{"id":3219,"date":"2012-11-12T10:23:40","date_gmt":"2012-11-12T13:23:40","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.ufba.br\/nlpretto\/?p=3219"},"modified":"2012-11-12T10:23:40","modified_gmt":"2012-11-12T13:23:40","slug":"nasceu-no-enem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/2012\/11\/12\/nasceu-no-enem\/","title":{"rendered":"Nasceu no Enem"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: medium;font-family: trebuchet ms,geneva\">Ao longo dos \u00faltimos dias, o ENEM tomou conta das conversas aqui e ali. Foram cerca de 5,8 milh\u00f5es de estudantes brasileiros inscritos no exame deste ano. Em Salvador, da ordem de 420 mil. Mais de 45 universidades p\u00fablicas o adotam como forma de ingresso, ao menos que parcialmente, como no caso da UFBA, que o usa para a primeira fase das licenciaturas e bacharelados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;font-family: trebuchet ms,geneva\">Do ponto de vista organizacional, \u00e9 um grande avan\u00e7o a exist\u00eancia de um exame nacional que substitua os tradicionais e superados vestibulares. Facilita a vida dos estudantes, diminui os custos, possibilita a mobilidade de um estado para outro e, ao mesmo tempo, viabiliza a elabora\u00e7\u00e3o de importantes bancos de dados nacionais para avalia\u00e7\u00e3o do ensino superior no pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;font-family: trebuchet ms,geneva\">Ao mesmo tempo, n\u00e3o deixa de ser preocupante o fato de que, a exemplo do que se dava como o vestibular, o ENEM termina impondo ao ensino m\u00e9dio uma padroniza\u00e7\u00e3o exagerada que faz o sistema educacional brasileiro funcionar na base dos cursinhos preparat\u00f3rios, centrado numa l\u00f3gica que vai se impondo no mundo todo, a dos exames nacionais e dos ranqueamentos de institui\u00e7\u00f5es, professores e estudantes. Antes, cursinhos para os vestibulares, hoje, para o ENEM, com <em>aul\u00f5es<\/em> e tudo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;font-family: trebuchet ms,geneva\">No entanto, o que me chamou aten\u00e7\u00e3o nas mat\u00e9rias que se seguiram ao dia dos exames foi o nascimento do beb\u00ea de P\u00e2mela de Oliveira, 17 anos, em plena prova, em uma escola de Sidrol\u00e2ndia\/Mato Grosso do Sul. Entrevistada, a jovem afirmou que n\u00e3o sabia que estava gr\u00e1vida!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;font-family: trebuchet ms,geneva\">Ter um filho no meio de uma prova n\u00e3o \u00e9 algo t\u00e3o estranho assim, uma vez que j\u00e1 assistimos, lamentavelmente \u00e9 bem verdade, partos acontecerem em situa\u00e7\u00f5es as mais inusitadas poss\u00edveis. O que causou estranhamento foi o fato do Ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Alo\u00edsio Mercadante, telefonar para a estudante, t\u00e3o logo soube do ocorrido, comunicando que ela teria outra oportunidade agora em dezembro (o que \u00e9 previsto legalmente), e anunciando consider\u00e1-la \u201cum s\u00edmbolo do ENEM\u201d (aspeado em O Globo de 5.11.12).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;font-family: trebuchet ms,geneva\">A situa\u00e7\u00e3o merece destaque pelo que tem de inusitado e preocupante, para al\u00e9m do ponto de vista de pol\u00edticas p\u00fablicas educacionais e, por isso, j\u00e1 suscita reflex\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;font-family: trebuchet ms,geneva\">Ora, a jovem afirmou que estava gr\u00e1vida e n\u00e3o sabia. Supondo-se verdadeira essa vers\u00e3o da garota, revela clara defici\u00eancia das pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade, de educa\u00e7\u00e3o e da situa\u00e7\u00e3o das escolas em particular; significa que os professores com ela n\u00e3o dialogavam; que ela n\u00e3o havia feito nenhum exame pr\u00e9-natal; que sua fam\u00edlia \u2013 e ela mesma! &#8211; n\u00e3o tinha a menor no\u00e7\u00e3o do que estava acontecendo com seu corpo, com a sua vida. Tenho visto que o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade vem atuando intensamente na quest\u00e3o da gravidez na adolesc\u00eancia, mas os n\u00fameros s\u00e3o ainda assustadores. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, 22% dos adolescentes fazem sexo pela primeira vez aos 15 anos de idade e a Dra Albertina Duarte, da Casa do Adolescente\/SP, afirma (dados de 2009) que a cada 18 minutos uma menina de 10 a 14 anos d\u00e1 \u00e0 luz uma crian\u00e7a. Paralelo a isso, algo que nos parece bastante \u00f3bvio \u00e9 constatado pelos dados do IBGE de 2010: quanto mais escolarizadas, mais as mulheres evitam a gravidez na adolesc\u00eancia. Portanto, esse n\u00e3o \u00e9 um tema que possa passar despercebido, nem da jovem, nem das autoridades, e muito menos das pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: trebuchet ms,geneva;font-size: medium\">Por outro lado, se a jovem, sabendo-se gr\u00e1vida, omitiu tal fato \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do Enem e, ao dar a luz, afirmou publicamente que nada sabia as respeito do seu estado, configura-se aqui mais uma importante quest\u00e3o para reflex\u00e3o. Ora, se nada a impediria de fazer o ENEM gr\u00e1vida, o fato de ter mentido ao ser questionada acerca da sua gravidez deixa evidente a exist\u00eancia de importantes quest\u00f5es subjetivas. Mais uma vez constatamos o flanco deixado pelas pol\u00edticas p\u00fablicas a merecer discuss\u00e3o, o que deixo a cargo dos profissionais da \u00e1rea.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;font-family: trebuchet ms,geneva\">Desse modo, de forma diametralmente oposta em rela\u00e7\u00e3o ao Ministro, penso que essa jovem que pariu no meio do exame, longe de ser tomada como um \u201cs\u00edmbolo do ENEM\u201d, configura emblem\u00e1tico fracasso das pol\u00edticas p\u00fablicas sociais no pa\u00eds, a reclamar urgentes redirecionamentos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Publicado no jornal A Tarde de 12.11.2012, pag.2.\u00a0<a href=\"http:\/\/blog.ufba.br\/nlpretto\/files\/2012\/11\/Nelson-Pretto.pdf\">Aqui um pdf<\/a> da p\u00e1gina, com a bela arte de Cau Gomes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo dos \u00faltimos dias, o ENEM tomou conta das conversas aqui e ali. Foram cerca de 5,8 milh\u00f5es de estudantes brasileiros inscritos no exame deste ano. Em Salvador, da ordem de 420 mil. Mais de 45 universidades p\u00fablicas o adotam como forma de ingresso, ao menos que parcialmente, como no caso da UFBA, que o usa para a primeira fase das licenciaturas e bacharelados. Do ponto de vista organizacional, \u00e9 um grande avan\u00e7o a exist\u00eancia de um exame nacional que substitua os tradicionais e superados vestibulares. Facilita a vida dos estudantes, diminui os custos, possibilita a mobilidade de um estado para outro e, ao mesmo tempo, viabiliza a elabora\u00e7\u00e3o de importantes bancos de dados nacionais para avalia\u00e7\u00e3o do ensino superior no pa\u00eds. Ao mesmo tempo, n\u00e3o deixa de ser preocupante o fato de que, a exemplo do que se dava como o vestibular, o ENEM termina impondo ao ensino m\u00e9dio uma padroniza\u00e7\u00e3o exagerada que faz o sistema educacional brasileiro funcionar na base dos cursinhos preparat\u00f3rios, centrado numa l\u00f3gica que vai se impondo no mundo todo, a dos exames nacionais e dos ranqueamentos de institui\u00e7\u00f5es, professores e estudantes. Antes, cursinhos para os vestibulares, hoje, para o ENEM, com aul\u00f5es e tudo. No entanto, o que me chamou aten\u00e7\u00e3o nas mat\u00e9rias que se seguiram ao dia dos exames foi o nascimento do beb\u00ea de P\u00e2mela de Oliveira, 17 anos, em plena prova, em uma escola de Sidrol\u00e2ndia\/Mato Grosso do Sul. Entrevistada, a jovem afirmou que n\u00e3o sabia que estava gr\u00e1vida! Ter um filho no meio de uma prova n\u00e3o \u00e9 algo t\u00e3o estranho assim, uma vez que j\u00e1 assistimos, lamentavelmente \u00e9 bem verdade, partos acontecerem em situa\u00e7\u00f5es as mais inusitadas poss\u00edveis. O que causou estranhamento foi o fato do Ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Alo\u00edsio Mercadante, telefonar para a estudante, t\u00e3o logo soube do ocorrido, comunicando que ela teria outra oportunidade agora em dezembro (o que \u00e9 previsto legalmente), e anunciando consider\u00e1-la \u201cum s\u00edmbolo do ENEM\u201d (aspeado em O Globo de 5.11.12). A situa\u00e7\u00e3o merece destaque pelo que tem de inusitado e preocupante, para al\u00e9m do ponto de vista de pol\u00edticas p\u00fablicas educacionais e, por isso, j\u00e1 suscita reflex\u00e3o. Ora, a jovem afirmou que estava gr\u00e1vida e n\u00e3o sabia. Supondo-se verdadeira essa vers\u00e3o da garota, revela clara defici\u00eancia das pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade, de educa\u00e7\u00e3o e da situa\u00e7\u00e3o das escolas em particular; significa que os professores com ela n\u00e3o dialogavam; que ela n\u00e3o havia feito nenhum exame pr\u00e9-natal; que sua fam\u00edlia \u2013 e ela mesma! &#8211; n\u00e3o tinha a menor no\u00e7\u00e3o do que estava acontecendo com seu corpo, com a sua vida. Tenho visto que o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade vem atuando intensamente na quest\u00e3o da gravidez na adolesc\u00eancia, mas os n\u00fameros s\u00e3o ainda assustadores. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, 22% dos adolescentes fazem sexo pela primeira vez aos 15 anos de idade e a Dra Albertina Duarte, da Casa do Adolescente\/SP, afirma (dados de 2009) que a cada 18 minutos uma menina de 10 a 14 anos d\u00e1 \u00e0 luz uma crian\u00e7a. Paralelo a isso, algo que nos parece bastante \u00f3bvio \u00e9 constatado pelos dados do IBGE de 2010: quanto mais escolarizadas, mais as mulheres evitam a gravidez na adolesc\u00eancia. Portanto, esse n\u00e3o \u00e9 um tema que possa passar despercebido, nem da jovem, nem das autoridades, e muito menos das pol\u00edticas p\u00fablicas. Por outro lado, se a jovem, sabendo-se gr\u00e1vida, omitiu tal fato \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do Enem e, ao dar a luz, afirmou publicamente que nada sabia as respeito do seu estado, configura-se aqui mais uma importante quest\u00e3o para reflex\u00e3o. Ora, se nada a impediria de fazer o ENEM gr\u00e1vida, o fato de ter mentido ao ser questionada acerca da sua gravidez deixa evidente a exist\u00eancia de importantes quest\u00f5es subjetivas. Mais uma vez constatamos o flanco deixado pelas pol\u00edticas p\u00fablicas a merecer discuss\u00e3o, o que deixo a cargo dos profissionais da \u00e1rea. Desse modo, de forma diametralmente oposta em rela\u00e7\u00e3o ao Ministro, penso que essa jovem que pariu no meio do exame, longe de ser tomada como um \u201cs\u00edmbolo do ENEM\u201d, configura emblem\u00e1tico fracasso das pol\u00edticas p\u00fablicas sociais no pa\u00eds, a reclamar urgentes redirecionamentos. &nbsp; Publicado no jornal A Tarde de 12.11.2012, pag.2.\u00a0Aqui um pdf da p\u00e1gina, com a bela arte de Cau 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