{"id":97,"date":"2007-08-08T10:16:00","date_gmt":"2007-08-08T10:16:00","guid":{"rendered":"http:\/\/abobrinhasdepretto.wordpress.com\/2007\/08\/08\/97\/"},"modified":"2007-08-08T10:16:00","modified_gmt":"2007-08-08T10:16:00","slug":"97","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/2007\/08\/08\/97\/","title":{"rendered":""},"content":{"rendered":"<p>Dia dos Pais<\/p>\n<p>Nelson Pretto &#8211; Diretor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFBA &#8211; www.pretto.info<\/p>\n<div style=\"text-align:left\">Tr\u00eas momentos distintos foram por mim vividos neste m\u00eas de agosto, os quais, aparentemente sem conex\u00f5es, est\u00e3o intimamente ligados por algo que me \u00e9 muito caro: a educa\u00e7\u00e3o. O Centro Cultural da Caixa apresenta a exposi\u00e7\u00e3o &#8220;Direito \u00e0 Mem\u00f3ria e \u00e0 verdade: a ditadura no Brasil &#8211; 1964\/1985&#8221;, com imagens e textos de um per\u00edodo de nossa hist\u00f3ria recente que deixou marcas profundas em todos. Uma exposi\u00e7\u00e3o simples, com imagens de uma luta que, \u00e9 bem verdade, ainda n\u00e3o acabou. Por uma dessas coincid\u00eancias da vida, peguei para assistir o filme &#8220;O dia que meus pais sa\u00edram de f\u00e9rias&#8221;, de Cao Hamburguer, realizado no ano passado e vencedor de alguns pr\u00eamios. No filme, o mesmo cen\u00e1rio da repress\u00e3o militar e, ao fundo, a hist\u00f3ria de um garoto que tem com seu pai uma linda rela\u00e7\u00e3o de amor, respeito e admira\u00e7\u00e3o por conta de sua marcante presen\u00e7a &#8211; e posterior aus\u00eancia em fun\u00e7\u00e3o das &#8220;f\u00e9rias&#8221; for\u00e7adas -, pelo companheirismo no futebol, de mesa ou da copa, pelas li\u00e7\u00f5es que certamente deu ao longo do tempo que juntos estiveram. Percebe-se que essas devem ter sido li\u00e7\u00f5es cotidianas de vida e relacionamento que, seguramente, inclu\u00edram a conviv\u00eancia com o cruel e violento per\u00edodo de fechamento do Congresso, de censura \u00e0 imprensa e aus\u00eancia total de liberdades. Li\u00e7\u00f5es de vida que n\u00e3o se resumiram, podemos ver com clareza no filme, a uma formalidade educativa, mas que se constitu\u00edram em verdadeira cumplicidade. Naquele ano de 70, eu, um menino de 16 anos, tamb\u00e9m acompanhava a Copa do M\u00e9xico com o minha turma de col\u00e9gio, assistindo aos jogos pela televis\u00e3o, que, justamente naquele per\u00edodo, iniciava suas transmiss\u00f5es internacionais ao vivo. Torc\u00edamos n\u00f3s pelo Brasil, mas fic\u00e1vamos indignado com o ufanismo que nos impunham, n\u00f3s os &#8220;90 milh\u00f5es em a\u00e7\u00e3o&#8221; que repet\u00edamos, j\u00e1 embalados por um estilo de TV e comportamento impostos pelos locutores globais, o bord\u00e3o &#8220;Pr\u00e1 frente Brasil, do meu cora\u00e7\u00e3o&#8230;&#8221;. Enquanto isso, era decretada a censura pr\u00e9via \u00e0 imprensa, livros e peri\u00f3dicos, era assassinado o dirigente comunista M\u00e1rcio Alves e estudantes e militantes agitavam o pa\u00eds. Nas paredes da exposi\u00e7\u00e3o, retratos da mobiliza\u00e7\u00e3o pelas liberdades democr\u00e1ticas, que custamos a ver de volta ao pa\u00eds, e um texto, sobre enorme imagem de uma multid\u00e3o de jovens que se amontoavam pelas ruas das cidades brasileiras em constantes protestos, reprimidos com muita viol\u00eancia: &#8220;Estudante era profiss\u00e3o perigosa. Em 64, 67, 68, 77, 78, 84, sa\u00edram em passeata, com\u00edcios-rel\u00e2mpagos, encontros clandestinos. Resistiram e gritam por liberdades nos <span style=\"font-style:italic\">campi<\/span>, e nas ruas&#8221;.<br \/>Ainda impactado pela exposi\u00e7\u00e3o e filme, me deparo com a publicidade do dias dos pais que se avizinha. Nada de rebeldia e de aut\u00eantico carinho e cumplicidade entre pais e filhos. O que vemos \u00e9 mais um dia aguardado com ansiedade pelo com\u00e9rcio para o aumento de vendas de bugingangas para celebrar essa fria e mercadol\u00f3gica rela\u00e7\u00e3o entre pais e filhos. Os apelos s\u00e3o lament\u00e1veis, pois usam os sentimentos mais pr\u00f3ximos dessa rela\u00e7\u00e3o, com um \u00fanico e solene objetivo: vender. A vida moderna, sem emprego ou com emprego, e sem tempo para a fam\u00edlia, fez com que a educa\u00e7\u00e3o dos filhos fosse toda terceirizada e, por culpa dessa intensa aus\u00eancia, restou a possibilidade do consumo e dos presentes materiais como tentativa de compensa\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o perdida. Para os que n\u00e3o t\u00eam recursos, al\u00e9m do esfor\u00e7o, fica a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ter correspondido \u00e0s demandas dos pais e da sociedade.<br \/>O resgate da rela\u00e7\u00e3o pai e filho, nesta sociedade do pouco tempo e tamb\u00e9m do pouco valor \u00e9tico, deveria ser uma demanda de todos. Um passeio pela rua, uma conversa no fim de tarde, na laje da casa ou na janela do apartamento, uma olhadela no mar ou na mata ao nosso lado e, principalmente um di\u00e1logo franco sobre os problemas e desejos dessa juventude, podem fazer muito bem. Muitas vezes, essa dimens\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 deixada de lado, na expectativa de que n\u00f3s, professores, possamos compens\u00e1-la com trabalho profissional, e a\u00ed, tenha certeza que, por melhor que esse trabalho possa ser &#8211; coisa dif\u00edcil pelas nossas condi\u00e7\u00f5es de trabalho atuais &#8211; nada substituir\u00e1 um papo, olho no olho, de filho para pai e de pai para filho.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dia dos Pais Nelson Pretto &#8211; Diretor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFBA &#8211; www.pretto.info Tr\u00eas momentos distintos foram por mim vividos neste m\u00eas de agosto, os quais, aparentemente sem conex\u00f5es, est\u00e3o intimamente ligados por algo que me \u00e9 muito caro: a educa\u00e7\u00e3o. O Centro Cultural da Caixa apresenta a exposi\u00e7\u00e3o &#8220;Direito \u00e0 Mem\u00f3ria e \u00e0 verdade: a ditadura no Brasil &#8211; 1964\/1985&#8221;, com imagens e textos de um per\u00edodo de nossa hist\u00f3ria recente que deixou marcas profundas em todos. Uma exposi\u00e7\u00e3o simples, com imagens de uma luta que, \u00e9 bem verdade, ainda n\u00e3o acabou. Por uma dessas coincid\u00eancias da vida, peguei para assistir o filme &#8220;O dia que meus pais sa\u00edram de f\u00e9rias&#8221;, de Cao Hamburguer, realizado no ano passado e vencedor de alguns pr\u00eamios. 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Naquele ano de 70, eu, um menino de 16 anos, tamb\u00e9m acompanhava a Copa do M\u00e9xico com o minha turma de col\u00e9gio, assistindo aos jogos pela televis\u00e3o, que, justamente naquele per\u00edodo, iniciava suas transmiss\u00f5es internacionais ao vivo. Torc\u00edamos n\u00f3s pelo Brasil, mas fic\u00e1vamos indignado com o ufanismo que nos impunham, n\u00f3s os &#8220;90 milh\u00f5es em a\u00e7\u00e3o&#8221; que repet\u00edamos, j\u00e1 embalados por um estilo de TV e comportamento impostos pelos locutores globais, o bord\u00e3o &#8220;Pr\u00e1 frente Brasil, do meu cora\u00e7\u00e3o&#8230;&#8221;. Enquanto isso, era decretada a censura pr\u00e9via \u00e0 imprensa, livros e peri\u00f3dicos, era assassinado o dirigente comunista M\u00e1rcio Alves e estudantes e militantes agitavam o pa\u00eds. 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Os apelos s\u00e3o lament\u00e1veis, pois usam os sentimentos mais pr\u00f3ximos dessa rela\u00e7\u00e3o, com um \u00fanico e solene objetivo: vender. A vida moderna, sem emprego ou com emprego, e sem tempo para a fam\u00edlia, fez com que a educa\u00e7\u00e3o dos filhos fosse toda terceirizada e, por culpa dessa intensa aus\u00eancia, restou a possibilidade do consumo e dos presentes materiais como tentativa de compensa\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o perdida. Para os que n\u00e3o t\u00eam recursos, al\u00e9m do esfor\u00e7o, fica a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ter correspondido \u00e0s demandas dos pais e da sociedade.O resgate da rela\u00e7\u00e3o pai e filho, nesta sociedade do pouco tempo e tamb\u00e9m do pouco valor \u00e9tico, deveria ser uma demanda de todos. 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