Salve o velho rádio, em A Tarde de 22.05.2010

Salve o velho rádio

Nelson Pretto – professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia – www.pretto.info

O Rádio está presente na vida dos brasileiros de forma intensa. São mais de 90% dos domicílios com rádio correspondendo a cerca de 38 mil casas com os tais aparelhinhos que encantam a todos, inclusive o dramaturgo alemão Bertold Brech que, na decada de 20 de século passado já acreditava que se em cada residência existisse um aparelho de rádio capaz de enviar e receber mensagens, estariam dadas as condições para se instaurar uma esfera pública cidadã sustentada pela infraestrutura técnica. E Brecht não tinha visto nada!

Naqueles primeiros anos, além do rádio emissor de programação cultural e educativa existiam também os rádios amadores, que instalados nas casas pelos aficionados da comunicação de fato possibilitavam uma conversa a distância.

Seja de um jeito ou de outro, o que se percebeu é que o rádio tem um enorme potencial. Com a internet, muitas rádios que antes só utilizavam as ondas hertzianas, passaram a retransmitir pela rede. Ao mesmo tempo, com as facilidades tecnológicas, diversos grupos montaram suas própria rádios diretamente na internet, ampliando em muito as possibilidades de uso, especialmente para e a educação e a cultura.

Na década de 60, antes do golpe militar de 64, diversas organizações e governos atuavam para combater o analfabetismo que até hoje nos deixa perplexos pelos seus números assustadores. No estado de Pernambuco, governado por Miguel Arraes (1960-1964), começou um intenso movimento de educação que, nas palavras de José Marques de Melo, se constituiu numa “revolução popular, usando a mídia como arma, tendo por alvo a escola e valendo-se da cultura popular como projétil. Tal experiência transcorreu de forma paralela e sintonizada com o Movimento de Educação de Base (MEB)”, este baseado no método de Paulo Freire.
Muitas anos depois, numa animada conversa com o professor José Peixoto durante uma reunião regional da SBPC em Teresina, no Piauí, falávamos dos nossos projetos com software livre na Faculdade de Educação da UFBA e ele, sobre suas experiências na época do MEB. Imediatamente, com as histórias que contava e com a nossa experiência de rádio Web, veio à cabeça um movimento da letra M virando W e nasceu assim, o livro Do Meb à Web: a rádio na educação, que será lançado às 19 horas da próxima terça feira dia 01 de junho na Escola de Teatro da UFBA.
Este livro, organizado com Sandra Tosta da PUCMG, apresenta um panorama do uso do rádio na educação em diversos países, sabendo que deixamos muitas importantes experiências de fora. Para tal, reunimos pesquisadores do Brasil (Bahia, São Paulo e Rio) e de Portugal, Espanha e México, para pensarmos o rádio de uma maneira mais ampla.
As pesquisas que deram origem a este livro envolveram professores, doutrandos, mestrandos e estudantes de graduação – esses apoiados pelo Programa de Bolsas de Iniciação Científica (FAPESB e CNPq), programa esse de suma importância para a formação do jovem pesquisador brasileiro. Lamentavelmente, ainda temos na UFBA somente cerca de 600 bolsas de iniciação científica para uma universidade de mais de 24 mil alunos de graduação.
Como resultado desses projetos temos hoje instaladas e funcionando a Rádio Faced Web e a Rádio Ciberparque Anísio Texieira (um Ponto de Cultura apoiado pelo MinC), ambos projetos da Faculdade de Educação e a Rádio Teatro Web, que nasceu a partir do projeto da Rádio Faced com o esforço de Gideon Rosa, que tem se dedicado à produção de radiodramaturgias, como a peça a A Vida de Franz Biberkopf, de Alfred  Döblin, que também será lançada junto com o livro no próximo dia 1º de junho.

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