E se pudessemos hackear a educação?

O projeto “Conexão Escola-Mundo: Espaços inovadores para formação cidadã”, financiado pelo CNPQ, não pretende apenas trabalhar para que esta pergunta possa encontrar uma resposta afirmativa. Entre as várias frentes de operação dessa iniciativa, coordenada pelos professores Nelson Pretto (GEC/UFBA) e Andrea Lapa (COMUNIC/UFSC), está a de articulação entre os saberes de diversas áreas – arte, cultura, programação, designer, mineração de dados, etc, com as realidades desafiadoras postas nos cotidianos escolares. Tudo isso arranjado sob a égide dos movimentos que defendem a abertura do conhecimento e o pleno uso de softwares livres.

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O projeto pretende disseminar uma cultura hacker de criação de conteúdos bem como fomentar movimentos colaborativos entre professores, alunos e pesquisadores a partir de uma espécie de intervenção pedagógica – espaço de experimentação de metodologias horizontalizadas de investigação e ação dentro do contexto escolar. Inicialmente, três escolas aderiram ao projeto. Na Bahia, integram uma escola em Salvador e outra em Lauro de Freitas. em Santa Catarina, a Escola de Aplicação da UFSC será o espaço de experimentação do projeto.

Nesta última semana de março, ocorre o I Seminário Internacional promovido pela pesquisa, realizado num dos Auditórios da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Este é o primeiro espaço de encontro físico, pessoal, entre os membros do projeto o que permite intensificar os trabalhos que já vem sendo arduamente desenvolvidos através das redes. Este contato “cara a cara”, colabora no sentido de fortalecer os vínculos entre a comunidade de pesquisa já que oportuniza momentos ricos de troca e partilha de conhecimentos. É possível ainda ter a chance de, por meio do toque, do olhar, “do imprevisto”, fazer acontecer o que existia apenas no plano das ideais, na intenção.

Para alguns dos professores participantes da pesquisa e que também foram convidados a estar presentes no  seminário, é a hora de sinalizar encaminhamentos que interessam às suas respectivas comunidades, o momento de compreender, opinar, sugerir e revisar as proposições de pesquisa que foram planejadas no âmbito da academia.

O primeiro dia do evento mostrou-se profícuo neste sentido, além de agregar as contribuições de outros membros da sociedade – acadêmicos ou não, uma vez que todas as apresentações foram públicas e transmitidas online através da página do seminário: www.escolamundo.ufsc.br . Até a próxima quinta-feira, de março, os trabalhos seguirão esta mesma dinâmica. Compõem o programa, mais duas palestras e mesas-redondas, além de oficinas para os alunos da Escola de Aplicação e reuniões de trabalho entre os pesquisadores. Tod@s @s interessados podem seguir acompanhando os momentos públicos através do site do projeto.

A seguir, algumas imagens destacam os participantes do evento:

Alguns projetos inspiradores nos quais integrantes do “Conexão Escola Mundo” estão envolvidos tem eles já sido realizados ou estando em curso:

https://hash-inep.labic.net/#/twitter 

http://mares.ecoarte.info/#

http://velejar.ecoarte.info

http://dados.cta.if.ufrgs.br/emm/

http://www.lmi-cat.net/es/proyectos

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Uma comunidade global envolvendo mais de 30 países clama pelo acesso livre ao hardware científico

Postagem no blog do interessante projeto do professor Rafael Pezzi (UFRGS/Instituto de Física) Centro de Tecnologia Acadêmica (CTA) apresenta um belo material sobre o movimento em torno do hardware científico aberto. Temos insistido aqui em nosso grupo de pesquisa sobre a importância do debate e de pesquisas em torno de todas as questões ligados ao aberto e ao livre. Essa, certamente, é mais uma importante frente.

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Veja como começa a publicação deles:

“Mais de 100 cientistas, engenheiros, educadores, empreendedores e agentes comunitários de 30 países publicaram um relatório que descreve os passos necessários para facilitar o acesso ao hardware utilizado para fins científicos até 2025 com base em design aberto, desenvolvimento colaborativo e novas técnicas de fabricação.

O grupo, que se reuniu no CERN, em Genebra, e na Pontifícia Universidade Católica do Chile, em Santiago em 2017, argumenta que muito poucas pessoas tem acesso às ferramentas necessárias para a prática científica, particularmente os pesquisadores em países em desenvolvimento e grupos comunitários que necessitam coletar e analisar dados sobre o seu ambiente. De microscópios à microfluidos e estações de monitoramento de água, eles fazem parte de um movimento crescente de compartilhamento online de projetos abertos os quais qualquer pessoa pode livremente utilizar, modificar e até mesmo comercializar. O grupo responsável por este documento sugere que este enfoque pode reduzir drasticamente os custos de pesquisa ao permitir maior colaboração e formas de aprender de novas maneiras. “Nosso projeto,” afirma um dos autores Dr Luis Felipe R. Murillo do Instituto Ciência, Inovação e Sociedade da França, “é sustentado pelo objetivo compartilhado de criar conhecimento comum através da participação pública direta em ciência e tecnologia. Não se trata de uma crítica apartada, mas de uma forma de engajamento prático”.”

Continue lendo aqui.

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Artigo de Nelson Pretto sobre neutralidade da rede

Internet não é TV por assinatura

Em recente medida já esperada por conta das mudanças políticas levadas à frente pelo governo de Donald Trump na direção de radicais transformações nos direitos da sociedade americana, a Federal Communication Commission (FCC), dirigida por Ajit Pai, decretou o fim da neutralidade da internet nos Estados Unidos. Essa é uma decisão que revoga uma anterior, de 2015, do governo Barack Obama.

Medida legislada para lá poderá ter efeito desastroso em todo o mundo, inclusive aqui no Brasil.

A neutralidade da rede é um dos pilares básicos da internet, desde o seu nascimento. Com ela, não importa o que está passando pela conexão contratada pelo usuário, tudo deve ser tratado com isonomia.

Se em uma casa contrata-se uma conexão de velocidade 10 Mbps por um valor X, com essa conexão a essa velocidade, qualquer usuário que tenha um contrato semelhante, mas com a operadora Y, deverá poder ver filmes, ouvir música, baixar ou publicar vídeos, música ou textos com igual conforto. Isso porque, nem a operadora X, nem a operadora Y, “filtram” o que você está trafegando. Podemos dizer, tecnicamente, que todos os bits são tratados de forma igualitária. É isso que se denomina de neutralidade da rede.

Pois o que se acabou de decretar nos Estados Unidos é a possibilidade dessa filtragem. Assim, lá serão possíveis acordos comerciais entre distribuidores de conteúdo e provedores de internet. Com isso, por exemplo, um acordo da operadora X com um fornecedor de filmes fará com que os clientes dessa operadora assistam filmes com maior fluidez do que aqueles que são clientes de outra operadora que não fez acordo comercial com a tal distribuidora de filmes. Teríamos, assim, algo muito semelhante ao modelo da televisão por assinatura, no qual o consumidor tem que pagar, cada vez mais, em função da ampliação daquilo que ele quer assistir. Obviamente o prejuízo para os pequenos provedores e para os consumidores de menor poder aquisitivo será enorme.

Ou seja, aquilo que sempre foi a marca da internet, o seu potencial democrático de possibilitar uma comunicação todos-todos mais ampla, passa a ser reduzido à capacidade de pagamento do cidadão e aos interesses das grandes operadoras em função dos seus acordos comerciais com outras empresas de redes sociais ou de conteúdo, como Netflix, YouTube, Facebook, Whatsapp e outros. Ou seja, com o fim da neutralidade, as Telecoms “cobrarão” por conteúdo sem serem produtoras desse conteúdo.

Complementarmente, elas passam a se constituir em verdadeiros “pedágios” para a inovação uma vez que qualquer recém-nascida startup precisará pagar para chegar aos usuários da mesma forma que chegará, por exemplo, gigantes como Facebook ou YouTube. Ou então, precisará esperar que os usuários paguem a mais à operadora para acessar o seu serviço. A concorrência entre serviços similares não se dará mais no navegador do usuário, mas acontecerá em contratos entre provedores de conteúdo e Telecoms.

As operadoras de telecomunicações aqui no Brasil (que são praticamente as mesmas no mundo todo) ao longo dos anos vêm fazendo enorme pressão, desde a verdadeira batalha que foi a tramitação do Marco Civil da Internet, para que fosse permitida a quebra da neutralidade da rede sob o argumento que tecnicamente seria possível, com bom senso, não prejudicar o consumidor de menor poder aquisitivo. Óbvio que não podemos acreditar nisso, mesmo porque não se pode construir um país com crenças e sim com marcos legais que fortaleçam a cidadania e a democracia.

O lobby das operadoras foi grande no Congresso Nacional naquele período, inclusive bloqueando a pauta da Câmara dos Deputados por quase seis meses, quando, finalmente, em abril de 2014, foi aprovado e sancionado Marco Civil da Internet, com impedimento claro à quebra de neutralidade da rede.

Esse lobby continua atuando fortemente, tendo ganhado força após o golpe parlamentar que levou ao Planalto o presidente Temer, agora com as tentativas de mudança na composição e funcionamento do Comitê Gestor da Internet (CGI) e intensa atuação das operadoras para a célere tramitação do PL 79/2016 que trata da reforma da Lei Geral das Telecomunicações (LGT).

Sem dúvida, mais batalhas pela frente. A SBPC junto com as suas mais de 140 sociedades científicas filiadas precisam estar atentas e atuantes para não permitir mais uma golpe nos direitos dos cidadãos.

Publicado originalmente no Jornal da Ciência da SBPC.

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