Artigo em A Tarde: carnaval, caetano e educação

Lingua Culta, Caetano e educação

Nelson Pretto – professor associado da Faculdade de Educação/UFBA e visitante da Universidade Trent,  Nottingham, Inglaterra. www.pretto.info

Acabou o carnaval. Acabou o verão, na prática. O Brasil e especialmente a Bahia voltam ao normal. Normal? Claro que não. Voltam à vidinha de sempre, alimentada, nesses tempos de crise, pela constante dúvida sobre o futuro. Falar em futuro é sempre falar em educação. Todos, e não só nós os educadores, que já fazemos isso a vida inteira, estabelecem essa referência nesses momentos.
Provocado por Caetano Veloso em um texto, na verdade um post, mais na verdade ainda, um petardo-post, que ele publicou, em pleno Carnaval, no seu blog 
Obra em Progresso, – já referência de boas conversas -, com um sofisticado diálogo com autores e leitores e suscitando uma deliciosa polêmica sobre a importância da língua culta e da educação, venho nestas linhas concordar com ele sobre a necessidade de uma formação sólida para a juventude.
Em tempos de tantas possibilidades para a escrita, com os blogs, SMS, microblogs, fotoblogs e tantos outros ogs, retomar o tema da escola pode parecer anacrônico, mas penso que não o seja. Por uma coincidência – ou não!, como diria Caetano -, em diversas das minhas atuais leituras sobre cibercultura tem aparecido um autor austríaco muito presente na minha formação na década de 80: Ivan Illich. Defensor da "sociedade sem escolas", Illich escreveu sobre diversas coisas e, meio que antevendo o futuro, já falava em web e em rede. Mas, claro, não era ainda a internet e muito menos essa internet de hoje, que já a escrevemos com o i minúsculo, diferente do que ocorria há pouco tempo, quando dávamos a ela uma dimensão própria. O risco de recuperar Illich, justo agora em que a educação anda tão mal em todo o mundo, é vermos crescer a absurda tese da não necessidade das escolas e dos professores, através das iniciativas de formação no ambiente doméstico, com pais e familiares desempenhando o papel dos professores.
As chamadas tecnologias de informação e comunicação têm trazido incomensuráveis possibilidades de estímulo à produção de vídeos, imagens, sons, textos, pré-textos e muito mais – por cada um individualmente ou nos coletivos, a partir de suas próprias experiências e vivências. Mas isso só não basta. Penso ser necessário o diálogo profundo e intenso com o saber estabelecido, com os avanços das ciências, com o conhecimento das tecnologias desenvolvidas, com as culturas e com os clássicos da literatura universal e nacional, e não só com os nossos autores regionais mais próximos e queridos, e, como insiste Caetano lá no blog, com a chamada língua culta.
Fortalecer a meninada, estimulando a escrita a la "blz, to aki lgdo en vc", é imprescindível. Não podemos desconsiderar essa forma de expressão, que,  mais do real, é fundamental, pois está associada ao meio tecnológico na qual é utilizada. Estabelecer e promover a produção de filmes e vídeos nas escolas e comunidades é indispensável. Mas tudo isso  só se configurará em formação – e aqui temos que falar de boca cheia e em alto e bom som em formação, e não em treinamento! – se tudo se articular de forma intensa com a rica produção cultural histórica da humanidade, ao mesmo tempo com respeito e, principalmente, com aguçada crítica. Mas, para tanto, é necessário conhecer. Para isso, e não só, a escola é fundamental. Daí, a grande importância dos professores. Estes respeitados e tratados com dignidade, com sólida formação e pagos com decentes salários, como o são alguns dos profissionais de algumas outras carreiras, e não como trabalhadores de segunda categoria, somente porque existem em quantidade fenomenal, necessária para dar conta do enorme desafio colocado para a humanidade nos dias de hoje. Professores nobres, como já me referi outras vezes, trazendo de novo Caetano. Nobreza brau, disse ele em uma deliciosa música, falando de Neide Candolina, sua professora de português no Central. Negona retada que, certamente, chuto eu aqui, com regras, delicadeza e afeto, fez o tão necessário link entre o instituído (a língua culta) e o movimento alucinado da geração Central, que, entre tantas outras maravilhosas loucuras, deram na Tropicália, no Cinema Novo e nos Caetanos. Quer mais?


Publicado em A Tarde, de Salvador, Bahia, em 07.03.2009, pag. 03

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