Espaços de invenção e criação coletiva

As férias escolares da meninada podem ser uma boa oportunidade para que pensemos um pouco mais sobre as possibilidades que advêm de um sólido conhecimento científico e tecnológico, construído a partir do envolvimento dos jovens na criação e nas invenções de aparatos técnicos e tecnológicos.

Penso que essa formação tem que se dar na escola, mas também fora dela, em outros espaços que, dialogando intensamente com ela, constituam um ambiente mais amplo, no que denomino de um ecossistema pedagógico público para a educação. Para isso se configurar, necessário se faz que se espalhem país afora espaços formativos prenhes de criatividade, inspirado na política dos Pontos de Cultura, onde a criação nasce de baixo, com apoio financeiro e articulador do poder público. Espaços para a invenção e criação coletiva, envolvendo jovens e adultos, transformando radicalmente a maneira de se ensinar e aprender.

A ideia é a de se ter em todos os bairros, integrando o sistema público de educação, ciência e tecnologia, laboratórios hackers (hackerslab ou hackerspaces), nos moldes do que já vem existindo em diversos países, inclusive no Brasil. Em São Paulo o Garoa Hacker Club (//garoa.net.br) pode ser um exemplo de iniciativa bem sucedida nessa linha. A turma tem feito um importante trabalho de pesquisa e desenvolvimento, com a criação de diversos projetos, entre os quais as impressoras 3D que podem revolucionar a produção industrial. Nos Estados Unidos, proliferam experiências não apenas para a garotada, mas também para jovens profissionais que, articulados em torno de projetos coletivos e colaborativos, ocupam garagens e prédios antigos, instalando laboratórios hackers para desenvolver ciência e tecnologia. Trago aqui apenas dois exemplos no campo da biotecnologia: os movimentos DIYbio (//diybio.org) e Genspace (http://genspace.org), que buscam integrar em rede biólogos, amadores e profissionais, com o objetivo de promover a ciência cidadã. Tudo isso está fortemente calcado no que vêm sendo conhecido como a cultura hacker, que foi responsável pela criação da própria rede internet.

Importante pensar, ainda, na criação e ampliação de museus de ciência e tecnologia com uma concepção que vá além do observar fenômenos e equipamentos. Esses espaços precisam ser também lugares para se fazer ciência. Assim era, mesmo que de forma precária, o Museu de Ciência e Tecnologia, implantado no governo de Roberto Santos (1975/1979), no Parque de Pituaçu (Boca do Rio), criado à mesma época.

Aliás, merece destaque o ocorrido na primeira semana deste mês, quando a UNEB concedeu a Roberto Santos o título de doutor honoris causa. Eu lá estava para prestigiar o colega e ex-reitor da UFBA, professor que tanto insiste no que ele denomina de “ensino prático das ciências”. Os discursos de todas as autoridades da UNEB exaltavam as qualidades e feitos de Roberto Santos, incluindo a criação do Museu de C&T. Todavia, para meu espanto, omitiam solenemente o fato de que aquele museu estar hoje sob os cuidados da própria UNEB mas totalmente abandonado. E esse abandono é resultado de histórica picuinha política dos primeiros governos pós 79, sendo vítima de descaso inclusive do atual governo, que o transferiu solenemente para a própria UNEB. Esta lá instalou a sua Pró-Reitora de Extensão e, desse modo, concluiu o seu desmanche!

A Bahia carece de muito mais nesta área. É incompreensível não termos um planetário que possibilitasse crianças, jovens e adultos se deliciarem com o estudo dos céus; um aquário municipal, a despeito de contarmos com tão rico e extenso litoral; um Museu do Cacau, no sul da Bahia; um Museu do Feijão, na região do semiárido, e outros tantos que fortalecessem culturas tão diversas.

Certamente, Roberto Santos – e todos nós! – sairia muito mais cheio de júbilo das homenagens que lhe foram prestadas se as autoridades presentes houvessem anunciado a decisão política de imediata recuperação do Museu de Ciência e Tecnologia da Boca do Rio.

 

Publicado no jornal A Tarde de 25.12.2012, pag. 2

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