realidades tais como hackers labs e fab labs. São verdadeiros convites a uma compreensão e a uma prática crítica, consciente, mobilizadora e contemporânea.

No momento em que temos um Plano Nacional de Educação que fomenta a presença de práticas pedagógicas inovadoras pela incorporação e pelo uso das novas tecnologias educacionais, próprias dos meios digitais, como constante na formação inicial e continuada dos docentes, este livro, escrito de modo claro e distinto, vem trazer uma contribuição inestimável não ao campo educacional stricto sensu, mas a tantos quantos se empenham na pesquisa científica, nas artes, na cultura em geral, em fazer da busca da cidadania digital um meio ainda mais amplo e ousado, o da via para uma cidadania universal.

Belo Horizonte, 5 de julho de 2017.

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