Do UCA às tabuletas: onde está a banda larga?

Do UCA às tabuletas: onde está a banda larga?

Nelson Pretto De Salvador. Publicado na minha coluna mensal no Terra Magazine.

 

Na semana passada aconteceu aqui em Salvador um encontro com os professores das dez escolas que estão trabalhando conosco, da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, na formação dos professores do programa Um Computador por Aluno (PROUCA), projeto que o governo federal tenta (ou tentava?) implantar desde 2006, ainda sob a batuta do presidente Lula. O enorme esforço dos professores envolvidos no projeto é evidente. As condições são as mais precárias possíveis e, mesmo assim, o que vemos são colegas animados, enfrentando todas as dificuldades e buscando um caminho para a utilização dos computadores portáteis nas escolas, no cotidiano das suas aulas. A distância entre a formação inicial destes professores e os computadores na mão dos meninos é de, no mínimo, um século. Os professores foram preparados para transmitir conhecimentos e para ensinar conteúdos. Agora, convivem com a possibilidade de cada um dos alunos ter na mão um aparelhinho que, potencialmente, lhe conecta com um mundo de informações, num único clique. Isso se a internet funcionar! Justo aqui temos os dois maiores problemas em termos de tecnologia: a infraestrutura das escolas e a conexão à internet. Faltam as condições básicas nas escolas públicas envolvidas no projeto aqui na Bahia: não existem tomadas para carregar os uquinhas, como carinhosamente os chamamos aqui; não há mobiliário para os meninos e professores trabalharem; a rede internet, prometida pelas operadoras, levou meses para ser implantada e, mesmo assim, com péssima qualidade. Em uma das nossas escolas, os professores tentaram carregar muitos computadores ao mesmo tempo e o resultado foi simplesmente a derrubada da energia de toda a escola, que ficou sem luz durante mais de dois dias. Esta realidade não difere muito de outros estados, conforme constatamos pelos depoimentos de outros colegas convidados ao nosso encontro, principalmente se falamos do Norte e Nordeste do país. A conexão à internet em banda larga é fundamental para que possamos ter projetos desta natureza com resultados significativos. Imagine uma escola como as nossas, com uns 300 a 400 laptops e uma banda larga que está longe dos já pouco 1 Mbps? Na implantação do atual Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), centrado em um acordo entre governo e as operadoras, estas deveriam oferecer conexão com velocidade de 1Mbps. Para a educação, o que já estava previsto é que, desde 28 de fevereiro passado, a velocidade ofertada em cada escola deveria estar sendo “revista semestralmente, de forma a assegurar a oferta de velocidade equivalente a melhor oferta comercialmente disseminada ao público em geral, na área de atendimento na qual se inclui a Escola”. O atual acordo prevê que a partir de 1º de novembro de 2012 deva ser garantido percentuais mínimos de qualidade. Para essa etapa fala-se em oferecer, em média, 60% da velocidade contratada, ou seja, não menos que 600 kbps. No entanto, pelo que temos vistos em nossa mostra de escolas, a velocidade hoje deve estar em torno dos 10% do ofertado comercialmente aqui em Salvador e nas cidades que acompanhamos. Se não bastasse o fato do acordo estar sendo, o tempo todo, questionado com as operadoras resistindo em aceitar o controle da qualidade da banda, o que podemos fazer nas escolas com velocidades como estas? Nada, praticamente nada. Pois nem bem chegamos a uma solução para a implantação do modelo 1-a-1 e o MEC já anuncia, sem nenhuma discussão pública maior, a ideia de fornecer tabuletas (tablets), que agora começam a ser produzidos no Brasil com isenção de impostos. A questão que se coloca é que, também elas, se não tivermos boa conexão, de nada servirão. A mobilidade que defendemos é com todos conectados! Queremos a meninada e os professores conectados, com condições de produzirem culturas, não sendo transformados em meros consumidores de informações distribuídas por portais ou apps instaladas de forma fechada nos equipamentos fornecidos às escolas. A escola pública precisa de tudo: computadores potentes, uquinhas, tabuletas, televisões, câmeras de vídeo, gravadores, rádios web, bibliotecas com livros (e uma política para a produção de e-books, claro!) e muito, muito mais… Mas, essencialmente, é necessário um professor fortalecido. Professor fortalecido e banda larga de qualidade são condições básicas para que a escola de hoje prepare a juventude para esse mundo em reviravolta. Sem isso, teremos muitas bravatas e poucos resultados.

 

Lin no Terra Magazine, clique aqui.

 

 

 

 

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