{"id":114,"date":"2007-12-23T16:04:00","date_gmt":"2007-12-23T16:04:00","guid":{"rendered":"http:\/\/abobrinhasdepretto.wordpress.com\/2007\/12\/23\/114\/"},"modified":"2007-12-23T16:04:00","modified_gmt":"2007-12-23T16:04:00","slug":"114","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/2007\/12\/23\/114\/","title":{"rendered":"A escola do asfalto"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;O que faz um trabalho sobre um protesto de jovens estudantes no contexto de um curso de Pedagogia?&#8221;. Essa \u00e9 a pergunta que abre a monografia de Genielli Fran\u00e7a da Silva, trabalho final do curso de Pedagogia da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal da Bahia (UFBA), orientada pela professora Iracy Pican\u00e7o, futura vice-diretora da FACED. Questionamento importante e que vai balizar todo o texto da jovem pedagoga, ao se debru\u00e7ar sobre a chamada &#8220;Revolta do Buzu&#8221;, movimento dos estudantes secundaristas de Salvador contra o aumento das tarifas de \u00f4nibus, ocorrido entre agosto e setembro de 2003, e que, literalmente, parou a cidade,assim como aconteceu, depois, em Florian\u00f3polis e em outras cidades do Brasil. Para os que n\u00e3o lembram, durante esse per\u00edodo a meninada soteropolitana tomou as ruas em protesto, com palavras de ordem e estrat\u00e9gias de ativismo juvenil fortemente articuladas pelo uso intenso de tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o, como a internet, telefones celulares, msn&#8217;s<i>, pagers<\/i>, tudo isso a construir uma eficiente rede de mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tenho defendido veementemente a presen\u00e7a de monografias finais nos cursos de gradua\u00e7\u00e3o, e, para a forma\u00e7\u00e3o de professores, considero essa etapa absolutamente imprescind\u00edvel, uma vez que coloca o futuro professor frente \u00e0 frente com a necessidade de uma produ\u00e7\u00e3o intelectual mais consistente, e que dever\u00e1 pautar o seu cotidiano profissional. Nesse sentido, Genielli, al\u00e9m da boa escrita e an\u00e1lise, toca num importante ponto para nossa reflex\u00e3o: a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno que tem na escola um espa\u00e7o fundamental, mas n\u00e3o est\u00e1 a este limitada, em absoluto. As ruas, as a\u00e7\u00f5es sociais, as fam\u00edlias, a vida cotidiana e, principalmente, a luta pol\u00edtica, possuem uma dimens\u00e3o formativa b\u00e1sica dos jovens no mundo contempor\u00e2neo, o que difere diametralmente da mera preocupa\u00e7\u00e3o com a prepara\u00e7\u00e3o e acomoda\u00e7\u00e3o ao mercado, que apenas busca um jovem-trabalhador conformado, com atua\u00e7\u00e3o eficiente e produtiva, e nada mais.<br \/>\n\u00c9 muito rico, para n\u00f3s, de uma Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, poder ler uma profunda an\u00e1lise, feita por uma de nossas alunas, de um movimento juvenil da import\u00e2ncia da &#8220;Revolta do Buzu&#8221;. Tudo isso ganha maior dimens\u00e3o no momento atual, no qual a sociedade brasileira presenciou a recente invas\u00e3o da Reitoria da UFBA pela pol\u00edcia, com apoio do pr\u00f3prio Reitor, e que resultou em estudantes presos, algemados com as m\u00e3os pelas costas, justamente porque lutam, junto com muitos professores, por uma universidade p\u00fablica de qualidade, contra projetos de universidade que, em nome da produtividade e da escolha precoce das profiss\u00f5es, modificam, por exemplo, a quantidade de alunos que ser\u00e3o atendidos por cada professor, o que certamente dificultar\u00e1 o acompanhamento atento das produ\u00e7\u00f5es dos alunos ao longo do curso e dos trabalhos de conclus\u00e3o, como esse a que me refiro aqui.<br \/>\nVoltando ao texto da monografia &#8220;A revolta do Buzu: a escola do asfalto&#8221;, a a\u00e7\u00e3o da meninada de 15 ou 16 anos, que tomou as ruas, \u00e9 identificada com &#8220;atos de solidariedade&#8221; o que, segundo a autora, \u00e9 surpreendente nos dias de hoje, porque a a\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria, t\u00e3o presente nos discursos das escolas como sendo uma das &#8220;habilidades para a forma\u00e7\u00e3o da cidadania, aparece justamente na fala de um jovem de 16 anos, de uma gera\u00e7\u00e3o rotulada por muitos como individualista e consumista em sua ess\u00eancia&#8221;.<br \/>\nSe n\u00e3o tivermos a capacidade de compreender essa juventude, que nos desafia e nos ensina cotidianamente pelos seus atos &#8211; que, \u00e0s vezes, nos tiram do s\u00e9rio, \u00e9 bem verdade -, n\u00e3o teremos condi\u00e7\u00f5es, enquanto adultos, de com eles dialogar e com nossa experi\u00eancia acumulada e, qui\u00e7\u00e1, sabedoria, estabelecer uma rede de rela\u00e7\u00f5es e trocas. Urge, portanto, serem enaltecidas as diferen\u00e7as, para que prevale\u00e7a a solidariedade, a camaradagem e o fortalecimento da democracia, sempre baseada no respeito \u00e0s posi\u00e7\u00f5es das minorias. Da\u00ed porque a escola, seja a do asfalto ou a edificada em torno de universidades ou escolas b\u00e1sicas, tem que saber lidar com os valores da juventude. Nas palavras de Genielli, &#8220;a educa\u00e7\u00e3o acontece de diversas formas e em toda a parte&#8221;, e isso nos permite perceber que os estudantes que sa\u00edram \u00e0s ruas em 2003, assim como os que, hoje, manifestam-se na UFBA e em diversas outras universidades p\u00fablicas contra o REUNI, &#8220;muito aprenderam e, tamb\u00e9m, muito ensinaram&#8221;.<\/p>\n<p>Artigo de Nelson Pretto (Diretor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFBA &#8211; www.pretto.info) publicado no <a href=\"http:\/\/terramagazine.terra.com.br\/interna\/0,,OI2217868-EI6578,00.html\">Terra Maganize<\/a>, de 9\/1\/2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O que faz um trabalho sobre um protesto de jovens estudantes no contexto de um curso de Pedagogia?&#8221;. Essa \u00e9 a pergunta que abre a monografia de Genielli Fran\u00e7a da Silva, trabalho final do curso de Pedagogia da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal da Bahia (UFBA), orientada pela professora Iracy Pican\u00e7o, futura vice-diretora da FACED. Questionamento importante e que vai balizar todo o texto da jovem pedagoga, ao se debru\u00e7ar sobre a chamada &#8220;Revolta do Buzu&#8221;, movimento dos estudantes secundaristas de Salvador contra o aumento das tarifas de \u00f4nibus, ocorrido entre agosto e setembro de 2003, e que, literalmente, parou a cidade,assim como aconteceu, depois, em Florian\u00f3polis e em outras cidades do Brasil. Para os que n\u00e3o lembram, durante esse per\u00edodo a meninada soteropolitana tomou as ruas em protesto, com palavras de ordem e estrat\u00e9gias de ativismo juvenil fortemente articuladas pelo uso intenso de tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o, como a internet, telefones celulares, msn&#8217;s, pagers, tudo isso a construir uma eficiente rede de mobiliza\u00e7\u00e3o. Tenho defendido veementemente a presen\u00e7a de monografias finais nos cursos de gradua\u00e7\u00e3o, e, para a forma\u00e7\u00e3o de professores, considero essa etapa absolutamente imprescind\u00edvel, uma vez que coloca o futuro professor frente \u00e0 frente com a necessidade de uma produ\u00e7\u00e3o intelectual mais consistente, e que dever\u00e1 pautar o seu cotidiano profissional. Nesse sentido, Genielli, al\u00e9m da boa escrita e an\u00e1lise, toca num importante ponto para nossa reflex\u00e3o: a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno que tem na escola um espa\u00e7o fundamental, mas n\u00e3o est\u00e1 a este limitada, em absoluto. As ruas, as a\u00e7\u00f5es sociais, as fam\u00edlias, a vida cotidiana e, principalmente, a luta pol\u00edtica, possuem uma dimens\u00e3o formativa b\u00e1sica dos jovens no mundo contempor\u00e2neo, o que difere diametralmente da mera preocupa\u00e7\u00e3o com a prepara\u00e7\u00e3o e acomoda\u00e7\u00e3o ao mercado, que apenas busca um jovem-trabalhador conformado, com atua\u00e7\u00e3o eficiente e produtiva, e nada mais. \u00c9 muito rico, para n\u00f3s, de uma Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, poder ler uma profunda an\u00e1lise, feita por uma de nossas alunas, de um movimento juvenil da import\u00e2ncia da &#8220;Revolta do Buzu&#8221;. 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Urge, portanto, serem enaltecidas as diferen\u00e7as, para que prevale\u00e7a a solidariedade, a camaradagem e o fortalecimento da democracia, sempre baseada no respeito \u00e0s posi\u00e7\u00f5es das minorias. Da\u00ed porque a escola, seja a do asfalto ou a edificada em torno de universidades ou escolas b\u00e1sicas, tem que saber lidar com os valores da juventude. Nas palavras de Genielli, &#8220;a educa\u00e7\u00e3o acontece de diversas formas e em toda a parte&#8221;, e isso nos permite perceber que os estudantes que sa\u00edram \u00e0s ruas em 2003, assim como os que, hoje, manifestam-se na UFBA e em diversas outras universidades p\u00fablicas contra o REUNI, &#8220;muito aprenderam e, tamb\u00e9m, muito ensinaram&#8221;. Artigo de Nelson Pretto (Diretor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFBA &#8211; www.pretto.info) publicado no Terra Maganize, de 9\/1\/2008.<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"pgc_meta":"","_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","ocean_post_layout":"","ocean_both_sidebars_style":"","ocean_both_sidebars_content_width":0,"ocean_both_sidebars_sidebars_width":0,"ocean_sidebar":"","ocean_second_sidebar":"","ocean_disable_margins":"enable","ocean_add_body_class":"","ocean_shortcode_before_top_bar":"","ocean_shortcode_after_top_bar":"","ocean_shortcode_before_header":"","ocean_shortcode_after_header":"","ocean_has_shortcode":"","ocean_shortcode_after_title":"","ocean_shortcode_before_footer_widgets":"","ocean_shortcode_after_footer_widgets":"","ocean_shortcode_before_footer_bottom":"","ocean_shortcode_after_footer_bottom":"","ocean_display_top_bar":"default","ocean_display_header":"default","ocean_header_style":"","ocean_center_header_left_menu":"","ocean_custom_header_template":"","ocean_custom_logo":0,"ocean_custom_retina_logo":0,"ocean_custom_logo_max_width":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_width":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_width":0,"ocean_custom_logo_max_height":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_height":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_height":0,"ocean_header_custom_menu":"","ocean_menu_typo_font_family":"","ocean_menu_typo_font_subset":"","ocean_menu_typo_font_size":0,"ocean_menu_typo_font_size_tablet":0,"ocean_menu_typo_font_size_mobile":0,"ocean_menu_typo_font_size_unit":"px","ocean_menu_typo_font_weight":"","ocean_menu_typo_font_weight_tablet":"","ocean_menu_typo_font_weight_mobile":"","ocean_menu_typo_transform":"","ocean_menu_typo_transform_tablet":"","ocean_menu_typo_transform_mobile":"","ocean_menu_typo_line_height":0,"ocean_menu_typo_line_height_tablet":0,"ocean_menu_typo_line_height_mobile":0,"ocean_menu_typo_line_height_unit":"","ocean_menu_typo_spacing":0,"ocean_menu_typo_spacing_tablet":0,"ocean_menu_typo_spacing_mobile":0,"ocean_menu_typo_spacing_unit":"","ocean_menu_link_color":"","ocean_menu_link_color_hover":"","ocean_menu_link_color_active":"","ocean_menu_link_background":"","ocean_menu_link_hover_background":"","ocean_menu_link_active_background":"","ocean_menu_social_links_bg":"","ocean_menu_social_hover_links_bg":"","ocean_menu_social_links_color":"","ocean_menu_social_hover_links_color":"","ocean_disable_title":"default","ocean_disable_heading":"default","ocean_post_title":"","ocean_post_subheading":"","ocean_post_title_style":"","ocean_post_title_background_color":"","ocean_post_title_background":0,"ocean_post_title_bg_image_position":"","ocean_post_title_bg_image_attachment":"","ocean_post_title_bg_image_repeat":"","ocean_post_title_bg_image_size":"","ocean_post_title_height":0,"ocean_post_title_bg_overlay":0.5,"ocean_post_title_bg_overlay_color":"","ocean_disable_breadcrumbs":"default","ocean_breadcrumbs_color":"","ocean_breadcrumbs_separator_color":"","ocean_breadcrumbs_links_color":"","ocean_breadcrumbs_links_hover_color":"","ocean_display_footer_widgets":"default","ocean_display_footer_bottom":"default","ocean_custom_footer_template":"","_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"ocean_post_oembed":"","ocean_post_self_hosted_media":"","ocean_post_video_embed":"","ocean_link_format":"","ocean_link_format_target":"self","ocean_quote_format":"","ocean_quote_format_link":"post","ocean_gallery_link_images":"on","ocean_gallery_id":[],"footnotes":""},"categories":[8,1],"tags":[91,386],"class_list":["post-114","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-no-terra-magazine","category-sem-categoria","tag-ativismo","tag-revolta-do-buzu","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/114"}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=114"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/114\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=114"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=114"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=114"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}