{"id":125,"date":"2008-04-15T07:24:00","date_gmt":"2008-04-15T07:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/abobrinhasdepretto.wordpress.com\/2008\/04\/15\/125\/"},"modified":"2008-04-15T07:24:00","modified_gmt":"2008-04-15T07:24:00","slug":"125","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/2008\/04\/15\/125\/","title":{"rendered":""},"content":{"rendered":"<h2 id=\"b0sx\">Paidois e m\u00e3edois<\/h2>\n<p>Nelson Pretto &#8211; professor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal da Bahia. <a id=\"ufd7\" href=\"mailto:nelson@pretto.info\">nelson@pretto.info<\/a><\/p>\n<p>Madrasta e padrasto, seguramente, s\u00e3o palavras que ca\u00edram de moda. Bem verdade que voltaram a ser usadas recentemente nas sensacionalistas coberturas da imprensa sobre a morte da menina Isabella, em S\u00e3o Paulo. A palavra madrasta vem do latim e nada mais \u00e9 do que &#8220;<span><font>mulher casada em rela\u00e7\u00e3o aos filhos de um anterior matrim\u00f4nio do marido&#8221;,<\/font><\/span> tendo tamb\u00e9m um sentido figurado bastante forte. \u00c9 a mulher m\u00e1, &#8220;<font><font>incapaz de sentimentos afetuosos e amig\u00e1veis&#8221;, conforme o Houaiss. Povoam o imagin\u00e1rio de todos n\u00f3s as hist\u00f3rias infantis nas quais a malvada madrasta amedronta as criancinhas. Por extens\u00e3o, mesmo o dicion\u00e1rio n\u00e3o definindo o padrasto como o homem mau, ele \u00e9 assim compreendido ou, pelo menos, n\u00e3o <\/font><\/font>lhe \u00e9 reservado lugar de muito destaque nas novas fam\u00edlias que v\u00e3o se configurando nos tempos atuais.<\/p>\n<p>No entanto, isso est\u00e1 mudando com certa rapidez, pois os casamentos p\u00f3s-casamentos se sucedem, e filhos de um casal relacionam-se com pais e m\u00e3es &#8220;emprestados&#8221; e, em muitos casos, com grande proximidade e muito carinho.<br \/>Lembro-me de duas ou tr\u00eas situa\u00e7\u00f5es que marcaram a minha vida de &#8220;pai&#8221; de outros &#8220;filhos&#8221;. Certa vez, num supermercado, estava com meu &#8220;filho emprestado&#8221; de quatro anos de idade. Com a liberdade e autonomia que ele sempre recebeu e aprendeu a ter, rodava aquele pequeno garoto de um lado para o outro enquanto eu escolhia alguns produtos. Com ele estava tudo combinado: na sa\u00edda, daria o meu tradicional assobio para nos encontrarmos a caminho do caixa. Eis que um fiscal avista o menino sozinho e, de pronto, questiona: &#8220;cad\u00ea sua m\u00e3e?!&#8221; Sil\u00eancio&#8230; &#8220;e seu pai?!&#8221;, complementa r\u00e1pido. Instala-se um certo p\u00e2nico e, o que era um mero passeio de curiosidade e investiga\u00e7\u00e3o pelos corredores do mercado, vira um esp\u00e9cie de terror. J\u00e1 com o tom mais elevado, o fiscal saca sua \u00faltima quest\u00e3o: &#8220;ent\u00e3o, voc\u00ea est\u00e1 aqui com quem?!&#8221;. P\u00e2nico generalizado&#8230; Claro que ele sabia com quem estava, mas faltava-lhe a palavra. Resultado: desabou no choro, que foi o suficiente para que eu, atento \u00e0 dist\u00e2ncia aos seus movimentos, pudesse soltar o nosso c\u00f3digo-assobio, dando-lhe uma tranq\u00fcilidade que lhe permitiu correr para a seguran\u00e7a dos bra\u00e7os do&#8230; do &#8220;seu pai&#8221;.<\/p>\n<p>De outra vez, uma amiga estava com a filha do seu marido \u00e0 \u00e9poca quando encontrou um amigo que n\u00e3o via h\u00e1 muito tempo. &#8220;Oi, \u00e9 sua filha?!&#8221;, ao que ela respondeu precisamente: &#8220;n\u00e3o, \u00e9 a filha de meu marido&#8221;. Ao chegar em casa, a menina desabou no choro e depois explicou que ficara triste porque queria ser tratada como filha de fato ou, pelo menos, como algo mais pr\u00f3ximo do que uma mera &#8220;filha do meu marido&#8221;, o que, seguramente n\u00e3o representava a intimidade que j\u00e1 existia entre aquela duplinha.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, meu &#8220;filho&#8221; de nove anos, que conheci aos dois, n\u00e3o tendo como explicar o fato de ter um pai super presente e um &#8220;outro&#8221;, eu o atual marido da m\u00e3e, aos quatro anos assim se expressou sobre a situa\u00e7\u00e3o: &#8220;m\u00e3e, j\u00e1 sei. Eu tenho dois pais, o meu pai verdadeiro, e um &#8216;pai falsinho'&#8221;.<\/p>\n<p>Esses s\u00e3o pequenos exemplos que demonstram a car\u00eancia de novas palavras para representar essas rela\u00e7\u00f5es que est\u00e3o se estabelecendo com as novas configura\u00e7\u00f5es familiares, e que, tamb\u00e9m aos professores, t\u00eam dado um certo trabalho nas escolas quando dos importantes exerc\u00edcios propostos \u00e0 meninada de identifica\u00e7\u00e3o dos relacionamentos e redes familiares. Esses segundos pais e segundas m\u00e3es, que, \u00f3bvio, n\u00e3o substituem os primeiros, mas que em muitos casos interagem fortemente com aqueles, precisam de uma denomina\u00e7\u00e3o mais realista, que lhes d\u00ea mais conforto, tanto para eles pr\u00f3prios, como para as crian\u00e7as. Quem sabe podemos chamar de <i>paidois<\/i> e <i>m\u00e3edois<\/i>? Muito feio! &#8220;Pai falsinho&#8221; tamb\u00e9m \u00e9 estranho. <i>M\u00e3e emprestada<\/i>, chega mais perto, mas ainda n\u00e3o diz tudo.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, em breve, essa turma nova vai dar um jeito de nos ajudar a denominar melhor esses adultos quando, em novos casamentos, precisam assumir um importante papel de companheiros dessa gente mi\u00fada para quem quanto mais afeto houver melhor, seja do primeiro, segundo, terceiro ou en\u00e9simo &#8220;pai&#8221; ou &#8220;m\u00e3e&#8221;. Quem sabe assim tenhamos, num futuro pr\u00f3ximo, adultos mais generosos e solid\u00e1rios do que os dos dias de hoje.<\/p>\n<p><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Artigo publicado em A Tarde de 28\/04\/2008, pag. 03 e replicado no <a title=\"Terra Magazine\" target=\"_blank\" id=\"t7u7\" rel=\"noopener\">Terra Magazine<\/a> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paidois e m\u00e3edois Nelson Pretto &#8211; professor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal da Bahia. nelson@pretto.info Madrasta e padrasto, seguramente, s\u00e3o palavras que ca\u00edram de moda. Bem verdade que voltaram a ser usadas recentemente nas sensacionalistas coberturas da imprensa sobre a morte da menina Isabella, em S\u00e3o Paulo. 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No entanto, isso est\u00e1 mudando com certa rapidez, pois os casamentos p\u00f3s-casamentos se sucedem, e filhos de um casal relacionam-se com pais e m\u00e3es &#8220;emprestados&#8221; e, em muitos casos, com grande proximidade e muito carinho.Lembro-me de duas ou tr\u00eas situa\u00e7\u00f5es que marcaram a minha vida de &#8220;pai&#8221; de outros &#8220;filhos&#8221;. Certa vez, num supermercado, estava com meu &#8220;filho emprestado&#8221; de quatro anos de idade. Com a liberdade e autonomia que ele sempre recebeu e aprendeu a ter, rodava aquele pequeno garoto de um lado para o outro enquanto eu escolhia alguns produtos. Com ele estava tudo combinado: na sa\u00edda, daria o meu tradicional assobio para nos encontrarmos a caminho do caixa. Eis que um fiscal avista o menino sozinho e, de pronto, questiona: &#8220;cad\u00ea sua m\u00e3e?!&#8221; Sil\u00eancio&#8230; &#8220;e seu pai?!&#8221;, complementa r\u00e1pido. 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