A moça do computador, Terra Magazine

Saímos em caravana a la bye bye Brasil, pelo interior da Bahia, para visitar as 10 escolas com as quais estamos trabalhando na formação dos professores que vão usar os pequenos computadores do projeto Um Computador por Aluno (UCA).

Esse projeto, implantando pelo governo Federal em 2007, anda mal das pernas no governo Dilma, depois que a equipe que o administrava diretamente do Palácio do Planalto, na Presidência da República, foi para o Ministério das Comunicações. O projeto ficou, assim, sob a responsabilidade quase que exclusiva do MEC e não anda muito bem.

Necessário se faz relembrar um pouco desta história. Alguns anos atrás, Nicolas Negroponte saiu por ai dizendo que era possível produzir um computador portátil pelo preço de U$100 (cem dólares). Claro que, como bom especialista em marketing que é, Negroponte – criador do genial MediaLab, no MIT, em Boston/EUA, e autor do famoso Vida Digital nos idos dos anos 90, quando ainda escrevíamos internet com I maiúsculo! – não dizia um monte de coisas que, de fato, faziam diferença para que o computador custasse somente 100 dólares: aquele valor era preço na fábrica, sem o transporte até o usuário final, sem impostos, sem empacotamento, sem manual nem nada mais, e o mais importante, teria que ser produzido em larga escala. Ele saiu peregrinando pelo mundo – veio ao Brasil – vendendo a ideia e tentando convencer os governos a fazerem compras em massa desses bichinhos. Podemos dizer que ele não fui muito bem sucedido na sua empreitada como um todo, mas o maior mérito deste périplo foi que, de fato, a indústria correu atrás e o preço dos computadores portáteis despencaram.

Daí em diante, o Brasil, que já tinha um enorme tradição no estudo sobre o uso de computadores na educação, passou a pensar mais concretamente na possibilidade de comprar computadores a partir do conceito um-para-um, ou seja, um computador para cada estudante. Nos Estados Unidos, a ideia era um computador por criança, com o projeto OLPC (One Laptop per Children).

Como disse, no governo Lula, um grupo foi montado e diretamente do Palácio do Planalto tocou o tal projeto UCA. Cabia a esse grupo articular todos os demais Ministérios e fazer uma pressãozinha para o envolvimento de todos, observadas as suas especificidades. Apesar dos inúmeros problemas de gestão e concepção, o que se viu é que o projeto se efetivou e, hoje, está em todos os estados somado aos esforços que vêm sendo feito por várias prefeituras para adquirem com seus recursos os uquinhas e os inserirem em suas redes de escolas. Em paralelo, está parado no CNPq a divulgação do resultado de um edital para a realização de pesquisas sobre o projeto e o conceito o conceito um-pra-um presente no mesmo, que poderá significar um grande avanço teórico para a área. Portanto, trata-se de um projeto que, apesar de ainda pequeno, andava e representou muito esforço e investimento público ao longo dos últimos anos. Com sua saída das mãos da Presidência da República no atual do governo, o UCA ficou sendo tocado pelo MEC. Além disso, na reforma administrativa promovida este ano, a Secretaria de Educação a Distância (SEED) foi extinta e o UCA passou a ser vinculado à Secretaria de Educação Básica (SEB) e lá está meio acéfalo. Na prática, estamos com oito meses de governo Dilma e não se tem uma posição mais concreta sobre o futuro do Programa. Uma lamentável situação, pois a presença dessas tecnologias na educação pode representar um importante papel para as necessárias transformações que precisamos ver neste campo, com grandes consequências para a formação da juventude brasileira. Transformações essas que demandam um projeto bem consolidado do ponto de vista operacional e, muito mais do que isso, com um olhar mais direto e mais próximo para a realidade do sistema educacional brasileiro.

Ao visitarmos as escolas na Bahia, o que percebemos é que, em muitas delas, o trabalho que vem sendo feito é bastante significativo e revestido de uma força simbólica muito grande. A nossa chegada nos municípios é sempre recebida com certa euforia, particularmente naqueles municípios menores, onde as condições, muitas vezes, são precárias. Quando as nossas colegas professoras que acompanham mais de perto esse processo formativo retornam aos municípios e às escolas para outras visitas de formação, são recebidas pela meninada que as encontram na rua com um carinhoso “elas, chegaram, é a moça do computador! Olha, é a moça do computador!”.

Esta é a expressão máxima dessa turma pequena, que vê na internet e no computador uma possibilidade de criação maior do que aquela que encontram nas salas de aula. E a expectativa e manifestação clara dos meninos de que “a moça do computador” possa ser portadora de mudanças no sistema escolar, de inserção da escola num contexto mais contemporâneo, de liberdade, e complemento, sem significar uma simples adesão às novidades. Num primeiro momento, seguramente ainda presos à ideia de que ali encontrarão apenas espaços para os videogames e orkuts, a euforia se resume a este uso. Depois, aparecem outras possibilidades, como as pesquisas em sites de buscas. Depois, na maioria das vezes muitos antes, pois essa ordem não é direta nem deve ser imposta, começam a criar mais intensamente. E quando criam, fazem vídeos, áudios, textos, remixam coisas, misturam as diversas linguagens. Aqui está o foco do que acreditamos ser o centro do processo formativo de professores e alunos: a melhor forma de fazer com que essa turma passe a viver plenamente o universo da cultura digital e lhes proporcionar uma imersão intensa no universo de informação e comunicação propiciado pelas tecnologias digitais. No caso dos professores, pensamos que isso lhes possibilitará, tão logo estiverem mais relaxados e confortáveis com a presença dos uquinhas nas suas vidas e nas escolas, incorporarem tudo isso como elementos estruturantes da formação da juventude enquanto produtora de conhecimentos e de culturas e não como mera consumidora de informações (e de produtos!). Informações essas que abundam na internet e que, se não trabalhadas, constituem-se numa mera reprodução dos tradicionais (e velhos) meios de comunicação de massa.

Mas para que tudo isso aconteça, necessário se faz que as escolas estejam conectadas e isso não pode se dar, em hipótese alguma, com as lamentáveis velocidades oferecidas hoje às escolas. Imagine uma escola com 200, 300 ou até 400 máquinas ligadas em rede com uma conexão de (até) 1 Mbps. Simplesmente impensável! Mas é justo isso que temos visto nas nossas visitas às escolas. Assim, a luta pelo Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) não é uma luta pequena. O ex-Ministro Gil (que falta faz!!!) dizia “vamos bandalargar o Brasil”. Dizemos no Manifesto Banda Larga que “os rumos recentes tomados pelo governo reforçam o abandono da ideia de serviço público como concretizador de direitos e privilegia soluções sob uma lógica de mercado”.

Portanto, todo cuidado é pouco. A luta não é pequena. Mas temos que avançar fortalecendo a formação cidadã da juventude. E isso não pode esperar o amanhã, pois “a moça do computador” já chegou, e ela não está mais só!

 

(colaborou Maria Helena Bonilla, da Faculdade de Educação da UFBA).

Será Publicado no Terra Magazine, 12.08.2011. Link direto: clique aqui e replicado no jornal da Ciência Hoje (SBPC)

 

foto: Gizélia e Saionara (NTE Itabuna, BA)

Escola Carlos Salério, Itabuna/Bahia

foto: Gizélia e Saionara (NTE Itabuna, BA)

Alunos na rua ao lado da escola, Itabuna/Bahia

 

Alunos em Barro Preto, Bahia

Alunos em Barro Preto, Bahia

Escola Carlos Salério, Itabuna/BA
Escola Carlos Salério, Itabuna/BA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3 thoughts on “A moça do computador, Terra Magazine

  1. Ola Profº Nelson Preto, li o seu artigo e gostei muito realmente é verdade nós não podemos para é preciso aaregaçar as mangas e continuar com este trabalho ótimo que é educar os jovens para a internet. E maravilhoso ver o empenho dos alunos e a evolução deles com o projeto UCA.
    Parabéns.

  2. Profº Pretto é unissono os comentários dos colegas quando se trata de acesso à internet durante as aulas com os “uquinhas”: “não é possível navegar pela internet”, todavia, “NAVEGAR É PRECISO”. Esse artigo é um pedido de socorro e um alerta para que não se perca um projeto que contribui de forma significativa para a qualidade no Sistema de Educação Público do estado.
    Parabéns!

  3. Prof. Nelson;
    Seu texto desperta, ao meu ver, um pouco de desalento diante das situações em que acontece de fato o prouca nas escolas e de esperança, de arregaçamento de mangas, para acudir a moça do computador que chega acompanhada às escolas. Há escolas com internet lenta, conforme citado no texto, mas pior do que isso são aquelas contempladas com os Ucas que não tem banda nenhuma e onde não há nem sinal de celular. Além disso, temo que sem maiores apoios e incentivos dos poderes públicos (SEC por exemplo), pouco se consiga fazer… E que os sonhos trazidos pela moça e seus bichinhos, fiquem apenas no mundo lunático de Morfeu.
    Embora pareça desanimador este meu comentário, há muita disposição e braços abertos para receber todas as moças e seus acompanhantes e muita esperança de que consigamos dar sentido e significado ao uso dos laptops nas escolas.
    Amei o texto!!!

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