{"id":2174,"date":"2007-01-16T14:23:00","date_gmt":"2007-01-16T14:23:00","guid":{"rendered":"http:\/\/abobrinhasdepretto.wordpress.com\/2007\/01\/16\/africanegroamor\/"},"modified":"2007-01-16T14:23:00","modified_gmt":"2007-01-16T14:23:00","slug":"africanegroamor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/2007\/01\/16\/africanegroamor\/","title":{"rendered":"\u00c1fricanegroamor"},"content":{"rendered":"<p>Dias atr\u00e1s, Salvador acordou repleta de imagens de nossa gente. Gente que vemos todos os dias e que passou tamb\u00e9m a se ver nos postes, outdoors, feiras, fachadas cegas dos edif\u00edcios e pontos de \u00f4nibus. Gentes africanas, daqui e de l\u00e1, que circulam pela nossa cidade como an\u00f4nimos e que s\u00e3o os invis\u00edveis protagonistas do cotidiano de Salvador e das cidades da \u00c1frica, hoje e ontem. Mas essa invas\u00e3o de imagens,  que como um espelho refletem os nossos rostos e os daqueles que nem mesmo conhecemos, s\u00e3o acompanhadas de outras, que n\u00e3o ficam no sil\u00eancio contemplativo dos baianos e africanos de nossa salvadornegroamor. S\u00e3o as imagens  da publicidade, que vendem telefones, refrigerantes e a folia privada do carnaval para uns, justamente os que estar\u00e3o protegidos pelas m\u00e3os e corpos dos rostos expostos com respeito em nossas avenidas, nas fotografias de S\u00e9rgio Guerra. Estamos atolados das imagens publicit\u00e1rias que pipocam por todos os lados. S\u00e3o Paulo, num ato corajoso do parlamento, proibiu outdoor na cidade. Uma cidade enorme, com publicidade por todos os lados, n\u00e3o ag\u00fcentava mais essa polui\u00e7\u00e3o. Os espa\u00e7os p\u00fablicos tornam-se privados e n\u00f3s privados de ver com mais sutileza cada esquina, cada avenida, cada canto de nosso horizonte j\u00e1 t\u00e3o limitado.<br \/>\nTudo gira em torno da publicidade que precisa vender seus produtos. Produtos, ali\u00e1s, que n\u00e3o param de surgir, inventados pela ind\u00fastria que, freneticamente, cria  novas necessidades para o cotidiano das pessoas. No in\u00edcio deste mil\u00eanio, s\u00f3 nos Estados Unidos foram lan\u00e7ados no mercado 31.432 novos produtos, segundo o professor da Universidade de Genebra, Christian Marazzi. A ind\u00fastria exige que a publicidade fale mais alto. Uma de suas estrat\u00e9gias \u00e9 exatamente anunciar mais, cada vez mais, inundando as cidades e nosso imagin\u00e1rio com as imagens dos produtos que \u201cprecisam\u201d ser consumidos. Imagens que contrastam com as fotos agora espalhadas por Salvador, as quais \u201cvendem\u201d um mundo de solidariedade, generosidade, de respeito pelas diferen\u00e7as e com forte liga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica com as nossas origens. Origens africanas, de uma cultura que construiu a sua sabedoria longe da atual l\u00f3gica do mercado. Fica patente o contraste entre a agressiva publicidade de produtos comerciais nas ruas de Salvador e a singeleza dos belos rostos negros expostos.<br \/>\nO escritor mo\u00e7ambicano Mia Couto, no seu belo \u201cO \u00faltimo v\u00f4o do flamingo\u201d, resgata a sabedoria dos negros africanos ao construir o di\u00e1logo da prostituta Ana Deusqueira com o italiano que fora enviado pela ONU \u00e0 cidade de Tizangara, por ele criada, com o objetivo de investigar uma s\u00e9rie de mortes que por l\u00e1 ocorriam. Na conversa dos dois, Ana pergunta ao italiano se ele conhece a diferen\u00e7a entre o s\u00e1bio branco e o s\u00e1bio negro. Antes mesmo de qualquer fala do estrangeiro, ela mesma afirma: \u201cA sabedoria do s\u00e1bio branco mede-se pela rapidez com que responde. Entre n\u00f3s, o mais s\u00e1bio \u00e9 aquele que mais demora a responder. Alguns s\u00e3o t\u00e3o s\u00e1bios que nunca respondem.\u201d<br \/>\nEm nossa nossa cidade, inundada com estardalha\u00e7o por tantos discursos, tantas imagens e tantos sons, talvez, o melhor mesmo seja admirar as imagens de salvadornegroamor em sil\u00eancio e com absoluto respeito!<\/p>\n<p>Publicado em A Tarde, em 20\/01\/2007, pag. 03.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dias atr\u00e1s, Salvador acordou repleta de imagens de nossa gente. Gente que vemos todos os dias e que passou tamb\u00e9m a se ver nos postes, outdoors, feiras, fachadas cegas dos edif\u00edcios e pontos de \u00f4nibus. Gentes africanas, daqui e de l\u00e1, que circulam pela nossa cidade como an\u00f4nimos e que s\u00e3o os invis\u00edveis protagonistas do cotidiano de Salvador e das cidades da \u00c1frica, hoje e ontem. Mas essa invas\u00e3o de imagens, que como um espelho refletem os nossos rostos e os daqueles que nem mesmo conhecemos, s\u00e3o acompanhadas de outras, que n\u00e3o ficam no sil\u00eancio contemplativo dos baianos e africanos de nossa salvadornegroamor. S\u00e3o as imagens da publicidade, que vendem telefones, refrigerantes e a folia privada do carnaval para uns, justamente os que estar\u00e3o protegidos pelas m\u00e3os e corpos dos rostos expostos com respeito em nossas avenidas, nas fotografias de S\u00e9rgio Guerra. Estamos atolados das imagens publicit\u00e1rias que pipocam por todos os lados. S\u00e3o Paulo, num ato corajoso do parlamento, proibiu outdoor na cidade. Uma cidade enorme, com publicidade por todos os lados, n\u00e3o ag\u00fcentava mais essa polui\u00e7\u00e3o. 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Imagens que contrastam com as fotos agora espalhadas por Salvador, as quais \u201cvendem\u201d um mundo de solidariedade, generosidade, de respeito pelas diferen\u00e7as e com forte liga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica com as nossas origens. Origens africanas, de uma cultura que construiu a sua sabedoria longe da atual l\u00f3gica do mercado. Fica patente o contraste entre a agressiva publicidade de produtos comerciais nas ruas de Salvador e a singeleza dos belos rostos negros expostos. O escritor mo\u00e7ambicano Mia Couto, no seu belo \u201cO \u00faltimo v\u00f4o do flamingo\u201d, resgata a sabedoria dos negros africanos ao construir o di\u00e1logo da prostituta Ana Deusqueira com o italiano que fora enviado pela ONU \u00e0 cidade de Tizangara, por ele criada, com o objetivo de investigar uma s\u00e9rie de mortes que por l\u00e1 ocorriam. Na conversa dos dois, Ana pergunta ao italiano se ele conhece a diferen\u00e7a entre o s\u00e1bio branco e o s\u00e1bio negro. 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