GEC em: Conversas Contemporâneas

Nesta quinta-feira, 27/08/2020, acontece mais um encontro das nossas “Conversas Contemporênas”. Desta vez, vamos abordar sobre o contexto educacional da Colômbia frente à pandemia. E teremos como convidada Juliet Carolina Castro da Universidade da Cundinamarca (Colômbia).

Juliet tem graduação em Psicologia pela Universidad Nacional de Colombia, e no ano de 2018 concluiu o mestrado em Educação, no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal da Bahia. A professora pesquisadora que teve orientação da profa. Maria Helena Bonilla (GEC/FACED/UFBA), estudou sobre as implicações de incorporar práticas coeducativas intergeracionais,em torno da cultura digital, na forma como as gerações de crianças e pessoas idosas se relacionam e se representam dentro de um programa intergeracional, localizado na Colômbia.

Todos(as) estão convidados(as)!

 

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O retorno às aulas

Vejo movimentos de governadores e prefeitos no sentido e autorizarem o retorno das aulas presenciais nesse momento.

Temos nos manifestado contrários a isso e alertando para a pressão que vem sendo feita pelas escolas so sistema privado para esse retorno.

Tenho escrito artigos, comentado nas rádios e dado entrevistas sobre o tema. Aqui um pequeno resumo, começando com o artigo publicado hoje em A Tarde.

O perigo do retorno das escolas.

Nelson Pretto – professor da Faculdade de Educação/UFBA – nelson@pretto.info

Participei esses dias, como avô, de uma aula de meu neto de seis anos em uma escola particular em São Paulo. Eram cerca de 25 crianças nessa faixa de idade e a brava professora se desdobrava de um lado para o outro (da tela!) para fazer com que aqueles meninos e meninas pudessem ficar atentos às tarefas. A aula era sobre o mundo de ontem e de hoje e o que se via na tela eram imagens do livro texto, escritas na tela feitas pela professora e comentários divertidos da turma.

“Tá me ouvindo, fessora? Qual a página?”

“Júlia, liga a câmera”. “João, seu microfone tá desligado”.

A aula transcorria e eu, atento, tudo observava.

Tarefa árdua de professoras e professores do sistema privado de educação obrigados a continuar as aulas através da internet. Do interior de suas casas, com todos os demais afazeres típicos do período de confinamento, nossas colegas estão se desdobrando para dar continuidade ao processo educativo.

Seguramente está sendo uma difícil empreitada. Por outro lado, não podemos permitir o retorno agora das aulas presenciais, pois a escola é, essencialmente, um lugar de afeto, de abraço e de companheirismo. Escola é contágio no sentido pleno do termo. Não condiz, portanto, com as necessárias regras para conter a proliferação do coronavírus.

A Fiocruz alertou que o retorno às aulas colocaria em risco 9,3 milhões de adultos e, justo por isso, é uma temeridade esse retorno do presencial, tanto no sistema privado como no público.

Outro dia, em um debate na TV, ouvi uma longa fala de um representante das escolas particulares insistindo na urgência do retorno às aulas. Para sustentar seu argumento, trazia dados de pesquisas indicando a segurança da empreitada. Justo naquela semana, pesquisa divulgada pelo New York Times indicava que crianças de 0 a 10 anos não estavam imunes ao vírus e, o pior, jovens de 10 a 19 anos têm, em relação ao vírus, comportamento exatamente igual a adultos. Ou seja, são potencialmente portadores e disseminadores do vírus.

Além disso, em sua fala, o representante das escolas privadas não mencionou uma única vez a palavra professor. Serão as professoras e professores, mais uma vez, as maiores vítimas de uma atitude como essa.

Os esforços que estão sendo feitos pela categoria para viabilizar o chamado ensino remoto não são suficientes para uma plena educação da juventude, entre outros fatores, por conta da enorme desigualdade digital no país e no mundo. No entanto, é necessário que se aperfeiçoe e intensifique o que está sendo feito para que se amplie o acolhimento daqueles estudantes que estão fora da escola.

Precisamos, portanto, muita cautela nesse momento e retomar o funcionamento das escolas pode por em risco boa parte do esforço que os governos estaduais e municipais vêm fazendo para conter a proliferação da Covid19.

Publicado em A Tarde de 05/08/2020, pag. 03. Aqui o pdf da página do jornal.

Nas minhas ultimas colunas de rádio tenho comentado sobre isso. Estão todas aqui: www.radios.pretto.info.

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Políticas de TI para a Educação na pandemia

Aqui o documento que produzido por Nelson Prettoeu e Karina Menezes (UFBA|FACED) junto com Leonardo Nascimento (UFBA|ICTI), Vinicius Ramos (UFSC|CIT) e Tel Amiel (FE|UnB) sobre as tecnologias de informação para a educação em tempos de isolamento social.

Introdução

Em função da necessidade de distanciamento social e dos desafios de se pensar a continuidade da educação formal em todos os níveis de ensino através de mediação informacional, percebemos que as grandes corporações tecnológicas vêm buscando, de forma insistente, estar presentes nos sistemas de educação, tanto privado como público1. Tais corporações passaram a ofertar planos de serviços quase mirabolantes, colocando à disposição, de maneira “gratuita” recursos para que a educação continue de forma remota, durante o período de pandemia.

Essa corrida desenfreada para dar uma resposta social diante da pandemia tem se desdobrado em contratações, doações ou “parcerias” que evidenciam o projeto de desvalorização da formação dos sujeitos, de privatização da educação pública e do fortalecimento dos valores do capital na educação. Também evidencia os riscos da entrega dos dados escolares, funcionais, e científicos (implicando alunos, professores, servidores e famílias) das escolas, institutos e universidades à essas empresas. As consequências do uso das tecnologias digitais destas corporações poderá viabiliza a ampliação de mecanismo de controle e vigilância sobre uma parcela significativa da população e fortalecendo o que vem sendo denominado de capitalismo de vigilância2. Dados do projeto Educação Vigiada indicam que quase 70% das secretarias estaduais de educação e instituições públicas e ensino superior já têm parcerias com duas empresas (Google e Microsoft) para serviços essenciais de tecnologia da informação.3

Nós defendemos que é de fundamental importância o controle sobre os dados gerados pelas ações nas universidades, tanto frutos das pesquisas como nas ações de ensino e extensão. De tal forma a garantirmos que estes dados fiquem sobre a guarda da própria universidade ou de algum ente público, garantindo a sua segurança e inviolabilidade. Outro relevante aspecto diz respeito à proteção de dados e metadados institucionais e pessoais, inclusive de comportamentos e interações online, de tal forma que os mesmo não sejam utilizados para outras finalidades que não estritamente aqueles para os quais foram coletados.

São conhecidas, na imprensa internacional, notícias sobre o uso dos dados pessoais, ainda que agregados , como forma de monetização dessas grandes empresas4. Esse movimento está associado à redução de orçamento e ao sucateamento da infraestrutura e equipe de apoio de tecnologia de informação nas instituições de ensino superior5. Acreditamos que ser necessário aproveitarmos o momento atual para repensar as políticas institucionais no sentido de construir políticas de tecnologia da informação, de Educação Aberta, Acesso Aberto e Ciência Aberta para os desafios atuais e futuros. Para superar esses desafios, urge que as Universidade brasileiras desenvolvam esforços conjuntos e coletivos no sentido de introduzir, de forma paulatina, soluções livres abertas e auditáveis, em servidores que estejam sob seu controle e atuando em regime federado de tal forma a atender às comunidades do coletivo das instituições.

Considerando a urgência do momento, nós sugerimos caminhar na disponibilização de uma plataforma livre (não-proprietária) e de código aberto em cada uma das instituições, que passariam a atuar de forma articulada e federada. Para tal, se faz necessário fortalecer os setores de tecnologia da informação das IFES com recursos e pessoal especializado. Reconhecemos que esse é um difícil momento para que todas essas ações e intervenções possam ser viabilizadas em curto prazo, no entanto, como estamos alertando desde muito, esse é um processo que precisa ser iniciado imediatamente e de forma ainda mais urgente, evitando, dessa forma, que esse processo seja inviabilizado de forma permanente.

Propostas

A título de exemplo inicial, fruto de nossas demandas, pesquisas e experiências internacionais, sugerimos que se trabalhe desde já para oferecer, paulatinamente, a toda a comunidade universitária as seguintes soluções que já demonstraram sua viabilidade em escala institucional. A relação abaixo está sendo atualizada de forma colaborativa na wiki: http://bit.do/politicas_ti.

I – Serviços para solução de compartilhamento e sincronização de arquivos segura, protegida, criptografada, em servidor local institucional

Já existem experiências de utilização pela solução NextCloud associada à solução Onlyoffice (próximo item) com diversas outras possibilidades complementares, como editores de texto colaborativos, ferramenta de gerenciamento de projeto, clientes de email, entre outros. Temos, a título de exemplo, um primeiro e básico levantamento desta solução em implantação na UFBA, UFSC, UnB e UFCE, além da experiência da RNP com o sistema Owncloud e diversas experiências internacionais. Estas experiências, neste sentido, poderiam ser utilizadas como referência para serem ampliadas e, complementarmente, podendo se transformar em uma rede federada.

II – App/Plataforma para a criação, edição e compartilhamento de documentos de texto, apresentações, planilhas, imagens, etc. livre, gratuito e multi-formato

Onlyoffice: Essa é uma solução que já está integrada ao NextCloud (item I anterior). Uma solução robusta, utilizada por diversas organizações e instituições de ensino superior, em escala. Alternativamente, pode-se integrar o Nextcloud com outra suite, chamada Collabora.

III – App/plataforma para transmissão, gravação e hospedagem de podcasts/video

Essa é uma solução que já está integrada ao NextCloud (item I anterior)

IV – App/plataforma para cliente de e-mails, calendário, gerenciamento de contatos e chat de texto

Tanto o Nextcloud quanto o OnlyOffice já possuem essas facilidades.

V – App/plataforma para vídeo-chamadas com compartilhamento de tela e gravação segura, protegida, criptografada, em servidor local institucional

Há a experiência da RNP e de diversas instituições de ensino com o software livre mconf (um projeto brasileiro, baseado no Big Blue Button) apontam para um caso de sucesso em escala federal. Plugins permitem a integração ao Nextcloud6 e outras plataformas de ensino, como o Moodle. Jitsi é uma solução robusta que oferece comunicação encriptada para grupos e pode ser instalada com muita facilidade com escala.

VI – App/plataforma para transmissão, gravação e hospedagem de vídeo-aulas

Existem diversas instituições como a UFSM e UFBA que já desenvolvendo a plataforma de vídeo SOLAR da mesma forma que a RNP está intensificando e aperfeiçoando o sistema de Conferenciaweb, baseado no Mconf. O OpenCast é utilizado por diversas instituições de ensino superior para gravação remota de palestras e administração de vídeo. Com funcionalidade similar a outro software, o Kaltura que poderia ser experimentado.

VII – App/Plataforma que possibilite um ecossistema de rede social, onde estudantes, professores e técnicos possam trocar informações, arquivos, entre outros

Já integrado ao Nextcloud.

VIII – App/Plataforma para gestão de referências bibliográficas integrados aos documentos de texto

Zotero, que é um sistema robusto para gerenciamento de referências e arquivos, utilizando formatos diversos incluindo ABNT, que tem servidor disponível em https://github.com/zotero/dataserver e clientes para todos os tipos de sistema operacional.

À guisa de conclusão

Importante salientar que os exemplos aqui apresentados são esforços individuais e coletivos que já estão em desenvolvimento pelas comunidade envolvidas em cada um destes projetos. Existem diversos casos específicos de sucesso e outras alternativas que são, não apenas possíveis, mas viáveis. Deste modo, seguimos acreditando que a incorporação do conjunto das IPES e outros órgãos federados de pesquisa neste esforço daria maior escopo a estas iniciativas no Brasil. Por fim, pensamos em uma educação e uma sociedade onde a construção de um ecossistema informacional protegido e livre é o alicerce para a construção de uma base tecnológica soberana e cidadã para o país.

1 Ainda com uma pequena e heroica resistência de iniciativas dispersas nesse último caso.

2 ZUBOFF, S. The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power: Barack Obama’s Books of 2019. Profile Books, 2019.

3 https://educacaovigiada.org.br, acesso 05 Jul. 2020.

4https://www.eff.org/wp/school-issued-devices-and-student-privacy https://www.thedailybeast.com/google-accused-of-selling-users-personal-data-to-ad-companies https://www.nbcnews.com/tech/tech-news/google-sells-future-powered-your-personal-data-n870501

5PARRA, H. et al. Infraestruturas, economia e política informacional: O caso do Google Suite for education. Mediações, v. 23, n. 1, p. 63–99, 2018. <10.5433/2176-6665.2018v23n1p63>

6Disponível App Store do Nextcloud. https://github.com/sualko/cloud_bbb

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