{"id":2491,"date":"2012-03-11T20:53:18","date_gmt":"2012-03-11T23:53:18","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.ufba.br\/nlpretto\/?p=2491"},"modified":"2012-03-11T20:53:18","modified_gmt":"2012-03-11T23:53:18","slug":"tablets-computadores-e-a-escola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/2012\/03\/11\/tablets-computadores-e-a-escola\/","title":{"rendered":"Tablets, computadores e a escola"},"content":{"rendered":"<p><!-- \t\t@page { margin: 2cm } \t\tP { margin-bottom: 0.21cm } \t\tH1 { margin-bottom: 0.21cm } \t\tH1.western { font-family: \"Arial\", sans-serif; font-size: 16pt } \t\tH1.cjk { font-family: \"Droid Sans Fallback\"; font-size: 16pt } \t\tH1.ctl { font-family: \"Lohit Hindi\"; font-size: 16pt } --><\/p>\n<h1>Tablets, computadores e a escola<\/h1>\n<p>Nelson Pretto.<\/p>\n<p>Mais novidades para a educa\u00e7\u00e3o com o anuncio da distribui\u00e7\u00e3o pelo MEC de tablets para os professores do ensino m\u00e9dio. Para \u201cdiscutir\u201d o tema, aconteceu semana passada, em Bras\u00edlia, uma reuni\u00e3o promovida pelo pr\u00f3prio MEC com diversos pesquisadores brasileiros. A compra dos tablets foi anunciada pelo ministro Mercadante, mas a decis\u00e3o j\u00e1 estava tomada pelo anterior ministro Haddad. Fui convidado para a reuni\u00e3o, meio que sem saber direito o que ir\u00edamos ter por l\u00e1.<\/p>\n<p>Para variar, a reuni\u00e3o virou evento como bem gostam certos educadores e gestores p\u00fablicos. Evento, n\u00e3o: aula, semin\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso, pois tive a oportunidade de participar de uma reuni\u00e3o com o pr\u00f3prio Mercadante, ent\u00e3o ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia, que foi, de fato, uma bela conversa com os hackers e pesquisadores presentes na 12\u00ba F\u00f3rum Internacional do Software Livre (FISL), acontecido em junho passado em Porto Alegre. L\u00e1, com um n\u00famero mais ou menos igual de pessoas do encontro da semana passada, um c\u00edrculo foi formado, as ideias circularam livremente numa grande roda de conversa, e foram feitas in\u00fameras sugest\u00f5es sobre as possibilidades do MCT construir, efetivamente, uma pol\u00edtica p\u00fablica no campo do software livre, do desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico do pa\u00eds e da forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da juventude, com a possibilidade de implanta\u00e7\u00e3o e apoio a algo do tipo \u201cgaragens digitais de C&amp;T\u201d. Conversa boa, que fluiu leve e com perspectivas positivas. Mas Mercadante deixou a Ci\u00eancia &amp; Tecnologia e n\u00e3o sabemos se  o ministro Raupp dar\u00e1 continuidade ao encaminhado, o que seria um grande perda.<\/p>\n<p>Quando fui convidado para a  reuni\u00e3o sobre \u201ceduca\u00e7\u00e3o digital\u201d (esse era o nome do \u201cevento\u201d) do MEC em Bras\u00edlia, imaginava algo semelhante, em torno de uma mesa, com uma conversa franca sobre os rumos que poderiam tomar os projetos de uso de tecnologias digitais na educa\u00e7\u00e3o, que existem desde muito. A conversa n\u00e3o aconteceu, e a rica possibilidade de uma reuni\u00e3o onde as ideias rolassem soltas, possibilitando ao Ministro e sua equipe (se tempo tivessem para acompanhar!) sentirem as diversas possibilidades apresentadas por n\u00f3s, pesquisadores que estudam o tema. Minha surpresa veio desde o in\u00edcio. Ao chegarmos na reuni\u00e3o, encontramos cadeiras (carteiras?!) arrumadas como uma sala de aula, um projetor para as nossas apresenta\u00e7\u00f5es (com um sistema operacional propriet\u00e1rio fazendo sua propaganda gratuita com aquela bandeirinha ao fundo!), essas com um tempo fixo para as falas \u2013 que foi meio para n\u00f3s mesmos e para uma c\u00e2mera que gravava tudo \u2013 sobre as nossas pr\u00f3prias experi\u00eancias, salvo uma ou outra fala mais estruturante. A surpresa ainda foi maior quando nos deparamos, em paralelo, promovido pelo mesmo MEC e no mesmo hotel, com uma outra reuni\u00e3o\/evento (\u201cUso das tecnologias na educa\u00e7\u00e3o\u201d) para discutir a parte t\u00e9cnica do projeto de \u201ceduca\u00e7\u00e3o digital\u201d, como se fosse poss\u00edvel pensar os dispositivos e infra-estrutura separadamente da concep\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e pedag\u00f3gica. Mesmo que depois o MEC tenha nos dito que os dois grupos iriam se reunir, fica evidente o equivoco brutal na concep\u00e7\u00e3o dessa pol\u00edtica p\u00fablica. Essa distin\u00e7\u00e3o tem, no m\u00ednimo, um s\u00e9culo de atraso!<\/p>\n<p>O ponto nevr\u00e1lgico, penso eu, est\u00e1 centrado sempre e sempre na mesma quest\u00e3o: as pol\u00edticas p\u00fablicas consideram que educa\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre aula, aula com professor na frente ditando o rumo! Com essa concep\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o, mesmo que de forma subjacente e n\u00e3o explicitada nos discursos, chegamos \u00e0 grande quest\u00e3o e ao maior desafio quando pensamos em cultura digital: de que adianta termos notebooks, computadores, c\u00e2meras e tablets se o que se espera da escola, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 que tudo se resuma a um professor dando aulas?<\/p>\n<p>Outra pergunta que t\u00eam sido feita, principalmente na m\u00eddia, \u00e9 se deve ou n\u00e3o o MEC adquirir os tablets para os professores? A resposta n\u00e3o pode ser t\u00edmida: claro que sim! Mas insisto, temos que pensar maior pois n\u00e3o se trata discutir se devemos ou n\u00e3o ter a TV Escola, ou ProInfo, ou UCA, ou os laborat\u00f3rios do Proinfo ou os tablets. Trata-se de <strong>tudo<\/strong> e, essencialmente, da elabora\u00e7\u00e3o de uma <strong>pol\u00edtica de tecnologia da informa\u00e7\u00e3o para a educa\u00e7\u00e3o<\/strong>, e aqui n\u00e3o estou me referindo a ensino b\u00e1sico ou ensino m\u00e9dio, mas a todos os n\u00edveis, das primeiras s\u00e9ries \u00e0 p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem me l\u00ea pelo menos eventualmente sabe que repito, quase como um mantra, que estas pol\u00edticas precisam articular diversas \u00e1reas e Minist\u00e9rios (pense na riqueza de uma articula\u00e7\u00e3o das escolas com os Pontos de Cultura!). Insisto que o MEC tem que ser rede, e rede estabelecida com os Estados, rede com outros Minist\u00e9rios, rede com os professores e rede que englobe os diversos n\u00edveis da educa\u00e7\u00e3o.<span style=\"font-size: x-small\"> <\/span>No entanto, qualificar a palavra \u201crede\u201d \u00e9 fundamental. Ficamos acostumados a compreend\u00ea-la a partir do intensivo uso da palavra no sistema de comunica\u00e7\u00e3o de massa, com a express\u00e3o \u201crede de emissoras de televis\u00e3o\u201d, que produzem os programas no eixo Rio-S\u00e3o Paulo e os distribuem para o resto do pa\u00eds. E, neste caso, mesmo quando existe o envolvimento e participa\u00e7\u00e3o das chamadas afiliadas, o que vemos s\u00e3o, por exemplo, telejornais que reproduzem tudo, do cen\u00e1rio, entona\u00e7\u00e3o da voz, estrutura de programa at\u00e9 a sua marca, com pequenas varia\u00e7\u00f5es de letras para dar a tal <em>cor local<\/em>. Na verdade, esse tipo de rede \u00e9 de distribui\u00e7\u00e3o (<em>brodcasting<\/em>) e n\u00e3o \u00e9 isso que preconizamos para a educa\u00e7\u00e3o. \u00c9 necess\u00e1rio que a rede se constitua a partir do di\u00e1logo, que considere a realidade e os valores de cada um dos entes e regi\u00f5es. Numa rede assim constitu\u00edda, com professores atuando de forma colaborativa e coletiva, lhes sendo dadas as condi\u00e7\u00f5es de sal\u00e1rio, forma\u00e7\u00e3o e trabalho, a presen\u00e7a das tecnologias \u2013 todas elas ao mesmo tempo! \u2013 pode muito contribuir para uma forma\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m mais ampla, uma forma\u00e7\u00e3o que prepare professores e alunos para a chamada cultura digital. O problema, nesse campo, \u00e9 que parece que o governo \u2013 e o MEC em especial \u2013 tem receio de afirmar publicamente que vai simplesmente entregar tablets aos professores para que sejam usados como elementos de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o para o pr\u00f3prio professor. Tem receio de ser criticado por, corretamente, entregar equipamentos que podem contribuir, pela sua pr\u00f3pria natureza, para reestruturar o sistema, sem necessariamente se constituir num ve\u00edculo de mais transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es \u201cgeradas\u201d de forma centralizada, ou pelo MEC ou por uma das nossas universidades. Computador, tablet, smartfone e todas essas tecnologias, n\u00e3o podem ser vistas somente como meras auxiliares dos <strong>mesmos<\/strong> processos educacionais. Precisamos, com tudo isso presente na escola, que os professores estejam preparados para interagir com a meninada que, j\u00e1, j\u00e1, tamb\u00e9m deveria receber seus <em>gadgets<\/em> port\u00e1teis e, nos espa\u00e7os coletivos da escola, produzir culturas e conhecimentos e n\u00e3o simplesmente consumir informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Para tal, insistimos: a prepara\u00e7\u00e3o dos professores n\u00e3o se dar\u00e1 com a simples oferta de cursos de forma\u00e7\u00e3o (muito menos padronizados!) e sim de um amplo programa de fortalecimento dos professores (sal\u00e1rio, forma\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00f5es de trabalho) visando a imers\u00e3o dos mestres na cultura digital.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Publicado no\u00a0 Terra Magazine de 09.03.2012. Link direto: <a title=\"Artigo de Nelson Pretto no Terra Magazine, mar\u00e7o de 2012\" href=\"http:\/\/terramagazine.terra.com.br\/interna\/0,,OI5655112-EI17985,00-Tablets+computadores+e+a+escola.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">clique aqui<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tablets, computadores e a escola Nelson Pretto. Mais novidades para a educa\u00e7\u00e3o com o anuncio da distribui\u00e7\u00e3o pelo MEC de tablets para os professores do ensino m\u00e9dio. Para \u201cdiscutir\u201d o tema, aconteceu semana passada, em Bras\u00edlia, uma reuni\u00e3o promovida pelo pr\u00f3prio MEC com diversos pesquisadores brasileiros. A compra dos tablets foi anunciada pelo ministro Mercadante, mas a decis\u00e3o j\u00e1 estava tomada pelo anterior ministro Haddad. Fui convidado para a reuni\u00e3o, meio que sem saber direito o que ir\u00edamos ter por l\u00e1. Para variar, a reuni\u00e3o virou evento como bem gostam certos educadores e gestores p\u00fablicos. 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Conversa boa, que fluiu leve e com perspectivas positivas. Mas Mercadante deixou a Ci\u00eancia &amp; Tecnologia e n\u00e3o sabemos se o ministro Raupp dar\u00e1 continuidade ao encaminhado, o que seria um grande perda. Quando fui convidado para a reuni\u00e3o sobre \u201ceduca\u00e7\u00e3o digital\u201d (esse era o nome do \u201cevento\u201d) do MEC em Bras\u00edlia, imaginava algo semelhante, em torno de uma mesa, com uma conversa franca sobre os rumos que poderiam tomar os projetos de uso de tecnologias digitais na educa\u00e7\u00e3o, que existem desde muito. A conversa n\u00e3o aconteceu, e a rica possibilidade de uma reuni\u00e3o onde as ideias rolassem soltas, possibilitando ao Ministro e sua equipe (se tempo tivessem para acompanhar!) sentirem as diversas possibilidades apresentadas por n\u00f3s, pesquisadores que estudam o tema. Minha surpresa veio desde o in\u00edcio. 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A resposta n\u00e3o pode ser t\u00edmida: claro que sim! Mas insisto, temos que pensar maior pois n\u00e3o se trata discutir se devemos ou n\u00e3o ter a TV Escola, ou ProInfo, ou UCA, ou os laborat\u00f3rios do Proinfo ou os tablets. Trata-se de tudo e, essencialmente, da elabora\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de tecnologia da informa\u00e7\u00e3o para a educa\u00e7\u00e3o, e aqui n\u00e3o estou me referindo a ensino b\u00e1sico ou ensino m\u00e9dio, mas a todos os n\u00edveis, das primeiras s\u00e9ries \u00e0 p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Quem me l\u00ea pelo menos eventualmente sabe que repito, quase como um mantra, que estas pol\u00edticas precisam articular diversas \u00e1reas e Minist\u00e9rios (pense na riqueza de uma articula\u00e7\u00e3o das escolas com os Pontos de Cultura!). Insisto que o MEC tem que ser rede, e rede estabelecida com os Estados, rede com outros Minist\u00e9rios, rede com os professores e rede que englobe os diversos n\u00edveis da educa\u00e7\u00e3o. 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