Educação: escutemos os índios

A Tarde Ter, 01/09/2015 – pag. 2

Educação: escutemos os índios

Nelson Pretto | Professor da Faculdade de Educação da Ufba | nelson@pretto.info

Em entrevista ao jornal O Globo, por ocasião do lançamento de seu mais novo livro, Metafísicas Canibais (CosacNaify), o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro relata um episódio que nos faz refletir um pouco sobre o papel da educação no mundo contemporâneo. O episódio: fazia ele uma palestra sobre cosmologia ameríndia, em Manaus, para uma plateia composta, meio a meio, por cientistas e índios. Ao término da palestra, percebeu que os cientistas estavam estranhados com a sua abordagem e permaneceram calados. Após o silêncio, levantou-se uma senhora índia e afirmou, dirigindo-se aos cientistas: “Vocês precisam prestar atenção ao que o professor aí está dizendo. Ele está dizendo o que a gente sempre disse; que, por exemplo, os peixes, quando fazem a piracema (a desova), estão na verdade, lá no fundo do rio, transformados em gente como nós, fazendo um grande dabucuri (cerimônia indígena típica da região).”

Essa sabedoria milenar, que tanto descuidamos e na maioria das vezes renegamos, chamando-a de folclórica ou popular, constitui a base do que Viveiros de Castro denomina de perspectivismo indígena. E o que isso tem a ver com a educação no mundo contemporâneo? Tudo!

As discussões que estão em voga sobre a base nacional curricular, formação de professores, papel das universidades, entre outras, partem sempre da premissa de que existe um conhecimento privilegiado, o científico, e que as demais formas de se ver o mundo são apenas úteis como adorno cultural, e não como uma cosmologia, formas outras de se ver o mundo. Ou, como diz Viveiros de Castro, “apenas um ornamento pitoresco para os fenômenos reais.”

Uma educação que queira formar a juventude para viver plenamente o hoje e construir o amanhã precisa olhar para o passado, com respeito e posição de aprendizagem. É justo no confronto de visões de mundo que temos a possibilidade de construir novos conhecimentos, produzir novas subjetividades e, assim, compreender o planeta como um ente multifacetado de cosmologias, que não se colocam de forma superior umas às outras. A escola não pode começar (de)formando a percepção da meninada, sob o risco de nunca mais conseguir reverter essa percepção e, com isso, não permitir ao jovem aprendiz já (de)formado compreender a diversidade do mundo e de suas interpretações. Corre, assim, um enorme risco de formar para a intransigência e intolerância.

Certa feita, em nossa disciplina Polêmicas Contemporâneas, oferecida pela Faculdade de Educação para alunos de toda a Ufba, o professor Samuel Vida, analisando a presença dos negros pós-cotas na universidade, afirmou que, hoje, já os temos aqui dentro, mas essa é, ainda, uma Ufba branca (desculpa, Samuel, se não fui preciso da reprodução de sua importante fala!). Perfeito. Não basta os sujeitos pertencentes às culturas não-científicas adentrarem na universidade: eles precisam transformá-la. E isso ainda não acontece.

É urgente um profundo repensar da educação e, para tal, ouvir os índios pode ser uma boa.

Link para o jornal, clique aqui. Página do jornal, em pdf, clique aqui. Replicado no Jornal da Ciência, da SBPC.

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