{"id":1809,"date":"2010-10-17T00:44:55","date_gmt":"2010-10-17T03:44:55","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.ufba.br\/nlpretto\/?p=1809"},"modified":"2010-10-17T00:44:55","modified_gmt":"2010-10-17T03:44:55","slug":"um-jeito-hacker-de-ser","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/2010\/10\/17\/um-jeito-hacker-de-ser\/","title":{"rendered":"Um jeito hacker de ser"},"content":{"rendered":"<p>Algumas palavras ganham o imagin\u00e1rio popular por conta de um intenso uso pela m\u00eddia,  mas com significados equivocados, quase que opostos aos seus sentidos originais. Para a maioria, os hackers s\u00e3o aqueles nerds que invadem os computadores para roubarem senhas, dinheiro ou realizarem opera\u00e7\u00f5es fraudulentas. A palavra hacker, contudo, surge no meio dos programadores de computador para designar aqueles que se dedicam com entusiasmo ao que fazem nesse campo. Steven Levy, em um interessante livro sobre a hist\u00f3ria da computa\u00e7\u00e3o, afirma que os hackers trabalham de forma aficcionada para \u201ctomar as m\u00e1quinas em suas m\u00e3os para melhorar as pr\u00f3prias m\u00e1quinas e o mundo\u201d.<\/p>\n<p>Foi o esfor\u00e7o coletivo e colaborativo dessa turma que possibilitou a cria\u00e7\u00e3o e a presen\u00e7a da internet em quase todo o planeta. No entanto, muito ainda se tem que avan\u00e7ar em termos de pol\u00edticas p\u00fablicas para que, de fato, todos as classes sociais tenham acesso a ela. No Brasil, s\u00e3o importantes as a\u00e7\u00f5es do governo federal, como o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) e o projeto \u201cUm Computador por Aluno\u201d (UCA), este em implanta\u00e7\u00e3o em fase piloto, em diversos estados brasileiros. Tamb\u00e9m merecem destaques as discuss\u00f5es sobre o Marco Civil da Internet e a necess\u00e1ria reforma da Lei de Direito Autoral que, depois da recente consulta p\u00fablica, dever\u00e1 ser consolidada e encaminhada ao Congresso.<\/p>\n<p>Iniciativas como essas, contudo, precisam estar acompanhadas de uma reflex\u00e3o mais profunda sobre os valores \u00e9ticos contempor\u00e2neos. Isso porque n\u00e3o podemos pensar na utiliza\u00e7\u00e3o dessas redes simplesmente com o objetivo de transformar cada cidad\u00e3o em apenas mais um mero consumidor, seja de produtos ou de informa\u00e7\u00f5es. Pensar para al\u00e9m dessa estreita l\u00f3gica do consumo \u00e9 um desafio cotidiano e tem nos movido a pesquisar sobre a tem\u00e1tica da chamada \u201c\u00e9tica hacker\u201d, express\u00e3o cunhada pelo fil\u00f3sofo finland\u00eas Pekka Himanen em livro de mesmo nome.<\/p>\n<p>Nosso pressuposto \u00e9 que uma nova cultura se estabelece a partir da forma de trabalhar dessa turma, tendo a paix\u00e3o, o trabalho solid\u00e1rio e colaborativo como elementos socialmente necess\u00e1rios para a constru\u00e7\u00e3o de um mundo sustent\u00e1vel. Essa forma de trabalhar \u2013 exemplarmente representada pelas bem sucedidas iniciativas do movimento software livre com o desenvolvimento do sistema operacional GNU\/Linux, da Wikipedia, entre tantos outras &#8211; vem demonstrando que a sua motiva\u00e7\u00e3o reside no alcance social de suas a\u00e7\u00f5es. Assim, pensamos a cultura hacker como um novo campo de luta pela socializa\u00e7\u00e3o dos bens culturais e cient\u00edficos, a partir do resgate do trabalho colaborativo e apaixonado, do incentivo \u00e0 circula\u00e7\u00e3o plena de ideias e descobertas, do livre acesso ao conhecimento e a intensifica\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A troca permanente de informa\u00e7\u00f5es e conhecimentos possibilita a implanta\u00e7\u00e3o de um c\u00edrculo virtuoso de produ\u00e7\u00e3o coletiva, inspirado na ideia de que conhecimento e cultura n\u00e3o s\u00e3o bens tang\u00edveis e escassos, que ao serem consumidos se exaurem. Ao contr\u00e1rio, quanto mais eles circulam e s\u00e3o trocados, mais a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 estimulada. Atribui-se a Bernard Shaw uma excelente frase que serve de met\u00e1fora para essa discuss\u00e3o: \u201cSe voc\u00ea tem uma ma\u00e7\u00e3 e eu tenho uma ma\u00e7a, e n\u00f3s trocamos as ma\u00e7\u00e3s, ent\u00e3o voc\u00ea e eu teremos uma ma\u00e7a. Mas se voc\u00ea tem uma ideia e eu tenho um ideia, e nos trocamos essas ideias, ent\u00e3o cada um de n\u00f3s ter\u00e1 duas ideias\u201d. Complemento: cada um de n\u00f3s ter\u00e1 <strong>pelo menos <\/strong>duas ideias, pois nada melhor do que a troca de ideias para a cria\u00e7\u00e3o de muitas outras.<\/p>\n<p>Assim, entretenimento, trabalho, cultura, educa\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia, tecnologia, enfim, todos os campos podem e devem estar imersos nesses princ\u00edpios, onde o prazer do fazer seja o grande combust\u00edvel de todos, tendo a solidariedade, a generosidade e a mobiliza\u00e7\u00e3o colaborativa como forma de pensar e agir na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade justa e democr\u00e1tica. Assumir na sua plenitude o nosso ativista <em>jeito hacker de ser <\/em>constitui-se uma atitude pol\u00edtica de inser\u00e7\u00e3o social nessa rede.<\/p>\n<p>Enviado para o jornal A Tarde\u00a0 em 17.10.2010.<\/p>\n<p>Publicado em 25.10.2010, pag. 02.<\/p>\n<p>P\u00e1gina do jornal, <a href=\"http:\/\/blog.ufba.br\/nlpretto\/files\/2010\/10\/pretto_atarde25102010_hacker101533.pdf\">em pdf<\/a>.<\/p>\n<p>Replicado no <a href=\"http:\/\/www.jornaldaciencia.org.br\/Detalhe.jsp?id=74407\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">jornal da Ci\u00eancia Hoje<\/a> on line.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algumas palavras ganham o imagin\u00e1rio popular por conta de um intenso uso pela m\u00eddia, mas com significados equivocados, quase que opostos aos seus sentidos originais. Para a maioria, os hackers s\u00e3o aqueles nerds que invadem os computadores para roubarem senhas, dinheiro ou realizarem opera\u00e7\u00f5es fraudulentas. A palavra hacker, contudo, surge no meio dos programadores de computador para designar aqueles que se dedicam com entusiasmo ao que fazem nesse campo. Steven Levy, em um interessante livro sobre a hist\u00f3ria da computa\u00e7\u00e3o, afirma que os hackers trabalham de forma aficcionada para \u201ctomar as m\u00e1quinas em suas m\u00e3os para melhorar as pr\u00f3prias m\u00e1quinas e o mundo\u201d. Foi o esfor\u00e7o coletivo e colaborativo dessa turma que possibilitou a cria\u00e7\u00e3o e a presen\u00e7a da internet em quase todo o planeta. No entanto, muito ainda se tem que avan\u00e7ar em termos de pol\u00edticas p\u00fablicas para que, de fato, todos as classes sociais tenham acesso a ela. No Brasil, s\u00e3o importantes as a\u00e7\u00f5es do governo federal, como o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) e o projeto \u201cUm Computador por Aluno\u201d (UCA), este em implanta\u00e7\u00e3o em fase piloto, em diversos estados brasileiros. Tamb\u00e9m merecem destaques as discuss\u00f5es sobre o Marco Civil da Internet e a necess\u00e1ria reforma da Lei de Direito Autoral que, depois da recente consulta p\u00fablica, dever\u00e1 ser consolidada e encaminhada ao Congresso. Iniciativas como essas, contudo, precisam estar acompanhadas de uma reflex\u00e3o mais profunda sobre os valores \u00e9ticos contempor\u00e2neos. Isso porque n\u00e3o podemos pensar na utiliza\u00e7\u00e3o dessas redes simplesmente com o objetivo de transformar cada cidad\u00e3o em apenas mais um mero consumidor, seja de produtos ou de informa\u00e7\u00f5es. Pensar para al\u00e9m dessa estreita l\u00f3gica do consumo \u00e9 um desafio cotidiano e tem nos movido a pesquisar sobre a tem\u00e1tica da chamada \u201c\u00e9tica hacker\u201d, express\u00e3o cunhada pelo fil\u00f3sofo finland\u00eas Pekka Himanen em livro de mesmo nome. Nosso pressuposto \u00e9 que uma nova cultura se estabelece a partir da forma de trabalhar dessa turma, tendo a paix\u00e3o, o trabalho solid\u00e1rio e colaborativo como elementos socialmente necess\u00e1rios para a constru\u00e7\u00e3o de um mundo sustent\u00e1vel. Essa forma de trabalhar \u2013 exemplarmente representada pelas bem sucedidas iniciativas do movimento software livre com o desenvolvimento do sistema operacional GNU\/Linux, da Wikipedia, entre tantos outras &#8211; vem demonstrando que a sua motiva\u00e7\u00e3o reside no alcance social de suas a\u00e7\u00f5es. Assim, pensamos a cultura hacker como um novo campo de luta pela socializa\u00e7\u00e3o dos bens culturais e cient\u00edficos, a partir do resgate do trabalho colaborativo e apaixonado, do incentivo \u00e0 circula\u00e7\u00e3o plena de ideias e descobertas, do livre acesso ao conhecimento e a intensifica\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o. A troca permanente de informa\u00e7\u00f5es e conhecimentos possibilita a implanta\u00e7\u00e3o de um c\u00edrculo virtuoso de produ\u00e7\u00e3o coletiva, inspirado na ideia de que conhecimento e cultura n\u00e3o s\u00e3o bens tang\u00edveis e escassos, que ao serem consumidos se exaurem. Ao contr\u00e1rio, quanto mais eles circulam e s\u00e3o trocados, mais a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 estimulada. Atribui-se a Bernard Shaw uma excelente frase que serve de met\u00e1fora para essa discuss\u00e3o: \u201cSe voc\u00ea tem uma ma\u00e7\u00e3 e eu tenho uma ma\u00e7a, e n\u00f3s trocamos as ma\u00e7\u00e3s, ent\u00e3o voc\u00ea e eu teremos uma ma\u00e7a. Mas se voc\u00ea tem uma ideia e eu tenho um ideia, e nos trocamos essas ideias, ent\u00e3o cada um de n\u00f3s ter\u00e1 duas ideias\u201d. Complemento: cada um de n\u00f3s ter\u00e1 pelo menos duas ideias, pois nada melhor do que a troca de ideias para a cria\u00e7\u00e3o de muitas outras. Assim, entretenimento, trabalho, cultura, educa\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia, tecnologia, enfim, todos os campos podem e devem estar imersos nesses princ\u00edpios, onde o prazer do fazer seja o grande combust\u00edvel de todos, tendo a solidariedade, a generosidade e a mobiliza\u00e7\u00e3o colaborativa como forma de pensar e agir na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade justa e democr\u00e1tica. Assumir na sua plenitude o nosso ativista jeito hacker de ser constitui-se uma atitude pol\u00edtica de inser\u00e7\u00e3o social nessa rede. Enviado para o jornal A Tarde\u00a0 em 17.10.2010. Publicado em 25.10.2010, pag. 02. P\u00e1gina do jornal, em pdf. Replicado no jornal da Ci\u00eancia Hoje on line.<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"pgc_meta":"","_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","ocean_post_layout":"","ocean_both_sidebars_style":"","ocean_both_sidebars_content_width":0,"ocean_both_sidebars_sidebars_width":0,"ocean_sidebar":"","ocean_second_sidebar":"","ocean_disable_margins":"enable","ocean_add_body_class":"","ocean_shortcode_before_top_bar":"","ocean_shortcode_after_top_bar":"","ocean_shortcode_before_header":"","ocean_shortcode_after_header":"","ocean_has_shortcode":"","ocean_shortcode_after_title":"","ocean_shortcode_before_footer_widgets":"","ocean_shortcode_after_footer_widgets":"","ocean_shortcode_before_footer_bottom":"","ocean_shortcode_after_footer_bottom":"","ocean_display_top_bar":"default","ocean_display_header":"default","ocean_header_style":"","ocean_center_header_left_menu":"","ocean_custom_header_template":"","ocean_custom_logo":0,"ocean_custom_retina_logo":0,"ocean_custom_logo_max_width":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_width":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_width":0,"ocean_custom_logo_max_height":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_height":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_height":0,"ocean_header_custom_menu":"","ocean_menu_typo_font_family":"","ocean_menu_typo_font_subset":"","ocean_menu_typo_font_size":0,"ocean_menu_typo_font_size_tablet":0,"ocean_menu_typo_font_size_mobile":0,"ocean_menu_typo_font_size_unit":"px","ocean_menu_typo_font_weight":"","ocean_menu_typo_font_weight_tablet":"","ocean_menu_typo_font_weight_mobile":"","ocean_menu_typo_transform":"","ocean_menu_typo_transform_tablet":"","ocean_menu_typo_transform_mobile":"","ocean_menu_typo_line_height":0,"ocean_menu_typo_line_height_tablet":0,"ocean_menu_typo_line_height_mobile":0,"ocean_menu_typo_line_height_unit":"","ocean_menu_typo_spacing":0,"ocean_menu_typo_spacing_tablet":0,"ocean_menu_typo_spacing_mobile":0,"ocean_menu_typo_spacing_unit":"","ocean_menu_link_color":"","ocean_menu_link_color_hover":"","ocean_menu_link_color_active":"","ocean_menu_link_background":"","ocean_menu_link_hover_background":"","ocean_menu_link_active_background":"","ocean_menu_social_links_bg":"","ocean_menu_social_hover_links_bg":"","ocean_menu_social_links_color":"","ocean_menu_social_hover_links_color":"","ocean_disable_title":"default","ocean_disable_heading":"default","ocean_post_title":"","ocean_post_subheading":"","ocean_post_title_style":"","ocean_post_title_background_color":"","ocean_post_title_background":0,"ocean_post_title_bg_image_position":"","ocean_post_title_bg_image_attachment":"","ocean_post_title_bg_image_repeat":"","ocean_post_title_bg_image_size":"","ocean_post_title_height":0,"ocean_post_title_bg_overlay":0.5,"ocean_post_title_bg_overlay_color":"","ocean_disable_breadcrumbs":"default","ocean_breadcrumbs_color":"","ocean_breadcrumbs_separator_color":"","ocean_breadcrumbs_links_color":"","ocean_breadcrumbs_links_hover_color":"","ocean_display_footer_widgets":"default","ocean_display_footer_bottom":"default","ocean_custom_footer_template":"","_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"ocean_post_oembed":"","ocean_post_self_hosted_media":"","ocean_post_video_embed":"","ocean_link_format":"","ocean_link_format_target":"self","ocean_quote_format":"","ocean_quote_format_link":"post","ocean_gallery_link_images":"on","ocean_gallery_id":[],"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[164,197,380],"class_list":["post-1809","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-em-a-tarde","tag-direito-autoral","tag-etica-hacker","tag-reforma-lda","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1809"}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1809"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1809\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1809"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1809"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1809"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}