Uma singela homenagem ao querido Jaime Barros

Oh gente, oh “raça” [toc toc toc]…

artigo que escrevi e foi publicado, com pequena redução, na edição de hoje do jornal A Tarde, em Salvador. Clique aqui para o pdf da página original.

Chegava ele, o mestre Jaime Barros, com seu indefectível isqueiro Zippo sempre à mão e três batidinhas na mesa localizada no tablado à frente da sala de aula do colégio AntonioVieira. Sua voz rouca, grave e ao mesmo tempo delicada, nos tirava das leves badernas que fazíamos entre as aulas, para iniciarmos um delicioso tempo de profunda concentração e formação.

Sua entrada calma na sala e em nossas vidas foi (e segue!) marcante.

E ele nos deixou dia 28/6, depois de lutar para vencer algumas doenças, mas até o final animado com a vida e as leituras. Me conta sua filha Suely que ao visitá-lo no hospital um pouco antes do seu falecimento, o encontrou feliz, se preparando para participar, mesmo dali, do Clube de Leitores que mantinha. Esse era o querido Jaime Barros, que fora seminarista e começou sua vida de professor ensinando latim.

Com um grande domínio da língua portuguesa e do universo da literatura, nos fez mergulhar nos clássicos e nos autores contemporâneos, fomentando em nós, seus alunos, uma crescente sede de leitura. Longe da chatice do que imaginávamos ser uma “aula de português” (como era chamada a sua matéria naquela época), experimentávamos a sensação de embarcar num aventura, como num tapete mágico que nos transportava, no tempo e no espaço, por diferentes épocas e autores. Assim foi a presença de Jaime Barros em minha vida, no ginasial e colegial.

Anos depois, eu já professor, fui seu colega em um projeto experimental na Escola Nobre da Bahia e, mais uma vez, o isqueiro Zippo e sua convocação à literatura se faziam presente de forma firme e carinhosa. Ele coordenava, com doçura e rigor, um projeto genial que construímos coletivamente e que, penso, foi revolucionário à época e ainda o seria hoje. Nos encontrávamos semanalmente e esses encontros eram mais do que tudo de formação e amizade.

Um dos seus ex-alunos, Carlô Borges, o homenageou nas redes com uma linda mensagem: “Inesquecível o professor da interpretação da palavra escrita, o professor da ‘raça’ que ele tanto colaborou para virar gente grande, gente culta. O registro da voz grave do mestre nos instigando a ver mais fundo e por dentro dos significados estará sempre por aqui comigo!”

E comigo também, Carlô, e tenho certeza de que também com os professores Zé Carlos, Madalena, Brunão, Emerson, Ricardo, Emanuel e tantos outros colegas e ex-alunos que não se cansam de mandar mensagens consternados com sua passagem, mas gratos, muitíssimo gratos, pelo quanto esse homem das letras ajudou a nossa formação.

Tive o privilégio de entrevistá-lo para nosso projeto Memória em Vídeo da Educação na Bahia [link], e o seu depoimento é marcante, pois ali o vemos falando sobre a importância do trabalho coletivo, do professor enquanto uma liderança intelectual e afetiva.

Quando me recordo de Jaime Barros, de seu legado como educador e me dou conta da minha labuta na educação ao longo de tantos anos, constato, mais uma vez, o quanto a valorização e formação dos professores deveria ser um dos pilares centrais das políticas educacionais, e o quanto estamos, infelizmente, longe disso, sobretudo nestes funestos tempos atuais.

Nelson Pretto, professor da Faculdade de Educação da UFBA – nelson@pretto.pro.br

Publicado em Artigos, Artigos em A Tarde

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