{"id":286,"date":"2010-03-04T17:34:28","date_gmt":"2010-03-04T20:34:28","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.ufba.br\/nlpretto\/?page_id=286"},"modified":"2010-03-04T17:34:28","modified_gmt":"2010-03-04T20:34:28","slug":"escola-um-espaco-de-aprendizagem-sem-prazer","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/publicacoes\/artigos_academicos\/escola-um-espaco-de-aprendizagem-sem-prazer\/","title":{"rendered":"Escola: um espa\u00e7o de aprendizagem sem prazer?"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #ff0000;font-size: x-small\">Artigo publicado na revista Comunica\u00e7\u00e3o &amp; Educa\u00e7\u00e3o, n\u00famero 16, pag. 29-35<\/span><\/p>\n<h1>Escola: um espa\u00e7o de aprendizagem sem prazer?<\/h1>\n<p><strong>Lynn Rosalina Gama Alves<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nelson Pretto<\/strong><\/p>\n<p>A palavra escola em grego significa o lugar do \u00f3cio e surge, na Idade M\u00e9dia, para atender a demanda de uma nova classe social que n\u00e3o precisava trabalhar para garantir a sua sobreviv\u00eancia, mas que necessitava ocupar o seu tempo ocioso de forma nobre e digna. Este lugar \u00e9 a escola, que inicialmente se instaura como um espa\u00e7o para o lazer e consequentemente o prazer. Com o passar do tempo, come\u00e7a a perder esse significado, passando a ser vista como um lugar onde se vai buscar e adquirir novas informa\u00e7\u00f5es, na maioria das vezes de forma descontextualizada, tornando-se um lugar enfadonho e desprazeiroso. Tal afirmativa, pode ser ratificada no discurso de crian\u00e7as, adolescentes e at\u00e9 mesmo dos adultos que necessitam ir a escola, marcando a diferen\u00e7a entre o aprender com prazer fora da escola e o aprender dentro do espa\u00e7o escolar.<\/p>\n<p>A &#8220;repress\u00e3o simb\u00f3lica&#8221; \u00e9 t\u00e3o violenta que, \u00e0s vezes, n\u00e3o percebemos que estamos internalizando um discurso onde s\u00f3 tem valor as aprendizagens realizadas dentro da escola. Tudo que \u00e9 aprendido fora \u00e9 visto com reserva, com desconfian\u00e7a, marcando a diferen\u00e7a entre a aprendizagem sistem\u00e1tica e a aprendizagem assistem\u00e1tica, que se constr\u00f3i no cotidiano dos atores sociais, a partir da intera\u00e7\u00e3o com os signos e instrumentos presentes na sociedade. Instrumento aqui compreendido na perspectiva vygotskiana, como elemento mediador entre o sujeito e o objeto do conhecimento. Como diz Vygotsky,<\/p>\n<blockquote>\n<blockquote><p><span style=\"font-size: small\">&#8230;o uso de meios artificiais \u2013 a transi\u00e7\u00e3o para     a atividade mediada \u2013 muda, fundamentalmente, todas as opera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas,     assim como o uso de instrumentos amplia de forma ilimitada a gama de atividades em cujo     interior as novas fun\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas podem operar&#8230; (VYGOTSKY, 1994:73)<\/span><\/p><\/blockquote>\n<\/blockquote>\n<p>Nos dias atuais percebemos a presen\u00e7a intensa de instrumentos tecnol\u00f3gicos &#8211; que preferimos denominar de <strong>elementos tecnol\u00f3gicos<\/strong> para diferenci\u00e1-los de uma perspectiva instrumental e mecanicista &#8211; que vem possibilitando uma nova raz\u00e3o cognitiva, um novo pensar, novos caminhos para construir o conhecimento de forma prazerosa e l\u00fadica. Tal constata\u00e7\u00e3o provoca muitos questionamentos por parte de v\u00e1rios segmentos da sociedade, inclusive dos professores, que v\u00eaem, de um lado, estas tecnologias com certa desconfian\u00e7a e, de outro, com expectativas exageradas que fogem \u00e0 realidade, uma vez que acreditam que estes elementos tecnol\u00f3gicos, por si s\u00f3, possam resolver os problemas do sistema educacional. Vivemos esta oscila\u00e7\u00e3o constante entre estes p\u00f3los e pensamos ser urgente, neste momento, construir uma postura de equil\u00edbrio, percebendo as possibilidades e limites destas tecnologias no ambiente escolar.<\/p>\n<p>Pierre L\u00e8vy (1993) vem denominando esses elementos tecnol\u00f3gicos como sendo <strong>tecnologias da intelig\u00eancia<\/strong>, na medida em que possibilitam uma transforma\u00e7\u00e3o da ecologia cognitiva.<\/p>\n<p>As tecnologias da intelig\u00eancia<\/p>\n<blockquote>\n<blockquote><p><span style=\"font-size: small\">&#8230; reorganizam, de uma forma ou de outra, a vis\u00e3o de     mundo de seus usu\u00e1rios e modificam seus reflexos mentais. (&#8230;) Na medida em que a     informatiza\u00e7\u00e3o avan\u00e7a, certas fun\u00e7\u00f5es s\u00e3o eliminadas, novas habilidades aparecem, a     ecologia cognitiva se transforma&#8230;(L\u00c8VY, 1993:54)<\/span><\/p><\/blockquote>\n<\/blockquote>\n<p>Portanto, arriscamos dizer que a intera\u00e7\u00e3o com os computadores, games, livros, Internet, TV, v\u00eddeo, representam a possibilidade de altera\u00e7\u00e3o das estruturas cognitivas do indiv\u00edduo, gerando um desequil\u00edbrio que instaura uma nova forma de pensar.<\/p>\n<p>Nossas crian\u00e7as e adolescentes vivem nesse mundo <em>high tech<\/em>, construindo e aprendendo novas formas de ser e pensar, que possibilitam o surgimento de uma l\u00f3gica <strong>rizom\u00e1tica <\/strong>(L\u00e8vy &#8211; Deleuze e Guatarri). L\u00f3gica esta que se constr\u00f3i a partir da diversidade que permeia o sujeito cognoscente &#8211; em permanente processo de constru\u00e7\u00e3o e desconstru\u00e7\u00e3o &#8211; e do mergulho dos sujeitos no mundo plural e coletivo da comunica\u00e7\u00e3o digital. E a escola como reage frente esses jovens?<\/p>\n<p>A escola ainda se mant\u00e9m com a tecnologia <em>low tech<\/em> (Cysneiros, 1994), resistindo em atender as novas demandas sociais e cognitivas, resistindo enfim a todas as necessidades deste novo sujeito, em constru\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse contexto que as tecnologias da intelig\u00eancia v\u00eam chegando nas escolas atrav\u00e9s de projetos pol\u00edticos ou das press\u00f5es do mercado. O envolvimento dos pesquisadores das Universidades, profissionais que est\u00e3o refletindo teoricamente sobre estas quest\u00f5es, por si s\u00f3, n\u00e3o garante que estes projetos, ao chegarem \u00e0s escolas p\u00fablicas brasileiras, n\u00e3o cheguem como verdadeiros pacotes prontos, sem muitas possibilidades de transforma\u00e7\u00e3o. A hist\u00f3ria da presen\u00e7a das tecnologias da comunica\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o na educa\u00e7\u00e3o brasileira possui um percurso que j\u00e1 foi discutido por diversos autores. Na inform\u00e1tica educativa os registros apontam para o EDUCOM &#8211; Projeto de Informatiza\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o Brasileira que, na d\u00e9cada de 80, norteou as experi\u00eancias no Rio Grande do Sul, Pernambuco, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Campinas (SP); o PRONINFE &#8211; Programa Nacional de Inform\u00e1tica na Educa\u00e7\u00e3o (1989) &#8211; e, finalmente, o seu renascimento em 1996, atrav\u00e9s do Programa de Inform\u00e1tica na Educa\u00e7\u00e3o (PROINFO). No campo da comunica\u00e7\u00e3o, especialmente da televis\u00e3o e v\u00eddeo, vemos estas preocupa\u00e7\u00f5es desde o nascimento das televis\u00f5es educativas, quase coincidindo com o pr\u00f3prio nascimento da televis\u00e3o no Brasil. No final da d\u00e9cada de 60, d\u00e1-se in\u00edcio a um dos projetos pioneiros na \u00e1rea &#8211; Projeto SACI &#8211; implantado no Rio Grande do Norte. Nascem as televis\u00f5es educativas do Maranh\u00e3o, Cear\u00e1 e Amazonas. Surgem projetos privados como o V\u00eddeo Escola da Funda\u00e7\u00e3o Roberto Marinho e o Canal Futura, tamb\u00e9m liderado por esta funda\u00e7\u00e3o, agora com o envolvimento de grandes organiza\u00e7\u00f5es brasileiras como a Funda\u00e7\u00e3o Odebrecht, o Instituto Ayrton Senna, a Funda\u00e7\u00e3o Bradesco. O setor p\u00fablico est\u00e1 presente de forma intensa na \u00e1rea, atrav\u00e9s da TV Escola, canal educativo que \u00e9 um dos pilares b\u00e1sicos da pol\u00edtica do MEC na rela\u00e7\u00e3o educa\u00e7\u00e3o-tecnologia. Este percurso hist\u00f3rico, no entanto, n\u00e3o garantiu &#8211; e ainda n\u00e3o garante &#8211; uma forte participa\u00e7\u00e3o da comunidade escolar neste processo.<\/p>\n<p>Como os professores, alunos, diretores, corpo t\u00e9cnico pedag\u00f3gico, podem levar adiante as diretrizes norteadoras destas a\u00e7\u00f5es, se muitas vezes n\u00e3o compreendem o <strong>porqu\u00ea, para qu\u00ea e como <\/strong>interagir com esses elementos tecnol\u00f3gicos na escola? Em outras palavras, a percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o clara das raz\u00f5es mais profundas desta rela\u00e7\u00e3o educa\u00e7\u00e3o- tecnologia fez com que, muitas vezes, estes equipamentos fossem subutilizados, sendo quase mais um elemento de decora\u00e7\u00e3o ou de uso promocional da institui\u00e7\u00e3o escolar, tendo pouco uso e se tornando rapidamente obsoletos.<\/p>\n<p>A dificuldade de uma incorpora\u00e7\u00e3o diferenciada destas tecnologias s\u00e3o evidentes. S\u00e3o in\u00fameras as tentativas, mas o que percebemos \u00e9 que a escola continua a negar o &#8220;conhecimento&#8221; que os jovens constr\u00f3em a partir das intera\u00e7\u00f5es que eles estabelecem com estas tecnologias da intelig\u00eancia. Ao negar, a escola educa e o faz muito bem, pois induz os jovens a uma repeti\u00e7\u00e3o quase que autom\u00e1tica do discurso reprodutivista dos adultos, que negam esses novos caminhos no processo de constru\u00e7\u00e3o do conhecimento, mantendo a dicotomia manique\u00edsta entre o saber escolarizado e o n\u00e3o escolarizado. O N\u00facleo Educa\u00e7\u00e3o &amp; Comunica\u00e7\u00e3o, da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal da Bahia, vem estudando esta problem\u00e1tica e, como mais uma de suas atividades com o objetivo de investigar o que pensam crian\u00e7as e adolescentes sobre a rela\u00e7\u00e3o educa\u00e7\u00e3o-tecnologia, promoveu em agosto de 1997, um inusitado encontro de crian\u00e7as e adolescentes, com o objetivo de<\/p>\n<blockquote>\n<blockquote><p><span style=\"font-size: small\">criar um espa\u00e7o dial\u00f3gico, aberto e confort\u00e1vel onde     as crian\u00e7as se expressem [pudessem se expressar] espontaneamente sobre a sua rela\u00e7\u00e3o     com as m\u00e1quinas de um modo em geral, com o r\u00e1dio, TV, v\u00eddeo, games, computadores,     Internet, a fim de que, com o poder de uso das diversas linguagens, usufruam     [usufru\u00edssem] publicamente deste direito.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<\/blockquote>\n<p>O que se quis foi reunir crian\u00e7as e adolescentes na faixa et\u00e1ria dos cinco aos 15 anos, que estavam dentro ou fora da escola, com experi\u00eancias bem diversificadas em torno das novas tecnologias, para que os mesmos dessem uma aula para professores e alunos da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, cujo principal objetivo \u00e9 exatamente o de formar os futuros professores desta meninada. Para uma maior compreens\u00e3o da proposta e do seu desdobramento que neste artigo analisamos, faz-se necess\u00e1rio um breve coment\u00e1rio sobre os autores deste processo.<\/p>\n<p>Claudemir dos Santos J\u00fanior, 13 anos, cursa a 7<sup>\u00aa<\/sup> s\u00e9rie na Escola municipal Dr. Alexandre Leal Costa e participa de um projeto da Prefeitura Municipal de Salvador que tem como objetivo conectar as escolas municipais \u00e0 Internet. Este projeto existe desde julho de 1995 e envolve, atualmente, 17 escolas da rede municipal. Claudemir teve a oportunidade de construir a sua pr\u00f3pria home page [http:\/\/www.faced.ufba.br\/~pie] como parte das atividades deste projeto.<\/p>\n<p>Bruna Lima de Souza Santos, de 8 anos, est\u00e1 fora da escola e tem 14 irm\u00e3os. Ela ajuda na renda familiar atrav\u00e9s da venda de canetas no posto do Banco do Brasil da Universidade e \u00e9 conhecida de um bom n\u00fameros de professores e funcion\u00e1rios da UFBA por sua excelente mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Gabriel Muricy dela Plata, tem 10 anos, cursa a 3<sup>\u00aa<\/sup> s\u00e9rie no Instituto Social da Bahia, escola de classe m\u00e9dia em Salvador. Gabriel tem muita intimidade com computador e videogames. Ele j\u00e1 possui seu pr\u00f3prio e-mail [gabrielmp@hotmail.com].<\/p>\n<p>Indi Nascimento Figueiredo, tem 8 anos e est\u00e1 na 2<sup>\u00aa<\/sup> s\u00e9rie na Funda\u00e7\u00e3o Nossa Senhora de Lourdes (Sacramentinas) em Feira de Santana\/Bahia. Esta escola atende basicamente \u00e0 classe m\u00e9dia da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Mariane Moreira da Silva, tem 11 anos, cursa a 4<sup>\u00aa<\/sup> s\u00e9rie na Escola Municipal Beatriz Bispo Miranda tamb\u00e9m em Feira de Santana. Sua escola possui apenas um v\u00e3o medindo aproximadamente 50 m<span style=\"font-size: xx-small\">2<\/span>, com divis\u00f3rias de madeira, onde s\u00e3o ministradas simultaneamente aulas para todas as s\u00e9ries do ensino fundamental (classe multiseriada).<\/p>\n<p>J\u00falia Carolina Cerqueira Dias, tem 5 anos, j\u00e1 esteve em creches e pr\u00e9-escola e, no momento, est\u00e1 fora da escola. Adora jogos em computador. Seus pais trabalham com inform\u00e1tica.<\/p>\n<p>Osvaldo Pereira da Silva (Tic\u00f3), tem 15 anos, j\u00e1 esteve fora da escola, tendo retornado em 1997. Tic\u00f3 adora jogos eletr\u00f4nicos e passa boa parte do seu tempo nas lojas de games do seu bairro, a Boca do Rio, em Salvador\/Bahia.<\/p>\n<p>Tatiane de Andrade Matos, tem 14 anos e cursa a 8<sup>\u00aa<\/sup> s\u00e9rie na Escola Municipal Dr. Alexandre Leal Costa tamb\u00e9m participando do Projeto Internet nas Escolas em Salvador. Tatiane j\u00e1 construiu sua pr\u00f3pria home-page [http:\/\/www.faced.ufba.br\/~pie].<\/p>\n<p>Divonei Rodrigo dos Santos, tem 10 anos, estuda na Escola Municipal do Calabet\u00e3o em Salvador, outra escola municipal envolvida com o Projeto Internet mas ele n\u00e3o tem ainda sua pr\u00f3pria home-page. Foi ele quem produziu o desenho usado no cartaz de divulga\u00e7\u00e3o do evento.<\/p>\n<p>Neste encontro, que assumiu o car\u00e1ter l\u00fadico e descontra\u00eddo, rompendo com a r\u00edgida organiza\u00e7\u00e3o das escolas e universidades, as crian\u00e7as e adolescentes ficaram sentados em almofadas no ch\u00e3o, em um ambiente especialmente preparado para eles. Neste audit\u00f3rio existiam c\u00e2mera de v\u00eddeo, televis\u00e3o, videogames, livros, l\u00e1pis de cera, pap\u00e9is, jogos, enfim, elementos mediadores da rela\u00e7\u00e3o crian\u00e7a-adulto e do processo de constru\u00e7\u00e3o do conhecimento.<\/p>\n<p>Apesar da descontra\u00e7\u00e3o e espontaneidade que norteou o encontro, o discurso do adulto esteve sempre presente na fala dos jovens, que at\u00e9 reconheciam a aprendizagem fora do ambiente escolar, mas atribu\u00edam maior significa\u00e7\u00e3o ao saber formal, transmitido pelos professores na escola.<\/p>\n<p>Indi, ao ser indagada sobre a presen\u00e7a da TV na escola, afirma &#8220;&#8230; em casa assistimos [a TV] para nos distrair, no col\u00e9gio para aprender..&#8221;. Percebe-se claramente que para ela, o aprender da escola tem uma import\u00e2ncia maior. Mais adiante ela vai confirmar a diferen\u00e7a entre aprender e distrair &#8220;&#8230;porque em casa nos distra\u00edmos assim, no modo de se divertir. No col\u00e9gio distra\u00edmos mas aprendemos ao mesmo tempo&#8221;. Esses mitos permearam o discurso de todas as crian\u00e7as e adolescentes presentes no evento.<\/p>\n<p>Para Tatiane, a TV na escola possibilitaria uma aprendizagem sem monotonia, &#8220;por que melhora nossa aprendizagem, n\u00e3o sofre com monotonia&#8230;todo livro voc\u00ea tem que &#8230; ai aprendemos s\u00f3 com a televis\u00e3o tamb\u00e9m, a professora bota fitas para ficar assistindo, depois discutimos, fazemos depoimentos e assim aprendemos mais.&#8221; Aqui podemos sinalizar dois importantes aspectos:<\/p>\n<p>O primeiro, a monotonia que vem norteando o processo ensino aprendizagem. Ser\u00e1 que os professores n\u00e3o se d\u00e3o conta disso? Preferem responsabilizar os jovens pelos &#8220;fracassos&#8221; do processo ensino aprendizagem, atribuindo a estes o fato de n\u00e3o quererem nada, de serem rebeldes, agressivos, enfim uma infinidade de desculpas para justificar o baixo rendimento, a evas\u00e3o e a indisciplina na escola. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, percebemos que estes aspectos, na verdade, s\u00e3o sintomas de que algo n\u00e3o vai bem com a escola e professores. O mais interessante, no entanto, \u00e9 que quando questionados, muitos professores n\u00e3o se consideram integrantes do processo e continuam atribuindo ao outro a responsabilidade pelo fato da escola ter se tornado um local desprazeiroso, mon\u00f3tono e autorit\u00e1rio, uma vez que as hierarquias existentes no sistema educacional imp\u00f5e um comportamento quase que burocr\u00e1tico dos atores deste processo. Na verdade, nem atores, pois em fun\u00e7\u00e3o desta burocr\u00e1tica hierarquiza\u00e7\u00e3o o que vemos \u00e9 a incorpora\u00e7\u00e3o de procedimentos e pr\u00e1ticas para o obedecimento das leis, personificada nos coordenadores e\/ou diretores das escolas, quando n\u00e3o nos curr\u00edculos e materiais did\u00e1ticos.<\/p>\n<blockquote>\n<blockquote><p><span style=\"font-size: small\">O produto dessa escola, como salienta Toffler (1981), \u00e9     um indiv\u00edduo capaz de seguir ordens com aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o questionador, capaz de fazer algo     sem se preocupar\/interrogar por que \u00e9 feito desse modo e n\u00e3o de outro, sempre confiante     em que h\u00e1 algu\u00e9m que j\u00e1 pensou por ele como fazer, e capaz de se esfor\u00e7ar para fazer o     melhor em seu posto na linha de montagem. (RIPPER,1996:s\/n)<\/span><\/p><\/blockquote>\n<\/blockquote>\n<p>A lei \u00e9 necess\u00e1ria para que o indiv\u00edduo se estruture como sujeito, mas a partir do momento em que esta lei se apresenta de forma autorit\u00e1ria, punidora e repressora, compromete-se o papel da escola, afastando os alunos da mesma e dos professores. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, burocratiza-se o ato de aprender.<\/p>\n<p>Estes jovens afirmam que o melhor da escola \u00e9 o intervalo (recreio) que deveria ter seu tempo ampliado. Eles associam ao intervalo o momento de prazer e troca com os demais colegas e, com isso, entendem este espa\u00e7o como importante para a socializa\u00e7\u00e3o. Justamente aquilo que deveria ser o todo da escola: um espa\u00e7o de socializa\u00e7\u00e3o prazerosa de conhecimentos e saberes.<\/p>\n<blockquote>\n<blockquote><p><span style=\"font-size: small\">Paradoxalmente, \u00e9 no espa\u00e7o escolar que encontramos as     vozes silenciadas das crian\u00e7as, dos jovens e adolescentes: negamos suas falas, sua     literatura, seus desejos e emo\u00e7\u00f5es, suas hip\u00f3teses de trabalho, suas cren\u00e7as e     indaga\u00e7\u00f5es&#8230; Esquecemos ou nos tornamos indiferentes \u00e0s culturas dos migrantes e as     miscigena\u00e7\u00f5es que impregnam nossa brasilidade&#8230; \u00c9 na escola que deixamos de aprender     com a sabedoria da velhice e negamos o encanto das v\u00e1rias idades. Silenciamos o mundo dos     idosos e das mulheres, assim como distorcemos ou negamos culturas de outros povos, grupos     ou categorias sociais diferentes daqueles impostos pelos livros did\u00e1ticos e pela cultura     da m\u00eddia.&#8221; (OSOWSKI, 1998:68)<\/span><\/p><\/blockquote>\n<\/blockquote>\n<p>A escola precisa re-significar o seu papel estabelecendo uma rela\u00e7\u00e3o prazerosa entre o conhecimento e o saber.<\/p>\n<p>O segundo aspecto importante, sinalizado por Tatiane, \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o da tecnologia na escola. Ser\u00e1 que a discuss\u00e3o realizada ap\u00f3s a exibi\u00e7\u00e3o de uma fita de v\u00eddeo, permite que o imagin\u00e1rio dos alunos aflorem? Que possam fazer as mais ricas e diferentes leituras do filme apresentado? Os professores que vem interagindo com as novas tecnologias na escola, j\u00e1 contemplam uma l\u00f3gica hipertextual, que rompe com a linearidade e a hierarquia? Ou a discuss\u00e3o em sala de aula segue uma \u00fanica linha de racioc\u00ednio, que n\u00e3o permite a multiplicidade de vis\u00f5es de mundo? Aqui, vale lembrar a insist\u00eancia com que Pierre BABIN e Marie-France Kouloumdjian, j\u00e1 em 1983, alertaram em seu livro <strong>Novos Modos de Compreender<\/strong> sobre o perigo de se confundir as coisas ao introduzir o audiovisual na escola. Para eles,<\/p>\n<blockquote>\n<blockquote><p><span style=\"font-size: small\">a experi\u00eancia nos mostrou que, por querer integrar     demais o audiovisual dentro dos m\u00e9todos escolares, n\u00f3s o matamos, fazendo do prazer um     dever. (BABIN, 1989: 173)<\/span><\/p><\/blockquote>\n<\/blockquote>\n<p>Como esses jovens aprendem interagindo com as m\u00e1quinas? Aprendem <em>futucando<\/em>, diz Indi, 8 anos, sem pestanejar e manipulando o microfone com uma desconcentrante espontaneidade. Aprendem com o outro, aprendem atrav\u00e9s de erros e acertos, aprendem atrav\u00e9s da leitura ic\u00f4nica. Enfim, aprendem interagindo com o objeto do conhecimento, sem medos, transformando e sendo transformados. E na escola como aprendem? Na escola, diz Indi, <em>aprendem por que tem mais tarefas<\/em><strong>. <\/strong>A escola resiste e pro\u00edbe, na fala destes jovens, a entrada de brinquedos como o bate-bate, tamagotchis e a simples bola de futebol, porque estes elementos podem desestruturar a sua pseudo organiza\u00e7\u00e3o escolar. A palavra de ordem \u00e9 disciplina. O mais interessante neste aspecto, \u00e9 a postura ambivalente que esses jovens adotam frente as decis\u00f5es da escola. Questionam mas acham que \u00e9 desta forma que tem que ser. Observem o di\u00e1logo entre uma rep\u00f3rter que cobria o evento e Osvaldo (Tic\u00f3):<\/p>\n<blockquote>\n<blockquote><p><span style=\"font-size: small\">&#8211; Na sua escola tem computador, estas coisas?<br \/>\n&#8211; Tem n\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea acha que faz falta para o que voc\u00ea vem aprendendo na escola?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, porque quem tem escola n\u00e3o depende disso, acho que quem gosta de aprender n\u00e3o     depende destas coisas.<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea acha ent\u00e3o que o professor, o quadro e o giz, \u00e9 suficiente?<br \/>\n&#8211; \u00c9<\/span><\/p><\/blockquote>\n<\/blockquote>\n<p>Esse mesmo adolescente, que aqui verbaliza uma satisfa\u00e7\u00e3o com a pr\u00e1tica pedag\u00f3gica da escola, registra em outro momento que o pior da escola \u00e9 a diretora. Al\u00e9m disso, ele afirma ter dificuldade em matem\u00e1tica, sinalizando desta forma, que a escola n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o perfeita assim. Contradit\u00f3rio?! N\u00e3o&#8230; No fundo o que se percebe \u00e9 que esta pseudo contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio resultado da atual educa\u00e7\u00e3o escolar: de um lado o que se aprende de fato e, de outro, o discurso sobre o aprender na escola, que vale mais.<\/p>\n<p>No discurso dos jovens percebe-se ainda uma clareza em rela\u00e7\u00e3o as caracter\u00edsticas marcantes da cultura tecnol\u00f3gica, como por exemplo, o rompimento da no\u00e7\u00e3o de tempo e espa\u00e7o e o aumento da velocidade de transmiss\u00e3o de mensagens por interm\u00e9dio dos novos meios de comunica\u00e7\u00e3o, favorecendo a ubiq\u00fcidade.<\/p>\n<p>Para Tatiane a Internet<\/p>\n<blockquote>\n<blockquote><p><span style=\"font-size: small\">&#8230;vai al\u00e9m de uma rede ligada a muitos computadores.     [S\u00e3o] v\u00e1rios internautas que trocam mensagens e id\u00e9ias sobre qualquer assunto que     esteja ocorrendo. <\/span><\/p><\/blockquote>\n<\/blockquote>\n<p>A id\u00e9ia de comunica\u00e7\u00e3o com os outros \u00e9 forte. O cartaz do evento, feito por Divonei, aluno da uma escola municipal da periferia, traz o desenho de uma crian\u00e7a na frente do computador digitando no teclado. Ao ser perguntado sobre o que ele estava pensando quando fez o desenho, n\u00e3o vacilou: <em>pr\u00e1 eu comunicar com os outros&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Indi, que faz teatro, \u00e9 perguntada se \u00e9 poss\u00edvel fazer teatro em Feira de Santana e algu\u00e9m no Jap\u00e3o ver a sua pe\u00e7a.<\/p>\n<blockquote>\n<blockquote><p><span style=\"font-size: small\">&#8211; Acho.<br \/>\n&#8211; Como?<br \/>\n&#8211; Pela televis\u00e3o&#8221;<\/span><\/p><\/blockquote>\n<\/blockquote>\n<p>Para Claudemir, ter uma home page \u00e9 muito importante. Por qu\u00ea? :<\/p>\n<blockquote>\n<blockquote><p><span style=\"font-size: small\">Bom, ai d\u00e1 pr\u00e1 voc\u00ea se comunicar mais com as pessoas,     as pessoas te conhecem mais, voc\u00ea aparece assim, mais n\u00e9, essa coisa.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<\/blockquote>\n<p>Estes depoimentos nos imp\u00f5e repensar o papel da escola. Uma escola que precisa estar conectada com o mundo. Conectada fisicamente, atrav\u00e9s destas tecnologias (computadores, televis\u00e3o&#8230;) mas, fundamentalmente, conectada com o mundo de forma aut\u00f4noma e se transformando em um local de produ\u00e7\u00e3o de cultura e conhecimento, articulada com o que vem acontecendo ao seu redor. Desta forma, visualiza-se uma possibilidade de se romper com o limitado conceito de que <em>aprender \u00e9 ficar gravado na mem\u00f3ria. <\/em><\/p>\n<p>Isso nos imp\u00f5e pensar numa outra escola, num outro curr\u00edculo. Portanto \u00e9 essencial discutir no ambiente escolar a constru\u00e7\u00e3o deste novo curr\u00edculo que<\/p>\n<blockquote>\n<blockquote><p><span style=\"font-size: small\">&#8230; n\u00e3o compactua com a tradicional     compartimentaliza\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados, pr\u00f3pria das tradicionais estruturas curriculares,     mas vai na dire\u00e7\u00e3o de uma simult\u00e2nea articula\u00e7\u00e3o vertical e transversal dos     conte\u00fados, sem uma estrutura pr\u00e9-estabelecida de modo r\u00edgido e que se pretenda     permanente, tomando-se por base as demandas emergentes no processo de aprendizagem e     constru\u00e7\u00e3o do conhecimento, al\u00e9m disso, que esteja de acordo com as prioridades de cada     comunidade escolar. Assim, o curr\u00edculo realmente se constituir\u00e1 em <em>um espa\u00e7o     multireferencial de aprendizagem<\/em> (LIMA JUNIOR, 1998:41) <\/span><\/p><\/blockquote>\n<\/blockquote>\n<p>Enfim, o que percebemos deste encontro \u00e9 que precisamos repensar a escola mas repens\u00e1-la como um todo, de sua arquitetura ao curr\u00edculo, introduzindo uma outra l\u00f3gica, n\u00e3o mais linear e cartesiana mas sim uma l\u00f3gica hipertextual, que possibilite transformar a escola em um lugar de produ\u00e7\u00e3o e n\u00e3o apenas apropria\u00e7\u00e3o de conhecimento e cultura.<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial\"><em><strong>Bibliografia<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<p>BABIN, Pierre e Kouloumdjian, Marie-France Os Novos Modos de Compreender &#8211; a gera\u00e7\u00e3o do audiovisual e do computador, tradu\u00e7\u00e3o Maria Cec\u00edlia Oliveira Marques, S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1989.<\/p>\n<p>DELEUZE e GUATARRI Rizoma, Parma-Lucca: Pratiche Editrice, 1977.<\/p>\n<p>L\u00c8VY, Pierre. As tecnologias da intelig\u00eancia &#8211; o futuro do pensamento na era da inform\u00e1tica. Tradu\u00e7\u00e3o Carlos Irineu da Costa, Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.<\/p>\n<p>LIMA JUNIOR, Arnaud Soares. O curr\u00edculo como Hipertexto \u2013 em busca de novos caminhos. Revista de Educa\u00e7\u00e3o CEAP, Salvador: CEAP, ano 6, n\u00ba 20, mar.98, p. 37-43.<\/p>\n<p>MORAES, Maria C\u00e2ndida Moraes, <em>Inform\u00e1tica educativa no Brasil: um pouco de hist\u00f3ria&#8230;<\/em><strong>, <\/strong><\/p>\n<p><strong>Em aberto<\/strong>, Bras\u00edlia: INEP, ano 12, n\u00b0. 57, jan\/mar.93, p. 17-26.<\/p>\n<p>OSOWSKI, Cec\u00edlia Irene. <em>Saberes Pedag\u00f3gicos numa perspectiva inaciana.<\/em><strong> Revista de Educa\u00e7\u00e3o CEAP<\/strong>, Salvador: CEAP, ano 6, n\u00ba 20, mar.98, p. 64-77.<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p>RIPPER, Afira Vianna. <strong>O preparo do professor para as novas tecnologias. <\/strong>1995. Home page: http:\/\/www.Leia.fae.unicamp.br\/preparo.htm<\/p>\n<p>SAVIANI, Dermeval. <strong>Pedagogia hist\u00f3rico-cr\u00edtica: primeiras aproxima\u00e7\u00f5es.<\/strong> S\u00e3o Paulo: Cortez Editora e Autores Associados, 1991.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211; <strong>Escola e democracia: teorias da educa\u00e7\u00e3o, curvatura da vara, onze teses sobre educa\u00e7\u00e3o e pol\u00edtica. <\/strong>S\u00e3o Paulo: Cortez Editora e Autores Associados, 1988<\/p>\n<p>VYGOTSKY, Lev Semyonovitch. <strong>A forma\u00e7\u00e3o Social da mente: o desenvolvimento dos processos psicol\u00f3gicos superiores.<\/strong> tradu\u00e7\u00e3o Jos\u00e9 Cipolla Neto [et alii.], S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1994.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo publicado na revista Comunica\u00e7\u00e3o &amp; Educa\u00e7\u00e3o, n\u00famero 16, pag. 29-35 Escola: um espa\u00e7o de aprendizagem sem prazer? Lynn Rosalina Gama Alves Nelson Pretto A palavra escola em grego significa o lugar do \u00f3cio e surge, na Idade M\u00e9dia, para atender a demanda de uma nova classe social que n\u00e3o precisava trabalhar para garantir a sua sobreviv\u00eancia, mas que necessitava ocupar o seu tempo ocioso de forma nobre e digna. Este lugar \u00e9 a escola, que inicialmente se instaura como um espa\u00e7o para o lazer e consequentemente o prazer. Com o passar do tempo, come\u00e7a a perder esse significado, passando a ser vista como um lugar onde se vai buscar e adquirir novas informa\u00e7\u00f5es, na maioria das vezes de forma descontextualizada, tornando-se um lugar enfadonho e desprazeiroso. Tal afirmativa, pode ser ratificada no discurso de crian\u00e7as, adolescentes e at\u00e9 mesmo dos adultos que necessitam ir a escola, marcando a diferen\u00e7a entre o aprender com prazer fora da escola e o aprender dentro do espa\u00e7o escolar. A &#8220;repress\u00e3o simb\u00f3lica&#8221; \u00e9 t\u00e3o violenta que, \u00e0s vezes, n\u00e3o percebemos que estamos internalizando um discurso onde s\u00f3 tem valor as aprendizagens realizadas dentro da escola. Tudo que \u00e9 aprendido fora \u00e9 visto com reserva, com desconfian\u00e7a, marcando a diferen\u00e7a entre a aprendizagem sistem\u00e1tica e a aprendizagem assistem\u00e1tica, que se constr\u00f3i no cotidiano dos atores sociais, a partir da intera\u00e7\u00e3o com os signos e instrumentos presentes na sociedade. Instrumento aqui compreendido na perspectiva vygotskiana, como elemento mediador entre o sujeito e o objeto do conhecimento. Como diz Vygotsky, &#8230;o uso de meios artificiais \u2013 a transi\u00e7\u00e3o para a atividade mediada \u2013 muda, fundamentalmente, todas as opera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas, assim como o uso de instrumentos amplia de forma ilimitada a gama de atividades em cujo interior as novas fun\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas podem operar&#8230; (VYGOTSKY, 1994:73) Nos dias atuais percebemos a presen\u00e7a intensa de instrumentos tecnol\u00f3gicos &#8211; que preferimos denominar de elementos tecnol\u00f3gicos para diferenci\u00e1-los de uma perspectiva instrumental e mecanicista &#8211; que vem possibilitando uma nova raz\u00e3o cognitiva, um novo pensar, novos caminhos para construir o conhecimento de forma prazerosa e l\u00fadica. Tal constata\u00e7\u00e3o provoca muitos questionamentos por parte de v\u00e1rios segmentos da sociedade, inclusive dos professores, que v\u00eaem, de um lado, estas tecnologias com certa desconfian\u00e7a e, de outro, com expectativas exageradas que fogem \u00e0 realidade, uma vez que acreditam que estes elementos tecnol\u00f3gicos, por si s\u00f3, possam resolver os problemas do sistema educacional. Vivemos esta oscila\u00e7\u00e3o constante entre estes p\u00f3los e pensamos ser urgente, neste momento, construir uma postura de equil\u00edbrio, percebendo as possibilidades e limites destas tecnologias no ambiente escolar. Pierre L\u00e8vy (1993) vem denominando esses elementos tecnol\u00f3gicos como sendo tecnologias da intelig\u00eancia, na medida em que possibilitam uma transforma\u00e7\u00e3o da ecologia cognitiva. As tecnologias da intelig\u00eancia &#8230; reorganizam, de uma forma ou de outra, a vis\u00e3o de mundo de seus usu\u00e1rios e modificam seus reflexos mentais. (&#8230;) Na medida em que a informatiza\u00e7\u00e3o avan\u00e7a, certas fun\u00e7\u00f5es s\u00e3o eliminadas, novas habilidades aparecem, a ecologia cognitiva se transforma&#8230;(L\u00c8VY, 1993:54) Portanto, arriscamos dizer que a intera\u00e7\u00e3o com os computadores, games, livros, Internet, TV, v\u00eddeo, representam a possibilidade de altera\u00e7\u00e3o das estruturas cognitivas do indiv\u00edduo, gerando um desequil\u00edbrio que instaura uma nova forma de pensar. Nossas crian\u00e7as e adolescentes vivem nesse mundo high tech, construindo e aprendendo novas formas de ser e pensar, que possibilitam o surgimento de uma l\u00f3gica rizom\u00e1tica (L\u00e8vy &#8211; Deleuze e Guatarri). L\u00f3gica esta que se constr\u00f3i a partir da diversidade que permeia o sujeito cognoscente &#8211; em permanente processo de constru\u00e7\u00e3o e desconstru\u00e7\u00e3o &#8211; e do mergulho dos sujeitos no mundo plural e coletivo da comunica\u00e7\u00e3o digital. E a escola como reage frente esses jovens? A escola ainda se mant\u00e9m com a tecnologia low tech (Cysneiros, 1994), resistindo em atender as novas demandas sociais e cognitivas, resistindo enfim a todas as necessidades deste novo sujeito, em constru\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse contexto que as tecnologias da intelig\u00eancia v\u00eam chegando nas escolas atrav\u00e9s de projetos pol\u00edticos ou das press\u00f5es do mercado. O envolvimento dos pesquisadores das Universidades, profissionais que est\u00e3o refletindo teoricamente sobre estas quest\u00f5es, por si s\u00f3, n\u00e3o garante que estes projetos, ao chegarem \u00e0s escolas p\u00fablicas brasileiras, n\u00e3o cheguem como verdadeiros pacotes prontos, sem muitas possibilidades de transforma\u00e7\u00e3o. A hist\u00f3ria da presen\u00e7a das tecnologias da comunica\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o na educa\u00e7\u00e3o brasileira possui um percurso que j\u00e1 foi discutido por diversos autores. Na inform\u00e1tica educativa os registros apontam para o EDUCOM &#8211; Projeto de Informatiza\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o Brasileira que, na d\u00e9cada de 80, norteou as experi\u00eancias no Rio Grande do Sul, Pernambuco, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Campinas (SP); o PRONINFE &#8211; Programa Nacional de Inform\u00e1tica na Educa\u00e7\u00e3o (1989) &#8211; e, finalmente, o seu renascimento em 1996, atrav\u00e9s do Programa de Inform\u00e1tica na Educa\u00e7\u00e3o (PROINFO). No campo da comunica\u00e7\u00e3o, especialmente da televis\u00e3o e v\u00eddeo, vemos estas preocupa\u00e7\u00f5es desde o nascimento das televis\u00f5es educativas, quase coincidindo com o pr\u00f3prio nascimento da televis\u00e3o no Brasil. No final da d\u00e9cada de 60, d\u00e1-se in\u00edcio a um dos projetos pioneiros na \u00e1rea &#8211; Projeto SACI &#8211; implantado no Rio Grande do Norte. Nascem as televis\u00f5es educativas do Maranh\u00e3o, Cear\u00e1 e Amazonas. Surgem projetos privados como o V\u00eddeo Escola da Funda\u00e7\u00e3o Roberto Marinho e o Canal Futura, tamb\u00e9m liderado por esta funda\u00e7\u00e3o, agora com o envolvimento de grandes organiza\u00e7\u00f5es brasileiras como a Funda\u00e7\u00e3o Odebrecht, o Instituto Ayrton Senna, a Funda\u00e7\u00e3o Bradesco. O setor p\u00fablico est\u00e1 presente de forma intensa na \u00e1rea, atrav\u00e9s da TV Escola, canal educativo que \u00e9 um dos pilares b\u00e1sicos da pol\u00edtica do MEC na rela\u00e7\u00e3o educa\u00e7\u00e3o-tecnologia. Este percurso hist\u00f3rico, no entanto, n\u00e3o garantiu &#8211; e ainda n\u00e3o garante &#8211; uma forte participa\u00e7\u00e3o da comunidade escolar neste processo. Como os professores, alunos, diretores, corpo t\u00e9cnico pedag\u00f3gico, podem levar adiante as diretrizes norteadoras destas a\u00e7\u00f5es, se muitas vezes n\u00e3o compreendem o porqu\u00ea, para qu\u00ea e como interagir com esses elementos tecnol\u00f3gicos na escola? Em outras palavras, a percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o clara das raz\u00f5es mais profundas desta rela\u00e7\u00e3o educa\u00e7\u00e3o- tecnologia fez com que, muitas vezes, estes equipamentos fossem subutilizados, sendo quase mais um elemento de decora\u00e7\u00e3o ou de<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":0,"parent":268,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"page-2col-left.php","meta":{"pgc_meta":"","_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","ocean_post_layout":"","ocean_both_sidebars_style":"","ocean_both_sidebars_content_width":0,"ocean_both_sidebars_sidebars_width":0,"ocean_sidebar":"","ocean_second_sidebar":"","ocean_disable_margins":"enable","ocean_add_body_class":"","ocean_shortcode_before_top_bar":"","ocean_shortcode_after_top_bar":"","ocean_shortcode_before_header":"","ocean_shortcode_after_header":"","ocean_has_shortcode":"","ocean_shortcode_after_title":"","ocean_shortcode_before_footer_widgets":"","ocean_shortcode_after_footer_widgets":"","ocean_shortcode_before_footer_bottom":"","ocean_shortcode_after_footer_bottom":"","ocean_display_top_bar":"default","ocean_display_header":"default","ocean_header_style":"","ocean_center_header_left_menu":"","ocean_custom_header_template":"","ocean_custom_logo":0,"ocean_custom_retina_logo":0,"ocean_custom_logo_max_width":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_width":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_width":0,"ocean_custom_logo_max_height":0,"ocean_custom_logo_tablet_max_height":0,"ocean_custom_logo_mobile_max_height":0,"ocean_header_custom_menu":"","ocean_menu_typo_font_family":"","ocean_menu_typo_font_subset":"","ocean_menu_typo_font_size":0,"ocean_menu_typo_font_size_tablet":0,"ocean_menu_typo_font_size_mobile":0,"ocean_menu_typo_font_size_unit":"px","ocean_menu_typo_font_weight":"","ocean_menu_typo_font_weight_tablet":"","ocean_menu_typo_font_weight_mobile":"","ocean_menu_typo_transform":"","ocean_menu_typo_transform_tablet":"","ocean_menu_typo_transform_mobile":"","ocean_menu_typo_line_height":0,"ocean_menu_typo_line_height_tablet":0,"ocean_menu_typo_line_height_mobile":0,"ocean_menu_typo_line_height_unit":"","ocean_menu_typo_spacing":0,"ocean_menu_typo_spacing_tablet":0,"ocean_menu_typo_spacing_mobile":0,"ocean_menu_typo_spacing_unit":"","ocean_menu_link_color":"","ocean_menu_link_color_hover":"","ocean_menu_link_color_active":"","ocean_menu_link_background":"","ocean_menu_link_hover_background":"","ocean_menu_link_active_background":"","ocean_menu_social_links_bg":"","ocean_menu_social_hover_links_bg":"","ocean_menu_social_links_color":"","ocean_menu_social_hover_links_color":"","ocean_disable_title":"default","ocean_disable_heading":"default","ocean_post_title":"","ocean_post_subheading":"","ocean_post_title_style":"","ocean_post_title_background_color":"","ocean_post_title_background":0,"ocean_post_title_bg_image_position":"","ocean_post_title_bg_image_attachment":"","ocean_post_title_bg_image_repeat":"","ocean_post_title_bg_image_size":"","ocean_post_title_height":0,"ocean_post_title_bg_overlay":0.5,"ocean_post_title_bg_overlay_color":"","ocean_disable_breadcrumbs":"default","ocean_breadcrumbs_color":"","ocean_breadcrumbs_separator_color":"","ocean_breadcrumbs_links_color":"","ocean_breadcrumbs_links_hover_color":"","ocean_display_footer_widgets":"default","ocean_display_footer_bottom":"default","ocean_custom_footer_template":"","_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"class_list":["post-286","page","type-page","status-publish","hentry","entry"],"pgc_meta":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/286"}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=286"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/286\/revisions"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/268"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/nelsonpretto\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=286"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}