{"id":4575,"date":"2017-07-25T09:43:53","date_gmt":"2017-07-25T12:43:53","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.ufba.br\/nlpretto\/?p=4575"},"modified":"2017-07-25T09:43:53","modified_gmt":"2017-07-25T12:43:53","slug":"discurso-de-joao-jose-reis-na-academia-brasileira-de-letras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/2017\/07\/25\/discurso-de-joao-jose-reis-na-academia-brasileira-de-letras\/","title":{"rendered":"Discurso de Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis na Academia Brasileira de Letras"},"content":{"rendered":"<p>O professor e querido colega Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis, aposentado da Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da UFBA foi agraciado com o Pr\u00eamio Machado de Assis sobre o conjunto de sua obra sobre a quest\u00e3o da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>O seu discurso na cerim\u00f4nia do Pr\u00eamio foi genial e tamb\u00e9m a mat\u00e9ria em O Globo com uma entrevista sua (<a title=\"O Globo Jo\u00e3o Reis\" href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/livros\/joao-jose-reis-poder-publico-setor-privado-tem-divida-com-escravidao-21609440\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">veja aqui<\/a>), ali\u00e1s, com uma bela foto de Guito Moreto.<\/p>\n<p>O discurso, transcrevo abaixo.<\/p>\n<p>DISCURSO EM AGRADECIMENTO AO PR\u00caMIO MACHADO DE ASSIS ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, 20 de JULHO de 2017<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma, sans-serif, Arial, Helvetica\"><span style=\"color: #000000\">Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis<br \/>\nSou grato aos membros desta Academia por considerar minha obra merecedora do Pr\u00eamio Machado de Assis.<br \/>\nSendo um historiador da escravid\u00e3o (embora n\u00e3o apenas) permitam-me imaginar a concess\u00e3o do pr\u00eamio, quando a Academia cumpre 120 anos, como uma homenagem \u00e0queles dentre os seus fundadores que, entre outros, militaram contra a escravid\u00e3o &#8212; penso em Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio e, muito especialmente, Machado de Assis, que d\u00e1 seu nome a este laurel. Neto de escravos, Machado, al\u00e9m de abolicionista arguto, radical, embora discreto, foi a seu modo historiador da escravid\u00e3o, no que acompanho um de seus mais destacados int\u00e9rpretes, Sidney Chalhoub, tamb\u00e9m historiador da escravid\u00e3o.<br \/>\nOutro historiador, o acad\u00eamico Alberto da Costa e Silva, aqui presente, avaliou perfeita e concisamente o peso desse sistema de trabalho e modo de vida para o Brasil: &#8220;A escravid\u00e3o foi o processo mais importante e profundo de nossa hist\u00f3ria.&#8221; N\u00e3o podia ser diferente: durou perto de 400 anos, contra apenas 129 anos de liberdade; o tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico luso-brasileiro importou quase metade dos 11 milh\u00f5es de suas v\u00edtimas; e o Brasil foi o \u00faltimo pa\u00eds das Am\u00e9ricas a abolir a escravid\u00e3o.<br \/>\nEla deixou marcas indel\u00e9veis na sociedade que nasceu de seus fundamentos e ainda nos assombra com fantasmas de v\u00e1rias esp\u00e9cies \u2013 as desigualdades sociais e raciais, o racismo sist\u00eamico, o racismo epis\u00f3dico, agora mais assanhado pelo anonimato da internet (j\u00e1 chamado &#8220;racismo virtual&#8221;), hoje o principal veiculo de prega\u00e7\u00e3o de todos os \u00f3dios, inclusive do \u00f3dio racial.<br \/>\nO Brasil precisar\u00e1 de esfor\u00e7o herc\u00faleo para livrar-se desse passado que se recusa a passar. O principal caminho talvez seja mais informa\u00e7\u00e3o, mais educa\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00f5es afirmativas, umas entrela\u00e7adas com as demais. Neste sentido, algumas medidas reivindicadas pelos movimentos negros foram adotadas nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Entre elas, destacaria tr\u00eas: as cotas educacionais, o ensino da hist\u00f3ria afro-brasileira e a cria\u00e7\u00e3o da Universidade da Integra\u00e7\u00e3o Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira.<br \/>\nA recent\u00edssima reforma trabalhista causa temor a quem entende do assunto. Segundo o auditor fiscal do trabalho Lu\u00eds Alexandre farias, \u201cas mudan\u00e7as criam condi\u00e7\u00f5es legais e permitem que a legisla\u00e7\u00e3o banalize aquelas condi\u00e7\u00f5es que identificamos como trabalho an\u00e1logo ao escravo\u201d.<br \/>\nE a respeito do princ\u00edpio do negociado sobre o legislado, o procurador do MPT Maur\u00edcio Ferreira Brito, que encabe\u00e7a a Coordenadoria Nacional de Erradica\u00e7\u00e3o do Trabalho Escravo, advertiu sobre o perigo da escravid\u00e3o volunt\u00e1ria: &#8220;A depender do que se negocie&#8221;, ele alertou, &#8220;voc\u00ea pode legalizar pr\u00e1ticas do trabalho escravo.&#8221; Seria uma gra\u00e7a que este procurador fosse t\u00e3o ouvido quanto os de Curitiba. Faltou falar da licen\u00e7a agora dada ao capital para empregar a mulher gestante em ambientes insalubres. N\u00e3o me convencem as ressalvas da lei: se isso n\u00e3o \u00e9 trabalho degradante, o que mais ser\u00e1?<br \/>\nSobre a reforma trabalhista, aceitem um exerc\u00edcio de imagina\u00e7\u00e3o pessimista. N\u00e3o resisto a comparar o &#8220;trabalho intermitente&#8221; ali contemplado com o sistema de ganho ou de aluguel nas cidades escravistas: no primeiro caso, o senhor mandava o escravo \u00e0 rua para alugar ele pr\u00f3prio sua for\u00e7a de trabalho; no segundo, o senhor escolhia um locat\u00e1rio. Circulava o escravo ao ganho ou de aluguel entre um e outro e mais outro empregador, como cumprir\u00e1 faz\u00ea-lo o trabalhador intermitente do novo Brasil. Um professor, por exemplo, poder\u00e1, como aut\u00f4nomo intermitente servir em v\u00e1rios estabelecimentos de ensino, um dia num, no dia seguinte mais um, depois ainda outro. Nascer\u00e1, assim, o professor ao ganho.<br \/>\nSome-se a recente Lei da Terceiriza\u00e7\u00e3o e alcan\u00e7amos o quadro quase completo de precariza\u00e7\u00e3o radical do trabalho. A terceiriza\u00e7\u00e3o agora vale para atividades fins. Ainda no setor do ensino, empresas que antes limitavam-se a fornecer empregados para atuar na seguran\u00e7a ou na limpeza, poder\u00e3o doravante oferecer professores a escolas, faculdades e universidades, e faz\u00ea-los circular de acordo com a demanda do mercado. Nascer\u00e1, ent\u00e3o, o professor de aluguel.<br \/>\nPor felicidade, j\u00e1 passou meu tempo de ser professor ao ganho ou de aluguel. O emprego em regime de dedica\u00e7\u00e3o exclusiva na Universidade Federal da Bahia deu-me a oportunidade de ser um p<\/span><\/span>rofessor pesquisador. \u00c0 minha universidade e aos \u00f3rg\u00e3os de fomento de pesquisa, em especial ao CNPQ, eu agrade\u00e7o ter podido escrever a obra historiogr\u00e1fica agora premiada. Dela j\u00e1 falou, com generosidade, o professor Jos\u00e9 Murilo de Carvalho.<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma, sans-serif, Arial, Helvetica\"><span style=\"color: #000000\">As cotas sociorraciais para ingresso nas universidades p\u00fablicas j\u00e1 resultaram em mudan\u00e7a na cor dessas institui\u00e7\u00f5es, corrigindo em muitos casos a quase exclusividade branca nos cursos de maior prest\u00edgio \u2013 Medicina, Direito, Engenharia. Apesar de problemas aqui e ali, as cotas est\u00e3o dando certo.<br \/>\nA introdu\u00e7\u00e3o, no ensino fundamental e m\u00e9dio, de disciplina voltada para a hist\u00f3ria e a cultura afro-brasileiras, com \u00eanfase na hist\u00f3ria da \u00c1frica, prometia uma equipara\u00e7\u00e3o a conte\u00fados sobre a hist\u00f3ria da Europa. Lamentavelmente, a disciplina desapareceu da nova Base Nacional Comum Curricular. E a \u00c1frica voltou a ser emparedada naquela acep\u00e7\u00e3o, denunciada por Cruz e Souza, de &#8220;\u00c1frica grotesca e triste, melanc\u00f3lica, g\u00eanese assombrosa de gemidos, \u00c1frica dos supl\u00edcios e das maldi\u00e7\u00f5es eternas&#8221;, enfim a \u00c1frica que predomina na grande m\u00eddia, ref\u00e9m de uma &#8220;hist\u00f3ria \u00fanica&#8221;, na express\u00e3o certeira da escritora nigeriana Chimamanda Adic hie. Tor\u00e7o pelo retorno da \u00c1frica \u00e0s escolas.<br \/>\nUma hist\u00f3ria de outras vozes est\u00e1 representada na Universidade da Integra\u00e7\u00e3o Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira \u2013 a UNILAB, implantada a partir de 2011 como um gesto, ainda que acanhado, de solidariedade com um continente pilhado pelo tr\u00e1fico luso-brasileiro de cativos. Essa institui\u00e7\u00e3o acolhe em suas salas de aula quase mil alunos africanos, mediadores qualificados de suas \u00c1fricas com o Brasil, jovens que recebem pequena bolsa mensal de 530 reais. Pois a comunidade da UNILAB esteve amea\u00e7ada recentemente com o corte desse min\u00fasculo item do or\u00e7amento nacional. Urge defender a UNILAB!<br \/>\nPol\u00edticas de inclus\u00e3o racial, al\u00e9m para esfor\u00e7o de educar e informar todos os brasileiros sobre a imensa contribui\u00e7\u00e3o dos africanos e seus descendentes para a forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e cultural do pa\u00eds, s\u00e3o, entre outras, medidas necess\u00e1rias \u2013 n\u00e3o sei se suficientes \u2013 para combatermos o legado nefasto da escravid\u00e3o. Prefiro acredita<\/span><\/span>r que seja produto da ignor\u00e2ncia, e n\u00e3o desfa\u00e7atez, gestos de delinqu\u00eancia simb\u00f3lica como batizar um restaurante chique de Senzala. Desejo, desejamos um pa\u00eds onde n\u00e3o seja preciso uma jovem negra empunhar, numa recente manifesta\u00e7\u00e3o de rua, cartaz que dizia: &#8220;A casa-grande surta quando a senzala aprende a ler.&#8221;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma, sans-serif, Arial, Helvetica\"><span style=\"color: #000000\">Invocar a escravid\u00e3o passou \u00e0 ordem do dia. Com uma maioria de detentos negros (cerca de 60%) amontoados em espa\u00e7o ex\u00edguo, nossas pris\u00f5es s\u00e3o comparadas a senzalas onde n\u00e3o \u00e9 servida a boa comida do restaurante Senzala. Compara\u00e7\u00e3o talvez injusta, porque a vida de seus escravos valia mais para o senhor do que parece valer a vida dos presos para os governos e a sociedade que, conivente, se cala. Preso n\u00e3o conta como cidad\u00e3o, ele \u00e9 preto, ou, se branco, \u00e9 tamb\u00e9m preto de t\u00e3o pobre \u2013 j\u00e1 acusou Caetano Veloso. A precariedade da cidadania, filha da desigualdade social e racial, tem sido vinculada ao passado escravista com insist\u00eancia. Ainda na semana passada, Milton Hatoum escreveu em sua coluna de O Globo: &#8220;Quase quatro s\u00e9culos de escravid\u00e3o, e mais de um s\u00e9culo de uma democracia manca, interrompida por v\u00e1rias ditaduras, s\u00f3 poderiam gerar uma sociedade extremamente desigual.&#8221;<br \/>\nH\u00e1, no entanto, outra dimens\u00e3o inquietante nessa ordem de quest\u00f5es, que \u00e9 quando, em vez de alegoria, a escravid\u00e3o se insinua como dado de realidade efetiva ou em constru\u00e7\u00e3o.<br \/>\nComo no passado, o ciclo come\u00e7a com o tr\u00e1fico \u2013 de trabalhadoras e trabalhadores sexuais, dom\u00e9sticos, industriais ou rurais. Imigrantes legais e ilegais s\u00e3o com frequ\u00eancia resgatados de por\u00f5es insalubres nas grandes cidades, onde trabalham, moram e morrem. Na zona rural chovem den\u00fancias de pessoas submetidas a trabalho (for\u00e7ado, exaustivo, degradante) an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o, mat\u00e9ria que hoje mobiliza pesquisadores e membros da Justi\u00e7a do Trabalho numa discuss\u00e3o que j\u00e1 ganhou foro internacional.<br \/>\nA recent\u00edssima reforma trabalhista causa temor a quem entende do assunto. Segundo o auditor fiscal do trabalho Lu\u00eds Alexandre farias, \u201cas mudan\u00e7as criam condi\u00e7\u00f5es legais e permitem que a legisla\u00e7\u00e3o banalize aquelas condi\u00e7\u00f5es que identificamos como trabalho an\u00e1logo ao escravo\u201d.<br \/>\nE a respeito do princ\u00edpio do negociado sobre o legislado, o procurador do MPT Maur\u00edcio Ferreira Brito, que encabe\u00e7a a Coordenadoria Nacional de Erradica\u00e7\u00e3o do Trabalho Escravo, advertiu sobre o perigo da escravid\u00e3o volunt\u00e1ria: &#8220;A depender do que se negocie&#8221;, ele alertou, &#8220;voc\u00ea pode legalizar pr\u00e1ticas do trabalho escravo.&#8221; Seria uma gra\u00e7a que este procurador fosse t\u00e3o ouvido quanto os de Curitiba. Faltou falar da licen\u00e7a agora dada ao capital para empregar a mulher gestante em ambientes insalubres. N\u00e3o me convencem as ressalvas da lei: se isso n\u00e3o \u00e9 trabalho degradante, o que mais ser\u00e1?<br \/>\nSobre a reforma trabalhista, aceitem um exerc\u00edcio de imagina\u00e7\u00e3o pessimista. N\u00e3o resisto a comparar o &#8220;trabalho intermitente&#8221; ali contemplado com o sistema de ganho ou de aluguel nas cidades escravistas: no primeiro caso, o senhor mandava o escravo \u00e0 rua para alugar ele pr\u00f3prio sua for\u00e7a de trabalho; no segundo, o senhor escolhia um locat\u00e1rio. Circulava o escravo ao ganho ou de aluguel entre um e outro e mais outro empregador, como cumprir\u00e1 faz\u00ea-lo o trabalhador intermitente do novo Brasil. Um professor, por exemplo, poder\u00e1, como aut\u00f4nomo intermitente servir em v\u00e1rios estabelecimentos de ensino, um dia num, no dia seguinte mais um, depois ainda outro. Nascer\u00e1, assim, o professor ao ganho.<br \/>\nSome-se a recente Lei da Terceiriza\u00e7\u00e3o e alcan\u00e7amos o quadro quase completo de precariza\u00e7\u00e3o radical do trabalho. A terceiriza\u00e7\u00e3o agora vale para atividades fins. Ainda no setor do ensino, empresas que antes limitavam-se a fornecer empregados para atuar na seguran\u00e7a ou na limpeza, poder\u00e3o doravante oferecer professores a escolas, faculdades e universidades, e faz\u00ea-los circular de acordo com a demanda do mercado. Nascer\u00e1, ent\u00e3o, o professor de aluguel.<br \/>\nPor felicidade, j\u00e1 passou meu tempo de ser professor ao ganho ou de aluguel. O emprego em regime de dedica\u00e7\u00e3o exclusiva na Universidade Federal da Bahia deu-me a oportunidade de ser um p<\/span><\/span>rofessor pesquisador. \u00c0 minha universidade e aos \u00f3rg\u00e3os de fomento de pesquisa, em especial ao CNPQ, eu agrade\u00e7o ter podido escrever a obra historiogr\u00e1fica agora premiada. Dela j\u00e1 falou, com generosidade, o professor Jos\u00e9 Murilo de Carvalho.<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma, sans-serif, Arial, Helvetica\"><span style=\"color: #000000\"> Queria apenas acrescentar que meus livros, artigos, cap\u00edtulos em colet\u00e2neas etc, foram e continuam a ser escritos com paix\u00e3o pelos temas de que tratam, sem o selo de garantia da objetividade perfeita exigida pelo positivista. Busquei, sim, a compreens\u00e3o weberiana. No entanto, n\u00e3o permito que minhas inclina\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas e minha utopias pautem as interpreta\u00e7\u00f5es que fa\u00e7o dos processos, epis\u00f3dios e personagens sobre os quais escrevo. Hist\u00f3ria panflet\u00e1ria, nem pensar! Me curvo \u00e0s evid\u00eancias que brotam dos arquivos, e elas n\u00e3o cessam de surpreender com um universo muito mais complexo do que caberia numa explana\u00e7\u00e3o f\u00e1cil e porventura manique\u00edsta, que divida o mundo entre o her\u00f3i e o bandido.<br \/>\nMeus livros s\u00e3o povoados de escravos que fogem de toda parte para toda parte, criam quilombos nas periferias da Cidade da Bahia ou nos mangues de Barra do Rio de Contas, se levantam em nome de Al\u00e1 e de Ogum, mas nesses escritos tamb\u00e9m se encontram escravos que negociam com seus senhores um cativeiro menos opressivo. Escravos que querem e senhores que permitem a acumula\u00e7\u00e3o de bens, e a compra da alforria.<br \/>\nA maioria de meus personagens t\u00eam nomes, subjetividade, n\u00e3o s\u00e3o pe\u00e7as passivas da m\u00e1quina escravista. Bilal Licutan, Luiz Sanin, Manoel Calafate, Jo\u00e3o Malomi, Francisco e Francisca Cidade, Zeferina, homens e mulheres \u00e0 frente das revoltas escravas baianas. O aluf\u00e1 Rufino Jos\u00e9 Maria, liberto mal\u00ea que virou cozinheiro de navio negreiro e pequeno traficante transatl\u00e2ntico de gente.<br \/>\nDomingos Sodr\u00e9, adivinho e curandeiro nag\u00f4 que fornecia beberagens a escravos para amansar seus senhores, mas era ele pr\u00f3prio senhor de escravos. Manoel Joaquim Ricardo, dono de dezenas de escravos, o liberto hauss\u00e1 que prosperou a ponto de ser contado entre os homens que formavam os 10% mais ricos de Salvador. E alguns outros mais&#8230;<br \/>\nContudo, termino com um aviso aos navegantes: a ascens\u00e3o social aconteceu para poucos escravos desembarcados ou nascidos no Brasil. A maioria morreu escravizada. No balan\u00e7o final, fico com Joaquim Nabuco, que escreveu:<br \/>\nN\u00e3o importa que tantos dos seus filhos esp\u00farios tenham exercido sobre irm\u00e3os o mesmo jugo, e se tenham associado como c\u00famplices aos destinos da institui\u00e7\u00e3o homicida, a escravid\u00e3o na Am\u00e9rica \u00e9 sempre o crime da ra\u00e7a branca, elemento predominante da civiliza\u00e7\u00e3o nacional&#8230;<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O professor e querido colega Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis, aposentado da Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da UFBA foi agraciado com o Pr\u00eamio Machado de Assis sobre o conjunto de sua obra sobre a quest\u00e3o da escravid\u00e3o. O seu discurso na cerim\u00f4nia do Pr\u00eamio foi genial e tamb\u00e9m a mat\u00e9ria em O Globo com uma entrevista sua (veja aqui), ali\u00e1s, com uma bela foto de Guito Moreto. O discurso, transcrevo abaixo. DISCURSO EM AGRADECIMENTO AO PR\u00caMIO MACHADO DE ASSIS ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, 20 de JULHO de 2017 Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis Sou grato aos membros desta Academia por considerar minha obra merecedora do Pr\u00eamio Machado de Assis. Sendo um historiador da escravid\u00e3o (embora n\u00e3o apenas) permitam-me imaginar a concess\u00e3o do pr\u00eamio, quando a Academia cumpre 120 anos, como uma homenagem \u00e0queles dentre os seus fundadores que, entre outros, militaram contra a escravid\u00e3o &#8212; penso em Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio e, muito especialmente, Machado de Assis, que d\u00e1 seu nome a este laurel. Neto de escravos, Machado, al\u00e9m de abolicionista arguto, radical, embora discreto, foi a seu modo historiador da escravid\u00e3o, no que acompanho um de seus mais destacados int\u00e9rpretes, Sidney Chalhoub, tamb\u00e9m historiador da escravid\u00e3o. Outro historiador, o acad\u00eamico Alberto da Costa e Silva, aqui presente, avaliou perfeita e concisamente o peso desse sistema de trabalho e modo de vida para o Brasil: &#8220;A escravid\u00e3o foi o processo mais importante e profundo de nossa hist\u00f3ria.&#8221; N\u00e3o podia ser diferente: durou perto de 400 anos, contra apenas 129 anos de liberdade; o tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico luso-brasileiro importou quase metade dos 11 milh\u00f5es de suas v\u00edtimas; e o Brasil foi o \u00faltimo pa\u00eds das Am\u00e9ricas a abolir a escravid\u00e3o. Ela deixou marcas indel\u00e9veis na sociedade que nasceu de seus fundamentos e ainda nos assombra com fantasmas de v\u00e1rias esp\u00e9cies \u2013 as desigualdades sociais e raciais, o racismo sist\u00eamico, o racismo epis\u00f3dico, agora mais assanhado pelo anonimato da internet (j\u00e1 chamado &#8220;racismo virtual&#8221;), hoje o principal veiculo de prega\u00e7\u00e3o de todos os \u00f3dios, inclusive do \u00f3dio racial. O Brasil precisar\u00e1 de esfor\u00e7o herc\u00faleo para livrar-se desse passado que se recusa a passar. O principal caminho talvez seja mais informa\u00e7\u00e3o, mais educa\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00f5es afirmativas, umas entrela\u00e7adas com as demais. Neste sentido, algumas medidas reivindicadas pelos movimentos negros foram adotadas nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Entre elas, destacaria tr\u00eas: as cotas educacionais, o ensino da hist\u00f3ria afro-brasileira e a cria\u00e7\u00e3o da Universidade da Integra\u00e7\u00e3o Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira. A recent\u00edssima reforma trabalhista causa temor a quem entende do assunto. Segundo o auditor fiscal do trabalho Lu\u00eds Alexandre farias, \u201cas mudan\u00e7as criam condi\u00e7\u00f5es legais e permitem que a legisla\u00e7\u00e3o banalize aquelas condi\u00e7\u00f5es que identificamos como trabalho an\u00e1logo ao escravo\u201d. E a respeito do princ\u00edpio do negociado sobre o legislado, o procurador do MPT Maur\u00edcio Ferreira Brito, que encabe\u00e7a a Coordenadoria Nacional de Erradica\u00e7\u00e3o do Trabalho Escravo, advertiu sobre o perigo da escravid\u00e3o volunt\u00e1ria: &#8220;A depender do que se negocie&#8221;, ele alertou, &#8220;voc\u00ea pode legalizar pr\u00e1ticas do trabalho escravo.&#8221; Seria uma gra\u00e7a que este procurador fosse t\u00e3o ouvido quanto os de Curitiba. Faltou falar da licen\u00e7a agora dada ao capital para empregar a mulher gestante em ambientes insalubres. N\u00e3o me convencem as ressalvas da lei: se isso n\u00e3o \u00e9 trabalho degradante, o que mais ser\u00e1? Sobre a reforma trabalhista, aceitem um exerc\u00edcio de imagina\u00e7\u00e3o pessimista. N\u00e3o resisto a comparar o &#8220;trabalho intermitente&#8221; ali contemplado com o sistema de ganho ou de aluguel nas cidades escravistas: no primeiro caso, o senhor mandava o escravo \u00e0 rua para alugar ele pr\u00f3prio sua for\u00e7a de trabalho; no segundo, o senhor escolhia um locat\u00e1rio. Circulava o escravo ao ganho ou de aluguel entre um e outro e mais outro empregador, como cumprir\u00e1 faz\u00ea-lo o trabalhador intermitente do novo Brasil. Um professor, por exemplo, poder\u00e1, como aut\u00f4nomo intermitente servir em v\u00e1rios estabelecimentos de ensino, um dia num, no dia seguinte mais um, depois ainda outro. Nascer\u00e1, assim, o professor ao ganho. Some-se a recente Lei da Terceiriza\u00e7\u00e3o e alcan\u00e7amos o quadro quase completo de precariza\u00e7\u00e3o radical do trabalho. A terceiriza\u00e7\u00e3o agora vale para atividades fins. Ainda no setor do ensino, empresas que antes limitavam-se a fornecer empregados para atuar na seguran\u00e7a ou na limpeza, poder\u00e3o doravante oferecer professores a escolas, faculdades e universidades, e faz\u00ea-los circular de acordo com a demanda do mercado. Nascer\u00e1, ent\u00e3o, o professor de aluguel. Por felicidade, j\u00e1 passou meu tempo de ser professor ao ganho ou de aluguel. O emprego em regime de dedica\u00e7\u00e3o exclusiva na Universidade Federal da Bahia deu-me a oportunidade de ser um professor pesquisador. \u00c0 minha universidade e aos \u00f3rg\u00e3os de fomento de pesquisa, em especial ao CNPQ, eu agrade\u00e7o ter podido escrever a obra historiogr\u00e1fica agora premiada. Dela j\u00e1 falou, com generosidade, o professor Jos\u00e9 Murilo de Carvalho. As cotas sociorraciais para ingresso nas universidades p\u00fablicas j\u00e1 resultaram em mudan\u00e7a na cor dessas institui\u00e7\u00f5es, corrigindo em muitos casos a quase exclusividade branca nos cursos de maior prest\u00edgio \u2013 Medicina, Direito, Engenharia. Apesar de problemas aqui e ali, as cotas est\u00e3o dando certo. A introdu\u00e7\u00e3o, no ensino fundamental e m\u00e9dio, de disciplina voltada para a hist\u00f3ria e a cultura afro-brasileiras, com \u00eanfase na hist\u00f3ria da \u00c1frica, prometia uma equipara\u00e7\u00e3o a conte\u00fados sobre a hist\u00f3ria da Europa. Lamentavelmente, a disciplina desapareceu da nova Base Nacional Comum Curricular. E a \u00c1frica voltou a ser emparedada naquela acep\u00e7\u00e3o, denunciada por Cruz e Souza, de &#8220;\u00c1frica grotesca e triste, melanc\u00f3lica, g\u00eanese assombrosa de gemidos, \u00c1frica dos supl\u00edcios e das maldi\u00e7\u00f5es eternas&#8221;, enfim a \u00c1frica que predomina na grande m\u00eddia, ref\u00e9m de uma &#8220;hist\u00f3ria \u00fanica&#8221;, na express\u00e3o certeira da escritora nigeriana Chimamanda Adic hie. Tor\u00e7o pelo retorno da \u00c1frica \u00e0s escolas. Uma hist\u00f3ria de outras vozes est\u00e1 representada na Universidade da Integra\u00e7\u00e3o Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira \u2013 a UNILAB, implantada a partir de 2011 como um gesto, ainda que acanhado, de solidariedade com um continente pilhado pelo tr\u00e1fico luso-brasileiro de cativos. Essa institui\u00e7\u00e3o acolhe em suas salas de aula quase mil alunos africanos, mediadores qualificados de suas \u00c1fricas com o Brasil, jovens que recebem pequena bolsa<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"pgc_meta":"","_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","ocean_post_layout":"","ocean_both_sidebars_style":"","ocean_both_sidebars_content_width":0,"ocean_both_sidebars_sidebars_width":0,"ocean_sidebar":"","ocean_second_sidebar":"","ocean_disable_margins":"enable","ocean_add_body_class":"","ocean_shortcode_before_top_bar":"","ocean_shortcode_after_top_bar":"","ocean_shortcode_before_header":"","ocean_shortcode_after_header":"","ocean_has_shortcode":"","ocean_shortcode_after_title":"","ocean_shortcode_before_footer_widgets":"","ocean_shortcode_after_footer_widgets":"","ocean_shortcode_before_footer_bottom":"","ocean_shortcode_after_footer_bottom":"","ocean_display_top_bar":"default","ocean_display_header":"default","ocean_header_style":"","ocean_center_header_left_menu":"","ocean_custom_header_template":"","ocean_custom_logo":0,"ocean_custom_retina_logo":0,"ocean_custom_logo_max_width":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_width":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_width":0,"ocean_custom_logo_max_height":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_height":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_height":0,"ocean_header_custom_menu":"","ocean_menu_typo_font_family":"","ocean_menu_typo_font_subset":"","ocean_menu_typo_font_size":0,"ocean_menu_typo_font_size_tablet":0,"ocean_menu_typo_font_size_mobile":0,"ocean_menu_typo_font_size_unit":"px","ocean_menu_typo_font_weight":"","ocean_menu_typo_font_weight_tablet":"","ocean_menu_typo_font_weight_mobile":"","ocean_menu_typo_transform":"","ocean_menu_typo_transform_tablet":"","ocean_menu_typo_transform_mobile":"","ocean_menu_typo_line_height":0,"ocean_menu_typo_line_height_tablet":0,"ocean_menu_typo_line_height_mobile":0,"ocean_menu_typo_line_height_unit":"","ocean_menu_typo_spacing":0,"ocean_menu_typo_spacing_tablet":0,"ocean_menu_typo_spacing_mobile":0,"ocean_menu_typo_spacing_unit":"","ocean_menu_link_color":"","ocean_menu_link_color_hover":"","ocean_menu_link_color_active":"","ocean_menu_link_background":"","ocean_menu_link_hover_background":"","ocean_menu_link_active_background":"","ocean_menu_social_links_bg":"","ocean_menu_social_hover_links_bg":"","ocean_menu_social_links_color":"","ocean_menu_social_hover_links_color":"","ocean_disable_title":"default","ocean_disable_heading":"default","ocean_post_title":"","ocean_post_subheading":"","ocean_post_title_style":"","ocean_post_title_background_color":"","ocean_post_title_background":0,"ocean_post_title_bg_image_position":"","ocean_post_title_bg_image_attachment":"","ocean_post_title_bg_image_repeat":"","ocean_post_title_bg_image_size":"","ocean_post_title_height":0,"ocean_post_title_bg_overlay":0.5,"ocean_post_title_bg_overlay_color":"","ocean_disable_breadcrumbs":"default","ocean_breadcrumbs_color":"","ocean_breadcrumbs_separator_color":"","ocean_breadcrumbs_links_color":"","ocean_breadcrumbs_links_hover_color":"","ocean_display_footer_widgets":"default","ocean_display_footer_bottom":"default","ocean_custom_footer_template":"","_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"ocean_post_oembed":"","ocean_post_self_hosted_media":"","ocean_post_video_embed":"","ocean_link_format":"","ocean_link_format_target":"self","ocean_quote_format":"","ocean_quote_format_link":"post","ocean_gallery_link_images":"on","ocean_gallery_id":[],"footnotes":""},"categories":[46],"tags":[61,195,259,358],"class_list":["post-4575","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-referencias-e-indicacoes","tag-academia-brasileira-de-letras","tag-escravidao","tag-joao-reis","tag-premio-machado-de-assis","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4575"}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4575"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4575\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4575"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4575"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4575"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}