A educação e as redes planetárias de comunicação

Publicado em Revista Educação & Sociedade número 51. São Paulo: CEDES e Papirus, ano XVI, ago.95, pp. 312-323.

Nelson De Luca Pretto

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Alucinação de informações

O mundo contemporâneo, às vésperas de entrar no novo milênio, sofre transformações estruturais significativas. O processo histórico do desenvolvimento da ciência e da tecnologia universalizou o homem moderno, criando condições objetivas para que ele seja, ao mesmo tempo, universal e tribal (não-local e local). Segundo o filósofo italiano Gianni Vattimo, “vivemos o mundo da comunicação generalizada, da sociedade do mass media, com uma multiplicação de valores locais”. Com isto, perde sentido a existência de uma história unitária, com um sentido privilegiado. Ainda de acordo com Vattimo, o fim da concepção unitária de História, da história com um sentido privilegiado, esta ligado a impossibilidade de se ver o passado com um único conjunto de imagens. Para ele “existem imagens do passado propostas de pontos de vistas diversos” e “é ilusório pensar que exista um ponto de vista supremo, globalizante, capaz de unificar todos os outros (como seria A História, que engloba a História da Arte, da Literatura, da Guerra, da sexualidade etc.)” (VATTIMO, s/d, p.11).

Para ele, esta concepção unitária de história induzia, como consequência, a idéia de progresso. Idéia de que o futuro nos chega sempre como um processo evolutivo linear, como uma melhora daquilo que foi o passado. Com a presença generalizada dos meios de comunicação e a conseqüente possibilidade de uma multiplicação de valores locais, multiplicam-se as possibilidades de se contar histórias e, com isso, esvazia-se de sentido esta concepção de progresso.

Começa a surgir uma nova percepção espacial que modifica, também, o conceito de Geografia, agora não mais baseada apenas no espaço mas sim, vinculada ao espaço-tempo. Como diz Paul Virilio, “a geografia do dia da velocidade e não mais a geográfica do dia meteorológico.” Para ele, já agora, “quando você volta a Paris de Los Angeles ou de Nova Iorque, em certas épocas você pode ver, através da janela, passando sobre o pólo, o sol poente e o sol nascente. Você tem o amanhecer e o anoitecer numa única janela. Estas imagens estereoscópicas mostram bem o além da cidade geográfica e o advento da concentração humana no tempo da viagem. Esta cidade do além, é a Cidade do Tempo Morto”(VIRILIO, 1984, p. 17).

Estas transformações aceleradas estão intrinsecamente vinculadas a este mundo de comunicação generalizada. Mas, o que, efetivamente, significa esse mundo, com esta presença marcante dos meios eletrônicos de comunicação? Para Vattimo, isto significa a emancipação. Uma emancipação que tem a ver com a possibilidade de desenraizamento, com a possibilidade de libertação das diferenças e de multiplicidade de racionalidades ‘locais’. Com isso, vive-se a possibilidade de uma convivência (muitas vezes não pacífica!) entre culturas diferentes, localizadas em lugares distantes. Um novo lugar, agora não mais físico, não mais geográfico, assume o papel de lugar público. Este novo lugar é a tela da televisão e/ou o espaço virtual das redes telemáticas de computadores. Para Virílio, é a “imagem televisiva do jornal das oito (que) está se transformando num espaço público. (Antes), o espaço público era a praça, era a esquina onde os homens se encontravam para dialogar, para se manifestar publicamente, para lutar ou para festejar. Hoje em dia, é visível que o cruzamento, o espaço em que os homens se encontram é o jornal das oito. Alguns anos atrás, em Paris, os atentados terroristas eram programados de modo a serem noticiados no jornal das oito. Vê-se também nesse caso, efetivamente, que há uma ruptura, a arquitetura antiga construía espaços públicos, praças, jardins, parques e vias de acesso, avenidas etc. Hoje em dia, é a imagem que se torna pública. No caso da televisão, há unidade de tempo, no jornal das oito, mas não há unidade de lugar. Estamos pois, juntos diante de uma imagem pública, que substitui a praça pública, mas separados, cada qual em sua casa (VIRILIO, 1989, p.134 – grifo meu).

Estas transformações vivenciadas pela humanidade neste final de milênio estão intimamente vinculadas, como já dito, com o desenvolvimento das novas tecnologias da comunicação e informação que, mais recentemente, ganham incremento a partir do movimento de aproximação entre as diversas indústrias (de equipamentos, eletrônica, informática, telefone, cabos, satélites, entretenimento e comunicação). Este movimento, que é a condição objetiva para o aperfeiçoamento destas tecnologias, faz com que, potencialmente, aumentem as possibilidades de comunicação entre as pessoas. No entanto, como em todo momento de transição, ainda convivem, neste mesmo tempo, valores deste mundo em transformação com os valores antigos, vinculados aos velhos paradigmas da sociedade moderna. A concentração do capital é um destes elementos da modernidade presente no momento atual. Esta concentração, que se dá em direção à constituição de impérios de comunicação, gera uma centralização na produção das imagens, das notícias e da informação. Para o jornalista Washington Novaes, no Brasil, na verdade, temos mais que a propriedade dos meios, temos a propriedade da informação (NOVAES, 1988, p. 95). Em função disso, a democratização da comunicação, objetivo perseguido por todos os povos desde a Revolução Francesa, é ainda algo a ser conquistado por muitos.

As diversas indústrias do setor, da eletrônica à cultural, passando pela poderosa indústria da comunicação, vão associando-se, constituindo-se em grandes conglomerados de atividades complementares. A velocidade deste desenvolvimento exige uma reflexão e um conhecimento sobre as características dos novos produtos que estão sendo colocados no mercado, sobre os seus possíveis usos, em todas as áreas, inclusive na educação.

Esta articulação das diversas indústrias está intimamente vinculada à articulação dos seus próprios produtos. Produtos como telefones, vídeos, televisão, videogames, computadores, antes produzidos para um uso individual e isolado e, agora, sendo produzidos de forma integrada, já sugerindo, intrinsecamente, o seu uso integrado. Dos vários medias, das multi medias passamos à multimedia, como sugere a publicação inglesa Screen Digest. Mas, estes novos produtos não são apenas novos produtos. São muito mais. Eles constituem- se, na verdade, em um novo conceito. “Agora, multimedia começa a significar um conceito convergente específico, que engloba todo o espectro audiovisual” (SCREEN DIGEST, 1992, 239).

Este conjunto de transformações vai introduzindo novos valores na humanidade com as redes planearias de comunicação, ganhando especial destaque a INTERNET, a nível internacional, e a Rede Nacional de Pesquisa (RNP) a nível nacional.

Redes Planearias de Comunicação

O desenvolvimento tecnológico, hoje fruto da associação de indústrias antes concorrentes, tem se dado de forma bastante acelerada, com o aperfeiçoamento das máquinas que possibilitam a comunicação entre as pessoas. São os computadores, telefones, fax, televisões, agora interativas, que, numa velocidade quase que alucinante, vão introduzindo novos hábitos e valores no cotidiano da sociedade contemporânea.

Os computadores passam a fazer parte do cotidiano das pessoas e Instituições, constituindo-se não só como uma importante, muitas vezes indispensável, ferramenta de trabalho mas, cada dia mais, como portador, ele mesmo, de uma nova maneira de pensar e de trabalhar, incluíndo aí o ato de pesquisar e de educar.

Com o tempo, foi-se observando a sua incorporação nas atividades cotidianas dos Centros de Pesquisas, Universidades, indústrias, exigindo cada vez mais o estabelecimento de uma comunicação entre estes equipamentos. Começou-se, então, a viabilizar-se a articulação entre estes diversos computadores de tal forma que fosse possível a conversa entre eles de forma transparente. Com isso, nasceu uma grande rede de computadores que possibilitou a comunicação entre as pessoas localizadas em diferentes partes do mundo. A Internet surge para possibilitar a conexão entre estas diversas máquinas e, com isso, permitir a troca de arquivos, a discussão dos resultados de pesquisa, o acesso a informações disponíveis nos bancos de dados internacionais, espalhados por diversas Instituições no mundo todo. A Internet constitui-se, na verdade, numa meta-rede, uma vez que a sua função foi a de interligar todas as outras redes existentes no mundo como a Bitnet, Eunet, Janet, de tal forma que os diversos computadores pudessem falar entre si, mesmo utilizando sistemas operacionais diversos.

O nascimento da Internet se dá em 1969 quando o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, através de pesquisas conduzidas pela ARPA (Advanced Research Project Agency), desenvolve um projeto para interconectar uma rede de quatro nós (daí seu nome, de InterNetwork), com um sistema seguro de conexão e, principalmente, sem um centro físico, definido. O modelo, surgido em plena guerra fria, transformou-se no ponto principal que incentivou o crescimento espantoso da rede. A partir de então, Internet assumiu a liderança destas redes, permitindo uma inter-conexão de forma transparente entre os diversos computadores (hosts) espalhados pelo mundo. Hoje, inúmeros projetos são desenvolvidos coletivamente com pessoas distantes milhares de quilômetros, enviando-se mensagens através de computadores dos Centros de Pesquisas e Universidades, assim como diretamente das suas casas, bastando possuir um programa de comunicação de dados, linha telefônica e modem. O correio eletrônico permite estabelecer contato com pessoas em diversas partes do mundo. A idéia de se construir um espaço virtual, onde as pessoas pudessem encontrar-se sem estar presentes foi antecipada em 1984 pelo escritor americano William Gibson no seu romance Neuromante, onde ele concebeu o chamado Cyberspace (GIBSON, 1991).

Pesquisa do próprio sistema, indica que somente no último ano, o número de hosts interligados à rede passou de 1.776.000 (jul.93) para 3.212.000 (jul.94), registrando um crescimento de 81%. Destes, 16.610 hosts estão na América Latina e, 5.896 no Brasil, correspondendo 0,18% de toda a rede Internet. Atualmente 137 países estão interligados) à rede e, durante os primeiros noves meses de 1993 foram publicados em jornais e revistas, mais de 2.300 artigos sobre o assunto.

É nos Estados Unidos, onde a Internet nasceu, que encontramos o maior número de usuários, distribuídos entre Instituições de pesquisa, educacionais, governamentais, militares, organizações não-governamentais (ONGs) e comerciais. A entrada na rede de instituições com fins comerciais está mudando um pouco o perfil da própria Internet . Fora as questões polêmicas como a discussão em torno da publicidade na rede, muito tem se discutido sobre a própria mudança de filosofia da Internet. Dados publicados pela RNP indicavam que, de 1991 a 1993, houve um crescimento muito grande da presença das instituições comerciais e educacionais, “embora as instituições de pesquisa ainda continuem na liderança em número de redes.”

Tabela 1

Um dos usos mais freqüentes são as chamadas listas de discussões temáticas. Existem hoje, cerca de 5 mil destas listas que possibilitam um aprofundamento de assuntos como a pós- modernidade, guerra do Golfo, novas tecnologias da comunicação, futebol, homossexualismo, games, entre outros temas, contemplando, com isso, praticamente todas as áreas do conhecimento.

Muitos problemas ainda existem para uma plena utilização desta rede. Um dos aspectos que se busca aperfeiçoar é a possibilidade de transferência de imagens via Internet e, com isso a viabilização de um maior uso da multimedia. Além das dificuldades de compatibilidades entre os sistemas em uso, existe o problema da velocidade de transmissão dos dados para estas transferências. Com a infra-estrutura atual, utilizando-se as conexões normais, que permitem uma velocidade de transferência média de 56 Kb/seg, um filme de 30 minutos levaria 21 horas para ser transferido. Num outro tipo de ligação, chamado T3 (45 Mb/seg), que já é disponível mas não muito difundido, os mesmos 30 minutos seriam transferidos em 96 segundos. Com a interligação por cabos de fibra ótica (1 Gigabyte/seg) esta transferência levará apenas 4,3 segundos (VIRTUAL, 1993).

O Brasil caiu na Rede

A presença destas redes no Brasil leva-nos a apenas 6 anos atrás, mais precisamente a 1988, quando a FAPESP, em São Paulo, LNCC e UFRJ, no Rio de Janeiro, começam a interligarem-se diretamente com os Estados Unidos e a participarem conseqüentemente das redes Bitnet e Hipnet. Como aconteceu em todo o mundo, rapidamente as principais instituições de ensino e pesquisa associaram-se a estas pioneiras Instituições e passaram a integrar as grandes redes internacionais.

Ainda em 1988, “o CNPq deflagrou um estudo que objetivava organizar as redes de âmbito nacional, garantindo o crescimento ordenado desses embriões em cada Estado” e, em 1990, foi lançado o projeto da REDE NACIONAL DE PESQUISA (RNP), da Secretaria de Ciência e Tecnologia, executado pelo CNPq.

A partir de então, a RNP consolidou-se nos principais estados brasileiros, numa articulação que envolveu, em quase todo o Brasil, as Universidades, Centros de Pesquisas, Governos Estaduais e Municipais e que, hoje, aproxima-se também da iniciativa privada. Em fevereiro de 1993, a espinha dorsal da Rede Nacional de Pesquisa no Brasil já interligava praticamente todo o Brasil, conforme o esquema a seguir.

Figura 1

Também aqui, este crescimento se deu de forma vertiginosa. Segundo dados do próprio sistema Internet , de julho de 1991 (quando apenas 111 hosts principais estavam interligados) até os dias de hoje (jul.94), a RNP teve um incremento de mais de 5.000%, contando hoje com uma rede de 11.455 hosts interligados cobrindo praticamente todo o território nacional. Isto corresponde a apenas 0,18% da Internet como um todo mas, em termos regionais, o Brasil é responsável por 35,47% da rede no total da América Latina e 51,47% no total da América Latina somada à América Central.

Ao mesmo tempo que ampliam-se as conexões físicas para que, de qualquer parte do planeta se possa estar ligado aos bancos de dados, computadores remotos, pessoas e Instituições que desenvolvem pesquisas nas mesmas áreas, alguns aspectos legais começam a ser discutidos, visando facilitar o acesso à rede, em especial para projetos ligados à educação.

Visando ampliar esta possibilidade, foi assinado em 8/12/93 o Decreto 1.005/93, que permitiu a aplicação de uma tarifa especial, equivalente a dez por cento da tarifa comercial, para as comunicações integradas ao projeto Televias para a Educação. Este projeto, ainda em elaboração, envolve os Ministérios da Educação, Cultura e Comunicação, a Embratel, Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras (CRUB), a União Nacional de Dirigentes Municipais de Educação (UNDIME) e o Fórum de Secretários de Educação.

O Televias para a Educação ainda está em gestação mas já se prenuncia a possibilidade de um maior uso desta rede nas atividades educacionais das escolas brasileiras, em todos os níveis

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