Políticas de TI para a Educação na pandemia

Aqui o documento que produzido por Nelson Prettoeu e Karina Menezes (UFBA|FACED) junto com Leonardo Nascimento (UFBA|ICTI), Vinicius Ramos (UFSC|CIT) e Tel Amiel (FE|UnB) sobre as tecnologias de informação para a educação em tempos de isolamento social.

Introdução

Em função da necessidade de distanciamento social e dos desafios de se pensar a continuidade da educação formal em todos os níveis de ensino através de mediação informacional, percebemos que as grandes corporações tecnológicas vêm buscando, de forma insistente, estar presentes nos sistemas de educação, tanto privado como público1. Tais corporações passaram a ofertar planos de serviços quase mirabolantes, colocando à disposição, de maneira “gratuita” recursos para que a educação continue de forma remota, durante o período de pandemia.

Essa corrida desenfreada para dar uma resposta social diante da pandemia tem se desdobrado em contratações, doações ou “parcerias” que evidenciam o projeto de desvalorização da formação dos sujeitos, de privatização da educação pública e do fortalecimento dos valores do capital na educação. Também evidencia os riscos da entrega dos dados escolares, funcionais, e científicos (implicando alunos, professores, servidores e famílias) das escolas, institutos e universidades à essas empresas. As consequências do uso das tecnologias digitais destas corporações poderá viabiliza a ampliação de mecanismo de controle e vigilância sobre uma parcela significativa da população e fortalecendo o que vem sendo denominado de capitalismo de vigilância2. Dados do projeto Educação Vigiada indicam que quase 70% das secretarias estaduais de educação e instituições públicas e ensino superior já têm parcerias com duas empresas (Google e Microsoft) para serviços essenciais de tecnologia da informação.3

Nós defendemos que é de fundamental importância o controle sobre os dados gerados pelas ações nas universidades, tanto frutos das pesquisas como nas ações de ensino e extensão. De tal forma a garantirmos que estes dados fiquem sobre a guarda da própria universidade ou de algum ente público, garantindo a sua segurança e inviolabilidade. Outro relevante aspecto diz respeito à proteção de dados e metadados institucionais e pessoais, inclusive de comportamentos e interações online, de tal forma que os mesmo não sejam utilizados para outras finalidades que não estritamente aqueles para os quais foram coletados.

São conhecidas, na imprensa internacional, notícias sobre o uso dos dados pessoais, ainda que agregados , como forma de monetização dessas grandes empresas4. Esse movimento está associado à redução de orçamento e ao sucateamento da infraestrutura e equipe de apoio de tecnologia de informação nas instituições de ensino superior5. Acreditamos que ser necessário aproveitarmos o momento atual para repensar as políticas institucionais no sentido de construir políticas de tecnologia da informação, de Educação Aberta, Acesso Aberto e Ciência Aberta para os desafios atuais e futuros. Para superar esses desafios, urge que as Universidade brasileiras desenvolvam esforços conjuntos e coletivos no sentido de introduzir, de forma paulatina, soluções livres abertas e auditáveis, em servidores que estejam sob seu controle e atuando em regime federado de tal forma a atender às comunidades do coletivo das instituições.

Considerando a urgência do momento, nós sugerimos caminhar na disponibilização de uma plataforma livre (não-proprietária) e de código aberto em cada uma das instituições, que passariam a atuar de forma articulada e federada. Para tal, se faz necessário fortalecer os setores de tecnologia da informação das IFES com recursos e pessoal especializado. Reconhecemos que esse é um difícil momento para que todas essas ações e intervenções possam ser viabilizadas em curto prazo, no entanto, como estamos alertando desde muito, esse é um processo que precisa ser iniciado imediatamente e de forma ainda mais urgente, evitando, dessa forma, que esse processo seja inviabilizado de forma permanente.

Propostas

A título de exemplo inicial, fruto de nossas demandas, pesquisas e experiências internacionais, sugerimos que se trabalhe desde já para oferecer, paulatinamente, a toda a comunidade universitária as seguintes soluções que já demonstraram sua viabilidade em escala institucional. A relação abaixo está sendo atualizada de forma colaborativa na wiki: http://bit.do/politicas_ti.

I – Serviços para solução de compartilhamento e sincronização de arquivos segura, protegida, criptografada, em servidor local institucional

Já existem experiências de utilização pela solução NextCloud associada à solução Onlyoffice (próximo item) com diversas outras possibilidades complementares, como editores de texto colaborativos, ferramenta de gerenciamento de projeto, clientes de email, entre outros. Temos, a título de exemplo, um primeiro e básico levantamento desta solução em implantação na UFBA, UFSC, UnB e UFCE, além da experiência da RNP com o sistema Owncloud e diversas experiências internacionais. Estas experiências, neste sentido, poderiam ser utilizadas como referência para serem ampliadas e, complementarmente, podendo se transformar em uma rede federada.

II – App/Plataforma para a criação, edição e compartilhamento de documentos de texto, apresentações, planilhas, imagens, etc. livre, gratuito e multi-formato

Onlyoffice: Essa é uma solução que já está integrada ao NextCloud (item I anterior). Uma solução robusta, utilizada por diversas organizações e instituições de ensino superior, em escala. Alternativamente, pode-se integrar o Nextcloud com outra suite, chamada Collabora.

III – App/plataforma para transmissão, gravação e hospedagem de podcasts/video

Essa é uma solução que já está integrada ao NextCloud (item I anterior)

IV – App/plataforma para cliente de e-mails, calendário, gerenciamento de contatos e chat de texto

Tanto o Nextcloud quanto o OnlyOffice já possuem essas facilidades.

V – App/plataforma para vídeo-chamadas com compartilhamento de tela e gravação segura, protegida, criptografada, em servidor local institucional

Há a experiência da RNP e de diversas instituições de ensino com o software livre mconf (um projeto brasileiro, baseado no Big Blue Button) apontam para um caso de sucesso em escala federal. Plugins permitem a integração ao Nextcloud6 e outras plataformas de ensino, como o Moodle. Jitsi é uma solução robusta que oferece comunicação encriptada para grupos e pode ser instalada com muita facilidade com escala.

VI – App/plataforma para transmissão, gravação e hospedagem de vídeo-aulas

Existem diversas instituições como a UFSM e UFBA que já desenvolvendo a plataforma de vídeo SOLAR da mesma forma que a RNP está intensificando e aperfeiçoando o sistema de Conferenciaweb, baseado no Mconf. O OpenCast é utilizado por diversas instituições de ensino superior para gravação remota de palestras e administração de vídeo. Com funcionalidade similar a outro software, o Kaltura que poderia ser experimentado.

VII – App/Plataforma que possibilite um ecossistema de rede social, onde estudantes, professores e técnicos possam trocar informações, arquivos, entre outros

Já integrado ao Nextcloud.

VIII – App/Plataforma para gestão de referências bibliográficas integrados aos documentos de texto

Zotero, que é um sistema robusto para gerenciamento de referências e arquivos, utilizando formatos diversos incluindo ABNT, que tem servidor disponível em https://github.com/zotero/dataserver e clientes para todos os tipos de sistema operacional.

À guisa de conclusão

Importante salientar que os exemplos aqui apresentados são esforços individuais e coletivos que já estão em desenvolvimento pelas comunidade envolvidas em cada um destes projetos. Existem diversos casos específicos de sucesso e outras alternativas que são, não apenas possíveis, mas viáveis. Deste modo, seguimos acreditando que a incorporação do conjunto das IPES e outros órgãos federados de pesquisa neste esforço daria maior escopo a estas iniciativas no Brasil. Por fim, pensamos em uma educação e uma sociedade onde a construção de um ecossistema informacional protegido e livre é o alicerce para a construção de uma base tecnológica soberana e cidadã para o país.

1 Ainda com uma pequena e heroica resistência de iniciativas dispersas nesse último caso.

2 ZUBOFF, S. The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power: Barack Obama’s Books of 2019. Profile Books, 2019.

3 https://educacaovigiada.org.br, acesso 05 Jul. 2020.

4https://www.eff.org/wp/school-issued-devices-and-student-privacy https://www.thedailybeast.com/google-accused-of-selling-users-personal-data-to-ad-companies https://www.nbcnews.com/tech/tech-news/google-sells-future-powered-your-personal-data-n870501

5PARRA, H. et al. Infraestruturas, economia e política informacional: O caso do Google Suite for education. Mediações, v. 23, n. 1, p. 63–99, 2018. <10.5433/2176-6665.2018v23n1p63>

6Disponível App Store do Nextcloud. https://github.com/sualko/cloud_bbb

Publicado em Atvismos, Campanhas, Coronavirus, Inclusão Digital, Políticas Públicas | Deixar um comentário

Campanha de Nelson Pretto para liberação das redes sem fio.

Escrevi no jornal Correio da Bahia. Falei na Rádio Metrópole. Divulguei tudo por aqui, mas mesmo assim, acho que precisamos ir mais longe, insistir no tema e fortalecer uma campanha. Atenção  @kamenes, @annaizabel e demais artistas geniais, vamos criar cartazes e cobrar a abertura das redes sem fio de empresas (públicas e privadas), universidades (públicas e privadas), escolas (públicas e privadas) e até mesmo das pessoas para aumentarmos a conectividade das pessoas. Isso sem falar em fazer pressão para que tenhamos políticas públicas para garantir a conectividade da população brasileiro.

No artigo do Correio da Bahia (23 e 24/05/2020, p. 24) com o título: Educação e solidariedade (tecnológica): liberem seu wifi, falo um pouco mais de educação e o conclui assim:

“Além disso, por que não pensar em uma solidariedade tecnológica? Poderíamos contribuir com os mais vulneráveis que não têm acesso pleno à internet com um gesto simples: liberando o acesso de nossas redes sem fio domiciliares e empresarias. Quantas empresas estão com suas redes sem uso por conta do trabalho remoto e que poderiam abri-las para a população?

Simples gesto que possibilitaria aumentar ainda mais as redes de solidariedade e acolhimento.”

Veja artigo inteiro aqui.

Ouça meu comentário na Rádio Metrópole de 29/05/2020 sobre o tema.

Rádio Metrópole 29/05/2020: Libere seu Wi-Fi

Todos os meus comentários estão disponíveis em muitas plataformas. O acesso pode ser dar por aaqui radios.pretto.info

Publicado em Artigos de Nelson Pretto, Atvismos, Coronavirus, Inclusão Digital | Deixar um comentário

Caio Formiga: Vamos fazer uma videoconferência?

Fonte: https://liberdadenaculturadigital.wordpress.com/2020/05/23/192/

Estamos em maio de 2020 e o vírus Sars-Cov-2 começa a chegar ao pico de contaminações no Brasil. Esse vírus foi descoberto na China, em dezembro de 2019, na cidade de Wuhan. Alguns meses depois, a doença causada por esse vírus, Covid-19, tornou-se uma questão de saúde mundial, espalhando-se por todos os continentes em uma velocidade assustadora e atingindo o status de pandemia. Essa doença ataca o sistema respiratório e provoca uma especie de pneumonia, por isso o tratamento demanda os respiradores e ventiladores, sem esses equipamentos os contaminados podem morrer. Nem todos que “pegam a Covid-19” morrem, mas isso não faz com que a doença não seja perigosa, afinal em menos de 6 meses levou a óbito milhares de pessoas em todo o mundo. Enquanto escrevo, a doença atingiu 21 mil óbitos no Brasil, de acordo com a página do Ministério da Saúde, criada exclusivamente para informar sobre os avanços da doença.

A crise provocada pelo Covid-19 não pode ser percebido como uma questão apenas de saúde, como nos lembra o recém publicado livro, “Educação em tempos de pandemia: Reflexões sobre as implicações do isolamento físico imposto pela COVID-19″, disponível para leitura on-line ou download em pdf.

[...] enfrentamos uma crise sem precedentes, porque combina fatores sanitários globais, políticos, econômicos, educacionais, entre outros, não podemos perder de vista que estamos em meio a uma ameaça à vida (em diferentes dimensões e proporções). Para a sociedade brasileira, em particular, realizar o enfrentamento desta situação desde suas peculiares e, por vezes, fragilizadas estruturas, já é um grande desafio, todavia, esse enfrentamento se torna ainda maior devido ao conflito político, em exposição diariamente pelas mídias, que impede a efetividade do Estado na garantia de políticas de assistência aos mais vulneráveis e amplia a insegurança da população, que não sabe, ao certo, como proceder para se manter em segurança.

Continue lendo

Publicado em Sem Categoria | Deixar um comentário