Educação e produtivismo: pacto perigoso

Educação e produtivismo: pacto perigoso

Nelson Pretto – professor da Faculdade de Educação da UFBA. Secretário regional da SBPC Bahia. nelson@pretto.info

Educação é sempre tema presente nas campanhas eleitorais. Não foi diferente nas últimas eleições no Brasil. e o tema continua nas pautas dos governos.

No plano nacional, viramos uma pátria educadora, com direito a filósofo como Ministro da Educação. No plano estadual, o governador anuncia, com o merecido louvor, desde o primeiro dia de mandato, que vistará pelo menos uma escola pública em cada município que visitar, o que significa sua presença em pelo menos 417 escolas públicas nos seus quatro anos de mandato.

A educação está em pauta, é verdade, porém, infelizmente, com antigos modelos, que se mostraram insatisfatórios para o enfrentamento dos desafios históricos, imagine-se o seu anacronismo para os de hoje, muito mais profundos e complexos.

A ênfase, desde muito, tem sido na gestão. Não que o foco nesta seja irrelevante, mas é óbvio que essa abordagem não dá conta do tamanho do desafio. Parece-nos que insiste o governador em ouvir somente quem pensa a educação a partir dessa perspectiva e, quando decide avançar, traz para a cena propostas dissonantes do que pode e deve ser um sistema educacional que queira efetivamente construir uma pátria educadora. A sua última declaração, aqui em A Tarde – “Premiação estimulará qualidade do ensino nas escolas públicas” (31.03) -, foi no sentido de que adotará o conhecido sistema de pagamento por performance, ou seja, professores, escolas e municípios que “garantirem excelência”, receberão bonificações financeiras. Lamentável. A Inglaterra, na década de 1990, tentou implantar sistema igual e sofreu dura reação da academia, sindicatos e população. Acompanhei de perto aquela reação, pois lá estava em um pós-doutoramento. Essa também é a proposta que agrada ao PSDB do governador José Serra, que tentou implantar o mesmo sistema quando administrava São Paulo, e também sofreu severas criticas da academia e sindicatos docentes. Nos Estados Unidos, berço de propostas baseadas nestes princípios produtivistas e de mercado, elas também foram alvo de críticas. Sugiro ao governador e ao secretário de educação, a leitura do livro da ex-secretária de educação dos governos Bush e Clinton, Diane Ravitch, que comandou a implantação de políticas centradas nessas bases e hoje faz duras críticas ao sistema, expondo-as em um livro cujo título já diz tudo: Vida e Morte do Grande Sistema Escolar Americanocomo os testes padronizados e o modelo de mercado ameaçam a educação.

Educação não pode ser compreendida a partir da lógica produtivista do mercado. Educação é cooperação, é trabalho coletivo e colaborativo, de compartilhamento de conhecimentos e saberes, e não admite a implantação de ambiência de competitividade e de estímulo a performances individuais, sob pena de se perder em seus propósitos fundamentais.

As escolhas estão postas, governador. Resta fazer opções coerentes com o modelo de sociedade que queremos construir.

 

Publicado em A Tarde de 09.04.2015, pag. 2. Página do jornal, em pdf, clique aqui.

2 thoughts on “Educação e produtivismo: pacto perigoso

  1. Prof. Pretto. olá!

    Cada dia que passa tenho orgulho de dizer que o Prof. Nelson Pretto foi o professor convidado para participar da banca avaliadora de minha dissertação de mestrado.

    Suas ideias defendidas o enobrece cada vez mais.
    Adorei seu texto “Educação e produtivismo: pacto perigoso”. (Usarei em minhas aulas com os alunos do curso de pedagogia)

    Um grande abraço,
    Niura

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