Educação e isolamento: transformar a educação pública

Salete Cordeiro

Professora da Faculdade de Educação da UFBA. Pesquisadora do GEC/FACED/UFBA. E-mail salete.noro@ufba.br

Pensar em oferecer condições educativas a milhares de estudantes das escolas públicas, que nesse momento permanecem em casa, é um grande desafio. Uma das principais soluções elencadas para enfrentar a crise seria a utilização das tecnologias digitais, através do uso de diversas plataformas comerciais, criando condições para que os alunos recebessem formação instrumental e conteudista via web.

Um leque de questionamentos pode ser aberto a partir dessa alternativa, mas é importante, antes disso, saber quantos dos alunos da rede pública têm acesso à internet e dispositivos em suas casas? Segundo dados da pesquisa TIC domicílios 2018, no Brasil, apenas 39% dos lares possuem simultaneamente internet e computador. Em relação à classe C, dentro desse percentual, o acesso é de 43% e desce para 7% quando referido às classes D e E, o que indica que essa alternativa não atende a todos. Aí está o fosso digital que aumenta as desigualdades, pois aqueles que não tiverem acesso aos bens culturais serão, certamente, os mais prejudicados.

Alguns ainda sugerem que as escolas sejam pontos de acesso, porém essa não é a melhor alternativa em função da pandemia, além de ser de conhecimento de todos que agrande maioria delas não possui suficiente infraestrutura física e de rede. Dados TIC Educação 2018 indicam que apenas 25% possuem laboratórios de informática com a quantidade média de 6 a 15 computadores funcionando e conectados à internet simultaneamente. Esse panorama evidencia não somente a falta de infraestrutura, mas a ausência de incentivos para o desenvolvimento da cultura digital, o que retraiu a criação de propostas pedagógicas e didáticas que partissem dos cotidianos escolares, que por sua vez seriam de grande importância.

Entretanto essas ausências induzem a um repensar tanto as políticas públicas de consolidação do acesso à banda larga para toda a população, como do fortalecimento da escola pública, com uma ação contundente no sentido de superar uma educação centrada no repasse de conteúdos. Os professores(as), alunos(as) e suas comunidades poderiam estar envolvidos na construção de conteúdos diversos, contando suas experiências vivenciais, cotidianas, analisando a realidade a partir das notícias que lhes chegam entre tantas outras possibilidades. Tudo isso, visando a construção de conteúdos em múltiplos formatos que poderiam ajudar suas comunidades no enfrentamento da calamidade, como por exemplo, produção de podcasts, vídeos, fotografias para serem compartilhados nas redes, blogs ou nas rádios web das escolas e das comunidades, tudo isso funcionando nesse momento de maneira remota.

Não temos respostas prontas, o que sabemos é que precisamos respeitar e fortalecer a autonomia da escola pública e da sua comunidade como espaço de partilha de saberes e construção de conhecimentos.

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