Liberem seus wifi! artigo no Correio de hoje

Educação e solidariedade (tecnológica): liberem seu wifi.

Nelson Pretto – professor da Faculdade de Educação da UFBA. nelson@pretto.pro.br – www.pretto.info.

Correio, 23/05/2020

Ao longo dos últimos 25 anos, nosso grupo de pesquisa Educação, Comunicação e Tecnologias (GEC) da Faculdade de Educação da UFBA vem estudando as relações da educação com as culturas, a comunicação e as tecnologias, especialmente as digitais. Assumimos um olhar ampliado para outras áreas do conhecimento que, para muitos, nada teriam a ver com a educação, mas que, para nós, é fundamental. Estamos a nos referir às políticas públicas articuladas e articuladoras de áreas como telecomunicações, ciência e tecnologia, indústria e comércio, saúde, ambiente, entre outras. De forma insistente, desde muito temos denominado as atuais políticas públicas de esquizofrênicas, pois não há dialogo entre elas.

Nossas pesquisas e debates têm nos mostrado, muito antes da pandemia, que é possível construirmos outras educações, sempre nessa perspectiva plural. Agora, somos chamados, nós os educadores e educadoras, a dar conta do desafio de promover a educação no confinamento. Referem-se a uma nova normalidade, nova educação, nova-quase-tudo, na expectativa de que tudo será diferente. No entanto, não compartilhamos dessa abordagem, pois, efetivamente, não havia nada de normalidade em nosso passado. O país vive profunda desigualdade, com enorme violência social, econômica, racial e institucional que não nos possibilita falar em normalidade. Nossos desafios já eram enormes, agora estão amplificados.

Precisamos, portanto, do esforço de todos para o enfrentamento desse difícil momento e, mais do que tudo, essa precisa ser a grande oportunidade para que a sociedade brasileira se repense.

O fato concreto é que o país não fez o que deveria ter sido feito ao longo do tempo e agora é a hora de avaliarmos o que não fizemos e aproveitarmos esse presente desafiador para pensar o futuro.

Nas últimas semanas, de forma coletiva, produzimos o documento “Educação em tempos de pandemia – reflexões sobre as implicações do isolamento físico imposto pela COVID-19” (disponível em www.gec.faced.ufba.br), no qual refletimos sobre essas lacunas e apontamos elementos para possíveis políticas públicas que contribuiriam para a superação dessas ausências que, agora, agravam a possibilidade de superação dos desafios educacionais de hoje e de amanhã.

Um dos principais obstáculos está relacionado à chamada inclusão digital dos cidadãos. Não temos acesso mínimo à internet para boa parte da população. Podemos pensar em educação a distância/remota com essa realidade? É óbvio que não. Como também não deveríamos, sequer, anunciar abertura de inscrição para o ENEM que, por si só, já desestabiliza aqueles que estão em condições mais vulneráveis.

As exigências agora devem ser: buscar formas para um maior acolhimento de alunos, famílias e professores, não contabilizar os dias letivos nesse período e, principalmente, montar uma rede de solidariedade para enfrentarmos juntos esse momento. Em paralelo, com o envolvimento de todos, desenhar elementos para a educação no pós pandemia. Esse é um debate que não pode ficar restrito às autoridades educacionais, precisa ocupar todos os espaços da sociedade.

Portanto, é necessário fortalecer a cidadania e reorganizar os movimentos sociais para que possamos ter acesso a todos os recursos desenvolvidos historicamente pela humanidade e, ao mesmo tempo, ampliar as redes de solidariedade que podem/devem se dar de diversas maneiras, como já temos verificado nos movimentos de distribuição de alimentos, produção coletiva de EPIs, entre tantos outros.

Além disso, por que não pensar em uma solidariedade tecnológica? Poderíamos contribuir com os mais vulneráveis que não têm acesso pleno à internet com um gesto simples: liberando o acesso de nossas redes sem fio domiciliares e empresarias. Quantas empresas estão com suas redes sem uso por conta do trabalho remoto e que poderiam abri-las para a população?

Simples gesto que possibilitaria aumentar ainda mais as redes de solidariedade e acolhimento.

link para o pdf da página, aqui

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