{"id":48,"date":"2006-06-08T08:33:00","date_gmt":"2006-06-08T08:33:00","guid":{"rendered":"http:\/\/abobrinhasdepretto.wordpress.com\/2006\/06\/08\/correndo-contra-o-tempo\/"},"modified":"2006-06-08T08:33:00","modified_gmt":"2006-06-08T08:33:00","slug":"correndo-contra-o-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/2006\/06\/08\/correndo-contra-o-tempo\/","title":{"rendered":"Correndo contra o Tempo"},"content":{"rendered":"<p>Nelson Pretto &#8211; Diretor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFBA &#8211; www.pretto.info<\/p>\n<p>O acelerado mundo contempor\u00e2neo tem deixado duras marcas em nosso cotidiano. Vivemos num mundo de altas velocidades e n\u00e3o mais a velocidade dos movimentos naturais. Distante de n\u00f3s est\u00e1 o tempo medido pelo nascer do sol, pelo sol a pino ou pelo p\u00f4r-do-sol, que definia a hora de ir para a colheita, almo\u00e7ar ou de voltar para casa ap\u00f3s mais um dia de labuta.<\/p>\n<p>Estamos imersos no tempo da computa\u00e7\u00e3o, do nano-segundo, da velocidade exagerada. Um tempo que tem introduzido no nosso cotidiano o que alguns autores chamam como oitavo pecado capital: a pressa. N\u00e3o temos mais tempo para nada! Aqui na Bahia, uma maravilhosa express\u00e3o popular designa uma longa espera: \u201cT\u00f4 aqui h\u00e1 uma hora de rel\u00f3gio te esperando!\u201d.<\/p>\n<p>Imagina&#8230; uma hora de rel\u00f3gio! A impress\u00e3o que temos \u00e9 que transcorreram muito mais do que sessenta minutos&#8230; \u00e9 um outro tempo! A hodierna sensa\u00e7\u00e3o de absoluta exig\u00fcidade do tempo est\u00e1 relacionada \u00e0 intensa velocidade de circula\u00e7\u00e3o de tudo, o que vem afetando e determinando a forma como o planeta se organiza e, como n\u00e3o poderia deixar de ser neste mundo capitalista, a economia \u00e9 quem mais se modifica e, principalmente, modifica o nosso cotidiano, interferindo e criando a t\u00e3o comentada globaliza\u00e7\u00e3o. Globaliza\u00e7\u00e3o essa que existe por conta, tamb\u00e9m, da expans\u00e3o violenta de um outro setor, a m\u00eddia, que \u201cconecta\u201d todo o planeta.<\/p>\n<p>Conecta?! O que significa, de fato, essa id\u00e9ia de um planeta conectado? Precisamos qualificar isso ou ser\u00e1 suficiente afirmarmos que mais de 90% dos domic\u00edlios brasileiros possuem aparelhos de r\u00e1dio e televis\u00e3o e que isso j\u00e1 significaria que a popula\u00e7\u00e3o estaria integrada? Claro que n\u00e3o, pois esses equipamentos possibilitam apenas que a informa\u00e7\u00e3o seja recebida, nada mais. Verdade que isso n\u00e3o \u00e9 pouco, se compararmos com tempos passados.<\/p>\n<p>Mas significa que somos inundados com informa\u00e7\u00f5es produzidas e distribu\u00eddas de forma centralizada, geralmente nos grandes centros, do Pa\u00eds ou do mundo.<\/p>\n<p>No entanto, prevalece a falsa id\u00e9ia de que estamos todos conectados. Falamos com intimidade da elei\u00e7\u00e3o americana ou italiana, dos dist\u00farbios da Fran\u00e7a e da viol\u00eancia em S\u00e3o Paulo, da mesma forma que comentamos a elei\u00e7\u00e3o para prefeito de nossa cidade, seja ela grande ou pequena.<\/p>\n<p>\u00c9 quando falamos das pequenas cidades que as coisas se complicam mais ainda porque, quanto menor ela for, mais \u201cdesconectada\u201d estar\u00e1, de sorte que s\u00e3o ainda maiores os mecanismos de exclus\u00e3o a deixar sua popula\u00e7\u00e3o sem informa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o poucas vezes, das suas pr\u00f3prias problem\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Os leitores do interior do Estado sabem bem do que estou falando.<\/p>\n<p>\u00c9 o jornal que s\u00f3 chega mais tarde, as televis\u00f5es que normalmente s\u00f3 sintonizam, via parab\u00f3licas, as emissoras do centrosul ou da capital. Essa \u00e9 a id\u00e9ia do \u201cbroadcasting\u201d veiculada pela m\u00eddia eletr\u00f4nica, que se apropria muito intensamente de todas as tecnologias, deixando transparecer que a grande circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es, por si s\u00f3, garantiria democracia, participa\u00e7\u00e3o e exerc\u00edcio da cidadania.<\/p>\n<p>Ledo engano! Ao contr\u00e1rio, essa explos\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o termina contribuindo com a nossa alucina\u00e7\u00e3o temporal, j\u00e1 que provoca em n\u00f3s a sensa\u00e7\u00e3o de pertencermos, ao mesmo tempo, a quase todos os lugares do planeta.<\/p>\n<p>Muitas vezes, estamos mais pr\u00f3ximos do mais distantes do que do vizinho do lado ou do colega de sala. Esse tempo alucinado, que n\u00e3o nos possibilita um pensar sobre ele pr\u00f3prio e sobre as nossas a\u00e7\u00f5es cotidianas, \u00e9 um tempo do olhar para si mesmo e muito pouco para o coletivo.<\/p>\n<p>Nossos limites parecem ser ignorados e, principalmente, ficam embotadas as nossas potencialidades e possibilidades de construirmos um outro mundo (um outro mundo \u00e9 poss\u00edvel!) com base em valores como a \u00e9tica e a solidariedade, que foram sendo perdidos, deixados de lado, ou, o que \u00e9 pior, transformados em mais uma mercadoria que pode ser negociada.<\/p>\n<p>Retomar e qualificar essa quest\u00e3o \u00e9 mais do que fundamental quando desejamos transforma\u00e7\u00f5es profundas nesse nosso tempo, as quais, evidentemente, podem ser auxiliadas e facilitadas pelos avan\u00e7os cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos. Mas precisamos estar atentos. Como faz o Paulo Vaz, da UFRJ: \u201cNossa responsabilidade requer a alian\u00e7a entre a ci\u00eancia e a democracia, e n\u00e3o apenas aquela entre a ci\u00eancia e o capital\u201d. Talvez a\u00ed resida a nossa esperan\u00e7a e f\u00e9 de que possamos andar a favor e n\u00e3o mais contra o tempo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nelson Pretto &#8211; Diretor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFBA &#8211; www.pretto.info O acelerado mundo contempor\u00e2neo tem deixado duras marcas em nosso cotidiano. Vivemos num mundo de altas velocidades e n\u00e3o mais a velocidade dos movimentos naturais. Distante de n\u00f3s est\u00e1 o tempo medido pelo nascer do sol, pelo sol a pino ou pelo p\u00f4r-do-sol, que definia a hora de ir para a colheita, almo\u00e7ar ou de voltar para casa ap\u00f3s mais um dia de labuta. Estamos imersos no tempo da computa\u00e7\u00e3o, do nano-segundo, da velocidade exagerada. Um tempo que tem introduzido no nosso cotidiano o que alguns autores chamam como oitavo pecado capital: a pressa. N\u00e3o temos mais tempo para nada! Aqui na Bahia, uma maravilhosa express\u00e3o popular designa uma longa espera: \u201cT\u00f4 aqui h\u00e1 uma hora de rel\u00f3gio te esperando!\u201d. Imagina&#8230; uma hora de rel\u00f3gio! A impress\u00e3o que temos \u00e9 que transcorreram muito mais do que sessenta minutos&#8230; \u00e9 um outro tempo! A hodierna sensa\u00e7\u00e3o de absoluta exig\u00fcidade do tempo est\u00e1 relacionada \u00e0 intensa velocidade de circula\u00e7\u00e3o de tudo, o que vem afetando e determinando a forma como o planeta se organiza e, como n\u00e3o poderia deixar de ser neste mundo capitalista, a economia \u00e9 quem mais se modifica e, principalmente, modifica o nosso cotidiano, interferindo e criando a t\u00e3o comentada globaliza\u00e7\u00e3o. Globaliza\u00e7\u00e3o essa que existe por conta, tamb\u00e9m, da expans\u00e3o violenta de um outro setor, a m\u00eddia, que \u201cconecta\u201d todo o planeta. Conecta?! O que significa, de fato, essa id\u00e9ia de um planeta conectado? Precisamos qualificar isso ou ser\u00e1 suficiente afirmarmos que mais de 90% dos domic\u00edlios brasileiros possuem aparelhos de r\u00e1dio e televis\u00e3o e que isso j\u00e1 significaria que a popula\u00e7\u00e3o estaria integrada? Claro que n\u00e3o, pois esses equipamentos possibilitam apenas que a informa\u00e7\u00e3o seja recebida, nada mais. Verdade que isso n\u00e3o \u00e9 pouco, se compararmos com tempos passados. Mas significa que somos inundados com informa\u00e7\u00f5es produzidas e distribu\u00eddas de forma centralizada, geralmente nos grandes centros, do Pa\u00eds ou do mundo. No entanto, prevalece a falsa id\u00e9ia de que estamos todos conectados. Falamos com intimidade da elei\u00e7\u00e3o americana ou italiana, dos dist\u00farbios da Fran\u00e7a e da viol\u00eancia em S\u00e3o Paulo, da mesma forma que comentamos a elei\u00e7\u00e3o para prefeito de nossa cidade, seja ela grande ou pequena. \u00c9 quando falamos das pequenas cidades que as coisas se complicam mais ainda porque, quanto menor ela for, mais \u201cdesconectada\u201d estar\u00e1, de sorte que s\u00e3o ainda maiores os mecanismos de exclus\u00e3o a deixar sua popula\u00e7\u00e3o sem informa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o poucas vezes, das suas pr\u00f3prias problem\u00e1ticas. Os leitores do interior do Estado sabem bem do que estou falando. \u00c9 o jornal que s\u00f3 chega mais tarde, as televis\u00f5es que normalmente s\u00f3 sintonizam, via parab\u00f3licas, as emissoras do centrosul ou da capital. 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