{"id":1743,"date":"2010-08-12T06:39:09","date_gmt":"2010-08-12T09:39:09","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.ufba.br\/nlpretto\/?p=1743"},"modified":"2010-08-12T06:39:09","modified_gmt":"2010-08-12T09:39:09","slug":"ode-aos-amigos-e-a-amizade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/2010\/08\/12\/ode-aos-amigos-e-a-amizade\/","title":{"rendered":"Ode aos amigos e \u00e0 amizade"},"content":{"rendered":"<p>Nelson Pretto &#8211; professor associado da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFBA &#8211; www.pretto.info<\/p>\n<p>Perdi  recentemente um amigo muito querido. Ningu\u00e9m esperava que Pi fosse nos  deixar assim, t\u00e3o abruptamente. Momentos de choque nos levam, de  imediato, a pensar sobre a vida e n\u00e3o apenas sobre a morte.<br \/>\nCemit\u00e9rios  s\u00e3o lugares especiais e, confesso, tenho certa admira\u00e7\u00e3o por eles &#8211;  como lugares da arte, da arquitetura, da tristeza e, ainda, pela  possibilidade que nos trazem de, na dor da perda, refletir sobre a vida.  Outro amigo muito atento, Jairo, j\u00e1 havia percebido isso, tanto em  nossas conversas ao vivo como nos meus Smogs  \u2013 cr\u00f4nicas de viagens que escrevi durante meu tempo em Londres. O fato \u00e9  que nunca em outros tempos estive neles com tamanha frequ\u00eancia, a me  despedir de pessoas queridas.<br \/>\nDesta  minha \u00faltima vez, por ocasi\u00e3o da \u00faltima homenagem a Ant\u00f4nio Paulo Lopes  Freire &#8211; o nosso Pi &#8211; muito me impressionou a quantidade e diversidade  de amigos que ele mantinha e o carinho com que todos, absolutamente  todos, nutriam por ele. A consterna\u00e7\u00e3o e perplexidade eram sentimento  geral. Estava diante de n\u00f3s, inerte, o outrora menino ali de Nazar\u00e9, o  colega de escola e de bairro, o pai, irm\u00e3o, marido, o m\u00e9dico e,  principalmente, o homem que agora nos aprontava a sua \u00faltima estripulia,  aplicando-nos certeira rasteira, saindo das nossas vidas sem aviso  pr\u00e9vio.<br \/>\nPi  representa um tipo de gente que tem se tornado raro neste nosso corrido  e alucinado mundo. Um moleque gaiato, na sua s\u00e1bia simplicidade de  viver, de n\u00e3o complicar desnecessariamente as coisas, de n\u00e3o perder  f\u00e1cil o bom humor, com um agu\u00e7ado dom da cr\u00edtica e da piada, sempre  juntas, n\u00e3o necessariamente nesta ordem.<br \/>\nExpressava  ele, a todos, exatamente o que pensava, sempre de um jeito  simp\u00e1tico\/provocador que surpreendia o interlocutor, mas ao mesmo tempo  seduzia. Sua leveza era desconcertante em tempos sisudos. Soube o meu  amigo n\u00e3o se deixar contaminar pela hipocrisia, grosseria, arrog\u00e2ncia,  prepot\u00eancia, pressa e competitividade desmedida, sintomas t\u00e3o inerentes \u00e0  nossa cambaleante sociedade. Ele era um daqueles tipos de gente que n\u00e3o  perdia a piada por nada e, por isso, levava a vida com uma leveza que o  fazia ser adorado principalmente pelos seus pacientes mais velhinhos. E  complementa o amigo Caca: \u201ce tamb\u00e9m pelos filhos dos amigos, que o  adoravam!\u201d.<br \/>\nNo cemit\u00e9rio, pensei imediatamente em outra amiga, Denise, que adora ler a coluna \u201cobitu\u00e1rio\u201d da revista The Economist,  onde se faz pequena biografia dos que se foram. Ela apenas repete um  h\u00e1bito que os ingleses muito apreciam, mas que para n\u00f3s causa at\u00e9  estranhamento. Eu tamb\u00e9m estranhava, mas fui me dando conta de que havia  ali belos escritos sobre a vida e a amizade.<br \/>\nCom  essa conjuga\u00e7\u00e3o de reflex\u00f5es e lembran\u00e7as de tantos amigos, fiquei  pensando: por que n\u00e3o escrever, tamb\u00e9m eu, algo tipo obitu\u00e1rio, desta  vez para homenagear a todos os amigos vivos e, particularmente, para  celebrar a import\u00e2ncia da amizade e a mem\u00f3ria do querido Pi que acabou  de nos deixar? Assim fiz. Pi, tenha certeza que vamos aqui continuar  aprontando muito em ode \u00e0 simplicidade da vida e \u00e0 amizade, em sua  homenagem.<\/p>\n<p>Publicado no Terra Magazine de 13\/08\/2010. <a href=\"http:\/\/terramagazine.terra.com.br\/interna\/0,,OI4620515-EI6594,00-Ode+ao+amigo+Pi+e+a+amizade.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Veja l\u00e1<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nelson Pretto &#8211; professor associado da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFBA &#8211; www.pretto.info Perdi recentemente um amigo muito querido. Ningu\u00e9m esperava que Pi fosse nos deixar assim, t\u00e3o abruptamente. Momentos de choque nos levam, de imediato, a pensar sobre a vida e n\u00e3o apenas sobre a morte. Cemit\u00e9rios s\u00e3o lugares especiais e, confesso, tenho certa admira\u00e7\u00e3o por eles &#8211; como lugares da arte, da arquitetura, da tristeza e, ainda, pela possibilidade que nos trazem de, na dor da perda, refletir sobre a vida. Outro amigo muito atento, Jairo, j\u00e1 havia percebido isso, tanto em nossas conversas ao vivo como nos meus Smogs \u2013 cr\u00f4nicas de viagens que escrevi durante meu tempo em Londres. O fato \u00e9 que nunca em outros tempos estive neles com tamanha frequ\u00eancia, a me despedir de pessoas queridas. Desta minha \u00faltima vez, por ocasi\u00e3o da \u00faltima homenagem a Ant\u00f4nio Paulo Lopes Freire &#8211; o nosso Pi &#8211; muito me impressionou a quantidade e diversidade de amigos que ele mantinha e o carinho com que todos, absolutamente todos, nutriam por ele. A consterna\u00e7\u00e3o e perplexidade eram sentimento geral. Estava diante de n\u00f3s, inerte, o outrora menino ali de Nazar\u00e9, o colega de escola e de bairro, o pai, irm\u00e3o, marido, o m\u00e9dico e, principalmente, o homem que agora nos aprontava a sua \u00faltima estripulia, aplicando-nos certeira rasteira, saindo das nossas vidas sem aviso pr\u00e9vio. Pi representa um tipo de gente que tem se tornado raro neste nosso corrido e alucinado mundo. Um moleque gaiato, na sua s\u00e1bia simplicidade de viver, de n\u00e3o complicar desnecessariamente as coisas, de n\u00e3o perder f\u00e1cil o bom humor, com um agu\u00e7ado dom da cr\u00edtica e da piada, sempre juntas, n\u00e3o necessariamente nesta ordem. Expressava ele, a todos, exatamente o que pensava, sempre de um jeito simp\u00e1tico\/provocador que surpreendia o interlocutor, mas ao mesmo tempo seduzia. Sua leveza era desconcertante em tempos sisudos. Soube o meu amigo n\u00e3o se deixar contaminar pela hipocrisia, grosseria, arrog\u00e2ncia, prepot\u00eancia, pressa e competitividade desmedida, sintomas t\u00e3o inerentes \u00e0 nossa cambaleante sociedade. Ele era um daqueles tipos de gente que n\u00e3o perdia a piada por nada e, por isso, levava a vida com uma leveza que o fazia ser adorado principalmente pelos seus pacientes mais velhinhos. E complementa o amigo Caca: \u201ce tamb\u00e9m pelos filhos dos amigos, que o adoravam!\u201d. No cemit\u00e9rio, pensei imediatamente em outra amiga, Denise, que adora ler a coluna \u201cobitu\u00e1rio\u201d da revista The Economist, onde se faz pequena biografia dos que se foram. Ela apenas repete um h\u00e1bito que os ingleses muito apreciam, mas que para n\u00f3s causa at\u00e9 estranhamento. Eu tamb\u00e9m estranhava, mas fui me dando conta de que havia ali belos escritos sobre a vida e a amizade. Com essa conjuga\u00e7\u00e3o de reflex\u00f5es e lembran\u00e7as de tantos amigos, fiquei pensando: por que n\u00e3o escrever, tamb\u00e9m eu, algo tipo obitu\u00e1rio, desta vez para homenagear a todos os amigos vivos e, particularmente, para celebrar a import\u00e2ncia da amizade e a mem\u00f3ria do querido Pi que acabou de nos deixar? Assim fiz. Pi, tenha certeza que vamos aqui continuar aprontando muito em ode \u00e0 simplicidade da vida e \u00e0 amizade, em sua homenagem. Publicado no Terra Magazine de 13\/08\/2010. 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