{"id":37,"date":"2008-10-17T16:27:07","date_gmt":"2008-10-17T19:27:07","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.ufba.br\/dancanovasmidias\/2008\/10\/17\/texto-sobre-a-arte-da-telepresenca\/"},"modified":"2008-10-17T16:27:07","modified_gmt":"2008-10-17T19:27:07","slug":"texto-sobre-a-arte-da-telepresenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.ufba.br\/dancanovasmidias\/2008\/10\/17\/texto-sobre-a-arte-da-telepresenca\/","title":{"rendered":"sobre a arte da telepresen\u00e7a _ TELE-PRESEN\u00c7A-AUS\u00caNCIA"},"content":{"rendered":"<p><font size=\"2\"><strong>\u00a0<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/blog.ufba.br\/dancanovasmidias\/files\/2008\/10\/telegarden.thumbnail.jpg\" alt=\"Telegarden _ Ken Goldberg\" \/>\u00a0Telegarden, Ken Goldeberg. 1995.\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/font><br \/>\n<font size=\"2\"><strong>\u00a0<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/blog.ufba.br\/dancanovasmidias\/files\/2008\/10\/versus.thumbnail.JPG\" alt=\"versus.JPG\" \/>\u00a0Versus, Ivani Santana. 2005.<\/strong><\/font><br \/>\n<font size=\"2\"><strong>\u00a0.<\/strong><\/font><br \/>\n<font size=\"2\"><strong>\u00a0.<\/strong><\/font><br \/>\n<font size=\"2\"><strong>.\u00a0<\/strong><\/font><br \/>\n<font size=\"2\"><strong>TELE-PRESEN\u00c7A-AUS\u00caNCIA<br \/>\n<\/strong>Carlos Fadon Vicente<\/font><\/p>\n<table border=\"1\" bgColor=\"#ffffff\" width=\"650\" cellPadding=\"5\" cellSpacing=\"0\">\n<tr>\n<td vAlign=\"top\">In: Revista Trilhas, Instituto de Artes, Unicamp, Campinas, n.6, pp.47-55, 1997.<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<ul>\n<li>\u00a0\n<ul>\n<li>\u00a0\n<ul>&#8220;Mas emquanto este tempo passa lento<br \/>\nDe regerdes os povos, que o desejam,<br \/>\nDae v\u00f3s favor ao novo atrevimento,<br \/>\nPara que estes meus versos sejam:<br \/>\nE vereis ir cortando o salso argento<br \/>\nOs vossos argonautas, porque vejam<br \/>\nQue s\u00e3o vistos de v\u00f3s no mar irado;<br \/>\nE costumae-vos j\u00e1 ser invocado&#8221;.<br \/>\nLuiz de Cam\u00f5es, Os Lus\u00edadas (I, v. XVIII)<\/ul>\n<\/li>\n<\/ul>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>1. INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><br \/>\nAs manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas mediadas por sistemas de telecomunica\u00e7\u00e3o &#8211; aqui denominadas de telearte &#8211; tem a interatividade e a tele-presen\u00e7a em tempo real como seus tra\u00e7os importantes. A interatividade pode ser reconhecida nos processos de cria\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o, percep\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o das obras de <strong>arte<\/strong> que utilizam tanto as t\u00e9cnicas artesanais como as novas tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o &#8211; vindo a ocupar em algumas obras uma posi\u00e7\u00e3o de destaque. A tele-presen\u00e7a, definida preliminarmente como uma presen\u00e7a indireta ou uma atua\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia, embora seja um termo de uso relativamente recente [1], tem uma trajet\u00f3ria enraizada em diferentes pr\u00e1ticas sociais e culturais. Tendo como pano de fundo a telearte, s\u00e3o feitos coment\u00e1rios sobre a quest\u00e3o da tele-presen\u00e7a e da interatividade, e \u00e9 exposta a no\u00e7\u00e3o de (tele) aus\u00eancia, definida como sendo a rarefa\u00e7\u00e3o ou a nega\u00e7\u00e3o da tele-presen\u00e7a num primeiro momento.<br \/>\n<strong>2. TELE-PRESEN\u00c7A: O SAGRADO<\/strong><br \/>\nAtrav\u00e9s dos tempos, os deuses e as divindades em geral tem sido associadas \u00e0s mais diversas iconografias, compreendendo fen\u00f4menos naturais, formas humanas e animais, objetos, imagens, palavras, etc. N\u00e3o sendo raro o estabelecimento de locais sagrados, tais como templos e santu\u00e1rios, e de celebra\u00e7\u00f5es ligadas, por exemplo, a datas especiais. Essas representa\u00e7\u00f5es apontam para um mundo sobrenatural, configurando uma forma de tele-presen\u00e7a de natureza m\u00e1gica e transcendente, e mantendo uma inser\u00e7\u00e3o peculiar na vida cotidiana: &#8220;Todos os deuses, todos os c\u00e9us, todos os mundos est\u00e3o dentro de n\u00f3s&#8221; [2] . Moldadas que s\u00e3o por dogmas e preceitos, elas detem uma certa estabilidade, ou seja, passam poucas altera\u00e7\u00f5es ao longo do tempo. Aqui a tele-presen\u00e7a \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, mat\u00e9ria de f\u00e9.<br \/>\nA tele-presen\u00e7a implica numa proje\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica &#8211; uma presen\u00e7a n\u00e3o concreta &#8211; que se apresenta e representa em seu lugar, convertendo-se num ritual. No limite, a tele-presen\u00e7a sagrada se chama onipresen\u00e7a. A (tele) aus\u00eancia se mostra nos encontros com os deuses e divindades, por exemplo, nas peregrina\u00e7\u00f5es ou nas cerim\u00f4nias p\u00fablicas e privadas, atrav\u00e9s da submiss\u00e3o do fiel\/crente. Contemporaneamente tem-se a pr\u00f3pria tele-presen\u00e7a sagrada mediada por sistemas de telecomunica\u00e7\u00e3o, principalmente r\u00e1dio e TV, por vezes adotando a est\u00e9tica do espet\u00e1culo profano.<br \/>\n<strong>3. TELE-PRESEN\u00c7A: PARALELOS E ANTECEDENTES<\/strong><br \/>\nA tele-presen\u00e7a vista como um deslocamento no tempo e\/ou no espa\u00e7o permite elaborar alguns paralelos. Assim \u00e9 por exemplo, se aceitarmos a fotografia como um eco do passado: &#8220;o espelho com mem\u00f3ria &#8221; [3]; ou nos referirmos ao estudo dos corpos celestes pela astronomia e radioastronomia: &#8220;Olhando para dentro, no espa\u00e7o, estamos tamb\u00e9m olhando para tr\u00e1s no tempo, para tr\u00e1s em dire\u00e7\u00e3o ao horizonte do universo&#8230;&#8221; [4]. J\u00e1 os &#8220;panoramas&#8221;, populares na Europa do s\u00e9culo XIX principalmente no \u00e2mbito das assim denominadas &#8220;exposi\u00e7\u00f5es universais&#8221;, anunciavam &#8220;a ilus\u00e3o perfeita de estar em meio \u00e0 natureza&#8221;, constituindo-se em dispositivos destinados a simular a presen\u00e7a dos espectadores num ambiente distante e desconhecido, tais como paisagens, cen\u00e1rios urbanos, s\u00edtios hist\u00f3ricos, etc. [5].<br \/>\nAceita hoje em dia sem maiores dificuldades, por assim dizer, a tele-presen\u00e7a tem um percurso hist\u00f3rico em que sua aceita\u00e7\u00e3o foi sendo constitu\u00edda &#8211; remontando ao tel\u00e9grafo, ao telefone, ao r\u00e1dio e \u00e0 televis\u00e3o. Esses meios de comunica\u00e7\u00e3o, que em seus prim\u00f3rdios causaram espanto e fascina\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo receio, agora fazem parte do dia a dia. Enquanto isso, outros recursos, tais como o videofone e a infovia podem parecer corriqueiros para alguns, por\u00e9m algo fant\u00e1sticos para outros. Revelando com isso o descompasso que pode existir entre inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e mudan\u00e7as sociais em cada contexto hist\u00f3rico-cultural. Em todas as \u00e9pocas os meios de comunica\u00e7\u00e3o buscaram ampliar e multiplicar as possibilidades de contato, ou seja, de alcan\u00e7ar e encontrar o &#8220;outro&#8221;.<br \/>\nO tel\u00e9grafo, baseado no c\u00f3digo Morse, estabeleceu-se como uma forma r\u00e1pida e condensada de comunica\u00e7\u00e3o escrita face ao correio convencional. Seu imediatismo permite consider\u00e1-lo como uma forma de presen\u00e7a \u00e0 dist\u00e2ncia, isso foi habilmente explorado nos contos de Sherlock Holmes, como por exemplo em The Hound of the Baskervilles [6].<br \/>\nO telefone inaugurou a inter-comunica\u00e7\u00e3o verbal pessoa a pessoa \u00e0 dist\u00e2ncia, ainda que a precariedade t\u00e9cnica inicial tenha levado \u00e0 considera\u00e7\u00e3o como meio de transmiss\u00e3o unidirecional. Seria redundante comentar os desenvolvimentos t\u00e9cnicos ou ressaltar as tranforma\u00e7\u00f5es induzidas pelo telefone, cujo substrato \u00e9 o conceito de rede. Cabe assinalar entretanto um uso premonit\u00f3rio, levado a cabo por Moholy-Nagy em 1922 em suas pinturas pelo telefone Telephone Pictures, expandindo o ide\u00e1rio Construtivista [7].<br \/>\nO r\u00e1dio trouxe a presen\u00e7a &#8220;ao vivo&#8221; de not\u00edcias, m\u00fasica e canto, entretenimento especialmente de cunho teatral, propaganda comercial e pol\u00edtica, etc., criando, em particular entre os anos 30 e 50, uma conex\u00e3o com o mundo exterior acrescida de uma m\u00edstica de credibilidade, que s\u00f3 seria sobrepujada pelo advento da televis\u00e3o. Significativo como exemplo de tele-presen\u00e7a \u00e9 a sempre citada irradia\u00e7\u00e3o, em 1938, da novela The War of the Worlds de H. G. Wells, dirigida por Orson Welles [8].<br \/>\nCom sua luz azulada, a televis\u00e3o estabeleceu, ao longo do tempo, sua teia por quase todos os recantos do planeta, exercendo e refletindo ponder\u00e1vel influ\u00eancia cultural &#8211; ali\u00e1s assunto esse que vem rendendo um sem n\u00famero de livros e artigos &#8211; e suplantando aquela antes proporcionada pela imprensa e pelo r\u00e1dio. Um momento significativo em termos de tele-presen\u00e7a \u00e9 a transmiss\u00e3o ao vivo do desembarque do homem na Lua, em 1969. A &#8220;telinha&#8221; tamb\u00e9m come\u00e7ou com limita\u00e7\u00f5es, primeiro em preto e branco com programas ao vivo e filmes. Desenvolvimentos t\u00e9cnicos posteriores, em particular a videograva\u00e7\u00e3o, a transmiss\u00e3o em rede e o sistema em cores, refor\u00e7aram a &#8220;naturalidade&#8221; da televis\u00e3o. Mais ainda, aliando o uso do telefone na tentativa de criar um certo di\u00e1logo com o telespectador, dando a ilus\u00e3o de bidirecionalidade. O desenho das antenas de TV reflete tamb\u00e9m essa evolu\u00e7\u00e3o, as lineares servem \u00e0s emiss\u00f5es locais, as parab\u00f3licas servem \u00e0s emiss\u00f5es via sat\u00e9lite, globais.<br \/>\nPode-se dizer que as transmiss\u00f5es &#8220;ao vivo&#8221; de r\u00e1dio e televis\u00e3o seriam &#8220;quentes&#8221; em contraposi\u00e7\u00e3o ao uso de grava\u00e7\u00f5es de a\u00fadio e v\u00eddeo &#8211; permitindo o artif\u00edcio da montagem &#8211; que por sua vez seriam &#8220;frias&#8221;, observe-se que os termos &#8220;quente&#8221; e &#8220;frio&#8221; s\u00e3o aqui empregados relativamente a veracidade das informa\u00e7\u00f5es. A generaliza\u00e7\u00e3o do uso das grava\u00e7\u00f5es em r\u00e1dio e teledifus\u00e3o, e mais recentemente a aflu\u00eancia de &#8220;efeitos especiais&#8221; e a desmistificac\u00e3o trazida pelo making of, qualificam essa tele-presen\u00e7a como uma tele-representa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo tel\u00e9grafo e no telefone a (tele) aus\u00eancia \u00e9 dada pela escuta, clandestina ou autorizada. No r\u00e1dio e na televis\u00e3o ela localiza-se na censura e, como contraparte, no engajamento. Como formas particulares dessa aus\u00eancia est\u00e1 a guerra pela informa\u00e7\u00e3o e contra-informa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de interfer\u00eancias (e.g., usadas durante a chamada &#8220;guerra fria&#8221;) e de proibi\u00e7\u00f5es (e.g., o recente banimento das antenas parab\u00f3licas no Ir\u00e3).<br \/>\n<strong>4. INTERATIVIDADE: FLUIDEZ E PARTICIPA\u00c7\u00c3O<\/strong><br \/>\nA interatividade &#8211; a\u00e7\u00e3o rec\u00edproca, conforme o dicion\u00e1rio &#8211; est\u00e1 impl\u00edcita nos processos de cria\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o, percep\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o das obras de <strong>arte<\/strong> em geral. A atualidade ou a novidade do termo, diga-se de passsagem exagerada e distorcida pelo marketing, decorre dela estar vinculada \u00e0s novas tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o &#8211; mais exatamente aquelas dependentes da inform\u00e1tica, e da telem\u00e1tica. At\u00e9 ent\u00e3o alguma coisa descrita mais como um di\u00e1logo interno, a interatividade adquire tamb\u00e9m fei\u00e7\u00f5es externas, operacionalizadas por interfaces espec\u00edficas, solicitando a\u00e7\u00f5es concretas e\/ou virtuais dentro da triangula\u00e7\u00e3o pessoa &#8211; obra\/m\u00e1quina &#8211; ambiente natural\/constru\u00eddo. Algumas vezes essa intera\u00e7\u00e3o \u00e9 simplesmente reativa, em outras envolve uma contribui\u00e7\u00e3o mais significativa do participante-navegante.<br \/>\nA interatividade pode ser examinada sob dois prismas distintos, a fluidez da obra e a participa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. A fluidez funda-se no conceito de obra aberta: &#8220;&#8230; abertura entendida como ambig\u00fcidade fundamental da mensagem art\u00edstica, \u00e9 uma constante de qualquer obra em qualquer tempo &#8230; que reproduz a ambig\u00fcidade de nosso ser-no-mundo&#8221; [9]. As po\u00e9ticas embebidas nas novas tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o tornaram a obra progressivamente adaptativa, mais perme\u00e1vel e multiforme, ainda mais complexa e controversa se virtual e em base eletr\u00f4nica\/digital. Novos paradigmas v\u00e3o se decantando, transformando-se concomitantemente as conven\u00e7\u00f5es de obra, autor e p\u00fablico. Seja por exemplo a re-cria\u00e7\u00e3o da natureza morta em um outro contexto, feita pelo autor em Natureza Morta\/ao Vivo [10].<br \/>\nA participa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, tanto individualmente como coletivamente, se perde no tempo, seja na tradi\u00e7\u00e3o das festas populares, oficiais e religiosas, passando pelo circo, teatro e \u00f3pera, seja no mosaico dos espet\u00e1culos contempor\u00e2neos, sua participa\u00e7\u00e3o \u00e9 que convalida o espet\u00e1culo\/obra. Em algumas circunst\u00e2ncias \u00e9 a pr\u00f3pria participa\u00e7\u00e3o que encarna o espet\u00e1culo, como \u00e9 o caso do Carnaval. A partir dos anos 50 e 60, algumas manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas estenderam os limites da participa\u00e7\u00e3o ao envolver o p\u00fablico na elabora\u00e7\u00e3o e na defini\u00e7\u00e3o da obra, tais como, happenings, performances e instala\u00e7\u00f5es. Essa aproxima\u00e7\u00e3o l\u00fadica seria adotada mais adiante em video games, multim\u00eddia baseados em compact disc, redes e bancos de dados, e sistemas de realidade virtual.<br \/>\n<strong>5. TELEARTE: INTERATIVIDADE E TELE-PRESEN\u00c7A<\/strong><br \/>\nOs trabalhos, ou mais propriamente, os eventos em telearte tem usualmente na tele-presen\u00e7a e na interatividade em tempo real os seus tra\u00e7os mais fortes, em que o espa\u00e7o virtual tem primazia sobre o espa\u00e7o real. A virtualidade e interatividade agregam novas formula\u00e7\u00f5es ao imagin\u00e1rio contempor\u00e2neo em termos de acessibilidade, de caracteriza\u00e7\u00e3o espa\u00e7o-temporal e de re-composi\u00e7\u00e3o de valores culturais. A telearte \u00e9 um subconjunto da <strong>arte<\/strong> eletr\u00f4nica, em particular da &#8220;<strong>arte<\/strong> interativa&#8221; e que opera sobre a uni\u00e3o dos recursos da inform\u00e1tica e telem\u00e1tica. Recorre-se aqui a uma defini\u00e7\u00e3o dada por Roy Ascott:<br \/>\n&#8220;O termo &#8220;<strong>arte<\/strong> interativa&#8221;, que \u00e9 uma adi\u00e7\u00e3o relativamente nova \u00e0 lista de termos e frases usadas para identificar aquelas teorias, pr\u00e1ticas e atitudes que juntas definem <strong>arte<\/strong> em toda sua diversidade, refere-se muito mais a um campo de opera\u00e7\u00f5es, id\u00e9ias e experi\u00eancias que simplesmente um g\u00eanero passageiro ou um ismo. Ele identifica um amplo leque de experimenta\u00e7\u00e3o, inova\u00e7\u00e3o e aut\u00eanticas realiza\u00e7\u00f5es art\u00edsticas em uma variedade de meios, que desafiam muitas das nossas suposi\u00e7\u00f5es do que seja ou possa ser <strong>arte<\/strong>. <strong>Arte<\/strong> interativa apresenta um fluxo de dados (imagens, texto, som) e uma malha de estruturas, ambientes, e redes (como performance, espet\u00e1culo, encontros pessoais, e viv\u00eancias x particulares) cibern\u00e9tico, adaptativo, pode-se dizer inteligente, tais que o observador pode influir no fluxo, alterar a estrutura, interagir com o ambiente, ou navegar na rede, ficando ent\u00e3o diretamente envolvido nos atos de transforma\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o&#8221; [11].<br \/>\nA dimens\u00e3o social e pol\u00edtica da tele-presen\u00e7a e da acessiblidade \u00e9 afirmada por Abraham Moles:<br \/>\n&#8220;Ao entrarmos na era da tele-presen\u00e7a n\u00f3s buscamos estabelecer uma equival\u00eancia entre &#8220;presen\u00e7a real&#8221; e &#8220;presen\u00e7a vic\u00e1ria&#8221;. Essa presen\u00e7a vic\u00e1ria est\u00e1 destruindo o princ\u00edpio organizador que a nossa sociedade tem, at\u00e9 agora , constru\u00eddo. N\u00f3s chamamos este princ\u00edpio de lei da proximidade: o que est\u00e1 perto \u00e9 mais importante, verdadeiro ou concreto do que est\u00e1 longe, menor ou mais dif\u00edcil de acessar&#8230; Ao mesmo, n\u00f3s vivemos numa era de opul\u00eancia comunicacional. N\u00f3s temos agora a nossa disposi\u00e7\u00e3o mais fontes de comunica\u00e7\u00e3o e de intera\u00e7\u00e3o do que jamais vamos poder usar em nosso relativamente curto per\u00edodo de vida. Esta \u00e9 uma era de redes de sistemas socias, decorada com o t\u00edtulo futur\u00edstico de Sociedade da Informa\u00e7\u00e3o&#8221; [12].<br \/>\nUma &#8220;<strong>arte<\/strong> telepresencial&#8221;, um conceito formulado por Eduardo Kac, integraria telecomunica\u00e7\u00e3o, rob\u00f3tica, computa\u00e7\u00e3o e interfaces homem-m\u00e1quina &#8211; em que se destacaria uma proje\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a num espa\u00e7o-tempo remoto. Um exemplo representativo dessa manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9 Ornitorrinco, &#8221; a networked telepresence installation&#8221;, projeto de telearte e tele-rob\u00f4 desenvolvido em colabora\u00e7\u00e3o com Ed Bennett [13].<br \/>\nNa telearte, as quest\u00f5es da autoria e da feitura da obra est\u00e3o vinculadas \u00e0 din\u00e2mica processual do espa\u00e7o-tempo telem\u00e1tico. Nas palavras de Gilbertto Prado:<br \/>\n&#8220;Cada artista, em cada participa\u00e7\u00e3o, contempla, \u00e0 sua maneira, uma certa possibilidade do mesmo mundo. Trata-se, com efeito, de uma mise en sc\u00e8ne de diferentes imagin\u00e1rios, em que n\u00e3o precisam se sujeitar \u00e0s exig\u00eancias de uma formaliza\u00e7\u00e3o estrita e anterior, de um sistema fechado de arrazoamentos e de pr\u00e1ticas. As l\u00f3gicas das redes, quer dizer, as maneiras como esses interc\u00e2mbios acontecem, celebram assim, sem interrup\u00e7\u00e3o, essa liberdade de dispor sempre diferentemente os sentidos do mundo, de poder colocar de outra maneira as coisas e suas significa\u00e7\u00f5es. A cria\u00e7\u00e3o em rede \u00e9 um lugar de experimenta\u00e7\u00e3o, um espa\u00e7o de inten\u00e7\u00f5es, parte sens\u00edvel de um novo dispositivo, tanto na sua elabora\u00e7\u00e3o como na sua percep\u00e7\u00e3o pelo outro&#8221; [14].<br \/>\nO problema do imagin\u00e1rio, v\u00edtima frequente de equ\u00edvocos da literalidade e da emula\u00e7\u00e3o, \u00e9 posto claramente por Edmond Couchot:<br \/>\n&#8220;\u00c9 mesmo exatamente l\u00e1, no ponto preciso de contato, de passagem, ou seja, na interface do virtual e do real, que o artista \u00e9 chamado a se recolocar. Margem estreita mas f\u00e9rtil onde o olhar e o c\u00e1lculo se interpenetram, o extremo toca o extremo, tem-se a hibridiza\u00e7\u00e3o do virtual com o real&#8221; [15].<br \/>\nA tele-presen\u00e7a em telearte traz consigo, num certo sentido, uma aus\u00eancia, ou seja, uma tele-presen\u00e7a X num ponto A, gerada num ponto P, implica numa certa aus\u00eancia de X em P. Contudo a tele-presen\u00e7a estabelece uma esp\u00e9cie de par\u00f3dia da ubiq\u00fcidade, pois uma tele-presen\u00e7a X, com origem em P, pode &#8220;acontecer&#8221; em um n\u00famero finito de pontos A, B, C, &#8230;<br \/>\nAqui a (tele) aus\u00eancia tem duas faces, uma mais operacional e outra mais conceitual. A primeira pode ser definida pela impossibilidade de acesso \u00e0s redes de inter-comunica\u00e7\u00e3o em geral, seja por limita\u00e7\u00e3o de conhecimentos (os iletrados tecnol\u00f3gicos), seja pela escassez de recursos (os &#8220;sem-terra&#8221; tecnol\u00f3gicos), seja por imposi\u00e7\u00e3o tecnocr\u00e1tica (os monop\u00f3lios tecnol\u00f3gicos) &#8211; nesse particular, \u00e9 ilustrativo o caso da Internet no Brasil [16]. De natureza conceitual, a segunda face da aus\u00eancia situa-se em mistificar a natureza das redes\/bancos de dados abertos. Ali\u00e1s percept\u00edvel na difusa cren\u00e7a de que &#8220;the net is the message&#8221; &#8211; parafraseando Marshall McLuhan &#8211; e que \u00e9 pass\u00edvel de cr\u00edtica an\u00e1loga \u00e0quela feita por Umberto Eco sobre &#8220;the medium is the message&#8221; [17].<br \/>\n<strong>NOTAS<\/strong><br \/>\n[1] o termo telepresence foi sugerido por Pat Gunkel, segundo Marvin Minsky em seu artigo &#8220;Telepresence&#8221; publicado na revista Omni de junho de 1980, conforme KAC, Eduardo. &#8220;Telepresence Art&#8221; in <em>Teleskulptur<\/em>, n.3, 1993 (Kulturdata, Graz, A\u00fastria), p 51.<br \/>\n[2] CAMPBELL, Joseph. <em>O Poder do Mito<\/em>. Palas Athena, S\u00e3o Paulo, 1990, p. 41.<br \/>\n[3] &#8220;the mirror with a memory&#8221;, express\u00e3o atribuida a Oliver Wendell Holmes ao se referir ao daguerre\u00f3tico, conforme NEWHALL, Beaumont. <em>The History of Photography<\/em>. The Museum of Modern Art, Nova Iorque, 1986, pp. 30-32.<br \/>\n[4] SAGAN, Carl.<em> Cosmos<\/em>. Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982, p. 260.<br \/>\n[5] Vide BORDINI, Silvia. &#8220;<strong>Arte<\/strong>, Imitazione, Illusione: Documenti e Note sulla Pitura dei &#8220;Panorami&#8221; (1787-1910)&#8221;, in Dimensioni, n.1, 1981 (Quasar, Roma), pp. 77-81, 105.<br \/>\n[6] (Sherlock): &#8220;D\u00ea-me uma f\u00f3rmula telegr\u00e1fica. Est\u00e1 tudo preparado para receber Sir Henry? Creio que basta isto. Mande para Mr. Barrymore, Mans\u00e3o Baskerville. Qual \u00e9 o posto telegr\u00e1fico mais pr\u00f3ximo? Grimpen. Muito bem. Mandaremos outra mensagem para o agente do tel\u00e9grafo de Grimpen. O telegrama para Mr. Barrymore tem de ser entregue em m\u00e3os. Se ele n\u00e3o for encontrado, \u00e9 favor devolver o telegrama para Sir Henry Baskerville, Hotel Northumberland. Com isto ficaremos sabendo, antes do anoitecer, se Barrymore est\u00e1 em seu posto, em Devonshire, ou n\u00e3o&#8221;. DOYLE, Arthur Conan. <em>O C\u00e3o dos Baskervilles<\/em>. Melhoramentos, S\u00e3o Paulo, 1981, p. 50.<br \/>\n[7] Vide KAC, Eduardo. &#8220;Aspects of the Aesthetics of Telecommunication&#8221;, in <em>ACM Siggraph 92 Visual Proceedings<\/em>. John Grimes e Gray Lorig (eds.), Chicago, 1992, pp. 52-53.<br \/>\n[8] Id. ibid, pp. 51-52.<br \/>\n[9] ECO, Umberto. <em>Obra Aberta<\/em>. Perspectiva, S\u00e3o Paulo, 1976, pp. 25, 270.<br \/>\n[10] FADON VICENTE, Carlos. &#8220;Still Life\/Alive&#8221;, in <em>Leonardo<\/em>, vol 24. n.2, 1991, pp. 234-235.<br \/>\n[11] ASCOTT, Roy. &#8220;The Art of Intelligent Systems&#8221;, in <em>Prix Ars Electronica 1991<\/em>. Hannes Leopoldseder, (org.), \u00d6sterreichischer Rundfunk, Graz, A\u00fastria, 1991, p. 25.<br \/>\n[12] MOLES, Abraham. &#8220;Design and Imateriality: What of It in a Post-Industrial Society?&#8221;, in <em>Design Issues<\/em>, vol. IV, n. 1&amp;2, 1988 (The University of Illinois, Chicago), p. 25.<br \/>\n[13] Vide KAC, Eduardo. &#8220;Ornitorrinco: Exploring Telepresence and Remote Sensing&#8221;, in <em>Leonardo<\/em>, vol. 24, n.2, 1991, p. 233 e tamb\u00e9m &#8220;Telepresence Art&#8221;, in <em>Teleskulptur<\/em>, n.3, 1993 (Kulturdata, Graz, A\u00fastria).<br \/>\n[14] PRADO, Gilbertto. &#8220;As Redes Art\u00edstico-Telem\u00e1ticas&#8221;, in <em>Imagens<\/em>, n.3, 1994 (UNICAMP, Campinas), p. 42.<br \/>\n[15] COUCHOT, Edmond. &#8220;Une Marge \u00c9troite mais Fertile&#8230;&#8221;, in <em>Revue Virtuelle<\/em>, n. 1, 1992 (Centre Georges Pompidou, Paris), s.n.p.<br \/>\n[16] Al\u00e9m das idas e vindas quanto \u00e0 sua regulamenta\u00e7\u00e3o e entrada em regime de utiliza\u00e7\u00e3o pelo p\u00fablico em geral, a Internet sintomaticamente vai flutuando entre as p\u00e1ginas de inform\u00e1tica e modo de vida dos jornais &#8211; ou seja, entre o corporativo e o mundano. Produzindo equ\u00edvocos paternalistas do tipo: &#8221; A determina\u00e7\u00e3o clara da Embratel em oferecer o Servi\u00e7o de Acesso \u00e0 Internet em toda sua plenitude atrav\u00e9s da comercializa\u00e7\u00e3o de conex\u00f5es discadas e dedicadas tem como pano de fundo n\u00e3o s\u00f3 permitir ao usu\u00e1rio nacional o acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es existentes l\u00e1 fora, mas principalmente criar os meios necess\u00e1rios \u00e0 efetiva disponibiliza\u00e7\u00e3o (sic) de uma Internet de direito e de fato brasileira&#8221; &#8211; Marcos Assun\u00e7\u00e3o, Chefe da Divis\u00e3o de Servi\u00e7os Telem\u00e1ticos da Embratel, in <em>Jornal da Tarde<\/em> (Jornal de Inform\u00e1tica), 23.03.95, p. 6.<br \/>\n[17] ECO, Umberto. &#8220;Guerrilha Semiol\u00f3gica&#8221;, in <em>Viagem na Irrealidade Cotidiana<\/em>. Nova Fronteira, S\u00e3o Paulo, 1984, pp. 167-169.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Sobre o Autor<\/strong>Carlos Fadon Vicente (S\u00e3o Paulo, 1945)<br \/>\ne-mail: carlosfadon@hotmail.comDedica-se \u00e0 express\u00e3o pessoal em fotografia desde 1975, especialmente atrav\u00e9s de ensaios sobre a paisagem urbana e a condi\u00e7\u00e3o da fotografia enquanto sistema de representa\u00e7\u00e3o. A partir de 1985 desenvolve pesquisas est\u00e9ticas e conceituais em <strong>arte<\/strong> e tecnologia, com \u00eanfase nas quest\u00f5es da interatividade e da inter-rela\u00e7\u00e3o visual. \u00c9 graduado em engenharia civil e artes pl\u00e1sticas pela Universidade de S\u00e3o Paulo e tem o mestrado em artes pela The School of the Art Institute of Chicago. Em 1996 recebeu uma Bolsa Vitae de Artes para projeto em <strong>arte<\/strong> eletr\u00f4nica. Sua produ\u00e7\u00e3o tem sido apresentada em exposi\u00e7\u00f5es individuais, cole\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e particulares, eventos, mostras coletivas e confer\u00eancias, e em diferentes publica\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s de portfolios e artigos, no Brasil e no exterior.<br \/>\n<em>Este texto foi publicado inicialmente na revista Trilhas, n\u00ba 6, 1997.<\/em><\/p>\n<p align=\"right\"><strong><em>postado por [ana pi] 17-10-08<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0Telegarden, Ken Goldeberg. 1995.\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0Versus, Ivani Santana. 2005. \u00a0. \u00a0. .\u00a0 TELE-PRESEN\u00c7A-AUS\u00caNCIA Carlos Fadon Vicente In: Revista Trilhas, Instituto de Artes, Unicamp, Campinas, n.6, pp.47-55, 1997. \u00a0 \u00a0 &#8220;Mas emquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dae v\u00f3s favor ao novo atrevimento, Para que estes meus versos sejam: E vereis [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"footnotes":""},"categories":[11,12],"tags":[],"class_list":["post-37","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-telematica","category-telepresenca"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/dancanovasmidias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37"}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/dancanovasmidias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/dancanovasmidias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/dancanovasmidias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/dancanovasmidias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/dancanovasmidias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/dancanovasmidias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/dancanovasmidias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.ufba.br\/dancanovasmidias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}